A Face Oculta Da Lua

10 Feche Os Olhos Para Me Ver


Notas iniciais
E aí, como foi o Natal/Reveillon de vocês? =] Espero que meus incríveis leitores tenham saco pra continuar me aturando nesse novo ano!!! E eu fico super feliz de dar as minhas primeiras boas vindas de 2013 à Déborah Poynter Rogers! Obrigada por começar a comentar aqui, sua linda! Eu simplesmente AMO poder contar com a opinião de vocês.

Alice abriu um enorme sorriso quando Tony a chamou em um canto afastado da atenção dos demais ninjas, revezando olhares curiosos entre a expressão divertida do antigo ninja e a pequena sacola escurecida entre seus dedos grossos, pousados sobre a cadeira de rodas.

_ Tenho uma coisa pra você! – o cozinheiro anunciou alegremente, parecendo esforçar-se para conter o sorriso que não queria abandonar o seu rosto.

_ Isso aí é o que eu acho que é? – perguntou Alice, umedecendo os lábios ao se referir à sacola bem presa na mão de Tony.

_ Talvez... – sorriu, parecendo orgulhoso de si mesmo – O que você acha que é?

_ Uma bola quadrada! – a hippie deu pequenos saltos alegres, enquanto o sorriso de Tony sumiu repentinamente de seus lábios e ele passou a encará-la como se ela fosse realmente problemática.

_ Não... – negou lentamente, sem saber se a hippie estava brincando ou se falava sério. A empolgação do palpite lhe pareceu real demais, mas se tratando de Alice, Tony ainda estava para descobrir que qualquer esquisitice era provável – Ah, entra logo, Alice!

O antigo ninja escancarou a porta da cozinha para que ela passasse, entrando logo em seguida e fechando-a novamente. O sorriso retornara ao seu rosto de meia idade, uma expressão genuína e doce que parecia exalar expectativa.

_ Um DVD do filme do Pelé? – arriscou mais uma vez ao prestar atenção no formato retangular da sacola.

_ DVD do quê? – repreendeu, sem realmente entender, mas seu tom não deixou de soar descontraído – Esqueça, de qualquer forma, não se trata de um filme! – avisou, dando a dica.

_ Então eu não sei o que é... – ela desistiu, desanimada.

_ Lembra qual foi uma das primeiras coisas que você me perguntou quando chegou à Liga? – Tony levantou uma de suas sobrancelhas grossas e inquisidoras.

_ Lembro... – corou ao responder, encarando o chão – Perguntei se você não ia se levantar para me cumprimentar direito...

_ Quê?! Não, você sequer me perguntou isso! – rebateu, parecendo confuso.

_ Bom, mas com certeza eu pensei – explicou, fazendo Tony revirar os olhos já impacientes, embora sempre dóceis.

_ Você me perguntou a respeito da estufa e do que nós cultivamos nela... – fez uma pausa, esperando que Alice finalmente entendesse.

_ Ah... – franziu a testa, imaginando o quanto o seu rosto devia parecer confuso, já que ela não fazia a menor ideia das intenções que o cadeirante tencionava dar àquela conversa – Eu perguntei?

_ Vamos, Alice, faça um esforço! Sobre o que exatamente você queria saber a respeito da estufa? – tentou mais uma vez, os olhos brilhando pela expectativa de sua compreensão, esperando que afinal ela compreendesse.

_ Huuum... Que tipo de fertilizante vocês usam? – arriscou, mas imediatamente percebeu pela expressão de Tony que o seu palpite estava redondamente errado. Inclinou a cabeça, fazendo um esforço sobrenatural para lembrar-se daquela conversa de mais ou menos um mês atrás que o cozinheiro tanto insistia – Sinceramente, eu não faço ideia... – rendeu-se.

_ Era sobre uma fruta específica, que serve como matéria-prima para um determinado doce... – a voz de Tony, antes empolgada, agora parecia quase suplicante.

_ Melancia? – deu de ombros.

_ Desde quando melancia é matéria-prima para algum doce? – bufou, impaciente – Esqueça! Aqui, eu consegui uma barra de chocolate pra você – disse, bem menos empolgado ao entregar a sacola à hippie.

