A Family Affair
8 Capítulo 8
Notas iniciais
⌘ Pepper ⌘
Eu o amo. Tentei ignorar, mas foi inevitável, me apaixonei pelo pseudo cafajeste tal qual a mocinha de um romance clichê. Sinal de que nem mesmo, em suas próprias vidas, escritoras estão livres disso.
“Gosta dele o bastante pra dizer pra ela que quer ficar com ele?”— foi o que Jackie me perguntou quando liguei pra ela, pra desabafar, na noite em que comecei a mentir pra Zoey. Naquela ocasião eu não fazia ideia, hoje, quase quatro meses depois, sei a resposta para essa pergunta, e assim que minha filha chegar de viagem vou contar que estou namorando seu chefe.
A nossa viagem foi maravilhosa e eu não vejo a hora de repetir, sem que eu precise de subterfúgios para afastar a pessoa que mais amo na vida. Durante a nossa volta pra casa, Anthony me convenceu a acompanhá-lo a um jantar, aceitei com a condição de que não fossemos fotografados juntos, até porque eu não teria tempo de contar pra Zoey.
—Sabonete de capim limão.— ele diz ao cheirar as próprias mãos ao vir do meu banheiro. Fiz questão de passar em casa e pegar um vestido para usar neste evento do qual ele se lembrou de última hora.
—Que bom que você é asseado.— eu brinco, sei que sua observação tem a ver com aquela primeira vez que ele esteve aqui. Gostei de flertar com ele naquela tarde, mas jamais passou pela minha cabeça que poderia ser perigoso, não a parte do sexo impulsivo com o astro de Hollywood, mas o que viria depois. O carinho, o gostar de ficar deitada sobre seu peito, sentir seu cheiro, e no fim acabar me apaixonando —Será um dos meus argumentos pra justificar te namorar.
—Você sabe que não precisa se justificar, né?— ele me questiona —Você é a mãe…
—A mãe que mente pra ela há meses. Eu devia ficar em casa e esperá-la chegar, em vez de sair com você.— argumentei com ele, mas Anthony me dissuadiu.
⌘ Zoey ⌘
Eu achei estranho quando Tony me pediu para acompanhar a equipe de produção até Atlanta, mas ainda assim fui. E foi lá que eu descobri que ele tinha um novo interesse amoroso e que essa nova mulher seria a responsável pelo roteiro do filme, não houve estranheza alguma quando descobri as iniciais da nova roteirista, V.P.
Pensei em ligar pra minha mãe enquanto eu estava fora, mas aquela era uma conversa pra se ter ao vivo e não por telefone, no entanto, quando a Debs me ligou foi impossível não desabafar, precisei esperar três dias até voltar à Los Angeles. Porém quando cheguei em casa ela não estava, mas encontrei todas as evidências de que Virginia Potts estava omitindo coisas de mim, não tinha como adiar mais.
—Pelo menos agora vocês estão mais comportados.— os flagro aos beijos quando chego ao local do jantar de inverno, que estava na agenda do meu chefe há semanas, mas que ele insistiu em não inserir o nome de sua acompanhante na lista de convidados.
—Filha, você…— ela parece mais surpresa do que eu —Precisamos conversar… Zzy, eu ia te contar tudo, hoje…
—Sério?— pergunto e ela move a cabeça em afirmação —Qual mentira iria me revelar? Essa…— aponto para eles —Ou que você está reescrevendo o filme?
—Sua mãe me deu ideias muito boas, Zoey, por isso ofereci que ela…— Tony tentaria argumentar, mas foi convocado por um de seus agentes —Preciso ir, você vai ficar bem?— ele sussurra pra minha mãe que move a cabeça em afirmação, então ele murmura algo muito próximo dos lábios dela, não pode ser a frase que estou pensando, a beija e nos deixa.
—Achava que você fosse mais esperta, mãe.— eu falo quando ela me puxa para outro lugar, longe do salão —Como você caiu no papinho romântico dele? Você nem se importa como eu me sinto?
—Filha, eu me importei a vida inteira com o que você sente.— ela diz ao segurar meu rosto entre as mãos.
—Desculpa se eu não percebi que sempre fui um fardo pra você…
—Não foi isso o que eu disse.— ela se defende.
