A Fera
21 Encontro Marcado
Notas iniciais
Adélia passou o dia inteiro deitada, escondida em seus cobertores. Havia levantado apenas duas vezes para vomitar. Sua cabeça ainda doía tanto que latejava e sua garganta ardia como se estivesse em chamas.
Estava doente, mas não sabia necessariamente qual era o problema real.
—Precisa se alimentar, Adélia – Jeniffer disse, empurrando para cima dela uma tigela com caldo e algumas verduras que ela detestava. – Ficará ainda mais fraca se não comer nada.
—Eu não consigo – ela reclamou. Sua voz estava fraca e saía com um tom exausto e anasalado. – Estou enjoada demais.
Jeniffer balançou a cabeça e deixou a comida na mesinha de centro e saiu, voltando segundos depois com um pires e um copo com água.
—Tome alguns remédios, então – ela insistiu, oferecendo o pires com alguns comprimidos.
Adélia analisou as pequenas rodelas, desconfiada.
Queria se sentir melhor o mais rapidamente possível, mas ainda não confiava em Jeniffer. Mesmo que a mulher estivesse cuidando dela com tanta dedicação.
—Me dê apenas algo para a dor de cabeça – Adélia murmurou.
Estava se revirando de dor. Mesmo depois das dúzias de remédio que tomou desde que acordou, ainda se sentia completamente fraca e doente.
Ela encarou o presente de Adam posto em sua cabeceira, se perguntando se o veria naquele dia.
Havia sonhado com toda aquela situação que enfrentou com ele. Ficava relembrando cada palavra que ele havia lhe dito, repassando e tentando ligar os pontos.
Adam dissera que havia uma seleção e, aparentemente, muitas candidatas. Mas Adélia ainda não entendia o por quê de ter sido a azarada.
Certo, seus pais tinham uma “dívida” – nada justa — com Adam e ela era o preço. Adam havia dito também que havia algo de diferente nela.
Mas Adélia não conseguia acreditar.
Ela não era ninguém e não havia nada demais nela. Não era linda como algumas garotas de sua turma, ou tinha uma personalidade extraordinária. Era a pessoa mais normal, comum e simples que conseguia imaginar no momento. Se a questão fosse por conta de aparência, ela com toda certeza ficaria para trás.
Adélia se sentou na cama, zonza. Tudo ao seu redor pareceu girar ainda mais quando ela levantou e correu para o banheiro.
Seu estômago doía tanto que Adélia teve vontade de arrancá-lo fora. Ela tossiu algumas vezes, mas não saiu nada. Estava quase arrependida por não ter sequer tentado tomar a sopa que Jeniffer lhe oferecera.
Droga!, pensou, sentada no chão frio. Não deveria estar se sentindo tão mal – tinha coisas importantes para se descobrir naquele dia.
ஜ
Eram quase três da tarde quando Fordy bateu em sua porta.
Adélia ficou completamente desconcertada com a visita inesperada do velho, mas não reclamou. Na verdade, quase agradeceu por ele ter aparecido.
—Fordy! – Sua voz anasalada soou quase inaudível. – O que faz aqui?
—Boa tarde, senhorita — Fordy a cumprimentou. Apontava disfarçadamente com a cabeça para a figura que tentava se manter escondida atrás de si, protegida parcialmente pela porta. – Soube que está enfrentando um mal-estar.
—Estou bem – Adélia respondeu, sem tirar os olhos de Rafael. – Obrigada.
Era óbvio que ela o reconheceria, mas por quê ainda tentava se esconder? Chegava a ser ridículo o modo como ele parecia querer evita-la. Mas Fordy deu um passo para dentro, deixando-o sozinho do lado de fora.
Adélia tentou não levar aquela súbita rejeição para o lado pessoal, mas era quase impossível.
— O que fazem aqui?
