A Fera

20 Uma Análise


Notas iniciais
Olá, leitorxssss do meu ♥ ~vácuo........... Que saudades!!! É, eu sei. Sumi da face da Terra e não postei durante muuuuito tempo. Tive alguns problemas pelo caminho que me desanimaram muitíssimo em fazer várias coisas, inclusive escrever. Parece uma desculpa esfarrapada, entendo. Tudo o que posso fazer agora é pedir desculpas pela falta de compromisso com vocês e com essa história, a qual tenho dado dedicação máxima para reanimar as coisas. Por isso, espero que, se ainda existir alguém aí tão disposto quanto eu, ame essa nova "fase" da história de Rafael e Adélia. Estou trabalhando a todo vapor nesse momento, pois é agora que algumas coisas importantes sobre o passado e a maldição de Rafael virão à tona. Conto com a animação de vocês! ~por favor, não me abandonem~ hahaha Boa leitura! ♥

Adam engoliu em seco e encarou Adélia com certa admiração.

Ela era determinada. E isso era muito perigoso.

Ele conseguia enxergar as linhas finas de suor que se formavam em sua testa, apesar do vento frio que circundava pelo salão. Adélia estava tensa, trêmula – e, ainda assim, muito firme e decidida.

Adélia fez o possível para se manter firme em sua decisão. A cada palavra que saia da boca dele, Adam hesitava e parecia querer se calar. Ela também pensou em Rafael no momento e em como ele reagiria se soubesse o que estava acontecendo ali. Provavelmente ficaria muito magoado com ela.

—Houve alguém antes de você, Adélia – ele começou. Adam coçou o queixo e resistiu a vontade de sorrir com a reação confusa dela. – O nome dela era Celine Carson, tinha aproximadamente dezesseis anos quando chegou aqui.

Ela engoliu em seco, sentindo seus pés serem sugados pelo mármore que cobria o chão.

—Celine? – Ela fez um esforço, mas aquele nome não lhe era familiar. – Quando ela...

— Há uns dois anos, se não me engano. Faz muito tempo – Adam completou antes mesmo que Adélia pudesse fazer perguntas. Não queria que ela tomasse o controle da situação. – É isso, Adélia. Não há mais nada que queira saber.

—Ela foi embora? – Adélia insistiu. Não estava satisfeita com aquela história, ainda. – Rafael conhecia ela?

—É claro que Rafael conhecia ela – Adam rebateu, impaciente. – Ela foi selecionada para o mesmo propósito que você. As coisas não deram certo com Rafael e ela. Ponto.

—Como assim não deram certo? – Adélia irritou-se. Deu um passo a frente, até estar cara a cara com Adam. – Eu quero saber a verdade, Adam. Não adianta tentar me poupar porque eu não vou desistir!

Adam rosnou baixinho, provocando um calafrio em Adélia.

—E eu quero que deixe essa história para lá, Adélia. – Ele se afastou dela e gritou o nome da mulher que lhes servira o jantar. Um segundo mais tarde e lá estava ela. – Leve-a para o quarto, Payne. E se certifique de que ela esteja lá durante o resto da noite.

—Não! – Adélia se desvencilhou do toque suave da mulher com brutalidade, avançando em Adam. Ela puxou seu blazer contra si, trazendo-o consigo. Esperou até que ele olhasse em seus olhos para dizer: — Você mesmo disse que não poderia me esconder a verdade, Adam. E eu a quero agora!

Adam segurou firmemente os pulsos dela, um tanto abalado por seu toque súbito. Adélia não tremia, não choramingava ou parecia prestes a desmaiar. Pelo contrário: segurava as lapelas com tanta força que foi quase impossível fazê-la soltar sem machucá-la, e seus olhos o encaravam com tanta fúria que quase o assuntou.

—Hoje não, Adélia – ele murmurou. – Você saberá de tudo quando for conveniente. Não force as coisas, ou tudo será pior para você.

Adélia o encarou por mais alguns segundos, segurando com mais firmeza suas roupas.

—Não confio na sua palavra, mas quero que jure que me contará a verdade amanhã – disse. Se não fosse tão magra e pequena, talvez tivesse conseguido derrubá-lo só com a sua fúria.

—Eu juro, se assim desejar – Adam disse, contendo um sorriso. – Vá para o seu quarto, Adélia. Eu já disse que há algo para você lá.

