A Força D'um Amor (+18)
15 Capítulo XIV "Amor e Racismo"
Uma campainha soa por toda a casa. Carla desce e vai ter com Ana Maria. Eulipia recomenda à filha:
- Tu a ver se não chegas tarde! – Grita esta, do alto de uma varanda.
As amigas cumprimentam-se e entram num táxi que as conduz até a uma casa grafitada. Ana Maria paga ao taxista; entram na casa, o espaço era escuro e amplo, luzes florescentes; saía sons em berros altos das colunas. Existiam pufs brancos, e uma escada interna que dava acesso a uma varanda, da qual se via todo o ambiente em baixo. Fora de portas estava um recinto, com uma espécie de piscina com peixes de várias cores e um bar externo. No interior existiam mesas de madeira e um palco a meio, onde o DJ Carlos Manaça escolhia e misturava as músicas à medida que a noite ia avançando. A Lua estava esplendorosa e brilhava no firmamento; entre os toldos, as plantas germinavam.
As duas amigas entraram dentro da discoteca e olharam em redor e Carla vê um preto sentado num puff branco que a olhava, atentamente.
- Olha aquele ali, não deixa de te olhar. – Comenta Ana Maria, ao ouvido de Carla.
- Quem? – Indaga Carla com curiosidade. Olha em redor a pouca luz do espaço permite ver que Tó disfarça olha para o chão. – Bem, isto está magnífico… – Declara Carla com um sorriso de orelha a orelha.
Uma jovem, que fazia dezasseis anos, aproxima-se das duas:
- Olá, boa noite. Ana Maria, bem-vinda à festa. – Diz a morena depois reparando em Carla – Carla? Por momentos pensei que não eras tu. Mas ainda bem que resolveste vir. Vamos já tirar uma foto.
O fotógrafo tira uma foto às três amigas.
- Olá Cristina, muito obrigada por nos vires receber… – Começa por dizer Ana Maria. – E os meus Parabéns.
- Cristina, obrigada por me teres convidado. – Agradece Carla.
Cristina é uma miúda que hoje completa dezasseis anos, pertenceu ao bairro, mas agora vive do outro lado da cidade. É snob e tem mania que é muito vivida, mas não é. Diz que sabe muito de sexo quando, na verdade, ainda não teve essa experiência. Traja umas calças brancas, uma camisola sem alças clara, uns ténis rosa claros e um cinto de metal; uma mala nas mãos, de fecho com o necessaire básico e com um telemóvel preto.
Manaça põe música ritmada, Cristina paga uma ronda de bebidas aos amigos. Ana Maria sentasse com Carla e Cristina a uma mesa que está vazia. Carla levanta-se e vai ao bar buscar um copo de vodka; Tó levanta-se e vai dançar. Sem darem por isso, ambos tropeçam um no outro e ele olha nos olhos de Carla. Esta fica envergonhada.
Ana Maria resolve ir à procura da amiga, quando a encontra:
- Carla! Vamos embora? – Propõe Ana Maria.
- Já vou. – Aproxima-se de Tó. – Como te chamas? – Tó bebia cada palavra da voz de Carla mas afastou o olhar.
- Não te interessa. – Sussurra baixo. E dá meia volta. Carla pega-lhe na mão e puxa-o para si.
- Se eu perguntei é porque me interessa. Não? – Responde Carla.
- Queres saber como me chamo? – Pergunta Tó retoricamente – António, António Silva.
- Ah! Eu chamo-me Carla. – Dirigindo-se a Ana Maria – tens uma caneta? – Cochicha ao seu ouvido.
- Toma-a.
Carla pega na mão de Tó e escreve uma sequência de nove números que ordenados formavam um código.
- Que é isso? – Indaga Tó.
- O que tu queres, mas não tens coragem para me pedires. – Declara Carla, em seguida Tó fecha a mão caminha olha para trás e ambos sorriem. Ele encosta a mão ao peito, e beija-a, abre-a em direcção de Carla soprando.
Ana Maria e Carla despedem-se de Cristina e vão-se embora. No caminho de regresso ao bairro, as duas amigas falam:
- Então, tu arranjas-te um namorado? – Questiona Ana Maria.
- Oh, não é nada disso… apenas um amigo.
- Ui! Chama-lhe amigo, chama! Cá para mim, isso vai dar molho.
- Tu não vais contar à minha mãe, pois não?
- E conto o quê? Não há nada para contar.
*
Num caminho acidentado de terra batida, um grupo de rapazes experimentam as suas motos. As raparigas estão numa espécie de bancada improvisada.
Un, deux, trois, et que le meilleur gagne! – Brada o juíz de arma apontada para o céu.
“””- Um, dois, três, e que ganhe o melhor!”””