—Mas é assim que essa história me faz sentir, mãe. E valeu a pena por sexo?
—Você está pegando pesado, Zoey. Sexo?— ela indaga —Pode ter começado assim, mas é muito mais.
—Ele pode estar te fazendo acreditar nisso, mas não é, mãe. Toda garota que sai com ele acha que é especial… E ele só sai com garotas, nunca com alguém como você.
—Alguém velha como eu?— ela questiona, percebo que seus olhos se enchem de lágrimas —O que Anthony e eu temos é diferente.— ela o defende.
—Só me escuta, não precisa ser gênio pra ver que ele usa as mulheres, ele tá te usando também, porque você tá escrevendo pra ele?
—Você está errada, Zoey!— ela é enfática.
—Porque você tá lutando por isso?
—Por que eu estou me sentido viva de novo.— ela me responde —Porque voltei a sentir coisa que achei que nunca mais fosse sentir. Eu não me sinto assim desde que o seu pai…
—Não!— eu grito —Você não tá falando isso! Não pode comparar ele com o papai.— sinto as lágrimas começarem a chegar.
—Eu não estava fazendo essa comparação.
—Ele era meu pai! Você sente algum amor por mim?
—É claro que eu amo você.— ela segura minhas mãos —Eu só não entendo porque tem que ser um ou outro.
—Não pode ter os dois!
—Por que?
—Porque não, mãe. Porque eu não sou você, porque não sou uma escritora genial e premiada, tá bem?
—Do que você está falando?— ela me pergunta confusa.
—Mãe, você nunca vai entender o que é ser sua filha. Eu nunca vou chegar aos seus pés.
—Ah, Zzy…— ela suspira e tenta se aproximar.
—Não me chama assim. Eu não tenho mais 7 anos!— me desvencilhei —E ele escolheu você em vez da roteirista que eu escolhi. Você tirou isso de mim.
—Eu não sabia que estava tirando nada de você, ok? Que droga, Zoey, você não me diz nada, mas me cobra como se eu soubesse tudo da sua vida profissional.
—Você tirou.
—Sinto muito.— ela diz novamente tentando me tocar —Se eu soubesse, nunca teria aceito mexer no roteiro, não quero te machucar.
—Se não terminar com ele agora, mãe, vou ter que me mudar.— lhe dou um ultimato.
—Talvez morar comigo não seja a melhor coisa mesmo.— ela diz com a voz embargada, arregalo os olhos, ela está mesmo o escolhendo em vez de mim —Zoey?— ela chama quando corro pra longe dela, mas eu não olho pra trás.
Essa coisa de Produtora Associada era um cargo figurativo, eu continuava sendo a faz tudo dele, só que os últimos meses com o benefício dele estar trepando com a minha mãe. Fiz as minhas malas e fui me abrigar com a Debs.
—Eu me sinto sendo traída por eles dois…
—É sua mãe, e seu chefe, normal achar estranho.— Debs concorda.
—Por outro lado…— Malcolm, o namorado dela se mete —Não acha possível que a parada deles não tenha nada a ver com você?
—Sei lá, é que agora tá muito estranho…— e droga, eu não queria olhar pra ela pelos próximos dois meses, mas com a proximidade do natal será inevitável —Sabe, iria adorar se pudesse passar as festas com vocês, o que vocês vão fazer?— pergunto, mas o clima fica bem tenso. Malcolm pretende visitar a família e parece que a Debs não estava sabendo de seus planos.
⌘ Pepper ⌘
Depois da discussão com a Zoey não fiquei até o fim do evento, não havia clima pra isso, sequer me despedi do Anthony. Quando cheguei em casa, a minha filha já tinha partido, com certeza ela está com a Deborah, mando uma mensagem e tenho a confirmação, então não me preocupo tanto, Debs sempre foi a mais madura das duas.
Estou pronta para me deitar quando meu telefone toca
“Oi, como você está?”— ele pergunta do outro lado.
“Não muito bem”— suspirei.
“E a Zoey?”
“Está na casa de uma amiga”
“Não fizemos nada de errado, mentimos um pouco pra ela, mas…”
“Não foi um pouco, Anthony”— eu respondo.
“Tá e quando é que eu te vejo?”
“Sei lá, talvez depois das festas”
“Pepper são mais de 15 dias”— ele fala do outro lado.