— Só viemos garantir que a senhorita esteja recebendo o devido tratamento – Fordy respondeu em um tom profissional. Parecia muito diferente do homem que lhe contara coisas sombrias sobre Jeniffer. Estava recatado, em uma postura firme e sério.
— Estou melhorando – disse. Desde que conseguira comer e tirar um cochilo, os enjoos haviam se tornado mais leves e sua cabeça já não pesava como mais cedo. Havia até conseguido se reerguer e tomar uma ducha fria e demorada para espantar a febre.
— Que bom – Fordy completou.
Ele analisou minuciosamente a aparência de Adélia, procurando por algo que ela não podia imaginar. No fundo, só queria garantir que Jeniffer não havia posto as mãos nela.
—É um desejo do meu patrão que se sinta bem logo, Adélia – Fordy continuou, não tão sério desta vez. – Queremos que se recupere logo.
Adélia pensou por um momento, analisando a figura na porta.
Ela então levantou-se e, passando por Fordy como um furacão, abriu a porta com tudo e encarou a figura que se esgueirava pelas sombras do corredor.
—Por quê está se escondendo de mim? – Perguntou, encarando friamente os olhos cinzentos de Rafael.
—Não estou me escondendo de você – respondeu. Estava neutro, recluso e aparentemente impaciente. – Estou esperando por ele.
Adélia suspirou. A bile fez sua garganta doer tanto que quase a fez tossir.
—Está me evitando, então?
Rafael desviou os olhos para Fordy, que fingia estar alheio a tudo aquilo analisando as coisas na mesinha de Adélia.
—Sim – ele respondeu secamente. – Eu estou evitando você.
Adélia piscou. Não era bem o que esperava ouvir, mas pelo menos não estava achando coisas. Estava tão envergonhada que mal soube o que responder.
Ela encarou Fordy também, que agora encarava a ambos com as mãos nos bolsos. Na verdade, seus olhos estavam vidrados em Rafael, quase como se estivesse lhe passando uma mensagem.
—Tudo bem, então – Adélia disse, desconcertada. – Vou facilitar o seu trabalho e deixa-lo em paz.
Rafael segurou seu punho, impedindo-a de entrar. Ela suspirou ao sentir o toque gelado de seus dedos em sua pele quente, resistindo a vontade de puxar seu braço. Foi quando ela percebeu que ele estava sem luvas. Adélia encarou a mão que segurava seu punho com certa admiração, lembrando-se vagamente da primeira vez que as viu.
E eram exatamente do mesmo modo como se lembrava.
Seus dedos eram esguios, pálidos e muito gelados. Sua pele era macia, mas aquelas raízes que pareciam ter vida própria eram assustadoras demais.
— Precisamos conversar – ele murmurou, tão baixinho que apenas ela ouviu. Adélia pensou em fazer piada de seu pedido, mas o tom de urgência que seus olhos lhe transmitiam fez seu peito se apertar.
Ela assentiu em resposta. Não sabia muito bem o que esperar daquela conversa, mas se esforçou para não deixar sua ansiedade transparecer.
Seu coração bateu mais forte quando percebeu que Rafael se aproximava junto com ela para dentro.
Fordy conseguiu perceber que ele parecia mais forte perto dela, como se não tivesse que segurar o próprio mundo sozinho, cercando-se de muros.
— Fordy? – A garota se aproximou dele sorrateiramente, murmurando. – Onde está Jeniffer?
Fordy olhou para ela e suspirou, antes de voltar seu olhar para o ambiente.
— Adam está aqui – respondeu, apenas. Pelo olhar arregalado e surpreso da garota, ela então tinha entendido.
Desde cedo que Adélia não a via. Jeniffer havia saído e mal falou com ela, como de costume. Deveria estar muito apressada para sair de forma tão brusca.
— Adam está aqui? – Reafirmou, arrancando um olhar de advertência do velho. – Eu quero falar com ele.
Ambos os homens olharam para Adélia como se ela estivesse enlouquecida. Fordy fez questão de se mostrar discreto, enquanto Rafael deu um passo a frente e, de braços cruzados, a encarou.
