A Feiticeira e o Tigre
4 Capítulo 4
Aud caminhava há muito tempo e não tinha muita certeza de que encontraria Bado. De repente, parou um pouco e percebeu que não estava sozinha.
Deu-se conta que estava cercada por uma grande alcateia de lobos. A maioria das pessoas poderia ficar extremamente assustada diante desse fato, mas Aud permaneceu impassível.
Os lobos se aproximaram, rosnavam e deviam estar famintos. Mas Aud não moveu um só passo. Se demonstrasse medo, eles a atacariam.
Não muito longe dali, Bado se aproximou e viu o que seria o exército de Loki. Centenas de Gigantes do Gelo, o belicoso povo que habitava as montanhas, se preparando para atacar uma pequena vila. Aquela vila era um importante ponto estratégico, era dali que mercadores traziam produtos de outras terras para serem comercializados.
Uma voz familiar vindo das árvores, chama a sua atenção.
—Estávamos achando que você tinha morrido, Bado.
—E quase morri, Fenrir. -Bado dá um sorriso. -O que faz por aqui?
O jovem guerreiro deus de Arioth, desce da árvore e fica agachado ao lado do companheiro.
—Os lobos me disseram sobre esse exército que pretendia atacar Eltanin. Decidi vir até aqui e dá um jeito neles.
—Você? Sozinho!?
—Não pretendia fazer o mesmo?
—Claro. Olhe, são homens daquele traidor do Loki e estão muitos bem organizados.
—Estão bem armados.
—Como alguém como Loki conseguiu a liderança de um exército desses?
—Deveríamos identificar o líder e acabar com ele primeiro.
—Tem razão. E aposto que é aquele baixinho com a armadura mais incrementada. Nem é um gigante! -falou uma voz feminina atrás dele.
—É mesmo. E ...AUD! -Bado quase gritou.
—Shhh! –ela fez um sinal com o dedo indicador em seus lábios. -Quer que todos saibam o que estamos aqui?
—Quem? –Fenrir vê admirado seus lobos atrás da jovem, mansinhos como cães de companhia. -Guingue! Mandei que vigiasse! Quem é ela, Bado?
—Uma grande dor de cabeça! -ele a olhou furioso, controlando a vontade de esganá-la. — Aud, mandei que fosse para Valhalla caso não aparecesse!
—ESSA estrada leva para Valhalla. -falou apontando para a estrada ocupada pelos gigantes. -É a única que conheço. Não tenho muitas opções, não é? Terei que ficar aqui, com você.
Ela o encarava com um sorriso de vitória. Bado não achava nada daquilo engraçado. Será que ela não via o perigo que corriam?
—A propósito, educação não deve ser o seu forte, Bado. -ela estende a mão para Fenrir. -Sou Aud do clã Haydn. A feiticeira que vai ajudar vocês. Não fique zangado com Guingue, mas quando ele me falou sobre um guerreiro deus que era um companheiro da alcateia, pedi que me trouxesse até aqui. Ele bem que não queria, mas acabei convencendo-o.
—Você conversou com ele! -Fenrir estava cada vez mais admirado. -Então é verdade o que dizem sobre vocês terem grandes poderes?
—A maioria das coisas que dizem sobre nós é exagerada. Não voamos em vassouras, por exemplo. Você não me disse seu nome.
—Sou Fenrir, guerreiro deus de Arioth, a estrela Épsilon, milady. -e pegou em sua mão como um cavalheiro e a beijou.
Bado precisou se controlar. Estava com ciúmes da maneira tão educada que ambos se tratavam. Pareciam velhos conhecidos.
—Foi muita imprudência sua vir até aqui! -Bado a repreendia. -Quase fomos descobertos por sua causa.
—Que eu me lembre, foi você quem gritou.
—Não precisava vir até aqui. Você parece ser inteligente, descobriria um meio de chegar a Valhalla sem precisar dessa estrada!
—Me diga, "senhor Gentileza", como poderia ir até Valhalla se nunca estive nesse reino e não conheço suas estradas ou suas florestas?
