A Face Oculta Da Lua
9 Uma Questão De Dever
Notas iniciais
Gotham jazia no silêncio.
Depois de tantos anos mergulhada no mais completo e barulhento caos, agora a cidade finalmente parecia quieta, de um jeito nunca visto antes. Uma calmaria estranha depositava-se naquele ar urbano e ensolarado, como se juntasse forças para dar início a uma nova e mais duradoura tempestade...
Bruce encarava distraidamente um feixe de luz claro que ultrapassava o vidro elegante de seu quarto, depositando-se sobre o piso impecavelmente limpo. A claridade amarelada trazia consigo partículas tão pequenas e finas quanto poeira, que apenas acompanhavam obedientemente a direção da luz naquele trajeto retilíneo e hipnotizante. O Bilionário levou os dedos de encontro à luz, aceitando de bom grado a distração que aquela irrisória perturbação produziu nas pequenas partículas agora agitadas.
Ele levantou-se bruscamente da poltrona aconchegante, encostada à parede oposta do enorme piano de cauda, caminhando devagar ao redor do aposento, deslizando suas mãos pelo cabelo com impaciência.
_ O senhor não vai às Empresas Wayne hoje, Patrão Bruce? – Alfred parou intrigado à entrada do quarto, adotando uma expressão curiosa ao notar que Bruce ainda vestia o pijama de linho.
_ Hoje não, Alfred – anunciou, ainda parecendo um pouco perdido dentro de si mesmo.
_ Devo informar aos sócios de que o senhor vai se ausentar? – o mordomo inclinou ligeiramente a cabeça, deixando que ela pendesse sutilmente.
_ Não será necessário, obrigado – sorriu para o mordomo – O senhor Fox já está avisado. Lucius é perfeitamente capaz de manter tudo sob controle na minha ausência...
_ Tenho certeza que sim – assentiu com um aceno quase imperceptível de sua cabeça, mas ainda parecendo curioso com a expressão desfocada de Bruce.
_ Hoje faz um mês que ela morreu, Alfred – explicou, reparando na interrogação evidente nos olhos do mordomo – E eu decidi tirar o dia para visitar os entes queridos – sorriu ao ver a compreensão entristecida preencher a face de Alfred. As rugas no canto de seus olhos nunca pareceram tão evidentes quanto naquele olhar direcionado para o chão.
_ Entendo... – respondeu simplesmente após uma breve pausa – Seria muito impertinente de minha parte se eu o acompanhasse, patrão Bruce?
Bruce levantou uma sobrancelha, parecendo realmente divertir-se com o pedido.
_ Ao que parece você também foi fisgado pelos encantos da Alice – brincou.
_ Foram muitos pedidos de casamento, senhor! – disse, fazendo-o rir. Mas a risada de Bruce sempre ganhava um tom abatido ao final, e era como se Alfred revivesse a cada dia a morte do casal Wayne ao se deparar com aquela expressão tão perdida e descrente de seu patrão.
_ Você sabe que não precisa pedir permissão. De qualquer forma, eu não seria capaz de contrariá-lo.
_ Muito sensato, patrão! – mostrou os dentes em um sorriso gentil – Até porque não me parece muito prudente contradizer aquele que conhece a sua identidade secreta – fez uma ameaça bem-humorada.
_ E a próxima chantagem vai ser um aumento, suponho...
_ Parece-me justo – o mordomo sorriu antes de se retirar.
Assim que Bruce substituiu o pijama por um de seus ternos pretos elegantes, ele e o mordomo dirigiram-se ao Lamborghini cinza. Permaneceram a maior parte do percurso calados, apenas o ronco reconfortante do motor se sobrepunha ao silêncio que os envolvia, até que a visão do cemitério foi abrindo caminho suavemente pelas colinas esverdeadas que embelezavam e davam vida àquele cenário, que por si só já exalava um ar fúnebre.
