A Filha Roubada dos Weasley
2 A Vidente
Aurora estava deitada de costas, respirando com esforço como se tivesse corrido uma maratona. Aquela visão a deixou realmente assustada. As antigas marcas em seu pulso, que tinham a forma de estrelas de seis pontas, ardiam sob seus dedos quando ela as tocou. Aurora era uma bruxa e uma excepcional jogadora de Quadribol, o que muitos já sabiam. Mas havia mais uma coisa extraordinária na menina — que só seus pais e amigos sabiam —, ela era uma vidente.
Ela se sentou, a mão esquerda ainda tocando as cicatrizes. Em seguida a menina levantou-se cambaleando um pouco e buscou pelo interruptor, que após tatear alguns segundos pela parede, o encontrou e acendeu a luz. Aurora tornou a passar os dedos pelas cicatrizes. Continuavam doloridas. A menina atravessou o quarto, abriu o guarda-roupa e espiou no espelho que havia do lado interno da porta. Uma menina alta de catorze anos olhou para ela, os olhos azuis e intrigados sob os cabelos ruivos e bagunçados. Examinou com mais atenção as cicatrizes em seu pulso direito. Parecia normal, mas continuava ardendo.
Aurora tentou se lembrar do que estivera fazendo antes de ter aquela visão, então em sua cabeça veio a imagem de si mesma subindo as escadas com um copo em mãos, já que no meio da noite sentiu cede. Ela olhou para os lados e viu um copo caído no chão e a água espalhando-se rapidamente pelo quarto, mas no lugar de arrumar a bagunça que tinha feito antes de ter a visão, resolveu concentrar-se no que tinha visto.
Ela sabia que era real... Havia duas pessoas que ela sabia quem eram e uma que não sabia... Ela se concentrou, enrugando a testa, tentando se lembrar...
Veio à sua mente a imagem pouco nítida de um quarto escuro... Havia uma cobra em cima de um tapete diante da lareira... Um homenzinho chamado Pedro, de apelido Rabicho... E uma voz aguda e fria... A voz de Lord Voldemort. Só de pensar, Aurora teve a sensação de que uma pedra de gelo estava descendo para o seu estômago...
Fechou os olhos com força e tentou se lembrar que aparência tinha Voldemort, mas foi impossível... Tudo que Aurora sabia era que, no momento em que a poltrona girara, vira o que estava sentado nela, sentira um espasmo de horror que fizera a visão terminar... Ou fora a dor nas cicatrizes?
E quem era o velho? Porque sem dúvida havia um velho; Aurora o vira cair no chão. Tudo estava ficando confuso; a garota levou as mãos ao rosto tampando a visão do quarto em que estava, tentando reter a imagem daquele outro mal iluminado, mas era o mesmo que tentar segurar água com as mãos; os detalhes agora desapareciam com a mesma rapidez com que ela tentava retê-los.
Voldemort e Rabicho estiveram conversando sobre alguém que haviam matado, embora Aurora não conseguisse lembrar o nome... E estiveram planejando matar mais alguém... Harry Potter...
Aurora tirou as mãos do rosto, abriu os olhos e contemplou o quarto a toda volta como se esperasse ver alguma coisa diferente ali. Como era de se esperar, só tinha coisas normais ali — normais para bruxos —, havia um malão de madeira fechado em um canto de seu quarto, em uma prateleira estava à mostra um caldeirão, uma vassoura, vestes negras e vários livros de feitiços. Rolos de pergaminhos estavam arrumados com cuidado sobre a escrivaninha e ao lado, uma enorme gaiola vazia, em que sua coruja muito preta, Afrodite, normalmente se encarrapitava. Em cima de sua cama havia um livro aberto; ela o estivera lendo antes de descer para tomar água. As ilustrações do livro se mexiam.
Homens com vestes laranja-vivo voavam em vassouras e entravam e saíam do seu campo de visão, jogando com uma bola vermelha.
Aurora foi até o livro, apanhou-o e assistiu a um dos bruxos marcar um gol espetacular enfiando a bola por um aro a quinze metros de altura. Então a garota fechou o livro. Nem mesmo o Quadribol — na opinião de Aurora, o melhor esporte do mundo, já que ela era artilheira do time de Quadribol da Grifinória — conseguiria distraí-la naquele momento. Ela repôs o livro Voando com os Cannons sobre a mesa-de-cabeceira, dirigiu-se à janela e afastou as cortinas para olhar a rua lá embaixo.
Os jardins estavam silenciosos e uma leve brisa sacudia os arbustos, não havia um único ser vivo à vista nem mesmo um gato.
Contudo... Contudo... Aurora voltou inquieta para a cama e se sentou, passando mais uma vez um dedo pelas cicatrizes. Não era a dor que a incomodava; Aurora não era estranha à dor e ferimentos.