Alice arregalou os olhos em real surpresa, e imediatamente seus dedos tomaram a sacola das mãos de Tony de forma brusca e apressada, como se tentasse agarrar um filete de água em meio a um abrasivo deserto.

_ ME DÁ! – berrou, abraçando a sacola, como se a protegesse do mundo em volta de seus braços – Meu precioso! – a hippie falou em um sibilo arrastado, acariciando-a repetidas vezes – Meu precioso! Nós vamos abrir você, vamos comer você... – sua fala continuou abafada, saindo cada vez mais baixa e rouca por conta do tom incomum que conferiu à própria voz – Gollum, Gollum... – tossiu, sem desviar os olhos vidrados de perto da sacola.

_ De nada... – Tony foi incapaz de segurar o riso diante daquela cena. A hippie encarou o cozinheiro assustada, como se estivesse fora da realidade até aquele momento em que a voz grossa de Tony a trouxe de volta.

_ Eu já ia agradecer... – defendeu-se, agora com sua voz habitual – Obrigada por me livrar de comer a gororoba que você preparou para o almoço! – sorriu, feliz.

_ Eu devo considerar isso um agradecimento? – perguntou, divertindo-se – Aliás, o almoço de hoje vai ser picadinho de fígado, você vai perder.

_ Fígado? – fez uma careta de nojo – Você realmente deve odiar esses ninjas, Tony, e eu realmente não o culpo! Bom, pelo menos você finalmente aprendeu que nem só de sopa vive o homem – riu.

_ Enfim... só não deixe ninguém saber que eu te dei isso! – pediu.

_ Pode ficar tranquilo, minha boca é um túmulo, recheado de chocolate preto com flocos de arroz – deu um largo sorriso ao ver o sabor da deliciosa barra que segurava com possessividade.

Depois de gastarem mais alguns minutos em uma conversa descontraída, Alice finalmente deixou a cozinha e tomou o rumo do lugar onde Ducard a esperava para dar início a mais um exaustivo dia de treino. Ela olhou ansiosa para o chocolate, tentando a todo custo conter o impulso de rasgar o papel plastificado que o envolvia e comê-lo ali mesmo, numa única mordida.

A hippie não pôde deixar de sorrir quando ultrapassou o enorme corredor que a levava até o portão principal da Liga, e mais ainda ao empurrar a pesada porta com uma certa familiaridade. Alice sentia-se orgulhosa de si mesma pelo enorme progresso em seus treinos com o ninja naquele mês! Os ferimentos finalmente se tornaram um pouco mais raros, e os movimentos de Alice cada vez mais ousados e confiantes, embora suas investidas ainda parecessem quase infantis se comparadas à destreza de seu mentor.

Ainda parecia impossível vencer Ducard em qualquer combate que fosse.

A vista da entrada da Liga estava mais majestosa do que nunca. A neve, sempre presente, depositava-se no chão em uma camada ligeiramente mais fina, e a névoa que normalmente turvava a sua visão agora assentava-se abaixo do pico da montanha. A temperatura levemente mais amena era um forte indício da primavera anunciando-se, e Alice até conseguia ver várias pequenas flores azuis espalhadas pelas montanhas ao redor da Liga...

Flores lindas e de uma frágil delicadeza, porém a beleza de suas pétalas, donas de um azul-vivo chamativo, camuflava o seu real perigo, um perigo que Alice já encarara de perto – o medo, em sua mais extensa profundidade.

A testa da hippie se franziu ao notar que Ducard estava sentado sobre as próprias pernas cruzadas, como se meditasse. Tímidos raios de Sol faziam a neve parecer ainda mais branca do que realmente era, apenas ao redor de uma grossa árvore a claridade era coberta pela sombra fresca das folhas.

Alice procurou por algum indício da afiada lâmina que costumava empunhar durante as suas horas de treino com o ninja, porém não havia nem sinal das armas ali... Ela se aproximou o mais sutilmente que seus passos permitiram, sorrindo para si mesma com a imobilidade do ninja à sua frente, parecendo totalmente distante do universo além de sua mente.