Adélia o libertou com um empurrão.

Sua cabeça doía. Todo o seu corpo, na verdade.

Celine Carson? Quem era ela, afinal? E por quê Adam não queria falar sobre ela?

ஜ

—Há quanto tempo você trabalha aqui? – Ela perguntou para a mulher atrás de si, parando no meio do corredor.

—Perdão? – A mulher murmurou, abobalhada com a súbita curiosidade dela. – Há alguns meses, senhorita.

Adélia ponderou a resposta da mulher e seguiu até seu quarto a passos largos. Tinha quase o mesmo tempo que ela ali, o que provavelmente não lhe renderia nada caso decidisse fazer perguntas.

—Boa noite, senhorita – Payne disse para Adélia após ambas pararem na porta de seu quarto.

Adélia agradeceu, sentindo-se constrangida por ter tentando xeretar com ela.

Tudo o que precisava agora era de um pouco de descanso. Bastou sentir a brisa suave que vinha da janela do seu quarto para um cansaço abatê-la. Fecharia os olhos e não pensaria em mais nada, se pudesse.

—Oh, Adélia! – Jeniffer a recepcionou com a voz calorosa, como se há tempos não se vissem.

A primeira reação dela foi se afastar, tropeçando e batendo as costas na parede atrás de si. Não imaginava uma recepção tão calorosa assim vinda de alguém que, segundo suas recém-descobertas, poderia lhe fazer tanto mal quanto podia imaginar.

Oh, sim. Ainda tenho que lidar com Jeniffer – ou melhor, Marion.

Jeniffer a lançou um olhar confuso ao perceber que Adélia estava evitando o seu contado, mas não disse nada. Seu rosto estava corado, seus olhos estavam arregalados e havia um sorriso congelado em seus lábios.

Antes mesmo que ela perguntasse qual era o problema, Jeniffer deu espaço para que Adélia finalmente entrasse em seu quarto.

Seus olhos caíram sobre a figura esguia e alta que se esgueirava pela janela de seu quarto, aproveitando-se da pouca luz da noite para se esconder. Mas ela sabia que era Rafael.

Seu rosto estava meio iluminado pela luz do quarto e inclinado em um ângulo que o tornava quase invisível – como se estivesse se escondendo delas. Adélia observou com o coração apertado, mas muito feliz por vê-lo assim, que ele estava sem a máscara.

—O que ele faz aqui? – Sua voz saiu mais alta do que desejou. Seu rosto queimou quando ele a encarou por alguns segundos antes de desviar-se do olhar penetrante dele.

—Querida, acho que ele só quer conversar – Jeniffer murmurou bem baixinho em seu ouvido, provocando arrepios em Adélia.

Mas Adélia hesitou.

Não que não quisesse mais falar com ele – mesmo depois do episódio na biblioteca. Sentia-se fraca demais para qualquer diálogo depois de tudo o que ouviu de Adam.

E ainda havia tantas coisas que desejava saber.

Ela respirou fundo e atravessou o quarto até estar diante da saída que dava para a sacada de seu quarto. Fazia muito frio do lado de fora, o que quase a obrigou a voltar para dentro para procurar roupas mais quentes do que aquele vestido estúpido que Jeniffer a obrigara a usar.

—O que foi? – Adélia abraçou a si mesma e encarou Rafael, esperando por uma resposta.

Ele, no entanto, não disse nada. Apenas puxou algo e ofereceu para ela.

—Adam pediu que eu entregasse isto para você – ele disse.

Adélia encarou a caixa retangular nas mãos dele, analisando o objeto embrulhado em um papel de presente ridículo.

—Ah, o presente – murmurou, lembrando-se vagamente da insistência dele sobre aquilo. Não fazia ideia do que poderia ser e tampouco se importava. Ainda não queria nada que viesse dele. – Bom, pode dizer para ele que eu não quero.

—Eu não posso dizer isso para ele – Rafael retrucou, empurrando o objeto na direção dela.

Adélia alternou seu olhar do objeto para Rafael umas três vezes seguidas, antes de puxar a coisa de sua mão e sacudir no pé do ouvido.

—O que é isso? – Questionou, analisando o barulho oco que fazia dentro da caixa.

—Boa noite, Adélia – Rafael murmurou, interrompendo-a enquanto tentava rasgar o embrulho.

