A Feiticeira e o Tigre
2 Capítulo 2
—Está ardendo em febre, vovó! -murmurou Aud, colocando a mão sobre a fronte escaldante e úmida de Bado. -Será que demos o remédio tarde demais?
A velha senhora se aproximou do leito, examinou-o com o olhar. Depois abriu uma das pálpebras dos olhos do rapaz e examinou a íris.
—Hum...não! Veneno de dragão é assim mesmo, costuma ser mortal! Lembre-se de que foi assim que seu avô morreu, era tão jovem e forte mas não resistiu. -ela voltou-se para a saída do quarto. -Se ele tiver um corpo forte, sobrevive! Senão...paciência. Sua irmã e eu fizemos o possível. Agora, cuide dele.
—Eu tenho que cuidar dele? -exasperou-se.
—Sua irmã tem que voltar e cuidar da família dela. As menores não saberiam cuidar de um doente, e elas têm outros afazeres. Tenho que colher ervas, ir até a casa daquela família perto da colina, o moleiro e os filhos estão com febre e me pediram para ajudar. Sabe que nunca negamos ajuda a quem nos pede.
—Pedem ajuda e nos ignoram por sermos bruxas. -disse com amargura.
—Feiticeiras e curandeiras. -a avó a corrigiu. -Somos o que somos.
—Ele não morreu, vovó? -perguntava uma menina de uns 13 anos, cabelos também negros, presos em duas tranças e olhos azuis curiosos. -A Teanna disse que ele irá morrer.
Aud virou-se para a irmã e disse:
—Lorchen, quero que diga a Teanna que devia estar cuidando dos animais ao invés de ficar agourando.
A menina entrou e olhou curiosa para o homem deitado na cama de Aud.
—Teanna disse que ele matou o dragão! Então é ele o homem que vai levá-la embora para sempre? -perguntou com o olhar angustiado.- A Teanna disse que a vovó teve uma visão em que você iria embora com um homem de armadura branca...
—Lorchen! -Aud a olhou com rispidez. -Teanna fala demais e você sabe disso! Agora saia, ele precisa de cuidados e não de curiosas.
—Não liga, meu anjo. Sua irmã é mal-humorada mesmo!
—"E se for ele mesmo, terá que domar o gênio da minha neta primeiro." -a senhora pensou.
—Ela não gosta de homens, vovó?
—LORCHEN! -jogou um de seus sapatos na irmã, que quase a acertou.
Assim que a avó e a irmã mais jovem saíram, rapidamente, Aud começou a pensar por que tivera uma visão com esse homem? Sentia que ele era problema. Não gostava de estranhos, em geral eles vinham querendo tirar proveito dos dons de sua família.
Todas do clã Haydn eram mulheres, e bruxas. Mulheres de cabelos negros e olhos azuis claros como cristais.
Ninguém em juízo perfeito na região pensaria em visitá-las usando a estrada que passa perto do lago. As árvores milenares indicavam o início do território do dragão. Ou ele não pediu informações às pessoas que moravam perto ou era um perfeito tolo!
Quando encontrou Bado, ficou admirada de vê-lo matar o dragão com apenas as mãos. Sentiu um calafrio ao lembrar disso! Ela o observou e percebeu sua aura. Era forte e brilhante, também transmitia segurança. A aura de um homem bom, mas havia uma mácula de tristeza nela. O que seria?
Bado gemia, delirava palavras desconexas sobre o amor dos pais que não conheceu e de ser uma sombra. Delirava e imaginava que estava em outro lugar. Aud foi pegar um pedaço de tecido limpo e uma bacia. Molhou o pano e começou a banhar a fronte de Bado, o pescoço e o rosto todo.
Então de certo modo eram parecidos. Ambos cresceram sem o amor dos pais, ela foi privada disso pela morte, e ele? Aud imaginou que a tristeza nos olhos dele era por causa disso. Com um pano úmido, começou a banhar-lhe a testa, afastando uma mecha de cabelos.
Puxou a coberta para baixo revelando o corpo nu do rapaz. Deus as costas, com gesto abrupto, corando até o pensamento. Nunca havia visto um homem nu antes! Como a avó e Loren cuidaram dele e esqueceram de vestir-lhe algo decente?
Virou-se devagar e o observou bem. Por um instante pareceu hipnotizada, fascinada pela perfeição do físico masculino, o peito e abdômen musculoso, as pernas e...
