20 de março, 1485 — 17:00
6 horas para a lua cheia

Estou sentada há horas.

Não tenho ânimo para festejar. Minhas irmãs estão dançando, aproveitando, e eu aqui, sem fazer simplesmente nada. Se eu pudesse me trancava em meu quarto, mas como eu não posso decepcionar minha mãe, sou obrigada a ficar aqui, por mais torturante que seja.

Preferiria estar de castigo sem poder sair do meu quarto. Sei que dentro de alguns minutos minha mãe pedirá para que os pretendentes entrem e se apresentem, então serei obrigada a olhar bem para o rosto de cada um deles e decidir.

Fico sentada por mais uns minutos até que minha bexiga começa a dar sinal de vida aqui, preciso ir ao banheiro. Urgentemente!

Vou aproveitar para trocar de vestido, já que minha mãe está mandando eu ir fazer isso há uma meia hora.

Me levanto indo em direção ao meu quarto, já que prefiro meu banheiro. Viro o corredor chegando me aproximando de meu quarto até que uma voz me chama:

—Irina! Princesa! -Essa voz...
—Tia? O que faz aqui? Por que não está com os outros na festa? — Minha tia Anne, irmã de Lizzie, a que quer roubar minha coroa.
—Eu estava lhe procurando, querida. Queria lhe dar um presente, pessoalmente!

O que está havendo?
Olho para seu rosto pequeno e fino tentando ver o mínimo sinal de deboche, mas não encontro. Anne é minha tia paterna mas tem apenas 19 anos. Ela está elegante como sempre, com seu cabelo preto preso em uma trança que cai por seu ombro esquerdo. Seus olhos, nariz e boca são pequenos e finos assim como ela que é um pouco mais baixa que eu.

—Quê? -Pergunto confusa. Ela ajeita seu vestido verde esmeralda e se aproxima.
—Vire-se, tenho algo para lhe mostrar.

Faço o que ela pediu, então sinto algo gelado em meu pescoço. Olho para baixo e me surpreendo ao ver que não é uma faca pra cortar o meu pescoço.

Que milagre!

É uma linda gargantilha feita de prata com um rubi lindo no centro envolto por cristais. Era de fato um presente muito generoso de sua parte.

Será que vão sair facas desse colar e me matar?

—Ele é lindo, tia! Obrigada... -Agradeço ainda meio sem reação.
—Esse colar foi um presente de minha mãe para mim quando fiz 16 anos. 3 anos após seu nascimento. -Ela comenta ajeitando a tiara dourada em sua cabeça.
—Por que está me dando ele, tia? -Indago. -Não faço parte dos Coolture. E se seu pai, conde Tywin, estivesse vivo sei que ele não aprovaria. -O pai de Anne e Lizzie odiava toda a nossa família pelo mesmo motivo que todos os nobres odeiam. Todos querem ser reis.
—Eu sei... Mas, acho que ele fica melhor com você do que comigo. Sem contar que eu quero me redimir por tudo que fiz com você esses últimos meses, você não merecia, não é sua culpa. E o colar não pertence mais a meu pai, ele é meu, eu faço o que eu quiser com ele! Só cuide bem dele.—Ela diz sorrindo para mim enquanto desliza seus dedos pelo rubi.
—Pode deixar, tia. -Abraço ela pela primeira vez em meses, estranhando de todas as formas aquele contato físico e direto entre nós duas. Ela me solta calmamente e se vira voltando para o salão de festas.

Admito, não esperava por isso e não sei se acredito muito.

Eu e Anne até éramos amigas antigamente, até porque ela não tinha motivos para me odiar já que a coroa seria de Lauren. Mas, então ela abdicou e a coroa foi para Mary que agora está doente e incapacitada de assumir o trono, sendo assim a coroa veio para mim há aproximadamente uns 6 meses atrás e, desde então, Anne passou a não olhar mais para mim, assim como sua irmã mais velha, Isabel.

A diferença é que Lizzie nunca gostou de nenhuma das minhas irmãs, de mim ou de minha mãe e meu pai. Nunca!

E agora, justo 1 semana antes da minha coroação, ela me da um presente — Que é uma relíquia de família -, e resolve se desculpar por suas "más atitudes"?

Vou pensando nessas coisas até chegar em meu quarto. Vou ao banheiro, faço o que tenho que fazer, lavo as mãos e pego meu vestido dourado. As criadas chegam minutos depois, me ajudam a tirar o vestido vermelho e a colocar o dourado, tomara-que-caia com brilho em cima e liso em baixo. Tão lindo quanto o outro.

Elas não notaram a gargantilha, que bom!
Provavelmente pediriam para eu tirar e talvez isso magoasse Anne.

Elas terminam de me aprontar enquanto eu encaro minha imagem no espelho. Os cabelos agora soltos, castanho escuro, até a cintura. A pele branca, o nariz fino, a boca levemente carnuda e os olhos grandes. As janelas da alma

Sinto uma pontada em meu coração e por algum motivo minhas sobrancelhas tremem. Mordo o canto da boca e aperto meus dedos, eu quero chorar, eu preciso chorar.

