⌘ Zoey ⌘

Chegar em Big Bear Lake, é como entrar num globo de neve, nem parece que estou na Califórnia. A cidade é linda, sempre amei os natais na casa da vovó, são uma tradição. Minha avó esteve em Los Angeles na última semana e sei que minha mãe veio com ela, não falamos sobre o Tony, não quis estragar meu natal.

—Ai meu Deus, como é bom estar aqui.— digo ao descer do carro, minha avó me recebe na porta então seguimos para o meu quarto, porque segundo ela, precisamos conversar.

—Então, soube que não está contente com o namoro da sua mãe.— ela diz sem rodeios.

—Ela comparou ele com o papai.— digo, estamos arrumando a cama —Isso é absurdo.

—Ah, seu pai era lindo.— vovó comenta, mas com certeza a comparação da minha mãe não tem a ver com a beleza de ambos —Sabia que sua mãe chorou a viagem inteira me contando sobre vocês? Sabe há quanto tempo eu a incentivo a ter vida própria? Acha que foi fácil pra ela depois que seu pai morreu? Uma garota de 12 anos precisa de atenção.

—Não é culpa minha ela nunca ter arrumado um namorado.— me defendo, mas foi por minha causa que ela conheceu Tony.

—Não, mas agora que ela está com alguém você quer impedir.— vovó me adverte.

—Não é porque ele é alguém, vó. É porque ele é ele, tão egocêntrico e egoísta. Ele é uma diva pop.

—Eu sei querida, você também é.— ela joga um travesseiro em mim.

—Eu só não entendo, porque de repente ela precisa de alguém— eu ajeito o travesseiro e me jogo na cama.

—Ela não precisa de ninguém.— ela senta —E você não precisa saber tudo.



—Eu acho que preciso…



—E se ele estiver fazendo ela feliz?— vovó pergunta. Bufo descontente —É a vida dela.— ela dá um tapa em meu bumbum.

—Não quero que ela se magoe, é minha mãe.

—Sua mãe? É tudo o que ela é pra você?— ela me pergunta.

—O que mais ela deveria ser?

—Imagino que para uma garotinha a mãe seria tudo.— ela responde —Mas que uma jovem mulher deveria entender a mãe como outra mulher.

É claro que imagino minha mãe como mulher, com seus desejos e necessidades, mas ela podia ter se relacionado com outra pessoa. Estávamos conversando quando ouvi barulho de portas de carro batendo, o que é estranho, porque não esperávamos mais ninguém, quer dizer, eu não esperava. Mas olho pela janela e vejo minha mãe recebendo o Tony.



—Não acredito que ele veio!

—Eu quem mandei ela convidar ele.— vovó me diz —Se for brigar com alguém, brigue comigo.

—Poxa, vó.

—Eu sei como está se sentindo. Sabe que eu te amo, e eu tô tentando entender o que está acontecendo. Também não quero que sua mãe se magoe, por isso preciso conhecê-lo, pois sou boa em julgar as pessoas.— ela me explica.

—Ok.

—E essa aqui é minha casa, hoje é natal, e seu mau humor e jeito emburrado só vão atrapalhar a comemoração.— ela pega nas minhas mãos e explica como se eu fosse uma criancinha —Vamos ser legais, você vai ser adulta e se não der, finge.

—Ta.

—Deus te abençoe.— ela me beija a testa.



Eles eram bonitinhos juntos, confesso. Se ela não fosse minha mãe e eu não conhecesse o histórico dele, seria capaz de shippar o casal. Acatando as vontades da minha vó e para evitar mágoas eu fiquei muito sorridente e cordial, mas era impossível não sorrir quando ela contava uma de suas inúmeras histórias. Vovó viveu tantas coisas que daria um livro, mas ela sempre disse que não tem tanto talento pra escrever.



—Olha, eu já fiz muitas coisas nos filmes, mas a minha vida é bem chata, nada comparada com a sua.— Tony diz para vovó —Saúde, a Sra é uma lenda.— ele brinda com ela.

—Ela é sim.— mamãe concorda e nos juntando ao brinde.

—Também quero dizer que é muito bom estar aqui com vocês, obrigado pelo convite.— Tony continua.

—Quem bom que você veio.— vovó comenta.

—Eu não tenho para onde ir no natal já faz muito tempo, então é realmente especial.— Tony comenta, ele é um homem que tem tudo, mas ao mesmo tempo não tem nada, além de seus “amigos” em Hollywood.

—Mas e o Lago Como com George Clooney?— pergunto, minha avó fica eufórica, ele simplesmente ama Onze homens e um segredo.

—Ah, você entendeu, não um lugar para passar datas como essa, mas um lar.— ele comenta ao segurar a mão da minha mãe —Sem vocês eu seria um homem muito triste, muito famoso, é verdade, mas muito triste.