A garganta da hippie tremia de leve conforme ela se aproximava de seu instrutor, e o seu cuidado apenas redobrou quando o percebeu incrivelmente imóvel e próximo de si, dando a entender que não percebera a sua constante aproximação. Levou os lábios o mais próximo que se atreveu a uma das orelhas ligeiramente pontudas do ninja, o pulmão já repleto de ar pelo o que pretendia fazer.

_ ACOOORDA, BARBICHA! – berrou com toda a potência que era devida ao seu fôlego, esperando por alguma reação estupefata do homem que a treinava – Tá pensando o quê, que isso aqui é uma casa de repouso? Pode começar a pagar cinquenta flexões, mané!

Para o total descontentamento da hippie, o ninja nem sequer se moveu. Seus olhos permaneceram tão fechados e imóveis quanto antes do “susto” projetado pela aluna, apenas um riso de deboche se formou, sutil, no canto de seus lábios, numa evidente zombaria.

_ A sua incapacidade em ser discreta é notável! – disse calmamente, ainda sem alterar em nada a sua posição aparentemente desconfortável – Sua respiração e seus passos são tão altos que até mesmo o ar parece se agitar quando você chega.

_ Ah, vai comer lesma, Shrek! – resmungou – O meu segundo nome é ‘Discrição’!

_ Então o terceiro deve ser ‘Nula’ – caçoou, finalmente permitindo-se abrir os olhos para encará-la, divertindo-se com a expressão irritada da aluna – A questão é que nós precisamos aperfeiçoar isso com urgência! Um ninja deve ser capaz de passar despercebido por qualquer ambiente, sem deixar nenhum rastro ou até mesmo a desconfiança da sua presença. Um ninja deve ser invisível quando bem entender, e se expor apenas quando lhe convier.

_ E o que você sugere, Mister Fodão? – perguntou com desdém.

_ Vamos começar a trabalhar isso. Normalmente essa é uma parte do treino que só é abordada por volta do segundo ano de treinamento de um ninja, mas o seu caso é realmente grave. Eu já vinha cogitando alguma intervenção do gênero, mas depois desta lamentável demonstração, melhor enfatizar este tipo de exercício o quanto antes...

_ Ei, também não precisa humilhar! Eu não sou tão escandalosa assim... – defendeu-se, porém com um ar de dúvida que Alice odiou ouvir na própria voz.

_ Alice, você se aproximou de mim cantarolando a música tema do filme “Missão Impossível”! E aposto que nem mesmo se deu conta disso – sorriu diante dos olhos arregalados e incrédulos da aluna.

_ Ora... a música é contagiante... – fez uma careta ao responder.

O ninja conduziu a hippie novamente para dentro da Liga, caminhado apressadamente à frente da aluna em um caminho ainda desconhecido para ela. A passagem era um tanto larga, porém tão escura que era fácil esbarrar e tropeçar no que quer que fosse...

Ducard puxou Alice em direção a uma escada empoeirada e parcialmente escondida pela ausência de luz. A hippie não conseguia sequer distinguir o final dos degraus com a escuridão cada vez mais densa à medida que os dois desciam a escadaria, indo para um nível inferior ao térreo da Liga. Alice mantinha-se o mais concentrada possível nos próprios movimentos, descendo os degraus altos com cautela, e sabendo que qualquer deslize poderia fazê-la escorregar e rolar vários lances de escada abaixo. A típica Alicisse.

_ Por que descer tudo isso? – perguntou, já se sentindo incomodada com os desníveis intermináveis.

_ Tem uma sala especial pra esse tipo de treino aqui embaixo – avisou, ultrapassando o último degrau com extrema familiaridade e chegando a uma nova passagem mais estreita.

_ É algum subterrâneo? – uniu as sobrancelhas, intrigando-se com o fato de ainda haver corredores estranhos para ela dentro do enorme prédio. Seu pé bateu dolorosamente naquilo que Alice julgou ser uma pilastra de mármore, talvez. Era difícil diferenciar os objetos naquele breu. Uma parede indicou o fim do caminho que traçavam, e tudo o que a hippie pôde distinguir naquela imagem escura foi uma porta, tão velha que parecia um milagre que ainda não estivesse podre.

