Existem criaturas tão pequeninas, que passam despercebidas aos fracos olhos humanos. Elas não são mágicas, não são místicas, não são fortes e não vivem aventuras inimagináveis sem que nós sequer desconfiemos. Elas são apenas pequenos seres que habitam os jardins e florestas de nosso planeta, que vivem suas simples vidas como qualquer outro ser vivo, apenas cumprindo seus papéis.

Desconhecidas pelo ser humano, essas criaturas são excelentes em se camuflar. Quando vistas, elas se passam por flores, pedras, cogumelos e pequenas plantas rasteiras, não por que querem, ou precisem esconder sua existência, mas por que, como qualquer outro ser vivo, elas têm medo do desconhecido e, mais desconhecido do que o ser humano é, para elas não existe.

Nossa história se passa em um leito pedregoso, em uma floresta clara, onde, em meio a cogumelos vermelhos e amarelos, caiu uma pequena semente de dente de leão... Ou melhor, uma aparente semente de dente de leão.

Timidamente, essa plantinha ergueu suas folhas para o sol que batia próximo ao leito crescendo lentamente, com preguiça de mostrar totalmente ao mundo como era. Mais tarde, um talo se esticou mais que os outros e, de sua extremidade, não surgiu uma folha, e sim, um pequeno botão de flor firmemente fechado.

Passou-se o tempo e o botão abriu-se, revelando uma flor amarela vibrante, com inúmeras pétalas minúsculas, compondo um circulo perfeito. Não muito mais tarde, suas pétalas amarelas, foram substituídas por semente felpudas e leves, que teimosamente se recusavam a sair voando ao sabor do vento. Ela esteve ali, em meio a cogumelos e pedras, a única cor no ambiente...

A única flor, no ambiente.

Essa flor, na verdade, não era um dente de leão, e sim, uma Flor Branca, uma criatura pequenina, que não se move. Enraizada no chão, sobrevive dos raios solares e das proteínas da terra, passando da vida jovem à adulta cantando para os insetos virem e polinizarem-nas.

A canção das Flores Brancas não passa de um sussurro, que se perde no meio dos sons da floresta. Se ouvidas muito atentamente por seres humanos, suas vozes fininhas se confundem com zumbidos de pernilongos. Essas criaturinhas passam a maior parte da vida cantando, até que algum inseto ouça sua canção e venha atraído por ela até suas pétalas douradas.

Essa Flor Branca, no entanto, nascera em um local onde não nascem qualquer outro tipo de flor, apenas ela com sua cor animada em um local tão cinzento. Pouco depois de abrir suas pétalas amarelas, vários insetos se atraíram por sua cor vibrante, transformando-a em uma Flor Branca adulta muito mais rápido do que a maioria das flores normais.

Era muito vaidosa, de fato. Ninguém notava. Quem notaria que uma flor era vaidosa? Mesmo assim, ela o era. Gostava de admirar suas sementes peludas cheias de orvalho, suas folhas verdes sempre limpas, e o local onde apenas ela se destacava.

Era uma flor vaidosa.

E Solitária.

Muito Solitária.

Por perto não havia nenhuma outra Flor Branca com quem pudesse falar, nem nos limites do bosque a poucos centímetros. Sua semente fora carregada pelo vento para muito longe da Flor que lhe gerara.

Ela sabia disso. Com a audição aguçada, Flores Brancas podem sentir a presença de outras como elas a vários metros de distância, mas ela não ouvia nenhum outro canto como o seu, nem quando a floresta se encontrava no mais completo silêncio.

Passava os dias do mesmo modo, sempre acordando com o sol, sempre observando a vida a sua volta correr freneticamente, sempre ouvindo os mesmos sons das folhas das árvores sussurrarem palavras incompreensíveis. Sempre vendo o dia passar, o sol andar, a luz ir embora e a noite começar. Sempre abaixando a cabeça com a chegada da escuridão e descansando no vento que embalava seu sono... Sempre em silêncio, sempre sozinha.

Era uma flor solitária, mas tinha sua beleza, e sua vaidade. E isso a salvava.

Ou pelo menos, ela acreditava nisso.