—Ai, meu Deus, você é insuportável.— digo pra ele —Tá vendo, vovó, eu lido com esse ego gigante todo dia.— nós quatro rimos.



Depois do jantar subimos para o quarto, mas vovó ficou na sala, ela disse que iria tomar um pouco mais do licor que tinha trago de uma viagem à Itália.

Não consegui dormir, precisa saber o que ela tinha achado do Tony, mas pelo visto eu não era a única, quando desci minha mãe já estava diante da lareira ouvindo as sábias palavras de Dona Jackeline Ford, nossa guru. Devia ter voltado para o quarto, mas não consegui, fiquei ali ouvindo o quanto mamãe está apaixonada, o quanto meu pai tinha inveja de seu sucesso e o quanto o casamento deles estava uma merda antes dele morrer.

Na manhã de natal trocamos nossos presentes, eu não havia levado nada para o Tony, afinal não sabia que ele estaria lá, mas ele, pelo visto, se empenhou em nos agradar. Vovó ganhou uma echarpe que parecia muito fina, eu ganhei um encosto de cadeira personalizado com meu nome.



—Tá legal, esse é seu.— ele entrega o presente da minha mãe em suas mãos, estou curiosa, sou eu quem compra os presentes das namoradas dele. Quem teria comprado o presente da minha mãe?

—Pra mim?— ela pergunta, parecendo uma garotinha feliz —Valeu.

Mamãe abre seu presente, é um livro de capa trabalhada. A Antologia de Virginia Potts. Ok, estou positivamente impressionada.

—São os seus ensaios da New Yorker, os da Vogue, e os seus contos.— ele informa, estou surpresa, é impossível não lembrar do que ouvi escondida ontem “Charlie nunca quis que eu escrevesse”, meu pai a invejava, e acho que o rancor que ele teve ao vê-la crescer o consumiu —Você gostou?

—Eu amei. Obrigada.— ela agradece, radiante, Tony se aproxima e a beija.

—Feliz natal.— ele sussurra contra os lábios dela —De nada.



Pela primeira vez eu deixei de me preocupar com aquela relação, mas durou muito pouco. Na hora de ir embora fui ajudar minha mãe com as malas, Tony já havia levado a dele e eu estava levando as dela. Quando coloquei suas bolsas no porta-malas, o zíper um pouco aberto de uma que já estava lá me chamou atenção, então ao abri-lo um pouco mais foi que eu vi o porta joias com os “brincos do pé na bunda”. Depois do livro, depois dos meses se encontrando escondido ele vai terminar com ela.

—Filha, tá tudo bem?— minha mãe pergunta ao se aproximar, afirmo que sim —Ok, dirija devagar, te vejo em casa?

—Claro.— confirmo.

Foi a pior viagem da minha vida, mas no caminho, eu decidi que se ele tinha a intenção de terminar com ela não o deixaria a enrolar mais, talvez ela não estivesse tão apaixonada ao final de contas e o superasse rápido.

—Oi, filha, a gente tá querendo pedir comida.— minha mãe anuncia quando me ouve chegar —Que tal comida tailandesa?

Ao passar pela sala peguei a mala do Tony, mas ao chegar na cozinha a coloco no chão.

—Estou faminto.— Tony comenta.

—Acho que você deveria ir embora, Tony.— soo fria.

—Ai, Zoey, o que foi? O que é isso?— ela me pergunta desconfortável.

—Você quase conseguiu me enganar depois desses dias todos, sabia?

—Do que você tá falando?— ele pergunta confuso.

—Você só se divertiu com a minha mãe esse tempo todo e então decidiu passar as festas com a gente, queria passar as festas com alguém, não importando com quem fosse.

—Tá bom, Zoey, é melhor não falar nada do que possa se arrepender depois.— mamãe tenta interceder.

—Você acha que conhece ele, só que não, mãe. Você não o conhece.— então começo a falar dos abusos do meu chefe. —Sabia que ele me pede pra encomendar uma loção do Japão de 500 dólares só pro cotovelo dele?

—Você sabe que eu tenho a pele sensível e não é como se fizesse você pagar.

—É, tá tudo bem.— minha mãe comenta.

—Uma vez ele me pediu pra conseguir um ar mais limpo ou me demitiria.

—Eu estava trolando você, não é isso que os jovens fazem?

—E que cada vez que eu faço algo que ele não gosta eu tenho que escrever uma carta pedindo desculpas?

—Isso é verdade, Anthony?

—Fazia isso porque sei que você detesta escrever qualquer coisa.— ele se defende.