O quê?

— Espere! – Ela o interrompeu, deixando o presente de lado. – É só isso?

Rafael parou por um momento e pareceu analisar o ambiente. Aparentemente, estavam sozinhos. Mas ela sabia que, muito provavelmente, Payne ainda estaria em sua porta se certificando de que ela ainda estaria por lá.

—Bom, não sei o que ele prometeu para você, mas eu posso dizer que sim, é só isso — ele rebateu.

O queixo de Adélia caiu, mas ela logo tratou de se recompor.

Ele estava sendo grosseiro com ela, mas por quê?

Será que ainda estava afetado por conta daquela discussão?

Se deveria haver alguém ali a ter o direito de ficar magoada, era, com toda certeza, ela.

—Muito obrigada pelo seu serviço, então – respondeu, ríspida. Seu coração doeu por precisar ter sido tão grosseira, mas pelo menos não o deixaria acreditar que ele poderia magoar os seus sentimentos e depois ficar tudo bem sem ao menos um pedido de desculpas ou uma tentativa de diálogo. – Boa noite para você também.

Ele a encarou por cima do ombro.

Adélia trocava o peso de uma perna para a outra, de braços cruzados. Parecia brava, mas seu rosto demonstrava cansaço e seus olhos piscavam como se estivessem com pesos nas pálpebras.

Por um momento, ele quis perguntar se ela também havia passado a noite em claro por conta dele.

Mesmo com as péssimas noticias que Salvatore trouxe para ele naquele dia, Rafael não conseguia para de pensar em outra coisa exceto no quanto era um idiota e no quanto devia desculpas a Adélia. Estava muito arrependido, mas aquele egoísmo que prendia sua rendição o aplaudia de pé por não se deixar levar pelo olhar de pena que ela lhe lançava.

Era algo inesquecível para ele.

De todas as discussões bobas que já o machucara antes, nenhuma palavra se igualava ao olhar de pena que Adélia o lançou naquele momento. Nem mesmo seu olhar furioso, ou até mesmo o desprezível que ele julgou insuportável, se comparavam com aquele olhar penoso que o fazia se sentir ainda mais miserável. Inútil e feio.

Ele lançou mais um olhar para ela antes mesmo de deixa-la sozinha em seu quarto, partindo sem dizer mais nada.

Adélia se sentiu surpresa quando ele foi embora. Na verdade, ficou surpresa com o alivio que sentiu.

Não aguentaria outra discussão com mais ninguém. Tudo o que queria era fechar os olhos e dormir profundamente. Mas mesmo depois de tudo o que lhe aconteceu naquele dia – depois de Fordy, Jeniffer, Adam – ela não conseguia tirar aqueles olhos cor de chumbo de seus pensamentos.

A ideia de tomar aquela ducha quente era para relaxar, mas a medida em que a água e o sabão escorriam por seu corpo, mais Adélia se sentia suja.

Era estranho pensar que ela quase descobriu algo relativamente importante sobre o passado de Rafael. Ela quase conseguiu estragar tudo também.

Mal conseguia acreditar no que ele faria com ela se descobrisse o quão xereta estava sendo sobre sua vida. Mas também não conseguia deixar de pensar na quantidade de coisas pelas quais ele já deve ter enfrentado por ser quem era para chegar ao ponto de precisar se esconder o tempo todo.

Era óbvio que, por mais que demonstrasse que ele podia confiar nela, Rafael não poderia contar com Adélia tanto quanto ela gostaria. Aquilo a incomodava porque, se não fosse por Adam, ela provavelmente ainda estaria presa naquele circulo vicioso de pressioná-lo, irritá-lo e machucá-lo.

E, se não fosse por Fordy, ainda seria uma iludida que acreditava em qualquer coisa que Jeniffer lhe contava.

Por Deus!

Quantas coisas já haviam mudado desde que ela chegara ali?

Agora deitada e enrolada em seus cobertores, Adélia fez uma lista mentalmente.

Primeiramente, ela já não acreditava mais em Jeniffer. Lembrou-se que tudo o que mais queria na época era que pudessem ser amigas, porque se sentia extremamente sozinha e carente. Agora, no entanto, queria uma distância de milhares de quilômetros daquela mulher.