Aud ficou vermelha novamente com seus pensamentos, sentiu uma onda de calor e balançando a cabeça de um lado para o outro, tentou pensar com lógica. Mergulhou o pano na bacia e apertou-o entre os dedos, e começou a passá-lo no corpo do doente.
—"Se ele acordar vou morrer de vergonha!" -pensou. -Se por acaso se lembrar de algo, vou negar e dizer que quem deu banho em você foi a minha avó. -advertiu baixinho.- Não me dê trabalho.
A água fresca parecia acalmá-lo, assim como o unguento que passou em seus ferimentos para que cicatrizassem mais rápido. Lavou e secou os braços, pescoço e os ombros de Bado, admirando-se com a bela musculatura. Sua pele era rija e macia. Ficou imaginando como um guerreiro que enfrentou ferozmente um dragão agora poderia estar tão fragilizado como uma criança.
Ele praguejou baixinho, por estar sentindo frio.
—Hunf! Mal agradecido. -resmungou baixinho, mas não conteve o ímpeto de admirar demoradamente seu rosto e tocar com as pontas dos dedos seus lábios.
Encostou a mão na testa de Bado, era o terceiro dia que estava inconsciente, e mal saíra do seu lado, dormindo na cadeira junto a ele, de modo eu pudesse ouvi-lo, caso precisasse dele. Na verdade, tinha receio de que ele sucumbisse ao veneno e morresse.
Voltou a banhar-lhe a fronte. Ardia em febre. Estava agitado por sonhos que pareciam mais pesadelos.
Aud passou um braço por trás do doente, erguendo-o um pouco para que engolisse o remédio preparado pela sua avó.
—Abra a boca. -comandou Aud.- Não quero que morra em minha cama!
Assim que Bado entreabriu os lábios para dizer algo, Aud enfiou-lhe goela abaixo o caldo amargo. Ele fez uma careta, o gosto deveria ser tão horrível quanto o cheiro.
—Megera...
—Bem feito! -murmurou. -Da próxima vez evitará fazer tolices. Como enfrentar um dragão.
Ela o acomodou novamente no travesseiro e cobriu seu corpo. Aud começou a entoar uma antiga prece, chamando as deusas de suas ancestrais para que ajudassem seu corpo a recuperar-se mais rápido e se curasse.
—Piedosas Dana e Arianrhod, Grande mãe Frutuosa. Ouçam sua humilde filha e serva fiel, não permitam que a morte leve esse corajoso guerreiro. Ó piedosa Brighid, deusa da cura, estenda sobre ele suas bênçãos. -colocou suas mãos sobre o ferimento e começou a entoar uma prece, que se encerrou com uma canção. -"A Bríd bhuach, Glaoim thú, a ór, ódo áit leisna Tuatha Dé Dannan. Banfhile na nDéithe, Cosantóir an Teallaigh, Banbhreitheamh na bheatha." Por favor, não permitam que ele morra.
—Obrigado...-ele murmurou antes de adormecer novamente.
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Deitado imóvel, Bado ouvia ao longe vários sons e sentia diferentes odores. Vozes femininas e agradáveis, uma música melodiosa ao longe. Não. Era alguém que cantava, uma mulher estava cantando.
Sentira mãos macias e delicadas tocando seu rosto e erguendo sua cabeça para fazê-lo ingerir algo de gosto amargo. A dona destas mãos tinha uma voz melodiosa, mas autoritária e um doce aroma floral.
Em sua inconsciência, a imagem daquela visão tentadora no lago invadia seus sonhos. Seria ela quem cuidava dele? Queria abrir os olhos, mas não tinha forças. Algum tempo depois, um leve ruído o fez abrir os olhos, e Bado moveu-se e tocou o braço, estava enfaixado e não sentia mais dor.
Finalmente acordou.
Bado virou a cabeça e uma visão de rara beleza surgiu no quarto. A jovem com cabelos negros e rebeldes, que lhe emolduravam o rosto e ombros, chegando até a um vestido vermelho de mangas longas que a deixava feminina e sensual. Aqueles olhos azuis e cristalinos o encaram com impaciência.
Piscou várias vezes, pois acabara de reconhecê-la. Mas não era uma visão.
Era real!
—Você...seu nome é... Aud?
