A Face Oculta Da Lua
11 Sorria! Mas Sorria Com O Seu Sangue!
Notas iniciais
Alice já estava deitada na maca, observando nervosamente Ducard repetir os procedimentos que dariam início à sessão com o Gás do Medo. Os eletrodos pareciam mais gelados do que o normal nas laterais de sua cabeça, enquanto o pregador em seu dedo parecia querer esmagar a sua pele.
_ Ducard? – chamou, com receio de fazer a pergunta, um tanto corrosiva, que não parava de rondar sua mente.
_ O que foi? – o ninja respondeu automaticamente, ainda concentrado em ajeitar todos os equipamentos que o permitiriam monitorar a hippie durante a sessão.
_ Eu estava pensando... – hesitou brevemente, encarando por um momento as mãos levemente suadas – Na última vez que eu inalei esse gás, o meu medo se manifestou através de um flashback da morte do Krusty – fez uma nova pausa, engolindo em seco.
_ Sim, e daí?
_ Será que eu vou ser obrigada a reviver essa cena todas as vezes que fizermos as sessões com o Gás do Medo? – soltou a pergunta, preocupada em não ser forte o bastante para lidar novamente com aquela culpa que saía da memória do seu filho.
Ducard pareceu se interessar muito por aquela pergunta, como se a dúvida também fosse dele, e pela primeira vez o ninja encarou a aluna com atenção.
_ Eu acredito que não. O seu medo pode se manifestar de infinitas formas, e isso exclui a repetição das visões – explicou, pensativo – Talvez até haja alguma probabilidade de você reviver essa cena, mas me parece improvável que sua mente reproduza exatamente a mesma situação... Em todo caso, essa é uma experiência totalmente nova tanto para você quanto para mim, então só há uma maneira de descobrir o que vai acontecer – o ninja sorriu ao mesmo tempo em que a hippie entortou os lábios num claro descontentamento.
Alice podia ver-se desistindo de todo o seu esforço na Liga se fosse obrigada a presenciar mais uma vez o brilho de ódio dentro dos olhos de Krusty, mesmo sabendo que aquilo não passava de mera ilusão.
Ducard abandonou a sala, ainda sorrindo. Ele sempre parecia mais ansioso do que o seu autocontrole impecável era capaz de camuflar quando se tratava do Gás do Medo... E falando em Gás do Medo...
Mais uma vez a hippie pôde ouvir um chiado insistente vindo do sistema de ventilação, e involuntariamente os seus músculos tensionaram com a expectativa desagradável.
Alice procurou por alguma alteração no odor do ar que a permitisse identificar a presença do Gás do Medo, mas nem mesmo parecia haver qualquer sutil diferença no cheiro. Sua cabeça pareceu aumentar de peso, assim como todo o resto do seu corpo, e as sensações incômodas de perda de consciência logo se apoderaram da hippie com a mesma força da primeira vez. Seus olhos se fecharam contra a sua vontade, e tudo passou a ser breu.
Eu já sabia exatamente o que ia acontecer a partir de agora, mas mesmo assim a leveza que fazia o meu corpo flutuar no vazio fez o meu estômago se agitar em um misto estranho de frio e calor. Se aquilo fosse real, eu sabia que vomitaria.
_ E então, o que vai ser dessa vez? – perguntei debilmente à minha própria mente, sabendo que apenas ela tinha a resposta a essa pergunta.
Meus olhos se arregalaram quando a resposta chegou logo em seguida. Meu corpo foi envolvido por um uniforme que eu conhecia muito bem – o de presidiária – e o espaço à minha volta, antes vazio, agora tomou a forma da solitária, a mesma cela da noite em que...
_ Como vai, Docinho? – aquela voz travou meus pensamentos e minha própria vontade. Me virei, encarando o sorriso zombeteiro no rosto daquele que me inspirava tantos sentimentos controversos. Seus olhos faiscaram ao se cruzarem com os meus.