“Anthony, eu preciso pensar em tudo o que a Zoey disse antes de ficar insistindo nisso…”
“Isso a gente?”— ele parece desapontado “O que foi que ela te disse?”
“Tenho que cuidar da minha filha, Anthony”
“Ok…”— ele suspira pesadamente “Vê se descansa, tá? Não se preocupe, tá bom? Te vejo depois do natal”
“Tá , claro, feliz natal pra você”
“Pra você também, eu te amo”— ele diz, mas eu paraliso e não consigo responder “Pepper?”
“Oi”
“Será que eu posso ver você?”
Foi redundante questionar se ele queria me ver naquela hora, claro que Anthony responderia sim, e claro que quando eu respondi o meu sim ele apareceu na minha porta vinte minutos depois.
—Oi.
—Você sempre é tão passional?— pergunto.
—Só quando falo “Eu te amo” e a mulher que eu amo não me responde nada.— ele adentra minha casa e agarra a minha nuca enredando a mão em meu cabelo.
—Isso aconteceu quantas vezes?
—Uma.— ele responde —Mas se você tivesse dito não, não quero te ver agora eu teria ficado na minha casa.
Anthony não me beijou, se deteve, os olhos fixos nos meus. Suplicantes. E, antes mesmo de me dar conta do que estava fazendo, peguei a mão dele e o conduzi escada acima.
(...)
—Como ficaram as coisas com Tony?— Jackie quis saber. É semana do natal e estamos em Big Bear Lake, na casa dela onde sempre passamos a data. Apesar de ainda estarmos na Califórnia, aqui, diferente de Los Angeles sempre neva essa época do ano.
—Estamos bem, mas não o convidei pra vir, seria desconfortável para a Zoey.— digo ao pegar um dos enfeites da árvore que estamos decorando.
—Querida, se quer que ele venha, ligue pra ele. Ela precisa superar isso.— Jackie diz, ela é sempre muito prática.
—Eu adoraria que ele viesse.— revelo ao me lembrar da nossa conversa sobre datas comemorativas em família —Mas não seria certo, ela ainda está muito chateada.
—Você sempre fez o que essa garota quis.— ela fala me repreendendo —Conheço a Zoey, vou falar com ela e fazer a minha mágica. Sirvo pra quê, se não pra convencer a minha neta a deixar um dos 50 homens mais sexies da lista da People vir no natal?
—Como você sabe disso?
—Eu não consegui parar de pesquisar sobre ele no Google.— ela ri.
—Jackie!
—Aposto que ele é ainda mais lindo ao vivo, não é?
—Você o quer aqui mais do que eu.— estou rindo das observações que uma sogra não deveria fazer sobre o atual namorado de sua ex-nora.
Tony chegou na véspera do natal, quando Zoey já estava aqui, e não sei qual foi a mágica de Jackie, mas ficamos harmoniosamente bem. Claro que não ficamos “nos pegando” na frente dela, mas era quase impossível controlar suas demonstrações de carinho. Estamos sentados à mesa jantando enquanto a minha sogra conta mais uma de suas histórias hilárias.
—Olha, eu já fiz muitas coisas nos filmes, mas a minha vida é bem chata, nada comparada com a sua.— Tony diz à Jackie —Saúde, a Sra é uma lenda.— ele brinda com ela.
—Ela é sim.— concordo me juntando ao brinde.
—Também quero dizer que é muito bom estar aqui com vocês, obrigado pelo convite.— ele continua.
—Quem bom que você veio.— Jackie comenta.
—Eu não tenho para onde ir no natal já faz muito tempo, então é realmente especial.— sua observação ao mesmo que me deixa triste, porque me faz lembrar que ele perdeu todas as pessoas de sua família, também aquece meu coração, porque agora temos um ao outro.
—Mas e o Lago Como com George Clooney?— Zoey pergunta, Jackie se mostra eufórica.
—Ah, você entendeu, não um lugar para passar datas como essa, mas um lar.— ele comenta ao segurar a minha mão —Sem vocês eu seria um homem muito triste, muito famoso é verdade, mas muito triste.
—Ai, meu Deus, você é insuportável.— Zoey diz pra ele —Tá vendo, vovó, eu lido com esse ego gigante todo dia.— nós quatro rimos.