—Você se lembra? -disse se aproximando da cama e sentando ao seu lado, ele reconheceu o perfume floral que emanava de seu corpo e as mãos delicadas que examinavam as faixas em seu braço. -Pensei que não se lembraria, pois quando nos vimos estava ferido e o veneno do dragão estava fazendo efeito. Chamei minha família para ajudar-me a trazê-lo para cá. Você é muito pesado!
Como esquecê-la se estava diante da criatura mais bela que ele havia conhecido. Mas, percebeu que ela tinha um ar autoritário.
—Entendo. -ele sentou-se na cama. -Devo agradecê-la por ter salvado a minha vida. Onde estou?
—Em minha casa. -ela corou e acrescentou. -Em minha cama. Esteve febril e inconsciente por três dias.
—Três dias!
Confuso, tentou se levantar, mas a coberta escorregou, revelando que estava nu. Embora a puxasse depressa sobre o corpo, por respeito, duas adolescentes entravam no quarto, a mais alta carregava uma bandeja e ambas viram a cena. Bado viu o rubor espalhar-se sobre os rostos das mulheres e sentiu o próprio rosto avermelhar-se pela vergonha.
A menina, ainda corada, deixou a bandeja sobre uma cômoda e disse:
—A-a vovó p-pediu que trouxéssemos esses remédios. -E saíram correndo rapidinho.
—São minhas irmãs Teanna e Lorchen. -Aud falou, sem encará-lo. -Moro aqui com minha avó e minhas duas irmãs menores. Tenho uma irmã mais velha, mas se casou e foi embora com o marido.
—M-me desculpe, não queria faltar com respeito. -Nunca se sentiu tão envergonhado.
—Suas roupas estavam sujas de sangue, mas eu as lavei e estão naquela cadeira. -ela se levantou. -Se se sentir melhor, poderá se juntar a nós no jantar. Sua armadura está no quarto ao lado.
—"Jantar." — seu estômago o lembrou que há três dias não comia nada.
Tão logo ela saiu, Bado voltou a sentar-se na cama. Estava sonhando? Estava mesmo nas Florestas Lendárias na companhia de feiticeiras? Bem. Aud era bem real.
Depois de devidamente trajado, Bado saiu do quarto e parou ao ver as mulheres trabalhando na cozinha.
Aud, suas irmãs e uma senhora idosa, com vestidos de cores alegres, ocupavam-se em atividades diferentes. Elas estavam preparando a refeição e o odor delicioso deixou-o com água na boca.
A senhora idosa virou-se e com um sorriso o cumprimentou.
—Que bom. Está bem mais forte, meu rapaz. Meus remédios e as orações de Aud sortiram efeito. -ela indicou uma cadeira à mesa. -Sente-se que vamos jantar. Nossa comida é humilde, mas foi feita com carinho. Sou Frigga, estas são minhas netas Teanna, Lorchen e é claro, já conhece Aud.
Bado teve que fazer força para não continuar admirando a jovem lindíssima, de cabelos pretos que continuava a cuidar do que estava cozinhando em um caldeirão, ela parecia ignorá-lo. O vestido vermelho era justo em seu corpo e delineava cada curva de sua silhueta esguia.
—Sou Bado, guerreiro deus de Alcor, a estrela Zeta.
Frigga e as netas menores o olharam com ar de admiração. Aud nem sequer desviou o olhar do que fazia.
—Um guerreiro deus? Sua visita nos honra muito. Mas um homem não enfrenta um dragão sem um motivo. O que o senhor deseja em nosso lar?
Numa voz dura, respondeu:
—Vim em nome de Hilda de Polaris, à procura de um inimigo desconhecido que ameaça a todos nós.
—E o que leva a pensar que poderemos ajudar, senhor? -Aud perguntou, de costas para ele.
—Dizem que os feiticeiros que habitam essa floresta possuem poderes mágicos inigualáveis. Que são capazes de ver a verdade na alma de um homem.
—Feiticeiras. -Aud o corrigiu.- Nunca houve homens que praticassem sortilégios em nossa família. Todos que aqui vem desejam algo de nós. E depois ignoram nossa existência, lembrando-se apenas quando querem nos difamar.
Lorchen tratou logo de apaziguar o ambiente pesado:
—Não liga para a minha irmã, Bado. Ela não gosta muito de estranhos...principalmente os homens. -sussurrou para ele.
—Lorchen!-Aud a repreendeu, querendo acertar a irmã com a colher de pau.
Frigga o observou mais uma vez e virou-se para as meninas.