—Pergunte para seus amigos com cérebro de passarinho! Afinal você "fala" com os animais.
—Grosseirão!
—Pare de me adular com palavras carinhosas, mulher. -respondeu com sarcasmo.
—Quem olhasse para vocês iria pensar que estão casados há muitos anos. — comentou Fenrir, achando graça da discussão.
Ambos ficaram ruborizados com o comentário e responderam ao mesmo tempo:
—Nem pensar!
—Nunca!
Em silêncio, apesar do sorriso de Fenrir, os três continuaram a observar os prováveis oponentes.
—A vila não têm defesas. Se atacarem será um verdadeiro massacre. -Bado murmurou, preocupado.
—O que pretendem fazer? -Aud perguntou curiosa.
—A diferença numérica é óbvia. -Fenrir comentou. -Talvez, quatrocentos gigantes para cada um.
—A vantagem é nossa ainda, Fenrir.
—Homens...Pensam com os músculos e não com a cabeça. -Aud comentou com ar de tédio.
—E por acaso tem uma ideia melhor? -Bado estava irritado. Não apenas com o comentário dela, mas por que se preocupava com a sua segurança se alguma coisa acontecesse com eles.
Ela os observou por alguns instantes, levantou-se e falou:
—Tenho sim.
E passou por entre os guerreiros, indo em direção ao acampamento.
—Está louca? -Bado tentou pegá-la, mas Fenrir o segurou. -Solte-me, Fenrir!
—Seremos descobertos! Se nos pegarem, não vamos ajudá-la e nem as pessoas da vila. Vamos ver o que ela fará. A senhorita Aud não parece ser uma pessoa que age impulsivamente.
—Estamos falando da mesma mulher? Ela quer me enlouquecer!
Os soldados inimigos olharam admirados a bela dama que entrava no acampamento sem medo, ela caminhava com o porte altivo de uma rainha indo em direção ao líder do grupo.
—Ora, ora! O que temos aqui? -um homem de aparência rude, cabelos prateados e olhos azuis perguntou, deixando de lado seu odre de vinho. -Quem é você, minha bela?
—Procuro o nobre líder desse exército. -falou com humildade. -Venho em paz e trago uma mensagem muito importante em nome do mestre Loki!
—É mensageira do mestre Loki? –o homem a olhava com suspeita. -Por que ele enviaria uma mulher fazer o trabalho de um homem?
—Se me disser quem levar ao seu líder, responderei com prazer.
—Sou eu. Fafnir! -ele se ergue e revela que apesar de não ser um dos gigantes, era alto, com quase dois metros. -Fale o que quer.
—Mestre Loki avisa que Hilda de Polaris pretende fugir do Palácio Valhalla pela estrada que corta as montanhas ao leste. -disse apontando em direção as montanhas. -É a oportunidade perfeita para matá-la! Ele quer que a intercepte e a destrua. Se for bem sucedido, recompensas o aguardam...inclusive eu. Fui mandada para servi-lo e confortá-lo nessa batalha. -ela faz um gesto e revela seu generoso decote.
O gigante a olhou com lascívia e luxúria. Era uma bela mulher sem dúvida.
—Como poderia saber se o que diz é verdade?
Ela o encarou, seus olhos se encontraram. Sem perceber, Fafnir estava nas mãos de Aud.
—Estou dizendo a verdade, senhor. É melhor levar muitos soldados, os guerreiros deuses a acompanham.
—Esteja em minha tenda me esperando, beleza. –ele falou acariciando seu braço, depois se virou para um gigante ao seu lado. -Dunstein, você irá liderar o acampamento em minha ausência, mantenha o cerco à vila.
—O que ele está fazendo?! -Bado estava indignado. -Se ele ousar tocar nela de novo...Arranco o coração dele com minhas garras!
—"Age como um marido ciumento." -Fenrir pensou.
—Aquele verme!...
—Eles parecem que estão levantando acampamento! Estão se dividindo!