Uma vez perdera todos os ossos da perna esquerda e sentira a dor de recuperá-los em uma noite. A mesma perna fora perfurada por uma faca, pouco tempo depois. Ainda no ano anterior, ela despencara treze metros da vassouraem que voava quando estava treinando para um jogo contra a Sonserina. Estava acostumada com acidentes e ferimentos; eram inevitáveis quando se frequentava a escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts e se tinha um pendor para viver caindo e se machucando.
Não, a coisa que estava incomodando Aurora era que da última vez que as suas cicatrizes doeram, fora porque Voldemort estava tramando algo... E agora ela sabia que ele estava tramando algo terrível, e o pior, era contra Harry Potter, da mesma casa que ela em Hogwarts, seu companheiro de equipe, colega e amigo.
Aurora parou para escutar com atenção o silêncio à sua volta. Era evidente que seus pais ainda dormiam, embalados por sonhos tranquilos e indolores.
Seu pai e sua mãe eram os únicos vivos de sua família, eram de sangue-puro, mas que não tinham aquele preconceito todo contra nascidos trouxas e mestiços, já que sua filha havia ido para a Grifinória. Eles amavam muito a filha e por isso faziam tudo o que ela queria, mesmo passando por cima de suas prioridades. A menina pensou em contar-lhes mais tarde que suas cicatrizes estavam doendo e que estava preocupada com Voldemort, mas veio em sua mente a imagem dos pais aterrorizados e mudou de ideia, então a garota voltou a pensar em Harry.
Era por causa de Voldemort que Harry foi morar com os tios, se não fosse por aquele bruxo, Harry não teria na testa uma cicatriz em forma de raio. Se não fosse por Voldemort, o garoto ainda teria seus pais.
Harry tinha um ano de idade na noite em que Voldemort — há um século o bruxo das trevas mais poderoso do mundo, um bruxo que fora adquirindo poder continuamente durante onze anos — tinha chegado a sua casa e matado seus pais. Depois, Voldemort brandira a varinha contra Harry; executara o feitiço que havia liquidado muitos bruxos adultos durante sua ascensão ao poder — e, inacreditavelmente, o feitiço não produzira efeito. Em vez de matar o garotinho, o feitiço se voltara contra o bruxo. Harry sobrevivera marcado apenas por um corte em forma de raio na testa, mas Voldemort fora reduzido a uma coisa quase sem vida. Despojado de seus poderes, a vida quase extinta, ele fugira; o terror em que a comunidade secreta de bruxos vivera tanto tempo se dissipou, os seguidores de Voldemort debandaram, e Harry Potter se tornou famoso.
Harry tivera um choque de bom tamanho ao descobrir, no seu décimo primeiro aniversário, que era bruxo; fora ainda mais desconcertante descobrir que todos no mundo secreto da magia conheciam seu nome. Harry chegara a Hogwarts e deparara com cabeças se viraram e cochichos que o seguiam aonde fosse. Mas agora já se acostumara com isso. No fim deste verão, ele iria começar o seu quarto ano em Hogwarts — junto com Aurora — e os dois contavam os dias para regressar ao castelo.
Mas faltavam ainda quinze dias para as aula recomeçarem. Aurora tornou a examinar o quarto, desanimada, e seus olhos pousaram nos cartões de aniversário que seus amigos tinham lhe mandado no dia dezessete de junho.
Que será que diriam se lhes escrevesse para contar que as cicatrizes estavam doendo?
Na mesma hora a voz de Hermione Granger penetrou sua cabeça, aguda e cheia de pânico. "Suas cicatrizes estão doendo? Aurora, isso é realmente sério, você teve uma visão... Escreva ao Professor Dumbledore! Vou verificar em algum livro meu os significados de visões e dores nas cicatrizes..."
E, este seria o conselho de Hermione: vai procurar o diretor de Hogwarts, e, enquanto isso, vai consultando um livro. Aurora contemplou pela janela o céu azul, quase negro. Duvidava muito que o livro pudesse ajudá-la. Que ela soubesse, era a única pessoa em Hogwarts que tinha visões — excluindo a professora de Adivinhação —; portanto, era pouco provável que encontrasse os seus significados descritos em algum livro. Quanto a informar ao diretor, Aurora não fazia a menor ideia de onde Dumbledore passava as férias de verão. Só por um momento divertiu-se em imaginar Dumbledore, com suas longas barbas prateadas, vestes compridas de bruxo e chapéu cônico, estirado em uma praia qualquer, passando filtro solar no longo nariz torto.
Mas onde quer que Dumbledore estivesse, Aurora tinha certeza de que Afrodite seria capaz de encontrá-lo, a coruja de Aurora, até aquele dia, jamais deixara de entregar uma carta, mesmo sem endereço. Mas o que iria escrever?
"Prezado professor Dumbledore.
Desculpe-me o incômodo, mas minhas cicatrizes doeram hoje de manhã e eu tive uma visão.
