Notas iniciais
Quantas gravidez acontecem na adolescência? Pois neste capítulo tento mostrar isso, ao que tudo indica é uma gravidez involuntária. O que fariam se tivessem na posição de Lisa? Como a aconselhariam? Ela que não se lembra de Pedro e, muito menos de ter tido sexo com ele.

A criatura entra outra vez no túnel atrás de si. Anda com dificuldade e com um ar alegre, pois conseguiu aquilo que queria, que foi irritar Símias ou, pelo menos, ele pensava que sim. Símias passa novamente pelo Limbus, que se abre à sua chegada. Heraclito sente a sua presença e vem ter com ele, levanta-se do seu trono aproxima-se do portal. Símias está, pela primeira vez, triste:

– Símias! – Chama Heraclito

. — Heraclito.

– Queres falar?

– Pode ser?

– Claro que sim… – ambos se sentam num banco igual ao dos jardins, que se formou de improviso.

– O que se passa?

– É o Pedro… eu desobedeci-te, mestre!

– Como?

– Fui falar com Demócritos ao limite… sobre a missão e ele disse que o Pedro vai morrer…

– Hum, tu sabes que isso não vai acontecer, não sabes?

– Será que não acontecerá e se, se…

– Por favor, Símias, tu não podes ficar assim, tudo o que ele pediu é que confiássemos nele, lembras-te?

– Sim lembro-me… – Declara Símias, ainda com os olhos tristes – Mas Heraclito, e se eu falhar, como anjo, se Cebes não me ajudar, se falharmos ambos, se Ivan nunca nascer?

– Chiu! É são muitas perguntas, basta acreditar-nos na imortalidade que tudo o que nos rodeia é fiável, basta sabermos o que isto é, basta termos fé… Acredita, ora muito, verás que no fim tudo aquilo que quiseres pode acontecer…

*

O dia amanhece, o Sol aparece laranja e sobe no horizonte, com os seus raios ainda fracos que logo lançam a sua luz, a primeira aurora, sobre aquela manhã de verão.

Lisa acorda, está só, em casa. Tem imenso sono mas salta da cama. Ela estava atrasada, há oito dias. Em seguida abre a porta de seu quarto e vai à varanda interna. Espreita e, não vendo ninguém, decide entrar na divisão, fecha a porta à chave, move-se até ao armário, abre-o e retira um saco de plástico branco com uma cruz verde lá de dentro. Senta-se na cama, lê as instruções e entra na casa de banho com a embalagem do seu clear blue na mão, rezando baixo para que não estivesse grávida.

À posterior põe o teste em cima da bacia, senta-se no bidé vedado e urina. Após ter a sua urina no bidé, e já de pé, lança mão do aparelho, e mergulha a ponta dentro da bacia, tapando-a logo de imediato, e lava a loiça da casa de banho. Regressa à cama, com o teste em mãos. Por fim, toma coragem e roda-o para ler o resultado, com o coração mais palpitante do que nunca. Lisa lê na cápsula uns símbolos em português:

Grávida

1- 2 Semanas.

“Não! Não pode ser… Eu não posso… não posso estar grávida!” Lisa começa a chorar, com o rosto encostado à almofada – o que vai ser de mim agora? A Sónia nunca me vai aceitar… – choraminga ela leva a mão à boca – o meu pai, quando souber, vai-me matar, e com razão, eu não conheço o pai, ai meu Deus. O que será de mim… – Lisa soluçava, estava toda vermelha. “Isto não era para ter acontecido. Assim não. Não desta forma, deste modo.”

Lisa tenta parar de chorar, todavia não consegue.

– Quem é o pai desta criança? Estou desgraçada. Não me lembro de nada.– Um nome vem-lhe à cabeça.

“Pedro Silva Lobo”. – Não pode ser, ele não existe, só pertence ao meu imaginário.

O céu irradia uma Luz laranja. Lisa levanta-se e vê-se ao espelho, puxa a sua camisola de manga curta pertencente ao seu pijama para cima, e vê a sua barriga. O cheiro a laranja vem lhe às narinas. Ela olha para o espelho e sente qualquer coisa. Dá uma forte pancada dentro da sua barriga, leva as mãos ao abdómen e cai de joelhos ao chão. Olha para o teto e chora: -

Não! É impossível, não é… – diz sufocando em sofrimento – Como, como é que isto foi acontecer se eu só tenho catorze anos…?

Lisa agarra-se à sua escrivaninha fazendo força para se levantar. Mas, logo de seguida, senta-se na sua cadeira almofadada e aconchegante de escritório, cruza as pernas e encosta-se, sentindo o conforto daquele assento. Ela chora, não sabe quem é o Pedro, se tem namorada ou não, mas algo lhe ilumina a memória. O nome Silva Lobo não lhe era estranho. Ela já tinha ouvido aquele nome antes, mas onde? Ao contrário do que se julga, Lisa era muito boa em fixar nomes e caras, mas de facto não se lembrava da cara de Pedro, move-se com os olhos fixos no chão e reflecte: Agora?! Que vou eu fazer à minha vida? Daqui a nada começa a crescer a barriga, e a minha momi vai-me levar ao médico, não isto não pode estar a acontecer… Isto não pode acontecer.

Lisa lembra-se de, na manhã seguinte à discussão dos pais, ter ido à praia e de encontrar um rapaz de estatura baixa, enrolado como um caracol, e muito tímido:

“- Ai! – Dizem ao mesmo tempo que se sentam no chão.

– Ei! Tem cuidado por onde andas!

– Eu? Ora essa, é preciso ter lata… tem cuidado tu! Menino do papá…

– O que é que me chamaste? – Indaga Tomás ao aproximar-se da rapariga.

– Menino do papá. – Provoca Lisa.

– Ah! – Tomás leva a mão há testa – Se tu não fosses mulher…

– Que me fazias? – Inquire Lisa. – Batias-me? – Advinha – Não és homem nem és nada… – Conclui ela.

– Repete! – Exclama Tomás muito sério.

– Pois repito… – Começa por dizer – Não és homem nem és nada…”

– Não acredito então ele é o Pedro? – Interroga-se Lisa – Não, não pode ser!

Notas finais
Até breve, Anne