_ Só pode ser brincadeira – reclamei, tentando disfarçar a mim mesma a satisfação de ver aquele cretino mais uma vez – Você entrou na mente errada, Palhaço, pode ir chispando daqui!
Coringa gargalhou, e a perfeição nos detalhes de seu timbre e sua feição fez com que as minhas pernas bambeassem. A minha mente criou uma visão real demais para que eu pudesse acreditar em ilusão, assim como da primeira vez, e eu não sabia mais distinguir a linha tênue que separava o real do imaginário.
_ Você quer que eu saia? – debochou, aproximando-se com olhos maliciosos. Seu cheiro entorpecente veio junto com ele, e eu sabia que estava perdida. Porque eu o queria ali, e ele sabia disso tão bem quanto eu mesma.
_ Eu quero que você... Eu quero... – minha incoerência o fez sorrir mais largamente, daquele mesmo jeito maldoso de que eu me lembrava, e logo seu rosto já estava próximo demais do meu – Eu quero que você vá pro inferno! – completei, me desvencilhando daquela armadilha que sempre me prendia dentro dos olhos castanhos do Palhaço.
_ Por que você não me mostra o caminho? – riu, e eu me senti completamente acuada com a sua aproximação constante. Não podia deixar que Coringa chegasse perto demais, ou então tudo iria pelos ares – Tem medo de não conseguir sair de lá? – arqueou uma sobrancelha, quase como se me desafiasse.
_ Tenho! – respondi, irritada – Porque se você for pro inferno vai destronar o capeta, e ainda é capaz de perguntar “Por que tão sério, Lúcifer?”
_ Huum... seria tentador, mas acho que eu prefiro inaugurar o meu próprio inferno – deu um meio sorriso irritante enquanto nós dois ainda jogávamos aquele jogo interminável: ele sempre chegando mais perto e eu sempre indo pra longe.
_ Eu te dou o maior apoio! – aprovei, dando um ‘joinha’ com o polegar direito – Que tal se eu te mandar para o inferno agora, e aí quando você chegar lá faz concorrência com o chifrudo no submundo?
_ E por que não aproveitar o inferno que eu posso fazer na sua vida? O caos por aqui parece muito mais divertido e interessante – disse, dando continuidade àquela conversa sem o menor sentido. Seus passos continuaram cortando a separação entre nós, e por um momento eu me esqueci completamente de me manter a uma distância segura da minha vontade pela presença dele. Fiquei parada ao responder, como se precisasse preservar toda energia possível para sustentar o peso daquela mentira que eu queria tanto transformar em verdade.
_ Porque eu já superei você, de uma forma que você não pode mais me atingir... não existe mais nada além da repulsa! – disse, deixando que o asco no meu tom de voz e a minha postura decidida e dura fossem capazes de comprovar a seriedade do meu comentário. Permiti que Coringa se aproximasse mais, para que conseguisse ver a determinação dentro dos meus olhos e que se convencesse dela. Ele veio andando calmamente até mim, parecendo divertir-se com a situação bem mais do que eu gostaria.
_ Ah, Docinho... – balançou negativamente a cabeça – Você não pode mentir aqui! Não dentro da sua própria consciência – disse, segurando o meu queixo com força e me obrigando a encará-lo bem fundo dentro daqueles olhos maníacos e hostis. Eu me senti arrepiar pela profundidade do encarar mútuo – Sabe por quê? – perguntou, sem esperar pela minha resposta – Porque eu posso ver a sua mente, tão clara e transparente quanto o mar em um dia ensolarado! – sorriu antes de puxar meu queixo e amassar brutalmente meus lábios nos dele, comprovando a sua teoria.
Eu tive certeza de que ele pôde sentir a disritmia que tomou conta da minha frequência cardíaca assim que nossos corpos se encostaram, e mais ainda quando eu desisti de resistir a ele. Não houve um dia sequer dentro da Liga das Sombras que eu não pensasse em todos os rostos que abandonei, e por mais que eu me odiasse por isso, Coringa era sem dúvida o primeiro da lista. E após ficar tanto tempo longe do vício, pareceu impossível opor-se a ele depois de novamente experimentado.