_ Sim. Talvez esse subterrâneo seja tão antigo quanto a própria Liga das Sombras... – ergueu uma chave pesada e de cores envelhecidas que logo se encaixou em uma fechadura igualmente antiga. O ninja parecia completamente à vontade na escuridão extrema, enquanto a hippie estreitava cada vez mais os olhos na esperança de conseguir captar alguma luz que a ajudasse a enxergar.

_ Então... Nada de espadas hoje?

_ Nosso foco será outro no momento.

_ Mas eu ainda nem consegui te furar... – reclamou.

_ Não faltarão oportunidades – disse, finalmente empurrando a porta para abri-la – Mas eu duvido que você consiga! – deu um sorriso maldoso na direção da aluna, mas ela pareceu não se importar com o comentário do ninja. Sua atenção estava focada em tentar decifrar o que havia dentro da sala.

O interior do aposento era ainda mais escuro do que o seu exterior, e Alice nem mesmo conseguia calcular aproximadamente qual seria a dimensão daquele lugar.

_ O que tem de especial aqui? – perguntou, confusa – Não passa de um lugar escuro...

_ É exatamente a escuridão que torna o lugar apropriado para o treino! – comentou calmamente – Lá em cima nós não conseguiríamos esse efeito de cegueira. Mesmo à noite, a luz da Lua e das estrelas nos atrapalhariam... Aqui nós poderemos aprimorar seus sentidos, sem depender unicamente da visão. Você se prende demais ao que seus olhos veem, e isso é perigoso.

_ Perigoso para o meu inimigo, não pra mim! – contestou, fitando um ponto fixo que parecia ser a silhueta de Ducard.

_ Não, Alice. A visão é o sentido que mais camufla a verdade! Os olhos sempre distorcem a realidade e a sua interpretação – disse – mas se a visão for usada corretamente em conjunto com todas as suas outras percepções, mesmo as mais sutis, aí sim você será uma verdadeira ninja.

_ Sei, e como essa budega vai funcionar, Sir Fuck Yeah?

_ Simples. Basta que você consiga me tocar. – anunciou, e a resposta soou um tanto estranha para a hippie – Não me interessa a técnica, os seus métodos ou como você vai tentar cumprir o seu objetivo, no final das contas tudo o que você tem que fazer é me atingir de algum modo.

_ Jura? Quer dizer que a grande tarefa para aprimorar os meus falhos sentidos se resume a encostar em você? Só isso?

_ Só – confirmou, parecendo achar graça de algo que Alice não compreendeu – Podemos começar a hora que você quiser!

_ Tudo bem, então quando eu contar até três – avisou, abrindo um sorriso maldoso que sabia que Ducard não seria capaz de ver – Um... Dois... – Antes mesmo de terminar de dizer ‘Dois’, a hippie jogou o corpo pra frente desajeitadamente, tateando aleatoriamente o lugar em que acreditava estar o ninja. Porém, tudo o que ela tocou foi o vazio.

_ Você não vai me encontrar aí! – Ducard comentou casualmente, e sua voz veio de uma direção completamente oposta da que estava, fazendo Alice virar o rosto abruptamente para o lado certo – Você não esperava que eu realmente fosse acreditar na sua palavra, esperava? O seu oponente jamais facilitará as coisas para você, e aqui nós não passamos disso: lados opostos de uma moeda que brigam pelo mesmo espaço.

_ Com ou sem trapaça eu posso te vencer, colega! – disse, mudando a inclinação de seu corpo para mais perto da voz do ninja. Suas mãos alcançaram uma porção de nada, mais uma vez.

_ Você ainda está presa ao que seus olhos te dizem. Você é tão dependente da sua visão que quando ela se mostra inútil, suas atitudes se tornam incapacitadas, patéticas – agora a voz de Ducard veio de trás da hippie, que bufou de frustração ao ouvi-la mais uma vez fora de seu alcance.

_ Como você faz isso?

_ Eu me torno invisível junto com a escuridão! Permito que ela se dobre ao meu favor, e não contra mim.

_ Certo... – Alice desistiu de tatear espaços aleatórios ao seu redor, prestando total atenção às palavras do ninja – E o que exatamente eu estou fazendo de errado?