Agora tinha certeza de que havia sido atacada por ela, que teve suas memorias roubadas por ela e, a mais absurda de todas, tinha a certeza de que Jeniffer não era um ser humano normal – talvez uma bruxa, ou feiticeira. Teria que consultar Fordy para saber como designá-la.

Ah, a certeza mais importante também: precisava se livrar dela o quanto antes. Se Jeniffer descobrisse que Adélia tinha uma gota a mais de conhecimento sobre si, provavelmente não hesitaria em ataca-la de novo.

A segunda coisa era a de que não deveria temer Rafael tanto quanto Adam.

Adam ainda podia manipulá-la. Podia mentir para ela afim de infernizá-la.

Mesmo depois de conversarem – o que ela julgou não sendo tão ruim, já que pelo menos não havia saído aos berros ou com um arranhão sequer – ela ainda sabia que não poderia confiar nele plenamente.

Mas entre Adam e Jeniffer? Obviamente, Adam.

Ela sabia das intenções dele e já não esperava qualquer outra decepção. E, para completar, ainda sentia que Rafael poderia protege-la dele, se precisasse.

Com Jeniffer era diferente, já que Adélia sequer sabia o que ela era de verdade.

A terceira coisa envolvia Fordy.

Era estranho pensar daquela forma, mas ele era, depois de Rafael, a pessoa em quem ela mais confiava. Talvez porque ele a lembrasse um pouco de seu próprio pai, ou porque Rafael parecia confiar nele – mesmo que não deixasse aquilo explícito o tempo todo.

Mas só o fato de a ter salvado algumas vezes e lhe contado algumas verdades já lhe garantia alguns pontos com ela. Não queria se precipitar cantando aos mil sóis que confiava nele. Preferiria esperar por um segundo momento que lhe renderia certeza absoluta.

A quarta coisa – e talvez a mais importante – era sobre Rafael.

Lembrava-se exatamente da sensação que a abraçou friamente quando ele a assombrou no salão, em seu primeiro dia naquele lugar. As coisas com ele haviam se tornado mais complicadas do que nunca. Ao invés de se desenrolar, aquela linha tênue que os unia só se embolava e enrolava-os cada vez mais.

Adélia não o conhecia como acreditava ou desejava conhecer. Rafael ainda era um completo estranho para ela. Ele era complicado, difícil de entender e completamente fora do normal.

Sentia tanta raiva dele por ser tão duro, inflexível e insensível na maioria das vezes que sua maior vontade era a de se manter longe. Mas se manter longe dele era um verdadeiro problema agora.

Adélia precisava dele.

Enquanto mantivesse-o ao seu lado, Jeniffer jamais ousaria fazer alguma coisa para machucá-la – pelo menos era no que acreditava. Ela via em Rafael um ponto de segurança que nem mesmo Fordy ou Adam poderia lhe proporcionar em relação aquela mulher.

No entanto e, por mais que negasse para si e para todos, ele havia se tornado muito mais do que isso. A segurança que ele transmitia para ela ia muito além de força física. Era algo que brotava de dentro.

Ela sabia que estava protegida porque, quando ele segurava sua mão, dava leves apertos para certifica-la de que ainda estava ali. Sabia que estava protegida porque ele estava fazendo tudo o que podia para estar ao lado dela, para mostrar o que estava disposto a fazer por ela e, acima de tudo, ela sabia que estava protegida porque sabia, bem no fundo de seu coração, que ele a amava. Sabia porque ninguém faria aquilo por ela. Nem mesmo os seus pais, embora ela soubesse que era muito diferente.

Adélia sentiu seu peito se apertar quando um soluço a fez perder o foco. De repente, foi invadida por uma onda arrependimento por tê-lo deixado partir tão simplesmente, ao invés de tentar consertar a situação e se entenderem.

Deveria ter pedido para que ficasse mais um pouco – mas agora era muito tarde, e ela precisava dormir. Precisa descansar sua cabeça e seus olhos e, quem sabe, continuar com a sua lista das coisas que haviam mudado repentinamente desde que fora parar lá.

ஜ

Na manhã seguinte, Rafael acordou com a noticia de que Adam esperava para conversar com ele logo cedo, sobre os resultados dos exames e sobre sua decisão de enviá-lo para morrer longe.

Ele estava pronto pontualmente às oito quando soube que Adam só apareceria depois das dez da manhã.