Parecia esperar por explicações, coisa que Adélia não poderia lhe dar no momento mesmo que quisesse.
— A senhorita deseja que eu o chame? – Fordy se pronunciou. Rafael não desviava os olhos dela.
— Por favor – Adélia pediu, cruzando os braços também. Estava ficando desconcertada com o olhar de Rafael sobre si. – Se puder, diga que estou esperando no salão.
— Não pode ir – Rafael murmurou. Sua voz parecia afetada com a decisão dela. – Está doente.
— Estou melhor, Rafael – ela respondeu. Ele não entenderia, mas ela precisava daquilo. Precisava tirar todas aquelas ideias e adivinhações que vinha criando para preencher o vazio que sentia por não saber de nada. E Adam havia prometido para ela que esclareceria alguns fatos. – Eu preciso conversar com ele.
Fordy não quis questionar mais nada, mas seus instintos gritavam em alerta.
Era muito estranho que, de repente, Adélia precisasse conversar com Adam. Ele sabia do que Adam era capaz de fazer e, muito provavelmente, estava armando algo com aquela garota.
Sua língua coçava para tentar descobrir algo, mas temia o que poderia ser.
— Se me derem licença...
— Não – Rafael o interrompeu. – Deixe que eu vá, Fordy.
Ele deu uma última encarada em Adélia antes de fechar a porta atrás de si.
Adélia mal teve tempo de respirar quando Fordy espalmou seu ombro, sacudindo-a.
— O que deu em você? – Murmurou, chamando sua atenção. Sua mão pesava em seu ombro, fazendo com que ela quase se curvasse. – O que você quer com Adam agora?
— Ei! – Adélia o interrompeu, se afastando do toque do velho. Ela encarou os olhos faiscantes dele, tensa. Fordy parecia pronto para gritar com ela. – Ele me deve algumas satisfações.
— Ele é perigoso, Adélia. Não deveria confiar nele – ele avisou, cruzando os braços. – O que ele contou para você?
Adélia pensou por um momento, se perguntando se deveria ou não contar para Fordy o que ainda pretendia descobrir.
— Ele me contou coisas pequenas, Fordy – disse, cautelosa. Estava ficando nervosa por conta do olhar avaliador do velho.
— Adélia— sua voz saiu baixa, mas o tom de aviso que acompanhou foi tão poderoso que fez o couro cabeludo dela se arrepiar. – Adam pode mentir para você. Pode contar coisas horríveis para atingi-la. Como pode confiar nele?
— Eu sei disso. E não confio nele – ela respondeu. Sua cabeça começava a latejar novamente. – Estou cansada de me sentir sempre no escuro, Fordy. Sinto que é um direito meu descobrir algumas coisas que me convém.
— Do que você está falando, garota?
Adélia respirou fundo e fechou os olhos por um momento.
— Me sinto insegura perto de Rafael. – Murmurou. Estava tão tensa que os tendões de seus punhos cerrados doíam. – Não sei quase nada sobre o passado dele e sei que deveria saber. E Adam prometeu que me contará o que eu quiser saber.
— É um jogo perigoso. Você tem noção disso? – Fordy estava começando a ficar furioso. Parecia sentido por conta daquilo, como se estivesse sendo atingido. – Existem coisas, Adélia, que Rafael mantém em segredo por alguns motivos. A maioria deles é para mantê-la protegida, a outra metade é para se proteger. Você faz ideia do que pode causar se continuar fazendo fofocas com Adam?
Adélia engoliu em seco, tremendo.
Fordy tinha razão, claro. E Adélia sabia muito bem que haviam coisas em jogo.
Coisas tipo os sentimentos de Rafael.
— Eu não consigo mais conviver desta forma. – Adélia tocou a própria testa, que ardia em febre. – Eu tenho medo de descobrir quem ele é de verdade, mas não consigo viver fingindo que está tudo bem. Eu não consigo não questionar seu passado, Fordy. Mas tenho medo do que posso encontrar lá também.
