A Filha do meu chefe

2 ​Capítulo 2: O Banquete dos Segredos




​A fachada de vidro e aço da mansão Vanhansen reluzia sob as luzes da noite, um monumento à riqueza e ao poder do Dr. Otávio. Para Lucas, parecia mais uma prisão de segurança máxima. Ele ajustou a gravata pela décima vez enquanto o motorista abria a porta do carro. O convite para jantar fora um "comando" de Otávio, uma tradição para dar as boas-vindas aos novos executivos de confiança.

​— Fico feliz que tenha vindo, Lucas — Otávio disse, recebendo-o no hall de entrada, copo de uísque na mão. — A casa é sua. Venha, quero que conheça minha esposa, Eleonora.

​O jantar foi servido em uma sala de jantar opulenta, com uma mesa de mogno que parecia longa demais para quatro pessoas. Eleonora era uma mulher elegante, mas fria, cujos olhos pareciam escanear o custo da alma de Lucas. E então, havia Beatriz.

​Ela estava sentada diretamente à frente dele. Vestia um vestido simples de seda azul, os cabelos presos, com uma aparência inocente que gritava perigo para Lucas. No momento em que se sentaram, o acordo de "fingir que não se conhecem" foi colocado à prova.

​O Jogo do Poder e da Sedução

​— E como estão as coisas na Logos Tech, Lucas? — Otávio perguntou, cortando seu filé moinho com precisão.

​— Desafiadoras, mas promissoras, Dr. Otávio. Estamos focados na otimização da logística.

​Enquanto falava, Lucas sentiu algo. Um toque suave no tornozelo. Ele congelou. Sob a mesa, o pé direito de Beatriz, descalço do sapato de salto, subia lentamente pela panturrilha dele.

​Lucas tossiu, disfarçando o sobressalto.

​— Tudo bem, Lucas? — perguntou Eleonora, arqueando uma sobrancelha.

​— Sim, apenas o molho um pouco forte — mentiu ele.

​Beatriz, com uma expressão de anjo, continuou sua provocação. O pé dela subiu mais, o calor do toque queimando através da calça de sarja dele. Ela o olhava nos olhos enquanto o pai falava sobre ações e o mercado financeiro.

​— Papai, acho que o Lucas está impressionado com a sua história sobre a fusão de 2018 — Beatriz disse, a voz doce como mel, enquanto seu pé exercia uma pressão firme e deliberada na coxa de Lucas.

​Lucas cravou o garfo na carne com tanta força que o som do metal contra a porcelana ecoou.

​— De fato, Dr. Otávio. Uma estratégia brilhante — ele disse, com a voz ligeiramente mais aguda. Ele não podia olhar para baixo. Não podia reagir. Mas a tensão estava prestes a fazê-lo quebrar.

​Fogo na Sacada

​Após o jantar, Otávio insistiu em mostrar sua coleção de charutos na biblioteca. Lucas precisava de ar. Precisava de distância.

​— Com licença, Dr. Otávio, vou apenas respirar um pouco na sacada. O ambiente interno está... um pouco abafado.

​— Claro, meu caro. A vista da cidade dali é magnífica.

​Lucas saiu para o terraço de mármore. A noite estava fria, o que ajudava a resfriar o sangue que fervia em suas veias. Ele se apoiou no parapeito, fechando os olhos e tentando apagar a imagem de Beatriz de sua mente.

​— Gostou do meu jogo, executivo?

​A voz dela veio do escuro. Beatriz saiu das sombras perto das plantas ornamentais. Ela estava ofegante, com os olhos brilhando com uma mistura de triunfo e desespero.

​— O que você pensa que está fazendo, Beatriz? — Lucas disse, a voz ríspida e baixa. — Você quer que eu seja demitido? Quer que seu pai descubra?

​— Eu não consigo... — ela deu um passo à frente, encurralando-o contra o parapeito. — Eu passo o dia inteiro tentando não pensar em você, mas quando você está aqui, na minha casa...

​Antes que ele pudesse reagir, Beatriz o agarrou pelo colarinho da camisa. Foi um movimento rápido e desesperado. Ela tentou beijá-lo, forçando seu corpo contra o dele.

​O instinto de Lucas foi o de um animal acuado. O pânico de ser pego pelo Dr. Otávio foi maior do que qualquer desejo residual. Ele segurou os ombros dela com firmeza e a empurrou para trás, com força suficiente para que ela cambaleasse e batesse as costas em uma poltrona de vime.

​— Chega! — ele sibilou, a voz tremendo de raiva e medo. — Entenda de uma vez: Isso nunca vai acontecer. Você tem dezessete anos. Eu sou o funcionário do seu pai. Acabou! Se você tocar em mim de novo, eu me demito e conto tudo para ele, não me importa o que aconteça comigo.

​O Tique-Taque do Relógio

​Beatriz olhou para ele, o rosto pintado de surpresa e mágoa, as lágrimas finalmente transbordando. Ela ia dizer algo, quando o som de passos pesados ecoou no mármore.

​— Lucas? Beatriz? O que estão fazendo aqui fora?

​A porta de vidro se abriu. O Dr. Otávio apareceu, com o charuto aceso na mão, a silhueta emoldurada pela luz da biblioteca.

​O tempo parou para Lucas. Seu coração parecia ter parado.

​Beatriz, em um milagre de atuação sob pressão, rapidamente limpou as lágrimas com as costas da mão e se virou para o pai, rindo de forma forçada.

​— Ah, papai. Eu estava apenas dizendo ao Lucas que ele precisa conhecer o clube de hipismo onde eu treino. Ele parece o tipo de homem que gosta de esportes de elite.

​Otávio riu, entrando completamente na sacada e colocando a mão no ombro de Lucas.

​— Ora, isso é uma ótima ideia, Bia! Você deveria levá-lo lá qualquer dia desses.

​— Seria um prazer, Dr. Otávio — Lucas disse, a voz quase mecânica, sentindo que acabara de escapar da guilhotina por um fio de cabelo.

​Ele olhou para Beatriz. Ela não sorria mais. Havia um vazio em seus olhos que assustou Lucas mais do que qualquer ameaça. Ele sabia que a guerra estava longe de terminar.

​