——Aud! -a avó a repreendeu. -Meninas, arrumem a mesa. Vamos jantar primeiro. Depois falaremos melhor sobre o assunto.
O jantar no início foi silencioso. Serviram um ensopado de legumes, carne e grãos, pão caseiro e queijo. Estava tudo delicioso.
As meninas olhavam para ele, e riam baixinho. Bado lembrou-se da cena no quarto e ficou ruborizado.
—Do que estão rindo? -Aud perguntou severamente.
—Nada. -respondeu Teanna, mas logo ela e a irmã voltaram a rir.
—Ora, meninas. – a avó pediu. -Sabem que nesta casa não escondemos nada. Podem falar.
—É que. -Lorchen falou hesitante. -Nunca pensamos que fosse "daquele jeito"!
Bado engasgou com a sopa. Aud ficou vermelha como um pimentão e fuzilou as irmãs com o olhar.
—MENINAS!
—Hu!Hu!Hu!Hu! Não fiquem assim! São apenas meninas! -Frigga achava tudo muito divertido. -Meninas. Não falem mais sobre isso! Respeitem nosso convidado!
—Sim. -responderam em uníssono e com a cabeça baixa, depois deram mais uma risadinha ao olharem para Bado que estava corado.
—Depois do jantar, gostaria de comer algumas bolachas de nozes, senhor Bado? -continuou a matriarca. -Foram feitas por Aud esta tarde. E estão deliciosas!
À noite, após a refeição, Aud foi para o quarto que agora dividia com as irmãs menores.
—-Ele é muito bonito, não é? -Lorchen perguntava para Teanna, mas olhando para Aud.
—Mais bonito que o Leif, o marido da Loren.
—É porque o Leif tem aquela barba que o deixa mais velho. Mas o Bado tem uma pele lisinha.
—Tem sim.
—Parem de matraquear. Quero dormir. -Aud disse rispidamente estendendo um cobertor sobre o colchão no chão.
—Será que é casado? Ou tem uma noiva?
—Deve ter. Ele parece ser de família nobre. E com certeza já tem alguma prometida.
—Vão dormir! -ordenou Aud apagando as velas.
—Ela não gosta que falemos dele. -Teanna sussurrou para a irmã.
—É. Deve ser por que gosta dele.
—Eu ouvi! Parem de falar tantas besteiras! Durmam ou cortarei seus cabelos durante o sono!
Ao deitar ficou imaginando se realmente haveria alguém esperando por ele em casa. E por que tal pensamento a incomodava?
Na manhã seguinte, Bado sentia-se bem melhor.
Ao sair para frente da casa, sentiu o calor do sol no rosto e parou um instante a fim de apreciar a paisagem. Era uma campina verdejante salpicada de flores, até onde a vista alcançava. Reparou que a casa das mulheres era uma pequena fazenda, onde se criavam um pequeno rebanho de cabras.
—Bom dia. -Frigga o saudou. -Preparei um desjejum.
—Onde estão as garotas?
—Acordamos antes do sol nascer. Um velho costume. Teanna foi com Aud até o lago, Lorchen está cuidando das cabras.
—No lago! Mas não tem perigo?
—A criatura que você matou certamente era a última de sua espécie e nunca fez mal algum a nenhuma de nós. Dragões vivem séculos, mas não são imortais.
—Acho esse lugar tão lindo e ao mesmo tempo tão estranho. Como pode estar tão quente e verdejante aqui. E o restante de Asgard estar coberto de gelo e neve?
—Acreditamos que as deusas nos prepararam esse lugar.
—Deusas?
—Sim. Seu povo descende dos antigos vikings que dominaram essa região há séculos atrás. Nós descendemos dos povos celtas. Nosso poder está intimamente ligado aos elementos da natureza. Mas as pessoas não toleram o que é diferente, principalmente feiticeiras, e infelizmente minhas ancestrais tiveram que fugir da terra que nasceram e encontraram refúgio aqui. Nunca em todos esses séculos fomos incomodadas. As pessoas achavam até que o dragão era nosso guardião. Mas apenas evitávamos entrar em seu território e incomodá-lo.
—Aud é um tanto geniosa, não é?
—Puxou a mãe. Minha querida Sigrun era muito temperamental. Olhe, estão chegando.
