A Filha da Magia
25 Conheço uma filha de Apolo
Notas iniciais
Conheço uma filha de Apolo
Quase me arrependi de ter matado a quimera. Deveria ter pedido pra eles esperarem eu comer pelo menos um cheese burger do Mcdonalds, a fome ta me matando! Entramos na fila para validar os tickets de novo e quando validei meu ticket por último, o carinha de quepe vermelho me entregou um cartão. Olhei para ele confusa e só então percebi que estávamos em outro trem. Agradeci e comecei a procurar pela cabine 217. 217? Sorri. Jake e Thaís estavam conversando mais a frente e percebi que Nico estava bem mais atrás. Desacelerei o passo e fiquei do lado dele. Mas ele não me notou. Achei bem estranho e comecei a chamá-lo, mas ele nem se preocupou em olhar para mim, o que me deixou muito brava, afinal é muita falta de educação isso! Como eu já estava no limite, dei meu melhor tapa no seu braço e ele deu um pulo
– Mas o que? Por que diabos você me bateu Moore?
– Eu tava te chamando e você nem me deu ouvidos e...- reparei em um pequeno troçinho preto pendurado no seu casaco. Pequei o treco e Nico recuou, mas enfim consegui distinguir o que era
– Que música você está escutando?- ele me olhou emburrado e corado ao mesmo tempo. Como não respondeu, peguei o fone e enfiei no ouvido, ele até tentou impedir, mas não conseguiu.
A melodia conhecida invadiu minha mente...
'Cause we lost it all
Nothing lasts forever
I'm sorry
I can't be perfect
Now it's just too late
And we can't go back
I'm sorry
I can't be perfect
– Perfect...Simple Plan- eu disse e ele sorriu- Por isso você tava tão quieto?-fez que sim
– Gosta?-assenti
– Fica em segundo lugar na minha lista de dez músicas preferidas- ele riu
– Você tem uma lista de dez músicas preferidas?
– Tenho- sorri e ele devolveu o sorriso com direito a covinhas
Continuamos a escutar as músicas em silêncio, até que reparei em algo
– Nico?
– Hum?
– Se não podemos ter celulares nem nada, como está escutando música?- ele corou- O que foi?
– Hã...é, bem...*suspiro* Tome- ele me entregou um disco negro com um CD’zinho dentro
– O Walk-man? Você disse que era de Quíron...
– E era, mas ele me deu de presente, acho...
– Hum...até que é um presente legal!- ele sorriu
Andamos lado a lado até pararmos em frente a uma porta com o número 217. Passei o cartão no leitor e entramos no “quarto”. Tinha mais ou menos um quarto do tamanho do chalé 20. Uma janela grande com vista, uma mesinha dobrável, dois sofás pregados um de frente para o outro, duas camas beliches retráteis e um lavabo.
– Legal né?- perguntou Thaís comendo um cacho de uvas
– Demais- Nico se sentou na janela e eu me sentei ao seu lado. Enquanto o trem não partia, ficamos escutando música e Thaís comia uvas alegremente.
Depois de uns cinco minutos, Jake abriu a porta com tudo e trazia consigo uma bandeja cheia de latinhas de Coca e umas batatas.
– Olá lindas...e Nico- Jake colocou a bandeja na mesa e se sentou ao meu lado. Problema? Muitos. O banco só comporta duas pessoas e ficamos eu, Nico e Jake esmagados uns nos outros; o fone que estava no meu ouvido caiu e Nico esticou o pescoço para enxergar bem Jake
– Tá, qual o propósito disso?
– Disso o que Niquito?- perguntou Jake inocentemente
– Disso!- ela indicou o banco
– Ah sabe como é que é né? É difícil ficar longe da Maria- ele passou o braço pelo meu ombro
– Concordo plenamente Firmin- Nico também passou o braço pelo meu outro ombro. Eu já devia estar parecendo um tomate
– Olha- Thaís engoliu a última uva e riu- esse triângulo amoroso de vocês é hilário- agora, com toda certeza, eu estava da cor de um pimentão assim como Nico. Jake apenas sorriu e olhou pra mim de modo galanteador ao contrário de Thaís, que me lançava um sorriso malicioso.
E o que Maria Alice Moore fez? Simples, saí correndo e me tranquei no banheirinho. Olhei para o espelho e vi o rubor
– Mas o que está acontecendo comigo?!- me perguntei mais confusa do que jamais estive.