Entretanto, ouve-se o tiro e as motos começam a acelerar e a correrem, caminho abaixo — Manuel é o que vai à frente, consegue passar a primeira curva com alguma vantagem mas é logo por Gustave, que alcança com algum privilégio o primeiro lugar. Dá-se a segunda volta e Manuel quer passar, vamos ver se consegue mas quase cai, o perigo está à espreita… Lá vem mais outra curva, perde o equilíbrio, escorrega em terra fresca, agarra-se ao volante da moto, consegue manter o equilíbrio e ganha velocidade. Grande Manuel. E, nas bancadas, Natali rói as unhas de nervosismo. O jovem consegue passar o seu adversário de peso, e em primeiro lugar chega à meta.
Ele não acredita, nem quer acreditar. Pára a moto, desmonta e cumprimenta os seus adversários.
Félicitations, Manoel! – cumprimenta Ferdinand
« « « — Parabéns, Manoel ! » » »
Félicitations, Manoel! – Cumprimenta Gustave
Félicitations, Manoel ! — Cumprimenta o júri da partida, Pierre
Félicitations, Manoel ! – Cumprimenta Pashy
Merci beaucoup – Agradece Manuel de braços no ar – Il n’était pas facile de vous vaincre, mes amis!
« « « Obrigado, muito obrigado não foi fácil vencer-vos, meus amigos”””
De repente, Natali vem ter com ele.
- Manoel mon amour, mon héros, Je t'aime, amour, tu sais?
“””-Manoel meu amor, meu herói, eu amo-te, adoro-te sabias?”””
- Avez savait!- Declara Manuel com um sorriso maroto.
“””- Por acaso sabia!”””
Ambos beijam-se e os amigos de Manuel troçam:
— Avons-nous mangé lá d’un site? – Propõe Manuel.
“”” -Vamos comer aí a um sítio?”””
- Oui. – Concordam.
- Sim.
Manuel e Natali sobem para a moto ssim como os restantes companheiros e vão todos atrás de Manuel. Descem até ao sopé da montanha, e vêm o nascimento do sol, em seguida seguem até à tasca mais próximo dali. Estacionam e mandam vir umas sandes e umas cervejas para a uma mesa, onde aguardam pela comida. Gustave toca na sua viola uma melodia, e Manuel canta.
No fim pagam e regressam a casa. Natali fica em casa de Manuel esta noite.
- Pai! Mãe… – chama Manuel assim que estaciona a moto na garagem. – Sara! – Depois para Natali – Come on!
As horas passam, os barcos chegam com peixe fresco à lota, as persianas são abertas e janelas escancaradas. Um Mercedes preto entra por uns portões que se abrem de par em par numa vivenda no meio de um jardim. Um forte um senhor de idade, sentado no banco de trás do carro, manda o seu choufer estacionar num lugar livre, acendendo um cachimbo pensante.
Dentro da casa vermelha, erguida por fortes paredes rígidas e medonhas, onde se torturam tantos prisioneiros, existia um forte, cujos muros, se abanassem seriam das crueldades dos que por ali passam e que saiem. O chofer abre a porta ao seu senhor, que usava uma bengala, com um óculo cravado no olho e os sapatos devidamente engraxados, põe a ponta de fora do carro e pisa o solo de areia daquele jardim. Outro pé sai, sendo visíveis umas calças cinzentas e um elegante paletó, rachado de ambos os lados até aos sapatos pretos envernizados.
Sobe as oito escadas de pedra de corrimão ferrugento. Ia dando instruções ao choufer que apontava no seu bloco de notas.
- Herculano, não se esqueça de me dizer para mandar pintar o corrimão a verde.
O chofer, devidamente trajado com o seu fraque azul e com o chapéu a condizer preso ao queixo, bate à porta.
Uma pessoa desce a escada ainda em pijama.
- Já vai, Já vai! – Diz o homem de pijama às riscas, e com uma touca na cabeça. – Mas será possível que a Glória se esqueceu das chaves? — Abre a porta.
- Você saiu-me cá um irresponsável, hein? – Reclama o senhor que entra porta a dentro.
- Drº Bragança!?
- Sim homem, sou eu. – Grita Bragança. – Além de irresponsável você também é cego?
- Quero aqui uma sala onde os alunos possam ver televisão. – Ordena apontando para o grande largo que tem há sua frente, de chão lajeado em granito, preto e branco.
- Drº Bragança, o Sr. já viu que horas são?
- São 6:30 Doutor Eduardo. Porquê?
- É um pouco cedo.
- Oiça uma coisa, Doutor, os grandes impérios constrói-se com pessoas capazes, e não com preguiçosos.
- Mas é que a menina Glória ainda não chegou!
- Seu anegromono! Vamos ter a nossa reunião? – Indaga Bragança.