Chegava a ser um tanto irônica a tentativa de tornar aquele ambiente um lugar agradável de se visitar. A grama sempre bem aparada e úmida na medida certa, as incontáveis árvores formando sombras frescas em torno de seus troncos grossos, até mesmo o Sol parecia brilhar mais forte no céu límpido que acabava se perdendo entre o verde das sutis montanhas. Mas toda essa beleza acabava sendo ofuscada pelas lápides...
Porque por mais que o cheiro da terra molhada fosse programado para ser calmante, os nomes daqueles que se foram sempre estariam ali para assombrar os seus visitantes.
_ Parece que eu sempre acabo parando aqui quando quero visitar alguém... – Bruce falou baixo, provavelmente sem a intenção de que aquele pensamento saísse em voz alta. Mesmo com o carro já estacionado, sua mão ainda segurava firme o volante enquanto o seu olhar vagava longe pelo vidro da janela, sem um rumo definido.
_ O senhor precisa ser forte, Patrão Bruce – Alfred colocou a mão sobre o ombro do Bilionário, fitando-o com olhos preocupados e gentis – A vida de Justiceiro que o senhor escolheu sucessivamente virá com consequências, muitas das quais nem sempre serão agradáveis.
_ Eu sei, Alfred... – suspirou – Mas talvez eu não esteja mais disposto a arcar com esse tipo de sequela – avisou, batendo a porta do carro sem muita cautela ao finalmente sair.
_ Do que o senhor está falando, patrão? – o mordomo perguntou assim que se viu fora do automóvel de luxo, fechando a porta com muito mais cuidado.
Bruce esperou que Alfred o alcançasse antes que ele respondesse. Assim que o fez, eles começaram a caminhar devagar pelo gramado extremamente verde e saudável.
_ Talvez esteja na hora de aposentar a máscara de morcego – falou pensativo, enfiando as mãos nos bolsos do terno e encarando a grama com olhos tristes enquanto caminhava – Talvez Gotham não precise mais de um símbolo. Talvez eu não queira mais ser um símbolo... – confessou.
_ Isso tem a ver com a morte da senhorita Alice e da senhorita Rachel?
_ Em grande parte sim, mas não é só por isso que eu venho pensando em desistir do Batman – fez uma pausa, concentrando-se no ritmo cadenciado de seus passos constantes – Há muito tempo eu venho considerando que o Batman seja um símbolo errado para Gotham. Eu inspirei os sentimentos errados ao trazê-lo à tona.
_ Não há nada de errado em difundir a esperança aos desacreditados, patrão. O Cavaleiro das Trevas é a confirmação de que Gotham não está perdida na própria escória que a movia há tão pouco tempo. O senhor deu aos habitantes dessa cidade muito mais do que um símbolo. O senhor lhes deu a perspectiva de um recomeço. Mostrou que é possível lutar contra os infortúnios de uma terra sem lei.
_ Essa esperança veio apenas aos habitantes que a desejavam, Alfred – o Bilionário sacudiu a cabeça em meio a um sorriso nada alegre – Mas o Batman também inspirou o desafio – continuou, e conforme falava parecia cada vez mais triste por ser incapaz de desmentir aquela verdade – Antes do Batman, Gotham sofria com o crime organizado, assaltantes amadores, corruptos... e apesar de Gotham sempre parecer demonstrar uma pré-disposição maior para o crime, eram crimes comuns, mais fáceis de lidar. Mas depois que o Batman surgiu... – riu, porém o som se assemelhou mais a um bufar frustrado – A questão é que o Cavaleiro das Trevas trouxe consigo uma horda complexa demais de vilões. Vilões que não têm medo algum de consequências, que não aceitam negociações, e pior, que gostam do desafio de enfrentar um estereótipo de herói.
_ Concordo, Patrão Bruce – Alfred assentiu – Mas permita-me perguntar uma coisa: Onde estaria Gotham a uma hora dessas se Batman não tivesse intervindo? A cidade seria cada vez mais corroída pela corrupção desenfreada que a consumia, e provavelmente ela sequer existiria no mapa depois do atentado da Liga das Sombras. Com ou sem o Batman, Gotham seria atacada por aquele que se intitula o Ra’s Al Ghul, e eu creio que estou certo ao dizer que a cidade não seria capaz de sobreviver a isso sem o senhor.