—Princesa... Está tudo bem? — Pergunta uma das criadas.
—Está... Aline... Por favor, me deixem sozinha. -Peço.
—Mas, princesa...
—Saiam. Por... Favor... -Elas saem rapidamente, e eu desabo.

Me sento na cama com os cotovelos apoiados no joelho servindo de apoio para minha cabeça. Não paro de chorar e balbuciar. Isso é uma completa tortura.

Toc Toc

Ouço umas batidas na porta.
Só pode ser minha mãe.

—Me deixa em paz mãe! — Grito, mas não adianta a porta se abre aos poucos. É o Richard.
—Oi... -Ele diz.
—O que faz aqui? — Pergunto de modo agressivo.
—Bem, eu não sabia onde você estava e também, eu vi todas as suas criadas lá fora e elas me falaram que achavam que você não parecia muito bem. Qual problema, Ina?
—Nenhum, Richard.
—Me conta vai! Eu sou o seu meio-irmão mais velho.

Observo ele através de meus olhos marejados e vejo sua pele clara, seus olhos verdes e seus cabelos loiros. Como todos os meus outros irmãos, ele puxou a nossa mãe.

Calmamente, ele vem se sentar do meu lado e me envolve em seus braços. Recosto minha cabeça em seu ombro e respondo:

—O problema, Richard... -Pauso puxando o ar pra conseguir falar sem cair em lágrimas. -O problema é que eu não quero me casar! Eu não quero virar a Rainha da Inglaterra! E não quero virar uma miniatura de Margaret Stark!
—Por que está dizendo isso? O que Margaret Stark tem a ver com isso? -Ele pergunta com sua voz doce.
—Ela é uma mulher infeliz que se casou a força, foi afastada de seu filho por ordens, e não fala com a mãe porque estão brigadas há anos!- Tento falar em meio as lágrimas que já descem sem pestanejar.
—Mas, tudo isso aconteceu com ela porque ela não era rainha. Se fosse, nada disso teria acontecido...
—Richard, eu não quero me casar com algum estranho francês! -Digo.
—Não precisa se casar com um estranho francês... Pode se casar com um estranho russo, olha o lado bom! -Ele brinca abrindo um sorriso.
—Bobo! -Digo rindo. Ele se levanta e me ajuda a levantar, dou alguns passos até que sinto um calor estonteante em cada parte do meu corpo. Meu corpo simplesmente para de andar.

Por um momento sinto tudo a minha volta girar, engulo em seco tentando me manter de pé, mas um mal estar toma conta de meu corpo. Olho para o espelho ao meu lado e meus olhos estão ficando vermelhos e inchados, eles não param de lacrimejar e começam a arder. Ponho minha mão no pescoço e começo a coçá-lo.

—Ainda está chorando? -Richard pergunta me olhando. -Ina, seu rosto está vermelho... — Ele diz um pouco nervoso.
—Não estou chorando, meus olhos estão ardendo! E meu pescoço está coçando. Coçando muito! — Minha garganta começa a coçar também e começo a tossir. Sou forçada a me segurar no ombro de Richard para conseguir me manter de pé.
—Ina, isso me parece alergia! Todos nós na família temos alergia a algo. Você tem a quê?
—A metal.- Tusso mais ainda.
—E esse colar no seu pescoço, estava usando-o antes de vir para cá?
—Não! — A tosse me interrompe: -Anne me deu no caminho pra cá.
—ANNE? — Ele grita como quem não acredita no que ouve.
—Calma, eu já tive contato com metal e nunca foi assim, eu só ficava vermelha!
—Irei chamar nossa mãe! — Ele faz menção a sair mas a tosse aumenta mais ainda...

Está sufocando!

—Não. Consigo. Respirar. — Caio no chão agonizando e suplicando por oxigênio. Ele volta correndo e me pega no colo imediatamente saindo as pressas pelo palácio me levando para o salão, assim que chego avisto a penumbra de meus pais, minhas irmãs e irmãos levantando ao mesmo tempo vindo em minha direção as pressas.
—O QUE HOUVE? — Não os vejo mais pois não consigo abrir os olhos, apenas ouço. Não consigo nem responde-los.
—Não sei! Do nada ela começou a tossir! Acho que tem haver com esse colar. Ela disse que não estava o usando antes de sair daqui.
—Deixe-me ver! — Fala minha avó se aproximando. Ouço os gritos e choros de minhas irmãs mais novas.

Faço uma pressão em minha pálpebra abrindo uma pequena fresta que me permite ver uma imagem embaçada de minha avó. Ela segura em meu braço tentando controlar meus tremeliques e então pega no colar, provavelmente deve estar o analisando. Seus olhos de repente param de se mover focando naquele rubi até que ela aperta meu braço com muita força. Ela estava tendo uma visão.

—O COLAR NÃO É SÓ METAL! ESTÁ ENVENENADO TAMBÉM!
—MÉDICOS!

Sinto minha garganta fechando aos poucos e o ar saindo de meus pulmões até que minha visão escurece de vez, minha audição entorpece e por fim eu desmaio no meio do salão sem saber se irei acordar...