_ Huuum, como eu posso dizer? – fez uma breve pausa, parecendo refletir sobre a pergunta – Tudo! – respondeu finalmente.

_ Não ajudou muito – Alice rolou os olhos para cima, achando mais do que estranha a sensação de mover o globo ocular e só conseguir ver o denso negrume que a envolvia por todos os ângulos possíveis. Odiou aquela sensação.

_ Primeiro, controle a respiração – orientou calmamente – você está ofegante e ansiosa demais para completar a sua tarefa, e isso só tende a prejudicá-la. Deixe que a calma e a razão guiem as suas decisões, e compreenda que a paciência é uma grande aliada da vitória. Procure não se afobar pelo prêmio, ele é apenas uma consequência que virá até você, caso demonstre a competência necessária.

_ Na teoria parece bem fácil, mas na prática não passam de palavras – contestou, fazendo o possível para dominar melhor a própria respiração que estava completamente fora do ritmo.

_ Não se preocupe, essa é uma lição difícil que será melhor assimilada com a experiência. Mas você deve se esforçar se quiser resultados. Feche os olhos, eles são completamente inúteis abertos! Concentre-se apenas na sua intuição e nos outros sentidos. Se quiser realmente me ver, mantenha os olhos fechados e foque-se naquilo que você pode usar como arma.

_ Tudo bem! – a hippie respirou fundo algumas vezes, aceitando todas as sugestões de Ducard de bom grado, sabendo que, em breve, aqueles conhecimentos seriam sua única defesa para retornar à realidade quando finalmente abandonasse a Liga das Sombras.

Com as pálpebras abaixadas, Alice permitiu-se prestar atenção em qualquer som que lhe ajudasse a concluir aquela tarefa, por mais insignificante que um sussurro pudesse ser, ela queria estar atenta a ele. Sentiu-se uma completa idiota quando percebeu que tudo o que podia ouvir era, na verdade, a sua própria respiração. Buscou novamente a concentração dentro de si e voltou a prestar atenção no ambiente, deixando que nada menos do que o máximo de seu esforço falasse por si naquele momento.

_ Não se deixe ficar tensa pela dificuldade – a voz de Ducard pareceu uma corrente elétrica atravessando de ponta a ponta o corpo de Alice, despertando ainda mais a atenção da hippie, que logo ao ouvi-la soube calcular por alto a distância que os separava – A dificuldade nunca será um indício de derrota, muito pelo contrário! Sabendo lidar com as adversidades durante um conflito, as suas chances de provar o seu valor durante a batalha aumentam junto com a probabilidade de vencer.

Alice não respondeu, tentando ao máximo manter-se silenciosa enquanto avançava o mais cautelosamente possível na direção da voz do ninja. Seu plano parecia estar indo bem, até o momento em que a hippie bateu com força o pé em algum entulho pesado jogado no chão, algo duro o suficiente para lhe arrancar um palavrão de dor.

_ PARANGARICOTIRIMIRRUARO!!! – xingou o nada, sentindo o dedinho latejar com a intensidade bruta do baque inesperado – Qual é, Ducard, você improvisa um treinamento de cego e nem se dá ao trabalho de tirar essas porcarias do chão? – brigou, massageando com cuidado o local pulsante.

_ Aqui nós simulamos a realidade, não trabalhamos com utopias – rebateu – e a dificuldade é o fato predominante no dia-a-dia de um ninja, então acostume-se a ela. É você quem deve se adequar ao ambiente, e não o contrário! Talvez seja melhor invertermos os papéis, para que você veja como se faz uma aproximação bem feita nessas condições.

_ Pode apostar que eu não vou ver absolutamente nada – resmungou, cruzando os braços.

_ Mas poderá perceber o que se passa através dos outros sentidos... Não despreze o conjunto de sensações, Alice! Eles são pré-requisitos fundamentais para uma percepção competente dos acontecimentos.

_ Então agora sou eu quem deve ser tocada? Sinceramente, isso não está me cheirando bem! – reclamou baixinho, nem reparando na careta involuntária que cobriu suas feições, escondidas pelo negro que impedia qualquer visão mais complexa.