Atenciosamente, Aurora Jones."
Mesmo em sua cabeça as palavras pareciam idiotas.
Então ela tentou imaginar a reação de um de seus melhores amigos, Rony Weasley e, num instante, o rosto sardento, de nariz comprido, do amigo começou a flutuar diante de Aurora com uma expressão de atordoamento.
"Suas cicatrizes doeram? Mas... Mas algo Voce-Sabe-Quem não pode estar tramando algo terrível, pode? Quer dizer... Ele não retornou ainda, não sabemos se Rabicho juntou-se à ele, não é? Sei não, Aurora, vai ver só foi uma confusão, nem sempre suas visões são certas... Vou perguntar ao meu pai..."
O Sr. Weasley era um bruxo diplomado que trabalhava na Seção de Controle do Mau Uso dos Artefatos dos Trouxas, no Ministério da Magia, mas pelo que Aurora soubesse, não tinha qualquer formação especifica em feitiços. Em todo o caso, não lhe agradava a ideia de que a família Weasley inteira soubesse que estava assustada por uma dorzinha, e obviamente, por causa de uma visão que tivera onde Voldemort estava planejando matar Harry, isso ela guardaria e contaria para Harry no momento certo. A Sra. Weasley se preocuparia mais do que Hermione, e Fred e Jorge, os gêmeos de dezesseis anos, irmãos de Rony, poderiam pensar que Aurora era uma medrosa e Aurora não queria que seu encontro fosse pontuado de perguntas ansiosas sobre suas cicatrizes e sobre visões.
A menina cogitou a possibilidade de escrever à Harry Potter, mas instantaneamente lembrou-se que o amigo tinha dores na cicatriz em forma de raio em sua testa e que provavelmente não saberia responder qualquer coisa que fosse sobre cicatrizes, não necessariamente chamando-o de burro. O que ela realmente queria era algum bruxo adulto que tivesse experiência com tudo aquilo, que soubesse como Voldemort era...
E então lhe correu a solução. Era tão simples, tão óbvia, que ela nem podia acreditar que tinha levado tanto tempo para lembrar — Lúcio.
Aurora saltou da cama, saiu correndo e se sentou à escrivaninha, puxou um pergaminho para perto, molhou a pena de águia no tinteiro, escreveu Caro tio Lúcio e em seguida parou, pensando qual seria a melhor maneira de contar o seu problema, ainda admirada com o fato de não ter pensado nele logo de saída. Mas, por outro lado, talvez não merecesse tanta admiração — afinal, fazia dois anos que não via Lúcio.
Havia uma razão simples para a absoluta ausência de Lúcio da vida de Aurora até aquele momento — o bruxo e sua mãe haviam brigado, nem mesmo a menina sabia o motivo da briga, mas fora muito séria.
A garota recebera duas cartas de Lúcio, obviamente sem sua mãe saber, perguntando se ela não tinha dito alguma visão, e como sempre, a menina respondia que não, por ordens da mãe. Mas aquele momento não podia passar em branco. Como o tio era um seguidor de Voldemort e tinha voltado para o lado do bem, Aurora tinha que verificar algumas coisas. As duas cartas do tio estavam escondidas em uma caixa no fundo do armário de Aurora, e tinham um tom sombrio, mas mesmo assim o tio a incentivava a chamá-lo quando precisasse, principalmente quando tivesse uma visão. Bem, ela bem que precisava chamar o tio agora...
Sua luz de cabeceira parecia estar enfraquecendo à medida que a luz fria e cinzenta que antecede o nascer do sol penetrava devagarinho no quarto. Finalmente, quando o sol nasceu, quando as paredes do quarto ficaram douradas e quando ela ouvia som de gente se mexendo no quarto dos pais e do irmão — que ela não se dava muito bem —, Aurora tirou os pedaços amassados de pergaminhos de cima da escrivaninha e releu a carta que escrevera.
Caro tio Lúcio,
Sinto muito por não ter lhe escrito ultimamente, ando muito ocupada, como Draco deve ter lhe dito e como ele deve estar também.
Mas não estou escrevendo-lhe por esse motivo. O senhor sempre me pergunta quando tenho uma visão, e dessa vez tive. Vi Voldemort e Rabicho planejando matar e também vi eles dizendo que mataram uma outra pessoa já. E tem mais... Minhas cicatrizes começaram a doer muito depois da visão.
Gostaria de saber o que o senhor acha, já que você teve experiência com artes das trevas e já foi um seguidor de Voldemort.
Espero que esteja bem.
Até logo,
Aurora.
É, pensou Aurora, parecia boa. A garota enrolou o pergaminho e deixou-o em cima da escrivaninha, pronto para quando Afrodite voltasse. Depois se levantou, se espreguiçou e abriu mais uma vez o guarda-roupa. Sem olhar para a sua imagem refletida no espelho, começou a se vestir para ir tomar o café da manhã.
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