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Olhei para o relógio de pulso de Jake. 00:43h. O trem já tinha dado a partida horas atrás e já tínhamos ido comer, mas nada de sono. Olhei para as criaturas que dormiam no mesmo quarto que eu. Thaís estava usando um pijama, mas como disse que ele era muito curto, usava um roupão lilás com a frase “I’m the Queen of bitches” nas costas. Jake dormia de bermuda e camiseta, que estava o bastante levantada para eu ver seu tanquinho. Corei e desviei o olhar. Nico dormia com a mesma roupa: calça preta e camisa preta. Fiquei olhando para o teto por um tempo, o trem nem parecia se mexer.
Pulei do beliche e fui para o lavabo. Meu cabelo estava solto e fazia tempo que eu o via assim; nem me lembrava que ele chegava ao meio das minhas costas. Olhei para meu pijama; era um short de malha azul e uma regata preta, além de um chinelo. Suspirei, saí do quarto e o tranquei. Comecei a passear pelo trem até que senti um cheiro delicioso. Fui em direção a “sala de jantar”. Olhei pela janela e vi que a luz da cozinha estava acessa e um homem misturava algo em uma panela. Chocolate! Sentei-me em frente à porta e fiquei sentindo aquele cheiro entorpecente até ouvir um barulho vindo da porta ao meu lado.
Levantei-me num pulo e preparei minha chaminha azul que agora chamo de Phillip. Estendi Phillip até o nome que estava na porta.
Alto tarifado
Espera, sou meio dislexa....
Almoxarifado
Faz mais sentindo...
Fui girando a maçaneta devagar sem fazer barulho, enquanto tentava lembrar de algum feitiço que não fosse Phillip. Me preparei e abri a porta mas ao invés de um monstro, era uma menina...
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– Tá bom, então seu nome é Nina?- a garota de cabelos e olhos escuros assentiu
Depois do choque que nós duas levamos, a garota apenas se apresentou como Nina Lacrowff e nada mais. Olhei para o pudim que ela havia me dado.
– Não vai falar mais nada né?- ela assentiu e eu suspirei. Óbvio que ela não diria mais nada, eu apontei chamas azuis para ela. Ela ficou me encarando e eu também. O trem passou por um poste de luz e algo em seu pescoço brilhou, mas ela pareceu não notar. Eu já tinha visto aquele objeto em algum lugar no acampamento, mas por que ela tinha uma igual?
– Uma lira!
– Hã...ah, sim! Foi um presente- disse Nina segurando a lira
– Legal! Ouvi dizer que Apolo...- ela me interrompeu
– Apolo?- ela perguntou de olhos arregalados e eu engoli em seco. Que merda que eu fiz!- Você disse Apolo?- ela insistiu
– Hã... Nããão! Eu quis dizer apóstrofe! É que eu ouvi dizer que lira se escreve com apóstrofe- nem me lembrava o que era uma apóstrofe... Ela olhou para mim
– Você acha que eu ia acreditar nisso?
– Hã... sim- então ela começou a rir e eu também
– Agora sério, você disse Apolo?- fechei os olhos, não podia contar- Apolo, o deus da música e da medicina?- eu abri os olhos
– Como você sabe?
– Eu é que pergunto! Como você sabe o nome do meu pai?
Espera, pai?!
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– Pai?!- ela ficou mais branca do que já estava e começou a chorar e eu me desesperei! Não faço a menor idéia do que fazer quando alguém chora, pra mim é uma coisa assustadora!
– Calma, calma! O que aconteceu? Como assim seu pai é Apolo?- ela parou de chorar (Graças aos deuses!) e respirou fundo
– Não posso contar! Minha mãe disse que não era para contar e quando eu contei para alguém o que aconteceu, eles riram de mim e me chamaram de louca e...
– Calma criança! Não exagera! O que aconteceu para te chamarem de louca?
– Você vai me chamar de louca também!
– Não vou não!- ela olhou desconfiada- Olha eu já estou num nível tão alto de loucura que as pessoas são no máximo meio doidas em comparação!-ela riu, mas voltou a ficar séria
– Um dia eu estava voltando da escola e conheci uma menina que se transformou numa vampira. Zoei com a cara dela e depois fugi. Quando cheguei em casa, contei a minha mãe e ela me levou para uma estação de ônibus dizendo que eu era filha de Apolo- olhei para ela. Ela estava escondendo alguma coisa
– Só?
– Só- olhei para ela. Era quase impossível isso acontecer então preciso de uma prova
– Tá, mas eu acho que você está escondendo algo...