Seus lábios eram macios apesar de rudes, e a sua respiração quente era um conforto à minha pele fria. Senti todo o meu controle se esvair conforme me via cada vez mais presa a ele, conforme sentia a potência da minha vontade nublar completamente a razão, que se desfez com a mesma facilidade com que um frágil castelo de cartas é destruído diante de um furacão.
Eu acelerei o beijo, incapaz de conter a minha vontade por ele e ao mesmo tempo sentindo-me insaciada por qualquer distância a mais entre nós dois. Notei que Coringa sorriu em cima da minha boca, como se me dissesse “Eu te avisei”, mas seu sarcasmo era o que menos me atingia no momento, eu estava totalmente alheia ao certo e ao errado, e permiti que novamente ele me prensasse contra a parede. E mais uma vez eu não sabia dizer se na presença de Coringa me faltava vontade própria, ou se essa vontade era forte o bastante para que eu a ignorasse completamente.
Estar com ele era como caminhar sobre um campo minado, como se hipnotizar diante de uma explosão que acaba te atingido, como jogar-se de um avião sem paraquedas. Era como ser livre.
A mão que agarrava o meu rosto deslizou com brutalidade até a minha nuca, repuxando minha pele em um toque que ardia e ao mesmo tempo refrescava. Agarrei a gola de seu paletó, suspendendo ao máximo o meu corpo para compensar a diferença de altura, pouco me importando se meus pulmões já reclamavam pela completa falta de ar que turvava ainda mais meus pensamentos insanos e incoerentes.
O gosto amargo da tinta que Coringa usava como maquiagem se espalhou pela minha língua, e eu me arrepiei de puro prazer com aquela sensação... Porque ela me fazia ter certeza de que a riqueza daqueles detalhes não podia fazer parte de uma mera ilusão! Ele era real demais, bem mais autêntico do que uma simples projeção criada pela minha falha memória...
Seu quadril pressionou o meu, tão possessivamente quanto o aperto exagerado de seus braços em minha cintura, tão rude quanto a guerra silenciosa que nossos lábios travavam em busca de novos territórios. A mão de Coringa foi até a base das minhas costas, arranhando-a fortemente enquanto tentava deslizar a blusa surrada daquele uniforme para cima. Pude sentir uma linha rosada acompanhar o trajeto que Coringa fazia com os dedos. Involuntariamente minhas unhas se cravaram em seu pescoço, indo parar no meio de seus cachos esverdeados. Minha outra mão buscou seu abdômen, enfiando-se por baixo do seu colete verde com pressa.
Desabotoei-o com impaciência, incomodada com aquele pano, que não tinha o calor que eu queria. Foi quando meus dedos encontraram a ponta cortante de uma enorme faca dentro de um dos bolsos internos do paletó de Coringa. E foi como se eu despertasse de uma forte hipnose.
_ Para! – terminei o beijo bruscamente, como se meu bom senso finalmente despertasse, mas nossas bocas permaneceram praticamente unidas, puxando o mesmo ar com rapidez, em um arfar alto – Já chega! – virei de leve o rosto, limpando a tinta com a manga comprida do uniforme que ainda me vestia.
_ Tsc, tsc, tsc... – Coringa sorriu maldosamente, a maquiagem ainda mais borrada do que de costume – Resolveu fingir que tem algum controle sobre si mesma logo agora? Você só atrasa o inevitável assim, Docinho! – avisou-me, mordendo com força meu lábio inferior, até que o gosto enferrujado do sangue tocasse minha língua e me fizesse praguejar.