_ Provavelmente você tem razão. Naquela época o Batman foi necessário, mas agora ele inspira apenas mentes insanas, e isso me preocupa... Acredito que se ele sair de cena, os vilões também sairão. Eles precisam de mim para encontrar um desafio à altura.
_ Mas a que custo, senhor? – Alfred questionou, estreitando de leve os olhos para evitar a claridade excessiva que iluminava fortemente o seu rosto – Certamente os vilões sumiriam em algum momento, mas antes eles tentariam a todo custo fazer com que o Cavaleiro das Trevas retornasse. Agora resta saber se o senhor aguentaria testemunhar uma destruição de proporções nunca antes vista sem se manifestar. O senhor é capaz de tornar-se um espectador passivo do fim de Gotham, mesmo sabendo que possuiu as armas necessárias para evitá-lo?
Bruce não soube o que responder de imediato. Seus passos se tornaram um pouco mais lentos, como se o ritmo comedido o ajudasse a colocar todas as suas decisões na balança. Enfim, encarou o mordomo antes de dar a sua resposta.
_ Às vezes eu tenho a impressão de que você me conhece melhor do que eu mesmo, Alfred – Bruce deu um sorriso constrangido, demorando-se em admitir.
_ Não se preocupe, patrão. Chegará o momento em que Gotham não vai mais precisar do Cavaleiro das Trevas, mas isso só acontecerá quando o senhor não precisar mais do Batman. Mas enquanto esse dia não chega, Gotham terá que se contentar com a proteção que a máscara de morcego pode lhes oferecer, por mais que essa máscara atraia vilões mais perigosos.
_ E nesse dia você provavelmente dirá “Eu te avisei”... – Bruce sorriu em direção ao chão esverdeado pela grama quase brilhante.
_ Provavelmente, senhor – assentiu, arqueando de leve o queixo como se apenas admirasse a calmaria controversa do cemitério – É sempre um prazer confirmar que eu tinha a razão – brincou, arrancando mais alguns risos abafados de Bruce.
Os dois continuaram caminhando em silêncio, mantendo os olhos fixos em um ponto que conheciam muito bem, e quanto mais se aproximavam daquele destino, mais a atmosfera parecia ficar tensa ao redor deles. Duas lápides brancas, tão brancas quanto fosse possível, ocupavam o espaço à frente de uma enorme árvore que sombreava por volta de meio metro além das duas pedras elegantes.
Bruce parou diante das inscrições que tinham os nomes de seus pais gravados, espantando algumas folhas secas que caíram sobre elas. Alfred manteve-se ao lado do patrão, admirando com saudade os nomes de Thomas e Martha Wayne.
Demoraram-se pouco mais de quinze minutos nos túmulos dos dois, ambos quietos demais em suas próprias conversas silenciosas, como se seus olhares pudessem dizer bem mais do que as palavras difusas que não eram capazes de sair de seus pensamentos entristecidos.
Tudo o que podiam fazer era contemplar a visão funesta daquele cenário, e deixar que as lembranças do tempo em que Thomas e Martha viveram fossem suficientes para ressuscitá-los em suas memórias...
Bruce e Alfred lançaram um último olhar de adeus às lápides antes de retomarem a caminhada num sentido oposto, ignorando o quanto sempre era difícil aquele momento de despedida emudecida pela tristeza. Cada vez que Bruce visitava as lápides de seus pais, seu peito se apertava dolorosamente ao se dar conta de que as feições de Thomas e Martha estavam cada vez mais esquecidas e distantes em sua memória. Tinha medo de que algum dia isso acontecesse com Alice. Não queria esquecer seu rosto, o som de sua risada e muito menos a imagem daquele sorriso radiante. Aquele sorriso, que sempre o motivou a querer protegê-la.