Da direção do lago, duas jovens chegavam correndo com expressões felizes nos rosto. Elas riam e brincavam. Amor fraternal. Será que conseguiria esquecer antigas mágoas e compartilhar momentos assim com seu irmão?
Assim que o viu, o sorriso de Aud sumiu e ela assumiu uma postura mais séria.
—Aud querida. -a avó pediu. -Por que não mostra para o nosso convidado o nosso lar? Teanna vá acabar seus afazeres antes do almoço.
—Seria um prazer conhecer esse lugar tão belo do qual ouço falar desde criança, mas...
—Quem sabe você consiga ver alguma fada. Elas são ariscas e se escondem muito rápido! -falou Teanna.
—Fadas? -Bado admirou-se.
—Ela está brincando. -Aud falou. -Fadas não existem mais nesse mundo. Foram para outro reino.
—Falaram-me o mesmo sobre dragões. -disse com um sorriso que raramente mostrava. -Mas como ia dizendo, eu não posso ficar mais aqui. Preciso voltar para Asgard.
—Já? -Teanna exclamou chateada.
—Eu agradeço a hospitalidade e por cuidarem de mim quando estive doente. Mas Asgard está em guerra contra um inimigo poderoso. Não posso ficar aqui muito tempo. Mas eu lhes peço uma coisa antes.
—Diga. -falou a matriarca.
—Revelem para mim o nome do inimigo que nos ameaça. Aquele que libertou Loki e deseja nos destruir. O que ele quer?
Frigga olhou por um instante para o jovem e falou:
—Teanna vai ajudar a sua irmã. Vamos entrar.
—Por favor minha senhora, me diga.
—Mesmo que quisesse não poderia. A única que possui o dom de ver o que houve e o que acontecerá é minha neta Aud. Eu também sinto uma perturbação no ar. Os espíritos percebem quando um perigo grandioso se aproxima. Mesmo aqui, esse perigo nos ameaça. -ela olha para os jovens e fala com um sorriso. -Somos ligadas às estrelas e aos espíritos da natureza, e deles que retiramos nossa força e poder. Os espíritos de luz conversam com minha neta e lhe revela tudo o que vai acontecer.
—Aud, por favor...
Por algum tempo, Aud olhou para o homem à sua frente e depois para a avó e a irmã. Por fim respondeu:
—Para isso, preciso estar frente a frente daqueles que servem esse mestre do mal, para saber a verdade. Não posso revelar nada daqui.
—O que quer dizer? Que tem que me acompanhar até Asgard e...
—Ficar diante de um de seus inimigos para descobrir a verdade.
Um pesado silêncio se instalou entre eles, e finalmente Aud falou:
—Estarei pronta em alguns instantes. Podemos partir quando quiser.
—Espera aí! Eu não posso levá-la. É perigoso! Não posso tirá-la de um lugar seguro como esse e deixá-la no meio de um reino em guerra.
—Ouviu minha avó. Esse mal ameaça até meu lar.- ela deu-lhe as costas e entrou na casa. -além do mais, ainda não está totalmente recuperado de sua febre. Seu corpo é forte, mas precisará de mim se tiver uma recaída. Vou preparar as minhas coisas.
—Eu já disse que você não vai! -Bado exclamou com um tom autoritário.
Aud estancou, virou-se com uma expressão contrariada.
—Eu faço o que quero e o que me convêm. -falou fuzilando-o com o olhar. -Nunca me deram ordens e não será agora que alguém vai começar a ditá-las! Para seu governo, eu não tenho medo e eu vou com você! Quer queira ou não! -e saiu deixando o guerreiro deus mudo e de olhos arregalados.
—Minha Aud é assim mesmo, meu jovem. Quando se decide por algo, nem os deuses a fazem retroceder. Oro todos os dias para que alguém consiga refrear seu temperamento tão...inflamado. -disse olhando-o de maneira misteriosa.
Algum tempo depois, quando se dirigia à porta, Frigga pôs uma pesada capa sobre os ombros da neta.
—Era de sua mãe. Ela tinha só vinte anos quando a usou pela primeira vez, quando se casou com seu pai, a mesma idade que você. Você vai precisar dela. Asgard é um país muito frio, e você está acostumada com o nosso clima quente. Preparei algumas ervas que poderá usar. Sabe, meu bem. Talvez seja ele.
—O que vovó?
—Nada não. Mas sei que você o olha com admiração.