_ Eu... Ao contrário do que você pensa... – comecei a tentar me defender, mas tudo o que eu conseguia transmitir era o tamanho da minha frustração – Eu tenho o controle! – argumentei, sem saber exatamente qual de nós dois eu tentava convencer com aquela afirmação. Tentei empurrá-lo para longe, mas tudo o que consegui com o gesto foi fazer com que Coringa me puxasse para mais perto. Sua boca encaixou-se rente à minha orelha, sussurrando com uma voz irritada, beirando o perigo.
_ Todo o seu controle vem de uma tentativa patética de seguir premissas comportamentais que a sociedade impõe como correta. Mas adivinha só: você não é boa o bastante para se ajustar ao ‘certo’! – Coringa lambeu o canto dos lábios ansiosamente, e eu não tive certeza, mas acho que ele sorriu – Porque a sua cobiça pelo ‘errado’ é muito maior do que a sua vontade para evitá-lo. Você é que nem eu, Alice, só que ainda não descobriu isso! Está tudo aqui dentro – apontou para a minha cabeça – e eu posso ver!
_ Não... o que nos faz diferentes são as nossas escolhas, e você escolheu ser um monstro – me afastei, porém não consegui desviar meu rosto do brilho sádico que cobria seus olhos ainda me fitando.
_ E o que é você, Alice, senão uma anomalia? – perguntou, sarcástico – Que tal listar tudo o que você já fez em nome daqueles que você diz que ama? – deu passos largos em volta de mim, parecendo animar-se com aquele jogo cruel – Engravidou de um psicopata e deixou que o seu médico arcasse com o peso de seu erro, jogando uma carreira brilhante e promissora pelo ralo. Isso não foi nem um pouco altruísta de sua parte – repreendeu-me em um tom divertido, enquanto eu sentia um peso esmagar meu peito diante daquelas verdades – Foi incapaz de demonstrar qualquer sentimento mais elaborado pelo próprio filho, porque quando você o olhava, reconhecia o pai. Que tipo de mãe é você, afinal? – Me olhou com um ar irritante de deboche. Lambeu as cicatrizes e esboçou um sorriso quando reconheceu a tristeza em meu rosto. Continuou falando, impassível – Descartou o seu psiquiatra quando ele deixou de ser útil para a sua farsa, fugindo sem qualquer explicação decente. Ameaçou revelar a identidade do Batman, o único que fez de tudo para protegê-la de si mesma, e estava disposta a traí-lo em benefício próprio, mesmo sabendo que sua imprudência iria matá-lo. Manipulou a própria morte, sem se importar com os que choraram por acreditar que você está num caixão, ou até mesmo com a carreira do médico que a ajudou. Foi responsável pela fuga de um criminoso de alta periculosidade da cadeia, e agora, está tentando fazer parte de uma instituição que cria assassinos em série. Quem é o monstro? – seu rosto estava a poucos centímetros do meu, e seu sorriso parecia ainda mais perigoso.
_ Não compare os meus erros com a sua psicose – rangi os dentes, tentando conter a raiva que já fazia o meu sangue ferver – Tudo o que eu fiz, por mais errado que tenha sido, foi tentando proteger alguém, você nunca vai entender o que é isso!
_ Você tem uma visão hilária do que é proteção – gargalhou, passando mais uma vez a língua pela cicatriz enquanto fitava meu rosto com olhos letais – Mas não adianta fugir daquilo que você é, Alice. Um monstro, assim como eu! – concluiu, feliz.
_ Foda-se você e suas teorias! – cuspi, tentando rejeitar a verdade que eu reconheci naquelas insinuações – Eu não vou deixar que você consiga me transformar em uma versão hippie da Harley, imbecil! – avisei, esmagando com fúria o meu indicador no peito do Palhaço.
_ Você não vai deixar? – gargalhou com vontade, como se eu tivesse contado a melhor piada da sua vida – Então me diga, Docinho... por que você trocou de roupa? – Coringa abriu um largo e irritante sorriso, mas eu apenas franzi a testa, completamente confusa com a sua pergunta fora de contexto.