Bruce surpreendeu-se ao perceber que já estava a uma mísera distância da lápide esbranquiçada de Alice. O Mordomo estava logo atrás, analisando com atenção a postura rígida do patrão, notando com pesar o quanto ele ainda parecia abalar-se com o nome de Alice inscrito naquela paisagem fúnebre. Até mesmo Alfred sentia uma incômoda sensação de angústia ao se deparar com a cena que evidenciava a morte da jovem, que saiu de suas vidas com a mesma rapidez com que entrou.
O Bilionário estancou por um momento, parecendo realmente intrigado com algo que Alfred não entendeu.
_ Algum problema, Patrão Bruce?
_ A terra... – balbuciou Bruce de forma incoerente, com as sobrancelhas completamente unidas devido à sua expressão intrigada, olhando atentamente para o chão.
Alfred, completamente confuso, fitou o patrão enquanto Bruce se ajoelhava na grama, bem em frente ao túmulo da hippie.
_ Veja, Alfred! A terra parece... estranhamente remexida nesse perímetro! – anunciou, pegando uma amostra da grama solta em suas mãos.
Realmente, em frente à lápide de Alice havia um retângulo irregular de terra batida. A grama despontava completamente torta em relação ao que deveria ser, e em vários pontos o verde do capim parecia soterrado pelo marrom escuro e úmido do solo, de uma forma anormal.
_ O senhor acha que... – Alfred deixou a frase morrer no ar, não vendo o menor sentido no que estava prestes a sugerir, porém incapaz de ignorar o pensamento.
_ Que talvez o túmulo tenha sido violado. – completou, também parecendo contrariado com aquela versão, ainda revirando atentamente a terra, sem se importar com a umidade e a sujeira que se impregnaram imediatamente em sua pele – Vamos, Alfred! – Bruce chamou o Mordomo, andando apressadamente até o carro. Alfred o acompanhou.
_ O que o senhor pretende fazer, patrão?
_ Eu, nada – avisou, encarando um ponto fixo no horizonte enquanto ainda caminhava apressadamente – Este é um assunto digno do Batman...

O ponteiro das horas parecia arrastar-se zombeteiramente em torno do relógio... era quase como se o tempo quisesse voltar atrás, ou estancar teimosamente diante da ansiedade de Bruce. O Bilionário encarava impaciente a armadura negra e bem polida do Batman, revezando olhares entre o titânio e o relógio de pulso.
O céu ainda estava muito claro para que Batman vagasse pelas ruas. A ideia de simplesmente esperar não lhe agradava nem um pouco, e mais de uma vez Bruce teve que reprimir a vontade quase incontrolável de agir.
_ Tentar furar a caverna com os próprios passos não me parece a melhor opção para esperar, senhor...
_ Esperar não é a melhor opção... – suspirou de forma irritadiça – Por que alguém faria isso? Remexer na terra daquele jeito, como se tivessem tentado desenterrar o caixão...
_ Talvez a obsessão que sobreviveu à morte da senhorita Alice seja maior do que possamos compreender – respondeu Alfred sabiamente – Ou pode simplesmente não passar de uma paranoia, senhor. Uma interpretação falha, distorciva da realidade.
_ Isso é o que eu pretendo descobrir – massageou a nuca tensa com a ponta dos dedos, encarando mais uma vez o relógio antes de bufar com a frustração da posição dos ponteiros.
Somente por volta das onze da noite Bruce achou seguro retornar ao cemitério, só que desta vez vestido com a armadura de titânio em forma de morcego. Suas menores expressões eram capazes de denotar o quanto ele estava concentrado naquela nova tarefa. Assim que a armadura encostou sua pele, um arrepio percorreu o trajeto de sua espinha, e seus olhos adquiriram o mesmo brilho frio de quando a máscara de morcego os emoldurava.
E saiu, mesclando-se ao escuro como se a noite fosse uma extensão de seu corpo.
A capa preta esvoaçava em vários ângulos conforme Batman acelerava cada vez mais sua potente moto pelas ruas quase desertas. O asfalto passava rápido embaixo das enormes rodas grossas da moto preta – tão negra quanto a própria fantasia de morcego –, cada poste aceso parecia apenas um borrão de luz difuso que passava apressado pela lateral da enorme motocicleta. Seu corpo mantinha-se inclinado sobre ela, como um convite para que a velocidade apressasse a chegada ao seu destino.