– E não deveria? Vem cá, por que tanto interesse na minha vida?
– Oras, por que sim! Mas sua mãe, quando te colocou no ônibus disse mais alguma coisa?-ela me olhou desconfiada, mas respondeu
– Disse que eu deveria ir para um acampamento em NY com pessoas iguais a mim
– Iguais a você?- perguntei e ela corou
– Chega okay! Não responderei mais nenhuma pergunta!- Um acampamento? É óbvio! Ela é uma semideusa!
– Olha, desculpa ser tão intrometida, mas acho que posso te ajudar- ela me observou com os olhos brilhando- Mas para isso, vai ter que me contar tudo certinho...- ela hesitou, respirou fundo e assentiu
– Eu morava no Canadá e desde pequena enxergo coisas estranhas, como monstros e tal. Sempre fui meio tímida, mas todos acabavam gostando da minha pessoa, afinal são 14 anos de pura gostosura- ri com o comentário- Há um tempo, uma menina me parou na rua e perguntou se eu poderia ir com ela e eu aceitei (Maria- Sua mãe nunca te disse para não conversar com estranhos? Nina- Mas ela parecia simpática, pô!).
“Ela acabou me levando para um beco e aí se transformou numa vampira. Fui correndo para casa com a monstra atrás de mim. Quando cheguei, contei tudo que eu vi para minha mãe. Aí ela preparou minha mala e me levou para a estação de ônibus. No caminho ela contou que trabalhava como pianista e um dia conheceu um cara que se chamava Apolo, eles namoraram e quando ela disse que estava grávida, ele contou que era um deus e quando nasci me deu este pingente”- disse ela segurando a lira
– Essa menina, como ela era?- Nina me observou cuidadosamente. Ela parecia confiar mais um pouco em mim
– Parecia ter a minha idade, era loira, usava um vestido de líder de torcida, tinha o corpo perfeito- peraí, não pode ser...- e tinha incríveis olhos vermelhos- Julie!
– C-como? Ela disse alguma coisa? Como era a vampira?- ela se assustou e eu me acalmei
– Hã, não sei bem o que ela era, mas parecia uma vempira bem da feia com cabelos em chamas, garras e uma perna de burro...
– E outra de metal- pensei alto
– Oi? Você conhece ela?
– Não, não...hã, ela disse alguma coisa?
–Ela me chamou de filha do Sol e disse que precisava m-meio...meio...do que ela me chamou mesmo?
– Meio-sangue?
– É e...como você sabe?
– Depois eu explico tudo...mas continue!!
– Okay, ela disse que a mestra dela precisava de meio-sangues poderosos e também disse que se eu não fosse com ela, eu cruzaria com a Filha da Magia e essa seria minha morte certa
Mas que negócio é esse de que a Filha da Magia seria a morte certa? Mas por que eu a mataria? Não faz porra de sentido nenhum! E afinal, por que Julie apareceu para ela? Julie não deveria estar queimando no Tártaro?
– Quando isso aconteceu?
– Hã...há umas quatro semanas
Quatro semanas?Uma semana depois que eu cheguei ao acampamento...
– Ei!- ela me cutucou
– O que foi?
– Você tava viajando
– Ah ta, esquece... E você ficou todo esse tempo sozinha em um ônibus?
– Na verdade não. Minha mãe deixou um pouco de dinheiro para chagar em NY, já que o ônibus só ia para Ohio. Então peguei um trem que ia para a Pensilvânia e acabei ficando dentro desse trem até chagarmos em NY
– Mas você sabe que estamos indo para Connecticut, né?
– Connecticut, sério?- ela começou a chorar de novo e eu tentei acalmá-la enfiando uma colher de pudim em sua boca
– Vai dar tudo certo okay?-ela assentiu- Preciso saber uma coisa... É, você tem algum tipo de transtorno?- ela me olhou confusa e ao mesmo tempo brava
– Por que eu diria isso para você?
– Porque quero te ajudar...- ela suspirou
– TDAH vale?-assenti
– Também tenho TDAH com um pouquinho de dislexia
– Nossa, mas pra que você precisa saber disso?
– Oh claro, vou me apresentar. Oi, meu nome é Maria Alice Moore, tenho 13 anos e sou do acampamento que você quer ir- ela arregalou os olhos e me abraçou com força, o que me deixou sem ar (Eu já disse que não gosto de abraços?)