_ Fique quieta e tente sentir a minha aproximação. Se concentre única e exclusivamente nisso.

_ Não me mande ficar quieta, velhote! Meus sentidos apurados podem muito bem perceber você chegando sem que eu precise calar a boca, e... AI! – gritou ao sentir uma grossa tora de madeira bater violentamente na sua coxa direita – Isso não é justo, você tem uma arma e eu só tinha as mãos! – protestou.

_ Isso porque você ainda está presa demais às imagens de seus olhos, e não foi capaz de explorar o lugar à procura de algo que a ajudasse! E porque você perde mais tempo contestando as minhas ordens do que tentando cumprir o seu objetivo.

_ Você não vai com a minha cara?

_ Volte a dominar a respiração e feche os olhos e a boca mais uma vez – mandou – você estava se saindo muito melhor quando levava as minhas instruções a sério!

_ Tudo bem, mas pega leve com esse pedaço de pau que... DUCARD! – Alice caiu de cara no chão quando o ninja deu uma nova e forte estocada com a madeira bem no meio das suas costas. A pele de sua mão ralou-se dolorosamente ao contato com o chão áspero, e as costas inteiras arderam de dor com o movimento da queda. Ficou difícil respirar.

_ Você ainda está se distraindo consigo mesma! – repreendeu – E não espere nenhum tipo de caridade do seu oponente, eu já lhe adverti quanto a isso.

A hippie envolveu a barriga com os braços, tentando alcançar o ponto que queimava no meio da sua espinha, mas não conseguiu. Sua respiração agora se resumia a arfadas irregulares, e as pernas pareciam bambear a cada tentativa que Alice fazia para se colocar novamente em pé.

_ Levante-se! – o ninja ordenou, seco – E saiba que essa é a maior benevolência que eu posso e que vou lhe oferecer.

Alice fechou novamente os olhos, concentrando-se apenas em tentar reorganizar a própria frequência cardíaca. Levou um pouco mais de tempo do que ela previu, porém em alguns segundos a hippie já respirava mais facilmente.

Ela ergueu o corpo, deixando de lado o formigamento incômodo em suas costas e passando a encarar o último ponto por onde a voz do ninja surgiu, mas não importava o quanto tentasse enxergar, nada havia para se ver naquela sala escura. Seus sentidos ali eram tão inúteis quanto os de um cego em um cinema mudo.

Fechou os olhos uma terceira vez, mas antes que pudesse retomar a concentração do que se passava ao seu redor, sentiu novamente o pedaço de madeira em contato bruto com sua pele, poucos segundos após se levantar. Engoliu o xingamento que quis sair por sua garganta, obrigando-se a ficar calada.

Deu passos silenciosos para o lado, torcendo mentalmente para que não esbarrasse em mais nada que estivesse largado pelo chão.

_ Eu posso ouvi-la! – o ninja zombou, deixando que toda a sua competitividade se tornasse evidente na satisfação do comentário.

_ Você quer um prêmio por isso? – perguntou, irritada.

_ O meu prêmio vai se resumir à vitória, a não ser que você consiga reagir, ou pelo menos me evitar. Basta desviar das minhas investidas, isso não é pedir muito!

_ A culpa é toda sua se eu não consigo me defender! – brigou – Você nem pra tentar se colocar no meu nível de principiante e fazer um barulhinho que seja enquanto se aproxima...

_ Alice, eu não sei se você percebeu, mas eu estou falando com você a intervalos regulares de tempo... se você não puder me localizar nem mesmo pela minha voz, esqueça qualquer chance de conseguir perceber a minha posição pelos sinais mais sutis – replicou.

_ Mas cada palavra que sai da sua boca parece vir de uma direção diferente! – disse, frustrada.

_ Bom... você não esperava que eu fosse facilitar tanto, não é? – riu, e o som mais próximo daquela voz grossa deixou a hippie em estado de alerta. O ninja parecia ter a intenção de investir novamente.

Alice sentiu os pelos de sua nuca se eriçarem ao imaginar um novo golpe, e seguida apenas pelo instinto, mudou bruscamente a posição de seu corpo. O pedaço de madeira que o ninja segurava passou próximo ao ouvido de Alice, em um zumbido veloz. Porém, antes que a hippie pudesse comemorar a sua pequena vitória, a madeira atingiu em cheio o seu ombro.