As rodas se inclinavam, ajeitando-se aos comandos de cada curva durante todo o percurso até o cemitério. O vento chiava alto ao passar pelos ouvidos cobertos de Batman, mas tudo o que o Cavaleiro das Trevas era capaz de perceber era o caminho a sua frente, sem jamais desviar-se do foco.
Os ombros largos do Morcego pareciam cada vez mais duros e tensos com a expectativa do que veria em breve. Seus olhos estreitaram-se avidamente ao captar a imagem do cemitério cada vez mais próximo, e a cada novo metro percorrido, o Cavaleiro das Trevas parecia empertigar-se inquietamente sob o confortável assento de couro preto.
A entrada, cada vez mais próxima, estava fracamente iluminada unicamente por uma pequena cabine quadrangular no interior do cemitério, aonde um homem de uniforme cinza com uma lanterna presa ao redor da cintura parecia estranhamente largado em uma cadeira de rodinhas, roncando sonoramente.
Batman desceu da enorme moto em um único pulo preciso, movido pela pressa. Saltou a grade de entrada em uma escalada rápida, e antes que o vigia noturno pudesse soltar mais um de seus roncos, o Cavaleiro das Trevas já se encontrava do lado de dentro, correndo silenciosamente em direção ao túmulo que visitou mais cedo, sentindo a capa flutuar atrás de si conforme se movia rápido pela escuridão densa.
Havia uma pequena cabana no meio do caminho, que chamou a atenção do Morcego. Era mais um depósito entupido de entulhos e ferramentas, inclusive uma infinidade de pás, todas praticamente com o mesmo tamanho padronizado. Batman deu uma breve espiada para dentro do local, à procura de possíveis funcionários, porém apenas os utensílios fúnebres pareciam ocupar o espaço apertado ali dentro. Sem se demorar mais, segurou com força uma das pás que estava mais próxima de seu alcance, e logo retomou a corrida silenciosa, tão silenciosa como se seus pés nem precisassem tocar o chão para que Batman se movesse.
Finalmente a visão da elegante lápide de Alice – agora escurecida pelos tons enegrecidos da noite – foi chegando cada vez mais perto, cada vez mais relevante à medida que ele encurtava a distância com a maior velocidade que seus pés bem treinados permitiam. E mesmo em meio à escuridão quase cegante, o Cavaleiro das Trevas imediatamente percebeu a irregularidade gritante que havia na terra em frente à lápide da hippie.
A grama parecia ter sido deslocada bruscamente de seu lugar, como se alguém tivesse tentado desenterrar o caixão que se encontrava a sete palmos daquela terra bagunçada... A cada novo minuto, Batman desconfiava ainda mais daquele cenário estranho.
Cravou a pá com força no chão, fazendo o possível para tirar o máximo de terra a cada movimento. Seu pé direito trabalhava em enterrar a ferramenta ao máximo, conforme os braços se esforçavam para cobrir todo o cinza do metal com o marrom-avermelhado do solo.
Um grunhido baixo fez sua garganta tremer de leve ao acelerar cada vez mais aquele serviço. Enquanto mantinha-se concentrado em cavar, sua mente parecia destacada de seu corpo... pouco lhe importou a presença das grossas gotas de suor que se formavam continuamente por baixo da máscara... Mal notou a ardência leve que se apoderou dos seus músculos enquanto permanecia absorto naquela tarefa mecânica...
Ele apenas afundava a pá e a trazia novamente à tona, completamente apinhada de terra e alguns fios verdes da grama despontada.
Continuou com aquela repetição de movimentos por alguns longos minutos, até que a pá recusou-se a aprofundar mais. Um baque surdo de metal contra madeira indicou que Batman finalmente chegara aonde queria. Seus movimentos ficaram ainda mais rápidos com a expectativa de tirar a fina camada de terra que ainda depositava-se sobre o caixão também marrom, e logo suas luvas e armadura pareciam tão sujas que Batman abandonou a ferramenta e terminou o trabalho com as próprias mãos, o mais rápido que pôde.