—Ridículo – reclamou para Fordy, que observava atentamente algo além da janela. – Você deve informa-lo de que estarei morto antes mesmo de chagar lá.

—Talvez esse seja o propósito – Fordy respondeu, encarando-o agora enquanto coçava o queixo. – Adam sabe muito bem disso, mas prefere acreditar nos diagnósticos e prescrições de Salvatore. Francamente, ele está tão louco quanto você.

—Eu quero ir – Rafael revelou, arrancando do velho um olhar confuso e calculado. – Não quero morrer aqui, sabendo que ela está logo ao lado. O que vão fazer com o meu corpo? Pretendem me atirar pela janela antes que ela perceba o fedor?

—Não seja tão pessimista – Fordy avisou, voltando a circular pelo quarto. – Salvatore disse que, mesmo sem o tratamento adequado, seu coração pode resistir por mais três semanas. Com o tratamento, talvez dois meses.

—Dois meses? – Rafael bufou. – Vocês não acham que eu já aguentei demais? Conto com o meu fim desde os meus quinze anos.

Fordy piscou, mas não respondeu mais nada. Não queria continuar com aquele assunto.

—O que vai fazer no seu aniversário, a propósito? – Provocou, arrancando um olhar cheio de desprezo do garoto.

—Provavelmente completar menos um ano de vida – Rafael sorriu amargamente com a própria piada, arrancando do velho um olhar cortante. – Vou fazer o que sempre fiz: nada.

—Você deveria pensar em algo especial para fazer com Adélia – Fordy escondeu as mãos atrás das costas e olhou pela janela outra vez. – Como você mesmo disse, menos um ano no sentido literal da palavra.

Estava evitando olhar para o garoto, mas sabia que algo o abalava profundamente.

Era Adélia, o fim daquela maldição maldita e algo mais. Desde que Salvatore anunciara sem nenhuma cerimônia que o seu fim estava cada vez mais próximo, Rafael não era mais o mesmo.

Vivia trancafiado, escondendo-se até mesmo dele e de Adam. Claro, fazia apenas um dia desde a notícia, mas a mudança foi tão repentina e inesperada no comportamento dele que até mesmo Fordy se sentia afetado.

Era o peso da perda, ele sabia.

Rafael já se sentia fadigado na maior parte do tempo e isso se devia mais por ter que lidar com a própria morte sozinho do que pelo o que seu corpo sofria de fato.

O médico não conseguiu prescrever exatamente quando aconteceria, mas parecia que ele, o garoto, já tinha total noção. Doía, muito, vê-lo se preparando para morrer.

A morte, Fordy acreditava, não deveria ser vista como castigo jamais. Era pura como a vida, dolorida como tal e, no fim das contas, prazerosa e feroz, quieta e barulhenta. A vida era prazerosa porque não se vive sozinho. A morte é dolorosa porque arranca o que se tem de melhor – o prazer da vida.

Com Rafael era diferente. Tudo era diferente.

Ele não sabia o que era prazer, não sabia o que era calor e não sabia o que era viver. E não era porque dedicara toda a sua vida a cuidar daquele garoto que doía vê-lo partir.

Fordy o amava como filho. Talvez fosse a única pessoa que já chegara perto o suficiente para amá-lo.

—Fordy? – Ele o ouviu de algum canto atrás de si. – Por quê Adam insistiu para vê-la ontem?

—Não tenho tanta certeza – respondeu, virando-se para encará-lo. – Talvez você deva perguntar, ou a ele, ou a ela.

Rafael fez uma careta e voltou para seus próprios pensamentos.

—Não seja covarde. – Fordy insistiu.

—Não comece — Rafael retrucou, encarando o velho com um olhar afiado.

Fordy ergueu as mãos em sinal de rendição, antes de caminhar até a porta.

—Talvez eu fale com ela mais depois – Fordy provocou. – Pode vir se quiser.

Notas finais
Bom, como eu já disse, dei um furo com vocês nesses últimos tempos. Para tentar "tapar" essa minha furada, tentarei postar dois capítulos por semana. Prometo que continuarei escrevendo até que Adélia e Rafael tenham, por fim, seu "final"... Mas será um "felizes para sempre" ou preferem algo mais trágico? hahaha Fica aí um mistério para esquentar o coração de vocês ♥