Um numeroso grupo de gigantes seguiu em direção às montanhas do Leste. Deixando um pouco mais de cinquenta gigantes no acampamento.
—Não acredito! -Bado estava perplexo, de algum modo ela reverteu a situação e garantia a vitória deles em um combate.
Depois que os inimigos sumiram de vista.
—Vamos! -Bado ordenou.
De repente, o combate teve início. Escondida na tenda do chefe, Aud começou a rezar, temendo que algo acontecesse com os guerreiros. Tudo parecia que haviam durado horas, mas depois de alguns minutos, olhou para fora e viu que a luta cessara. Viu os corpos dos soldados inimigos ao chão e um deles amparar um outro ferido e sair correndo, sendo seguido por outros três.
Bado fez questão de ir atrás deles, para eliminar todos os inimigos, mas Aud ficou na sua frente com um olhar clemente.
—Deixe-os ir, por favor. Eles querem apenas salvar a vida do companheiro. Já houve mortes demais aqui.
Diante do pedido dela, Bado ficou estático. Aud estava se preocupando com a vida do inimigo. E ele admirava isso.
—E se os outros voltarem? -Fenrir perguntou. Tentando conter com uma das mãos um ferimento no braço.
—Meu encanto os fará andarem por dias nas montanhas, perseguindo uma ilusão. Teremos tempo de levar todos da vila para um refúgio. Está muito ferido, Fenrir?
—Foi apenas um corte. Um deles me atingiu por pura sorte. -Aud espalhou unguento sobre a ferida e começou a tratá-la. -Não precisa se preocupar.
—Posso dar uns pontos. Ficará apenas uma cicatriz pequena. -disse pegando o que precisava de sua sacola.
—N-Não precisa...
—Eu não mordo. -ela replicou, começando a tratar a ferida e a dar os pontos. -Pare de agir como um bebê chorão.
Bado sentiu-se ridículo pelos ciúmes que o assaltara. Ela estava cuidando de um companheiro de batalhas e queria esmurrá-lo por vê-lo ser tocado por Aud.
Súbitos, homens a cavalo vindo da vila já os tinham encontrado. Deram as boas-vindas e os encaminharam até a vila. Quando finalmente chegaram, a população inteira tinha se reunido para recepcioná-los na praça principal com uma festa.
Muita música, várias fogueiras acesas. Havia pratos deliciosos e de todos os tipos sendo servidos. Mulheres e crianças lhe ofereciam flores e agradecidas lhes beijavam as mãos e as faces.
Eles foram cercados por várias pessoas que os enchiam de perguntas e de abraços carinhosos.
O líder local, que se identificou como Svend, pediu espaço às pessoas e ofereceu aos guerreiros e a dama que os salvaram sua residência para que pudessem se lavar e se arrumarem para a festa em sua homenagem.
Eles aceitaram, menos Fenrir que como sempre era desconfiado, ficou em um canto, observando o movimento.
Mas até mesmo o guerreiro deus que não gostava muito das pessoas, sentiu-se bem, embora constrangido, pelas atenções dadas pelas pessoas a ele e a seus lobos, que se alimentavam com pedaços gordos e suculentos dos assados.
Uma linda loira colocou um colar de flores em seu pescoço e um beijo de leve em seus lábios, deixando-o sem graça, principalmente quando ela o arrastou para dançar junto aos outros.
Da janela, Bado presenciou a cena e achou graça de ver Fenrir junto às pessoas, se divertindo. Não o culpava, a jovem era muito bonita e estava interessada nele.
Havia se lavado e recolocado a armadura. Como Aud estava demorando, foi para fora e se reuniu aos demais.
Logo, Fenrir se juntou a ele.
—Pelo visto, você se tornou o herói desta vila, Fenrir.
—Não estou acostumado com isso.
—Hilda pretendia devolver-lhe o título e as terras de sua família. Talvez, quando essas batalhas cessarem, seja o momento para reconstruir o nome dos Fenrir e ter uma família. -comentou enquanto observava alguns casais dançando.
—E por que você não faz isso?