—Está enganada, vovó. –Aud ficou corada. -O que me admira é que aquele tonto conseguiu sobreviver ao veneno do dragão! Só isso.
Em silêncio, ela abraçou a neta, se afastou e disse:
—Se precisar de uma de nós, basta nos chamar com toda a força de seu coração, que estaremos ao seu lado num instante.
Em seguida, Aud despediu-se das irmãs.
—Deem um abraço na Loren e nas meninas por mim.
Depois saiu, onde Bado, já trajando sua armadura a aguardava.
—Tem certeza de que quer mesmo me acompanhar?
—Sim. -respondeu com convicção.
—Não quero que me atrapalhe. -falou com grosseria.
—Sabe de uma coisa. -ela falou parando diante dele. -Eu peço o mesmo a você.
Caminharam por entre as árvores em silêncio absoluto. Quando se afastaram da floresta, sentindo o ar frio e viram as primeiras árvores cobertas pela neve. Aud olhou para trás uma última vez.
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Enquanto isso, em um ponto distante do Palácio Valhalla. Loki andava de um lado para o outro em seus aposentos no seu castelo, praguejava pela má sorte. Passou as mãos pelos cabelos loiros e amaldiçoou Odin por interferir em seus planos.
O odioso Odin trouxera de volta dos mortos os Guerreiros deuses e isso comprometeu seus planos e de sua mestra.
Em outros tempos serviu ao antigo governante, Durval. Com ele teve riqueza e glórias por seus feitos. Mas após sua morte e ter sido sucedido por Hilda, ela o considerou indigno demais, violento demais, para ser um Guerreiro deus.
Ferido em seu orgulho ele não aceitou o seu destino. Foi acusado de tentar atacar a representante de Odin e foi banido. Ele não negava que na ocasião exagerou em seus atos, mas ser banido era uma afronta.
Ele a odiava profundamente.
Tanto que vendeu sua alma para conseguir sua vingança.
Então, uma presença maligna chama a sua atenção. Tremendo viu se aproximar aquele que não queria ver nunca mais. Um enorme cavaleiro, usando uma armadura negra, e um elmo, com um chifre de cada lado e com uma máscara que ocultava seu rosto, revelando apenas seus olhos castanhos frios como uma mortalha.
—Senhor Ahanaon! -o ex-guerreiro deus curvou-se. -Que honra revê-lo.
—Cale-se, Loki! A mestra está impaciente. Onde estão os presentes que prometeu a ela? A cabeça de Hilda, a armadura de Odin e a espada Balmung?
—Perdão, senhor! Mas os Guerreiros deuses reapareceram e...
—Os guerreiros deuses! Hum, entendo... você recebeu o poder de um deus de minha mestra e mesmo assim não conseguiu deter reles mortais! Patético. Bem que alertei à mestra que você era um inútil e quer não deveria ter lhe dado a honra de servi-la.
—Dê-me mais uma chance e provarei a Divina Dama que sou merecedor de sua confiança!
—Certo. Ela deseja todas as espadas sagradas deste mundo. Unidas darão à Gloriosa mestra o poder que tanto almeja. E a espada Balmung é uma destas espadas sagradas. Se falhar, será castigado por mim, Loki. -o gigante de negro faz um gesto e alguns criados trazem quatro urnas. -Presentes de sua mestra.
—Que armaduras são essas?
—Faça bom uso delas. Já selecionei quatro guerreiros para usá-las. -Estiveram um tanto...mortos, mas estão loucos para servir e agradar a nova mestra deles.
Atrás do homem, quatro sombras com olhos vermelhos e faiscantes liberavam seus cosmos hostis.
—Prometi a eles que se forem bem sucedidos aqui, poderiam ir até o Santuário e se vingarem dos cavaleiros que os mataram.
—-Senhor Ahanaon. -uma das sombras falou. -Recebi informações de que um guerreiro deus esteve em um lugar chamado Florestas Lendárias e está retornando com uma feiticeira.
—E o que uma reles feiticeira poderia fazer? -Loki menosprezou.
—Ela tem um dom, senhor. -continuou a sombra. -Ela pode revelar o verdadeiro nome da mestra. Ela possui o dom de ver a alma de um homem.
—Hum...A mestra não quer que saibam sobre sua existência antes da hora. Cuide deles para mim. Pode usar a armadura que foi reservada à você!
—Obrigado, senhor. Levarei alguns soldados comigo. -e a sombra retira-se.
Continua...
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