_ Mudei de roupa...? Mas do que é que você está falan... – me interrompi bruscamente ao me encarar melhor, sentindo meu corpo inteiro gelar, como se meu sangue tivesse passado do estado líquido para o sólido de um segundo a outro.
Eu não estava mais com o uniforme de presidiária... Uma roupa extremamente colada apertava o meu corpo, moldando-se perfeitamente a cada traço e destacando-os como se nada me vestisse. O preto e o vermelho se intercalavam ordenadamente no tecido, formando o desenho de um tabuleiro de xadrez de apenas quatro casas, enquanto um tecido mais fino e branco rodeava o meu pescoço, inventando um contraste vivo entre as outras cores escuras. Um chapéu de bobo da corte, também preto e vermelho, escondia todo o meu cabelo, deixando apenas o meu rosto à mostra. Minha mão direita era coberta por uma luva vermelha, enquanto a esquerda se escondia atrás de uma luva preta, e ambos os pulsos eram circundados pelo mesmo tecido branco do pescoço. Não havia qualquer sinal de algum fecho ou zíper que me desse qualquer pista de como abrir aquela roupa incomodamente apertada...
Uma fina máscara contornava meus olhos, e eu pude sentir a maquiagem oleosa cobrindo toda a extensão da minha pele exposta, escondendo o seu verdadeiro tom.
Em outras palavras, eu havia me tornado uma versão do Coringa, e esse mero pensamento eriçou cada milímetro do meu corpo.
_ Vê, Docinho? Você não tem escolha, é nisso que você vai acabar se transformando, você querendo ou não, fugindo ou não, se escondendo ou não. A você cabe apenas aceitar a sua essência doentia e parar de rejeitar o inevitável! Basta dar o primeiro passo e se livrar das regras que servem como grilhões para os seus instintos. Liberte-se, e se permita provar o gosto de ser sua própria lei. – a voz de Coringa estava assustadoramente sedutora, puxando-me para mais perto dele como a ressaca das ondas que te convidam para o mar aberto, até que a correnteza se torne forte demais para retroceder. Mas talvez eu quisesse me afogar.
_ E acabar enlouquecendo, assim como você? – tentei alfinetá-lo, mas sabia que a intensidade do meu olhar apenas transmitia a vontade estranha que eu sentia. Simplesmente porque eu não pude deixar de pensar que todo o meu sofrimento era causado pelos meus escrúpulos, pré-formulados tão hipocritamente pela sociedade ao qual eu sempre me esforcei inutilmente para me encaixar. Mas não importava o que eu fizesse, a adaptação parecia mais distante do que meus passos eram capazes de me levar. Eu me surpreendi com esse raciocínio, mas soube que era verdade.
_ A loucura é uma justificativa dos covardes, daqueles que são fracos demais para deixar o seu verdadeiro eu se mostrar – sorriu, repuxando as cicatrizes para cima. Meus olhos repousaram sobre elas, com um interesse anormal.
Estávamos próximos o suficiente para sentir a respiração um do outro, e era difícil dizer quem tinha a maior expectativa ali... Coringa me analisava a fundo, era como sentir seus olhos penetrando a alma que estava prestes a se corromper. Porque há tempos eu queria desistir de mim, e essa me parecia uma ótima oportunidade.
Eu ainda encarava as cicatrizes atentamente, e não reprimi a vontade de tocá-las. Meus dedos nem sequer vacilaram ao contato com a pele deformada no rosto de Coringa, e alguma coisa dentro de mim pareceu se agitar.
Eu puxei com força o seu rosto para perto do meu, entendendo pela primeira vez a minha obsessão por ele, conseguindo enxergar completamente o motivo do meu fascínio, da minha vontade que nunca me dava escolha quando ele estava por perto. Coringa era o que eu sempre fui, mas nunca tive coragem de assumir. Ele era a revolta que eu buscava dentro de mim, o caos que eu queria encontrar na irrelevância do meu dia-a-dia, a dor que apaziguava a insignificância que eu vivia. Eu podia me ver claramente dentro daqueles olhos inteligentes, insanos e divertidos.