—Teria que conquistar minhas próprias terras. Esqueceu que, por lei, não tenho direito a nada da minha família? Mas essa ideia já me passou pela cabeça. -principalmente depois de Aud. -Um homem não pode viver sozinho.
—Vivi muitos anos sozinho. Longe dos homens, mas hoje...-ele tocou o braço cujo ferimento fora tratado por Aud. -Hoje tive vontade de acreditar nas pessoas. Acho que Shiryu de Dragão tem razão.
—Como assim?
—Quando nós lutamos contra os cavaleiros de Atena, o Cavaleiro de Dragão me disse que nem todas as pessoas do mundo eram iguais àquelas que abandonaram a mim e meus pais, havia pessoas que poderiam ser minhas amigas ... como Aud.
—É. Ela tem o dom de cativar as pessoas. Quando não as irrita!
—Deixa disso! Ela não é irritante. Alguns rapazes daqui ficaram tão fascinados pela beleza dela que queriam cortejá-la. Para evitar confusões eu disse que ela era a sua esposa.
—VOCÊ O QUÊ?!
—Ora, vai me dizer que não gostaria que isso fosse verdade? Eu sei que você está atraído por ela pela maneira como a olha, e você é correspondido.
—Agora quem está falando besteiras é você! Bebeu muito?
—Se uma mulher me olhasse da maneira que ela o olha, eu não a deixaria escapar.
—Aquela linda loira te olha com muito interesse. -apontou com malícia.
—Quem? Endredi? -perguntou ruborizado. -Estávamos apenas dançando e...
Parou de falar quando Endredi passou em frente a eles e fez um gesto para que Fenrir a seguisse.
—Já sabe até o nome da sua dama? Vá logo antes que ela mude de ideia.
—Mas...eu nunca... -Fenrir estava apavorado. -Nunca estive com uma mulher...
—Quantos anos você tem, Fenrir? Dezessete? É a sua primeira vez! O Lobo Assassino tem medo de uma mocinha? -Bado se divertia com o acanhamento do colega.
—Dezoito. -Ele o corrigiu, com um olhar bravo. -E não tenho medo. Se tem amor aos dentes para com isso!
—Deixe o instinto agir. Endredi também parece ser inexperiente. -era a voz feminina de Aud que vinha atrás deles, assustando-os novamente.
—Podia parar de chegar assim tão sorrateiramente por trás e...
Bado iria provocá-la, mas calou-se diante da beleza dela. Estava banhada, com flores nos cabelos e um vestido branco, com flores douradas delicadamente bordadas.
Bado a observou fixamente. Silhueta delgada, seios firmes delineados sob os finos tecidos do vestido, cujo decote generosamente proporcionava uma visão tentadora. Ela o encarou.
—Que foi?-perguntou com uma voz firme, mas melodiosa.
—N-nada.
—Está linda, senhorita! -Fenrir a elogiou, verdadeiramente admirado.
—Era de minha mãe. -ela pega na saia do vestido e dá uma volta, exibindo-se. -Então, estou bem?
—Você...hum-hum. -Bado pigarreou.
—Enquanto o cérebro do Bado está formulando uma resposta para a minha pergunta, eis aqui meu conselho Fenrir. -ela se virou para Fenrir, ignorando o olhar raivoso de Bado. -Não deve deixar uma mulher esperando.
—Mas...o que eu faço?
—Primeiro, apenas converse com ela. –ela sugeriu. -Depois, deixe que as coisas acontecem.
O jovem assentiu com a cabeça e seguiu a loira.
—Ah! Primeiro amor! -ela sorriu ao proferir essas palavras. Sabia exatamente o que ele sentia. Estava vivendo o mesmo dilema. Tudo seria mais fácil se Bado não fosse tão arrogante. -E então? Estou bonita?
—Está...linda!
Ela deu um sorriso maravilhoso.
—Obrigada. Achava que esse vestido nunca serviria em mim. Por que me olha assim, Bado?
—Assim como? -desconversou.