—Mas nossa, nem era isso que eu queria dizer, o que me deixa mais irritada é que cada vez que ele termina com uma namorada, sempre compra o mesmo par de brincos de diamantes. E ele já comprou os seus.

—Do que você tá falando? Não é nada disso…— ele estava se defendendo quando peguei a mala atrás do balcão.

—Zoey, para, por favor?

—Não, mãe— eu digo ao exibir a caixa dos brincos.

—Zoey não é o que você tá pensando…— Tony fala enquanto mamãe pega a caixa e olha dentro —Isso era um presente normal tá, antes de pensar no livro, eu… Eu entrei em pânico, amor, não sabia o que te dar.

—Dá pra você parar de mentir? Para, agora, Tony. Ele te levou pra New York, mãe?— pergunto e ela me olha surpresa e depois pra ele, decepcionada.

—Você tem que ir embora.— a voz dela é um suspiro de decepção.

—Pepper, eu…— não entendi porque ele a chamou assim, mas a fez chorar —Eu te amo, o que temos é importante pra mim. Por favor, me deixa explicar?— ele pede, mas ela o afasta.

—”Não minta pra mim”, foi apenas uma das coisas que te pedi, lembra?— ela questiona e limpa o rosto com a costa da mão, enquanto ele assenti —Precisa ir embora agora.

—Ela te pediu pra ir embora, Tony.— coloco os brincos de volta na bolsa dele.

—Tá.— Tony concorda, pega sua mala e sai.

—Isso foi muito humilhante.— ela diz sem me olhar nos olhos e então se vira pra mim

—Como você sabia sobre Nova York?

—Geralmente sou eu quem ligo pro guarda deixar ele entrar no estúdio.— ela soluça e começa a chorar —Me desculpa. Isso virou uma confusão, e eu não soube lidar, mas eu só queria que você soubesse quem ele é.

—E você sabe como ele é de verdade?— ela funga.

—Eu conheço ele muito bem.— respondo

—Mas de algum jeito, depois de dois anos trabalhando e me importando com ele, ele não me conhece em nada.

—Talvez eu também não te conheça.— ela contrapõe —Você gosta dele?— ela pergunta —Digo, romanticamente, você tem atração por ele, tem alguma fantasia com essa coisa dele sempre ter saído com mulheres mais novas?

—Ai, não! E claro que não!

—Se não foi por estar apaixonada por ele, você também não fez isso por me amar.— minha mãe conclui —Preferia que não tivesse feito nada disso.— ela me deixa e sai pra chorar longe de mim.

Pego minhas coisas e volto pra casa da Debs, chego despejando tudo o que aconteceu, mas ela parece impassível.



—Zoey, dá pra você parar, por um segundo?

—Se o Malcolm não tiver eu posso dormir na sua cama com você?— pergunto chorosa.

—Malcolm e eu terminamos, tipo há uns dez dias e você nem notou.

—Como é? Eu estava aqui, vocês estavam juntos antes de eu ir viajar…

—Não estávamos!— ela diz impaciente —Eu só não quis te contar, e você nem percebeu a merda de situação.

—Porque você não me contou?

—Achei que você não tinha capacidade de se preocupar comigo ou se importar, e eu estava certa.

—Você tá dizendo que não me importo com você?

—Você tem sido egoísta pra caralho esses dias, Zoey, na verdade não só esses dias.— minha melhor amiga, minha irmã, acusa.

—Eu entendo que você está chateada e não tá falando sério, mas isso é muito cruel…

—Eu falei sério.— Debs enfatiza —Você só reclama da sua vida, e nós ouvimos você e damos conselhos, mas quando é o contrário você tá cagando!

—Você acha mesmo que eu sou uma amiga tão horrível que não me importo com o que você está passando?

—Você está se ouvindo? Está literalmente se fazendo de vítima agora, eu tô te contando que eu tô mal, mas você está falando como eu tô fazendo você se sentir. É cansativo! E não é só comigo que você age assim.

—Você tá falando da minha mãe?

—Porra, Zoey, eu nunca a vi tão feliz quanto nos últimos meses, mas você chega aqui contando como destruiu o namoro dela, sabe?

—Ele iria partir o coração dela…



—Ela com certeza está bem feliz agora.— ela soa irônica —Olha, eu te amo.— ela me diz —Mas eu me sinto exausta, é sério. Agora não dá pra lidar com você, não aguento mais.



No mesmo dia, fiquei sem mãe e sem melhor amiga e ambas, com palavras diferentes, me jogaram na cara o quão egoísta eu sou. Talvez eu pareça mais com Tony Stark do que eu imagino. Ou sou como o meu pai, incapaz de ser feliz com a felicidade alheia, sei lá.

Notas finais
Alguém mais com ódio da Zoey?