- Com certeza. Senhor doutor sinta-se à vontade, faça de conta que está na sua casa… – E indicando o caminho ao Doutor Bragança com o braço estendido. – Por aqui.
Ambos entram num corredor estreito que dava acesso à secretaria e entram na sala de Director.
- Sente-se.
- Isto está perfeito… – comenta Dr. Bragança – Parabéns, professor Eduardo.
- Oh Doutor, muito obrigado. – Eduardo sorri, aquele era o melhor presente que receberia do dono do Prestigie.
*
Chega ao Prestigie um carro branco, estaciona ao lado do Mercedes preto uma mulher que deveria ter mais ou menos trinta anos, alta e loira com o cabelo apanhado num rabo-de-cavalo. Veste umas calças pretas, uma camisa de mangas vermelha, um casaco preto e os sapatos rasos, também pretos. Sai do carro, caminha pelas pedras. Olha para o lado e vê Herculano. Fecha o carro e vai ter com ele.
- Bom dia, Herculano – cumprimenta o empregado – então, o Doutor Bragança está cá? – Indaga ela.
- Bom dia Gloria. Sim é verdade, vim trazer o Senhor Doutor, mais uma vez, ao Prestigie.
- Bom então já, vi que hoje o dia vai ser atarefado. – Declara Glória afastando-se de Herculano.
Glória Bastos é extraordinariamente bela e bem formada, com classe e requinte. É solteira. Quem não a conhece parece ser uma mulher moderna e bastante liberal mas ao contrário dos que assim a julgam é bastante conservadora. De espírito aberto, mas é mais conservadora do que parece. Para ela, a disciplina é fundamental. É muito rigorosa e o perfeccionismo persegue-a. Não admite erros nem faltas de educação. No entanto, e apesar de mostrar muita rigidez na relação que tem com os alunos, preocupa-se verdadeiramente com eles. Embora não admita, ensina-lhes mecanismos que quebrem as regras e que os levem para aquilo que mais desejam. No fundo, tenta fazer com que eles sejam mais livres do que ela por causa da educação que teve. Ela é a assistente de Eduardo e vive para o colégio.
É muito eficiente naquilo que faz e Eduardo dá-lhe muita responsabilidade. Entra agora a porta dentro O cheiro a tinta abundava. Havia plásticos por todo o lado.
Glória dirige-se para a secretaria, o seu lugar naquele colégio. Entra para trás do balcão e põe a mala de senhora do lado de dentro.
Vai à sala de arrecadação e pega numas caixas pesadas. Trá-las para a secretaria, essas caixas contém inúmeros quilos de papéis, são as entidades dos alunos.
Do lado de dentro da porta, ouve:
- Senhor Doutor Castelão, falta cerca de três semanas para começar as aulas… – informa o Doutor Bragança. – Eu quero tudo a postos.
- Pois, de facto sabe que a Glória tem andado a fazer limpezas e eu não sei onde ela pôs a minha agenda. – Justifica Eduardo, olhando para todos os lados. – Se me permite Doutor.
- Oh homem é claro que permito! Ah, e aproveite e vista-se… – autoriza Bragança -Onde é que já se viu um director do Prestigie com um pijama – murmura o dono do colégio.
*
O dia amanhece em São Paulo, os carros começam a encher as avenidas daqueles que se dirigem até ao centro, uma menina de cabelos de oiro levanta-se já chegava de cama aquele dia. Entra no quarto do pai:
- Papai, você ainda tá dormindo?
- Não Mar! Não estou…
A mulher acorda.
- Chiu! Pouco barulho, está-me doendo a cabeça.
- Olá querida. Bom dia.
- Olá João, meu amor. Olá Mar!
João levantasse.
- Já ta saindo? – Pergunta a mulher.
- Tem que ser Teresa. Olha se não melhorares, tens que ir ao médico.
- Mais… – João beija-a para a calar.
- Está combinado, não se fala mais nisso. Eu não te quero perder. Por favor.
- E vale a pena contestar?
- Não.
- Óptimo.
João Pedro Garrett Soares tem trinta e cinco anos, tem cerca de um metro e noventa, os olhos azuis e um corpo musculado. É maduro devido à idade. A profissão de João é advocacia e é casado com Teresa Cristina Buarque Siqueira Velmont de Soares há cerca de dez anos. É mais um português que vive em São Paulo, o que não é de estranhar, apesar de também se poder pensar ok é por causa da crise, em São Paulo paga-se melhor, tem-se um custo de vida melhor.
Teresa Cristina é filha de um velho fazendeiro. Adoptou o sobrenome Soares desde que se casou com João. Eles amam-se e João deu a sua filha à mulher estéril, atribuindo-lhe assim o gosto pela vida.
Notas finais
Beijinhos,
Anne.
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