– Então você vai poder me levar? Deve ter um trem em Connecticut até NY e você pode ir junto e...Quem é seu pai? Júpiter, Netuno ou será Plutão?-olhei para ela confusa
– Eu não disse que tinha um pai olimpiano...Minha mãe é Hécate
– Oh sim...Quem?
– Aff! A deusa da magia e das encruzilhadas...
– Ah, Trívia você diz
– Não, Hécate- ela me olhou confusa e eu fiz Phillip aparecer. Nina começou a brincar com a chaminha até que a pegou nas mãos e esta se transformou num mini sol
– Wow! Realmente você é uma filha de Apolo!
Ela continuou a brincar com o solzinho e eu fiquei pensando em como falar com Quíron, apesar de não entender o motivo de ela dizer todos os deuses romanos e... Será?. Eu precisava avisá-lo naquele instante, não posso esperar... Mas pra avisá-lo eu poderia mandar uma mensagem de Íris e para isso eu precisaria de um sol... Peguei, ou melhor, agarrei sua mão e saí correndo do almoxarifado.
– Ei!!! Maria espera!!! Por que a pressa?!!!- continuei correndo sem parar pelo trem inteiro até chegar no último vagão.
Destranquei a porta com um feitiço e saí do trem. Sentir o vento bater no meu rosto foi uma das melhores sensações do planeta. Nina sorriu e começou a cantar. Sim, cantar! Soltando notas agudas e graves pelo vento, criando uma melodia linda
– Que lindo!- ela pareceu se lembrar que eu estava lá e corou
– Hum, valeu
– De nada, agora preciso da sua ajuda- ela me olhou- acha que consegue recriar aquele sol?- ela me olhou com uma cara de “mais ou menos”
– Não sozinha, pode me ajudar?- assenti e Phillip apareceu, ela o pegou nas mãos e logo o sol apareceu
– Okay, acha que consegue segura-lo no ar?- ela assentiu e eu fiz a minha parte: peguei minha garrafa d’água e a transformei num borrifador muito potente e deixei ele flutuando no ar, apertei a válvula e água começou a jorrar em abundância
– Mire o sol na água!- gritei e comecei a procurar por um dracma- Dracma, dracma, dracma!!! Cadê a droga do dracma?- tateei meus bolsos e procurei em outro lugares
– Dracma? Mas a moeda antiga não era o denário?
– Roma! Cadê...? Achei!- peguei a maldita moedinha de ouro e joguei no arco-íris que havia se formado- Hã...Ó Íris, deusa do arco-íris, aceite essa oferenda. Mostre-me Quíron, CHB!
Nina me olhou com uma cara debochada e eu lhe mostrei a língua; a imagem tremeluziu e Quíron apareceu de costas para nós. Ele estava lendo outro bilhete e consegui ler algumas palavras: veneno, morte, paralisados, terror e... cobras.
Nina pigarreou e Quíron percebeu nossa presença através das lentes de seus óculos de leitura. Seus olhos pareciam cansados.
– Criança, está tudo bem? Vocês precisam de algo na missão?
– Oi Quíron, desculpe a hora
– Sem problemas, mas diga
– Na missão está tudo ótimo, tirando os probleminhas corriqueiros- ele assentiu e Nina me olhava confusa. Sussurrei para ela um “te explico mais tarde”- Bem, eu quero te apresentar uma pessoa- puxei Nina e Quíron arregalou os olhos- Não se preocupe, ela é uma semideusa e filha de Apolo
– Como sabe?
– Ah, nada melhor do que quase uma hora de conversa- Nina disse e Quíron sorriu
– Bem, eu queria saber se ela pode ir para o CHB...
– Claro que pode, será um prazer tê-la aqui!
– Mas eu não sei se ela pertence ao CHB- ele me olhou confuso- Acho que ela é romana
– Bem é possível, Apolo tem a mesma versão romana/grega, mas decidimos isso quando ela chegar!
– Okay, amanhã chagaremos em New Haven e dali até NY é um dia, será que o carinha dos cem olhos...
– Argos!
– Sim, será que ele pode levá-la?
– Claro! Então está decidido, depois de amanhã Argos estará a sua espera criança
– Valeu potocó!- ele sorriu
– Prefiro o termo centauro
– Oh, ta desculpa...Valeu centauro!
– Não há de que criança. Agora é melhor irem dormir, continue mantendo contato, Maria
– Pode deixar Quíron
A chamada foi encerrada e Nina me observou.
– E agora?-ela perguntou
– Simples! Você irá para o Acampamento Meio-Sangue, Nina Lacrowff, filha de Apolo!
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