Depois de tanto tempo, somente agora eu fui capaz de me encontrar naquela engrenagem tão complexa que movia a maquinaria insana dentro da mente do Psicopata, avisando-me o quão podre eu era.
Coringa não reagiu a nenhum dos meus toques, permitiu tudo fácil demais, como se quisesse ver até aonde eu iria sozinha, me testando. Eu continuei explorando suas cicatrizes, percebendo que aquelas marcas fizeram dele a pessoa fria e livre que Gotham teve o desprazer de conhecer.
Encarei seus olhos vitoriosos sobre mim, e mantive o contato visual com feições rígidas, por um tempo que não fui capaz de calcular.
_ Tão séria, Docinho! – ele sorriu, talvez por saber que aquela era uma causa ganha.
Eu desviei minha atenção para o seu paletó, vislumbrando o brilho metálico de uma das facas que ele guardava ali. Segurei o cabo com força, tirando a enorme faca de sua roupa e posicionando-a em frente a minha face, de forma que foi possível ver o meu reflexo ali.
_ Talvez esteja na hora de colocar um sorriso no meu rosto! – disse, oferecendo a faca a Coringa, que sorria largamente.
_ Na cara não! – Alice acordou em um sobressalto, sentindo o corpo inteiro trêmulo e rígido, coberto completamente por gotas frias de suor. Sentou-se na maca em um pulo, arrancando os eletrodos de sua cabeça e jogando longe o pregador que prendia seu dedo.
_ Calma, Alice! – Ducard entrou apressado na sala, recolhendo os aparelhos jogados no chão e desligando os monitores – Você está bem? – perguntou, encarando-a com ansiedade.
_ Ótima! – bufou – Obrigada por perguntar – a hippie disse sarcasticamente, juntando toda a energia que lhe restava para tentar manter-se de pé, mas suas pernas tremiam tanto que ela simplesmente não conseguiu realizar qualquer movimento mais elaborado.
_ Deite um pouco, logo as sensações irão se normalizar... – avisou, tentando conter a aluna naquela posição horizontal.
_ Não, eu quero sair daqui! – sua voz saiu exaltada, e novamente ela tentou levantar-se, mas o ninja a segurava firme sobre o fino acolchoado.
_ O que foi dessa vez? O que você viu? – seus olhos faiscaram de expectativa, e o azul dentro deles pareceu ainda mais intenso, enquanto os da hippie mostravam-se cada vez mais alarmados e impacientes.
_ Eu... – vacilou, sentindo os espasmos musculares incomodarem – A visão se repetiu... Eu vi meu filho de novo – mentiu, sem saber se seria capaz de contar tudo aquilo que ela realmente viu, sentiu e principalmente, viveu, tão intensamente que ainda tinha dúvidas se tudo aquilo havia acontecido apenas na sua cabeça.
_ Mentira! Se fosse a mesma visão, você não estaria tão perturbada.
_ Você acha que ficar assistindo o seu filho morrer não é desesperador? – indagou, mas logo reconsiderou a própria pergunta, bufando consigo mesma – Ah, mas é claro que não, a sua filha é uma cretina, você ia dar saltos de alegria se ela morresse...
_ Alice – Ducard chamou, arqueando uma sobrancelha acusadora –, você precisa me contar o que viu se quiser continuar evoluindo no treinamento.
_ Tá... – rendeu-se de má vontade, secando a testa encharcada com a manga da túnica – Mas hoje não! Eu preciso sair daqui – repetiu, levantando-se novamente e sentindo o seu corpo bem mais firme agora. Ducard não a impediu novamente de sair, e um enorme sorriso se formou em seu rosto quando a hippie sumiu de vista.
_ Parece que tivemos um grande progresso hoje! – disse para o nada, ainda entortando a barba em um sorriso mais do que satisfeito.