Foi realmente um jantar muito agradável, e agora que Anthony foi pro banho, e estou sozinha com Jackie na sala, diante da lareira, tomando um licor, posso finalmente saber o que ela achou dele.
—Meu bem, ele é demais.— ela diz, sinto um peso muito grande deixar meus ombros.
—É, né?
—E é lindo. Tô louca pra ver como ele é pelado.— ela diz e eu rio —Eu acho que morreria. Mas valeria a pena, morreria feliz.
—Você é terrível e incrível.
—Essa coisa entre vocês parece bem séria, dá pra perceber.— ela comenta.
—Eu gosto muito dele, mas ainda tenho muito medo. Porque não quero passar o que passei com o Charlie.— digo a ela.
—Ah, querida, o Charlie morreu tão jovem, foi horrível…
—Não, não é disso que estou falando. É que… Charlie nunca quis que eu escrevesse. Nunca te contei isso, mas estávamos com alguns problemas, antes do diagnóstico, muitos problemas, ele nunca te contou?
—Não.— ela me responde confusa.
—Charlie não queria mais ficar casado comigo, ele havia pedido divórcio.
—Ah, meu Deus, Ginnie…
—Estava sendo difícil pra ele, ele tinha escrito aquele livro de ficção científica, havia três anos, e ele não fez sucesso, e então o meu livro saiu e…— suspiro, Jackie está atenta —Talvez ele tivesse orgulho de mim, mas foi muito difícil não vê-lo demonstrar isso, eu só via amargura, então comecei a vê-lo afundar, tentei ajudar, mas não conseguia, só piorava as coisas, então eu me diminuía pra que ele não se sentisse mal.
—E aí ele ficou doente.
—Sim, e nós nunca falamos sobre isso, ficou no ar, entre nós dois. Então eu segurei a mão dele, me culpei, e ele morreu.
—Como você carregou isso esses anos todos?— Jackie pergunta pra mim —Porque não contou pra mim?
—Porque eu…
—Você é como minha filha, Ginnie, te conheço desde muito jovem. Eu só quero te ver feliz. Mesmo que Charlie estivesse vivo e vocês se separassem, eu ainda iria querer a sua felicidade.— ela me revela —O bonitão lá em cima te faz feliz?
—Faz, eu me sinto muito bem quando estou com ele. Eu… tô muito apaixonada.— revelo —Mas eu não queria, porque se não der certo vai doer demais ter que me afastar dele. No fim sempre vai doer.
—Querida, o fim não é da sua conta. Você adora estar com ele. Isso é o começo e o fim. O amanhã vai chegar mesmo assim.— ela me diz —Eu acho que a gente devia votar se ele deve permanecer nesta família. Meu voto é sim.
—Ok, eu voto sim.— digo a abraçando.
—Excelente, meu bem.— ela diz ao retribuir meu abraço —Agora vamos beber.
Na manhã de natal abrimos os nossos presentes, Anthony fez questão de começar entregando os presentes dele. Para Jackie ele deu um lenço lindíssimo. Para Zoey ele deu um encosto de cadeira personalizado com o nome dela.
—Ah, que legal. Eu vou ficar sentada ao lado da diretora do filme.— ela brinca.
—Tá legal, esse é seu.— ele entrega o presente nas minhas mãos.
—Pra mim?— pergunto rasgando a embalagem —Valeu.
Quando abro o meu presente, é um livro de capa trabalhada com tudo o que já publiquei além dos meus livros, são meus editoriais publicados em revistas, contos e ensaios, todos num só lugar. A Antologia de Virginia Potts.
—São os seus ensaios da New Yorker, os da Vogue, e os seus contos.— ele me informa, estou realmente surpresa, assim como as outras mulheres na sala —Você gostou?
—Eu amei. Obrigada.— agradeço, Anthony se aproxima e me beija.
—Feliz natal.— ele sussurra contra os meus lábios —De nada.
Foi o meu melhor natal em anos, até a Zoey voltar a ficar estranha, até voltarmos pra casa, até ela pedir pra que o Anthony fosse embora. Até ela despejar um monte de absurdos de um chefe muito babaca. Até ela me dizer que todas as vezes em que ele termina com as suas namoradas elas recebem um par de brincos de diamantes e que os meus já estavam comprados.
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