Logo o caixão já estava completamente à mostra, e a respiração do Morcego desregulou-se de leve ao admirar o próprio trabalho. Segurou novamente a pá com firmeza, e investiu vários golpes na madeira, numa tentativa de arrombá-la. Parou por um momento, vigiando com atenção todos os lados para conferir se o barulho dos contínuos choques teria atraído alguém. Tudo o que ouviu foi o vento assobiar com vontade sobre as folhas precariamente presas na árvore.
Retornou a atenção para o caixão, dando um novo golpe com a pá que o abriu de vez.
O Cavaleiro das Trevas levantou a tampa, imaginando se sua teoria estivera certa ou se tudo não passou de mais uma neurose da sua cabeça...
O que Batman viu a seguir estava muito além de sua imaginação, ou até mesmo de sua compreensão. Seus olhos se arregalaram amplamente, ao mesmo tempo em que as sobrancelhas por trás da máscara de morcego quase se uniram em uma só.
_ Não pode ser... – a voz do Justiceiro saiu apenas com uma pequena fração da rouquidão que Batman sempre lhe dava, quase como se esquecesse de disfarçá-la...
O que havia dentro do caixão era um mar de cartas de baralho, todas gravadas exatamente com o mesmo desenho de bobo da corte. Centenas, ou talvez milhares, de cartas coringa ocupavam absolutamente todo o espaço interno, e não havia mais qualquer sinal da urna com as cinzas de Alice.
Uma gargalhada irritante ecoou há alguns palmos de distância, acima do caixão e de Batman.
_ Sentindo falta de alguma coisa, Batsy? – Coringa perguntou com um tom desdenhoso – Não está meio tarde para visitas?
_ O que você fez? – Batman rosnou, dando à sua voz o mesmo tom rouco de sempre.
_ Ora, ora, ora... quem diria que o grande Batman, o Justiceiro Mascarado, é na verdade um ladrão de túmulos – seus olhos faiscaram – A pergunta certa é: o que você pretende fazer?
Batman pulou para fora do buraco que ele mesmo cavou, sentindo a fúria comandar os seus movimentos. Coringa apenas sorria quando o Morcego posicionou-se ameaçadoramente à sua frente. O Palhaço voltou a falar.
_ O que achou da minha obra-prima? – lambeu o canto da cicatriz, quase como se realmente estivesse ansioso pela resposta.
_ Onde estão as cinzas da Alice? – segurou com força o terno roxo do Palhaço, encarando-o com intensidade. Mas nada parecia amedrontá-lo, Coringa apenas gargalhava diante das reações tão exageradas de Batman.
_ Não me diga que você realmente caiu no conto da carochinha? – riu alto, quase com falta de ar – Sinceramente, eu esperava um pouco mais da sua inteligência, Morcego! A Alice está tão morta quanto eu.
_ Podemos resolver isso num instante – avisou, acertando o punho exageradamente cerrado no queixo de Coringa, que foi jogado para trás com o impacto e bateu a espinha num enorme tronco de árvore.
Coringa pareceu achar graça no soco, pois suas risadas aumentaram de intensidade, e se não fosse pela maquiagem branca que escondia a verdadeira coloração de sua face, seria possível ver o quanto ele estava vermelho de tanto rir.
_ Você vai me matar, Batman? – cantarolou, alegre – Finalmente vai se livrar dessa regra estúpida?
_ Onde estão as cinzas? – perguntou novamente, espumando de ódio, erguendo Coringa pela gola.
_ Sabe por que a Alice resolveu forjar a própria morte? – um fio de sangue escorria do canto do sorriso indócil do Palhaço – Você nem imagina, Batsy? – riu.
_ Chega! – urrou num berro rouco, batendo novamente a cabeça de Coringa no tronco da árvore. Mais uma vez, o Palhaço gargalhou alto.