_ Cacete! – reclamou alto, sentindo a pele arder assim que algumas farpas penetraram nela.

_ Excelente! – o ninja aprovou com a voz empolgada – Esse já foi um grande progresso, grande mesmo!

_ Grande progresso? – riu debochada – Você me acertou, Barbicha, como isso pode ser um progresso?

_ Você conseguiu sentir a minha aproximação, finalmente usou os outros sentidos em meio à adversidade que te impedia de reagir! Mesmo cega, conseguiu me enxergar – Ducard sorriu, satisfeito – O seu único erro foi acreditar que estava livre do meu ataque e relaxar as próprias defesas. Lembre-se: você nunca estará livre de investidas surpresas até que o seu oponente esteja desacordado ou morto, e mesmo que ele pareça incapacitado pode ser um truque, por isso é indispensável que você jamais baixe a guarda! Dê o seu melhor a todo minuto, sem jamais hesitar entre uma decisão ou outra, entende?

_ Claro! Eu dou sempre o melhor de mim e sei que só assim é que talvez se mova alguma coisa ao meu redor... – recitou, arrancando um sorriso do ninja que a hippie não foi capaz de ver, mas que sabia estar ali.

Alice tagarelou durante todo o caminho de volta, contando vantagem em cima de seu pequeno progresso com o treinamento. Seus olhos ardiam fortemente conforme a luz voltava a penetrá-los, fazendo com que a sensação de cegueira se prolongasse, só que agora por conta do excesso de claridade que os ofuscava.

_ Dois anos de treinamento você disse? – gabou-se, levando uma das mãos à testa, a fim de cobrir os olhos da luminosidade externa – E eu consegui logo no primeiro mês! Pode admitir, eu sou a aluna mais foda que você já teve! – riu.

_ Foi uma evolução e tanto, mas tenha em mente que esse tipo de treino é abordado no segundo ano de formação de um ninja de maneira mais complexa do que essa – avisou, jogando um balde de água fria no ego da hippie – Esse exercício exige muito mais concentração por parte do aluno, pois ele deve ser capaz de perceber não só a minha presença, mas também a de outros ninjas, normalmente recém-formados, além de lutar com vários deles ao mesmo tempo. É uma forma eficaz tanto de avaliar o aluno quanto de avaliar o ninja que acabou de concluir o treinamento.

_ Estraga prazeres... – resmungou, fungando.

_ Mas isso não diminui em nada o seu êxito hoje – disse, reproduzindo junto com a voz um tom de orgulho que Alice jamais vira ali. A hippie ficou em completo choque com aquela expressão de aprovação de Ducard, algo que ela nunca esperou ver no ninja – Eu não esperava que você fosse ter sucesso hoje – admitiu.

_ Pois é, eu costumo passar a impressão de incapacidade mesmo – rolou os olhos para cima, ainda sentindo-os arder levemente.

_ Se eu a julgasse incapaz, jamais teria concordado em treiná-la! – disse, sério – Agora vá almoçar logo, nós precisamos dar continuidade ao treino de hoje.

_ Que seria...? – perguntou, já imaginando qual seria a resposta.

_ Gás do Medo – avisou, afastando-se a passos rápidos da aluna – Esteja na Ala Sul em meia hora! – gritou por cima do ombro, já sumindo de vista.

_ Ah, mas que merda! – fez uma careta enquanto ainda encarava o último lugar pelo qual Ducard desapareceu – Mas eu ainda tenho meu chocolate!!! – abriu um enorme sorriso antes de rasgar compulsivamente o papel que envolvia a deliciosa barra e dar a sua primeira mordida.

Notas finais
Eu gastei mais tempo pensando em como dividir esse capítulo do que de fato escrevendo, e acabei optando por deixar o final para a próxima postagem. Sei que o capítulo ficou super parado, mas espero que não tenha sido maçante... Mas não fiquem bravos comigo, no próximo capítulo a porra vai ficar séria pra riponga! Salve-se quem puder... =P Beijoos ;D