A Flor Branca e O Cogumelo Andarilho
2 O Cogumelo
Era um dia quente e Flor Branca sentia-se mais cansada que o normal. Ela observava a água próxima a sua raiz e os cogumelos as suas costas, mas nada disso a satisfazia. Sentia-se incomodada e angustiada, como se algo que ela não desejava estivesse prestes a acontecer, no entanto, não sabia de fato o que era.
Encontrava-se assim quando, meio perdido, meio achado, um Cogumelo Andarilho saiu da floresta e foi-se esconder entre os cogumelos que cresciam aos pés da Flor Branca. Cogumelos Andarilhos são criaturas extremamente pequenas que nascem nos pés de grandes arvores. Criaturas impacientes, que nunca param. Eles se movem pelas florestas agitados e elétricos, emitindo sons de cigarra onde quer que parem.
A Flor Branca estava adormecida quando o Cogumelo Andarilho chegou, por isso ficou assustada ao ser desperta pelo canto de uma cigarra tão perto, aos seus pés. Ao descobrir que o que estava por perto não era uma cigarra, e sim um Cogumelo Andarilho, sentiu-se enciumada pelo roubo de seu lugar. Nunca havia tentado fazer aquilo antes, mas, pela primeira vez, pôs-se a cantar, para mostrar ao invasor que aquele lugar lhe pertencia.
Assustado, o Cogumelo Andarilho viu, pela primeira vez, a Flor Branca, que antes estava adormecida. Aquele canto fino sobrepunha-se ao seu canto chiado. Por um momento ele parou para admirar a voz da Flor, que, muito satisfeita com o silêncio do cogumelo, continuou a cantar.
Após conseguir entender o ritmo melodioso da Flor Branca, o Cogumelo Andarilho pôs-se a cantar mais baixo, tentando acompanhar a Flor. Inicialmente seu canto retorcido atrapalhava a Flor Branca, fazendo-a cantar mais alto e firme para não se perder, mas pouco depois, ele havia conseguido inserir sua própria melodia à dela.
Cantaram juntos por longas horas. Flor Branca, inicialmente incomodada, começava a cantar mais alto quando a melodia dele finalmente se juntava a sua voz, e o Cogumelo Andarilho se esforçava até os limites para poder acompanhá-la, e não ficar para trás.
Quando a noite já estava caindo, Flor Branca nem se incomodava em deixar o cogumelo alcançar sua voz. Ela se divertira com ele, inventando novas melodias e tons de voz para ver como ele mudaria seu chiado para acompanhá-la. Percebera mais cedo, que o Cogumelo era algo que ela esperara muito tempo. Ele era uma companhia. Alguém que não podia manter um diálogo com ela, mas que a compreendia através da música. Cansada e feliz, Flor Branca aos poucos adormeceu, acompanhando a noite que caía, junto com o pôr do sol.
Quando a voz da Flor cessou por completo, o Cogumelo Andarilho quase partiu novamente em sua corrida apressada, para parar em outro lugar e começar a cantar. Mas ele não o fez, sabia que na manhã seguinte, ela estaria desperta, e cantaria com ele o dia todo. Não estava acostumado a ficar tanto tempo parado no mesmo lugar, mas o faria, porque queria cantar com Flor Branca novamente. Contendo sua ansiedade, Cogumelo Andarilho esperou aquela noite, dormindo aos pés da Flor que lhe acompanhara em sua canção.
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