—Eu não sei. Parece que quer me dizer algo.
—“Claro que quero dizer. Queria dizer que queria estar com você em meus braços." -pensou, sem coragem de falar nada. Afinal, prometeu que não faria nada que o fizesse se arrepender depois.
Uma música alegre preencheu o ar, uma garota de cabelos ruivos apareceu e a puxou para onde as mulheres haviam se reunido para dançar.
—Vamos dançar. -disse eufórica.
Estimulada pela alegria da jovem, Aud se viu obrigada a acompanhá-la. Lentamente começou a dançar.
Braços erguidos movendo-se graciosamente ao som dos músicos, olhos fechados, seios delineados sob a blusa, quadris ondulando num ritmo sensual. Parecia uma fada dançando.
Bado mal ouvia os gritos e assobios dos homens para as mulheres que dançavam. Estava concentrado apenas em Aud e como seus movimentos o fascinavam. Quando a música terminou, ela parou diante dele. Arfante, sorrindo feliz por estar cercada por tanta demonstração de carinho.
Praguejando em pensamento, Bado mandou o bom senso para o inferno e a tomou em seus braços, beijou-a ardorosamente, pegando-a de surpresa.
Aud refeita do susto, enlaçou-o pelo pescoço e começou a corresponder ao beijo, separaram-se apenas por que precisavam respirar. Ela o queria tanto. Precisava dele. Mas, no fundo sentia-se amedrontada.
—É melhor... eu ir. -disse ela e empurrou-o.
—Aud...
Ela se afastou e se juntou às outras mulheres.
Horas mais tarde, enquanto que os homens mais exaltados pela bebida ainda dançavam e bebiam lá fora. Bado e Aud foram hospedados pelo chefe da aldeia e pela sua esposa, Asa. Fenrir ainda estava acompanhado por Endredi, conversando em algum lugar mais privativo.
Bado e o chefe estavam entretidos num jogo de tabuleiro, ao mesmo tempo em que discutiam como levar as pessoas em segurança dali.
—Você não está prestando atenção, rapaz. -o Svend reclamou. -Se fizer essa jogada estará me entregando a sua rainha.
—Desculpe...estou com a cabeça cheia e há muito tempo não jogo taft.
—Se continuar assim, vou ganhar. -ameaçou o senhor com um sorriso.
—Não consigo me concentrar com ela me espiando e resmungando cada vez que movimento uma das peças. -Bado olhou sobre o ombro em direção a Aud, atrás dele, que no momento olhava para o tabuleiro e tinha a testa franzida. -Entende o que quero dizer, Svend?
—Ela é a sua esposa. Tem todo o direito de espiar. -disse dando os ombros.
Bado murmurou uma praga, ela não era a esposa dele, mas também não desmentiu o que Fenrir havia dito. Bufando movimentou uma peça. Aud esboçou um sorriso desdenhoso e balançou a cabeça negativamente.
—Quer parar com isso? -ele pediu, nervoso. -Eu sei jogar taft!
—Não parece. -ela falou, ignorando o olhar severo dele, depois lhe cutucou as costas. -É a sua vez de novo.
—Acaso sabe jogar? -sua pergunta parecia um desafio.
—Hum...mais ou menos. Mas, não estou a fim de jogar hoje.
—Isso, jogue com seu marido. Está tarde, e esses velhos ossos estão pedindo pela minha cama.
—Não, obrigada.
—Não a force Svend. Mulheres não têm inteligência e nem perspicácia suficientes para jogos de estratégia. Vai ficar envergonhada quando perder. -Bado comentou com desdém.
A reação foi imediata e Aud lançou lhe um olhar assassino. Por um momento, Bado temeu pela vida. Se estivesse armada com uma faca, com certeza teria pulado em sua garganta.
—Afaste-se, Svend. -disse ela encarando Bado. –Farei engolir suas palavras, Guerreiro deus.
O senhor afastou-se e sentou ao lado da esposa, se divertindo com a cena.
—O jogo vai ser divertido. -Svend comentou com a esposa que assentiu sorrindo.