_ Porque era o único jeito de se livrar de você – respondeu satisfeito, encarando o Morcego com um brilho cruel nos seus olhos amendoados – E se juntar a mim! – completou, em êxtase ao perceber as luvas que o seguravam tremerem brevemente.
_ Você a matou! – acusou, jogando-o para longe.
Coringa sentiu-se arremessado alguns metros, e logo após o baque, a umidade da terra invadiu o seu terno. Batman se aproximava novamente do corpo caído do Palhaço, parecendo disposto a considerar quebrar sua única regra. O ódio turvava sua visão como há muito tempo não acontecia. O seu autocontrole parecia esvair-se por entre os dedos, como se tentasse segurar água com as próprias mãos.
O Palhaço gostou do que viu! Gostou de saber que atingira Batman com aquela intensidade, de perceber a fúria sobressaindo nos olhos negros do Morcego. Sorriu amplamente quando o Cavaleiro das Trevas finalmente o alcançou, parecendo disposto a cobrar, com juros, todo o mal que o Psicopata já infligira àquela cidade tão atormentada pelos seus atentados. Coringa levou a mão até o lado interno de seu paletó, segurando firmemente uma das várias facas que guardava ali.
Batman agachou-se enfurecidamente sobre a expressão zombeteira de Coringa, que ainda não havia tirado o sorriso do rosto. Agarrou a gola do terno do Palhaço e a ergueu, golpeando furiosamente o rosto do Psicopata com a mão livre. A maquiagem tornou-se ainda mais borrada no local do soco, mas nada parecia ser capaz de afetá-lo fisicamente.
_ Minha vez agora! – Coringa sussurrou divertidamente próximo ao ouvido do Morcego, e tão logo aquelas palavras foram pronunciadas, Coringa enfiou a enorme faca que segurava entre o pescoço e o ombro de Batman, aonde a armadura não o protegia totalmente.
Batman gritou, arrebatado pela dor e pela surpresa do ataque. Seus joelhos penderam no chão molhado, e uma de suas mãos foi até a faca, arrancando-a de sua pele. O sangue pingou avidamente, e antes que o Morcego tivesse tempo de reagir, Coringa acertou o seu queixo com um chute em meio às próprias gargalhadas.
Batman caiu, e o impacto fez o corte em seu ombro queimar.
_ Quem está aí? – uma voz assustada gritou, gaguejante, vindo junto com uma luz que parecia tremer. O vigia, que antes dormia ruidosamente na entrada do cemitério, agora segurava uma lanterna um tanto trêmula, procurando pela origem do barulho que o acordou – Quem está aí? – repetiu a pergunta, vacilando em seus passos para mais perto de onde Batman e Coringa estavam.
_ Nós ainda não acabamos... – Coringa deu um largo sorriso, deixando os dentes amarelos à mostra de um jeito bizarro, iluminados fracamente com a frágil luz da lanterna – Parece que nossas pendências devem esperar, infelizmente!
O Palhaço socou a mandíbula parcialmente exposta de Batman e virou-se, caminhando tranquilamente para longe do Morcego.
O vigia aproximava-se lentamente, fazendo um esforço descomunal para enxergar um palmo à sua frente naquele breu. Nem mesmo a luz da lanterna parecia eficiente naquela tarefa. Batman sentiu os passos hesitantes do vigia cada vez mais próximos da região em que estava, e mesmo ferido, distanciou-se rápido do homem pálido de medo.
Mesclou-se à escuridão. Sumiu de vista de um segundo a outro, tão silenciosamente quanto sempre fizera, deixando como único vestígio de sua presença alguns pingos de sangue, escondidos por entre os fios de grama verde escuro.
Ainda que a dor o atrapalhasse, o Cavaleiro das Trevas a ignorou e começou a correr até a enorme motocicleta preta escondida na entrada do cemitério. Antes de deixar o lugar, ainda foi capaz de ouvir a exclamação confusa na voz do vigia, que encarava incrédulo as várias cartas de baralho que recheavam o caixão escancarado de Alice.
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