Fordy engoliu em seco e esfregou os olhos com os dedos gélidos.
Não imaginava que a situação estava tão perigosa àquele ponto, onde Adélia se via tão desesperada por respostas que recorria a Adam para se sentir menos agonizada.
Por um lado, por conhece-lo tão bem, Fordy defendia com unhas e dentes Rafael. Ninguém mais do que ele conhecia tão bem o garoto e Fordy sabia o que ele já tivera que enfrentar. Foram lutas árduas, doloridas e até mesmo mortais. Entendia o motivo que levava o garoto a querer esconder com tanta força o seu passado.
Mas também entendia aquele tipo de jogo que era sua maldição.
Sabia que, quanto mais Adélia se visse alheia a tudo aquilo, mais o tempo passava e mais ela afundaria num abismo de negligências.
Mas e se ela descobrisse os horrores sobre o passado de cada uma daquelas pessoas?
O fato era que, tudo, todos os planos, as soluções ou como quer que Jeniffer chamasse o momento em que a maldição se partiria, dependia inteiramente daquela garota. Se ela escolhesse ficar, todos teriam uma chance. Mas, se fosse embora, ou se seu espirito ainda desejasse voltar e abandoná-lo ali, então estaria tudo perdido.
Agora, se ela cavasse muito, mais muito fundo naquele passado sombrio, então Rafael não teria outra alternativa. Seria impossível para a garota também, conviver com aquilo.
— Adélia, existem coisas que... – Fordy engasgou com a bile que subia por sua garganta. Estava nervoso, suando. Era o momento que ele sempre detestou: revelar coisas. – Bom, o que há no passado de cada um de nós tem um peso muito grande no que somos hoje. Rafael teve de enfrentar coisas que você jamais poderia imaginar e mexer em seu baú de momentos ruins pode trazer consequências desastrosas para vocês.
Adélia piscou, processando cada palavra que lhe foi dita com muito cuidado.
Ela não sentia medo do que aquilo poderia lhe causar. Temia muito mais em descobrir coisas horríveis sobre ele do que as consequências que lhe alcançariam.
— Por quê todos tratam ele como um monstro, Fordy? – Questionou, sentindo seu peito se apertar. Queria chorar, talvez por conta da ânsia que sentia ou por se sentir pressionada pelo velho a ficar quieta. – Ele não é assim. Eu acredito nele.
— Não é este o ponto, Adélia. Não é sobre o que achamos que ele seja. – Fordy enfiou as mãos nos bolsos e puxou um relógio, fitando o objeto com ansiedade.
— Eu não tenho medo dele — havia um pouco de mentira em sua frase, mas Adélia disse com toda a confiança que podia. Tinha medo, sim, de quem Rafael poderia ser, do que poderia ter feito. Era assustadora a forma como Fordy e Adam se esforçavam para manter tudo em completo sigilo, como se a coisa fosse tão grave ao ponto de lhe causar mal.
Fordy encarou a garota. Estava perdendo um tempo precioso tentando convencê-la a fazer o contrário, mesmo que no fundo soubesse que seria impossível contê-la. Mas Adélia tinha coragem e isso era uma das coisas que ele não poderia reclamar.
O velho deu um passo à frente até estar cara a cara com ela, tão próximo que conseguia sentir sua respiração batendo contra sua pele.
— Não sou eu quem vai impedi-la, Adélia. Mas é meu dever avisá-la sobre esse risco que insiste em correr – avisou. Sua voz estava baixa e com um leve tom de fúria. – Você vai se expor e, por consequência, vai expor Rafael também. As coisas terão que ser diferentes a partir daí – Adélia suspirou, sentindo seus olhos lacrimejarem quando um calafrio percorreu sua pele quente. – Você não só trairá sua confiança, como também poderá partir seu coração.
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