Bado fez um movimento, Aud olhou bem para o tabuleiro e realizou sua jogada. Durante todo o jogo ficaram em silêncio, um analisando as jogadas e movimentos do outro. Quando ia realizar um movimento com uma peça, que o colocaria perto da vitória.
—Eu não faria isso se fosse você. -ela o advertiu.
—O movimento está valendo, “esposa”. -disse irritado, disposto a derrotá-la no jogo.
—Tudo bem. -falou suspirando.
Ele riu, certo da vitória. Nos três movimentos seguintes sua expressão foi de completa perplexidade.
—Raichi! -ela disse calmamente, com um sorriso. -Você foi derrotado, “marido”.
—Mas...como...impossível! -estava olhando o tabuleiro, relembrando os movimentos das peças de Aud e procurando descobrir onde errara. -Quem lhe ensinou a jogar?
—Meus avós adoravam jogar taft todas as noites. Vovó me ensinou e nós duas jogávamos sempre.
Ela mantinha o sorriso de triunfo. O sangue dele ferveu. Svend deu uma gostosa gargalhada.
—Sua esposa é admirável, rapaz! É um afortunado! -ele falou dando-lhe um tapa nas costas. -Vamos dormir. Minha esposa já arrumou o quarto de vocês.
Ambos olharam para Svend e para Asa. Dormiriam em um quarto de casal! Juntos!
x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x
Fafnir e seu exército ainda perseguiam a pista falsa sobre Hilda, quando sombras ameaçadoras projetavam sobre eles, como pássaros predadores sobre uma presa indefesa.
—Quê! -Fafnir estancou apavorado.
—Idiotas! Deixaram-se levar por um embuste!
—M-Mestre B-Belzebu! M-Mestre Ashtaroth! Sua Majestade Loki! –Fafnir gaguejava apavorado.
Belzebu, um dos Anjos da Morte, trajando uma armadura parecida com a que possuía outrora, agora negra. Seus olhos fuzilavam os homens que se deixaram enganar pelo inimigo. E Ashtaroth, o Anjo da Sabedoria, também trajava uma armadura negra, e tinha uma expressão indecifrável. Ao lado desses arautos das trevas estava o deus Loki, com a expressão de quem estava furioso.
—Foram vergonhosamente enganados por uma mulher! São uns inúteis! -falou Ashtaroth. -Deveriam ser castigados como exemplo.
—M-Mestres, deixe-me...AAHHH!
Fafnir é definitivamente silenciado quando uma mão com garras afiadas projeta-se de seu peito. Erigor de Mantis, após seu ato covarde de assassinato, joga o corpo de Fafnir longe como se fosse lixo.
—Idiota! Eu mesmo irei acabar com aquele guerreiro deus e a mulher. Não se intrometa nisso Belzebu! Fui derrotado por eles e não posso voltar a encarar o belo rosto de nossa mestra sem levar suas cabeças como presente!
Belzebu dá um sorriso irônico.
—Mantis, sua vergonhosa derrota já chegou ao conhecimento da mestra e você sabe que ela não tolera fracassos. Está tão furiosa que mandou informar que um dos seus generais chegará em breve para cumprir a missão que deveria ser sua. Mas, em nome dos velhos tempos, pode ir ter a sua vingança. No entanto, Ashtaroth irá com você...como garantia de uma vitória.
—Um dos Generais!-ele estava assustado. -Não preciso de...
—Não tem escolha, foi decisão do Anjo da Destruição. Vai contrariá-la? — Belzebu o encarou erguendo uma sobrancelha.
A simples menção desse nome fez Erigor ter um arrepio, sabia o quanto era terrível esse anjo a quem a mestra tinha muita confiança. Teve que aceitar resignado.
—Está bem.
—Levarei o exército até Valhalla. Até amanhã os muros do palácio estarão em ruínas e a mestra terá o que deseja. -disse Loki, depois acrescentou com um sorriso. -Irá conosco, senhor Belzebu?
—Sim.
Continua...
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