_ Nada daquilo foi real, nada daquilo foi real... – Alice não parou de repetir aquela frase desde que saiu de sua câmara de tortura até passar pelo portão principal da Liga, ajoelhando-se na neve com pesar. Agarrou uma generosa porção do gelo sobre o chão e levou-a ao rosto, esperando até que toda a neve se derretesse com o contato refrescante em sua pele – Eu nunca teria agido dessa forma se aquilo tivesse acontecido... aquela não era eu... – tentou se convencer, mas somente ao recordar os detalhes, um frio de ansiedade já envolvia o seu estômago com avidez, como se realmente esperasse para viver aquilo novamente – Será que a minha cela em Arkham ainda está reservada? Porque agora é oficial: eu pirei de vez!
_ Falando sozinha? – uma voz aveludada e ao mesmo tempo firme a surpreendeu vinda de trás, e a hippie sentiu-se pular de susto.
_ Vá fazer uma cicatriz na sua avó! – berrou, descontrolada, mas logo acalmou-se ao ver que a voz pertencia a Nureen. Sayid estava ao lado do ninja, encarando Alice como se ela fosse uma total perda de tempo e espaço, enquanto Nureen esboçava um sorriso confuso – Ah, é você...
_ Estava esperando alguém específico, ou eu realmente devo acreditar que você me mandou fazer uma cicatriz na minha avó? – perguntou, zombando de Alice.
_ Não, me desculpe, talvez eu esteja levemente alterada – tentou sorrir, mas percebeu que Nureen fez uma careta diante da expressão da hippie.
_ Você está horrível! – o ninja avisou, oferecendo uma mão para ajudá-la a levantar. Alice a pegou, reparando no quanto a sua pele parecia tremer sobre a pele de Nureen. Ele também pareceu notar.
_ Não perca tempo com essa garota, Nureen – Sayid intrometeu-se – Nós já sabíamos que o treinamento seria demais para ela – acusou com seu sotaque leve, lançando um olhar reprovador na direção da hippie.
_ Todos os árabes são tão amáveis quanto você? – Alice perguntou, finalmente conseguindo ficar novamente ereta – Ou esse senso de humor contagiante é uma dádiva exclusiva daqueles que também são ninjas?
_ Quem sabe? – ele se aproximou, diminuindo o tom de voz. Nureen parecia confuso com a troca de hostilidades, e sua atenção intercalava-se entre os dois – Talvez eu apenas não goste de ver um treinamento milenar ser desperdiçado com alguém como você... Alguém que jamais vai entender o que é ser um ninja.
_ Então demita-se, colega! Por que não volta do lugar de onde veio e vira uma bomba humana, aposto que seria bem mais útil ao mundo! – Alice retrucou, abusada, e percebeu o árabe aproximar-se com expressões enfurecidas, retirando de dentro da túnica uma larga e afiada faca.
_ Sayid! – Nureen advertiu, e sua voz saiu tão dura quanto sua expressão, sem mais nenhum resquício de gentileza ou bom humor – Já chega, vamos indo! Temos trabalho a fazer, esqueceu?
O árabe guardou novamente a faca, ainda encarando Alice com olhos letais. Era como se aquele par de bolas castanho-escuras estivesse em brasa. A hippie sustentou a ameaça silenciosa, cruzando os braços em sinal de teimosia.
Sayid e Nureen se afastaram em seguida, deixando Alice novamente em companhia de seus pesadelos. Ela sentou-se mais uma vez na neve, notando o quanto sua garganta parecia amassada. Apertou os olhos com força, permitindo-se fitar o escuro intenso causado por suas pálpebras bem fechadas, tentando esquecer as imagens tão nítidas que sua mente cismava em projetar... mas tudo o que conseguiu foi vislumbrar a si mesma, pálida como a neve que a rodeava, vestida com a mesma roupa de bobo da corte e com um enorme sorriso de sangue no rosto. Do seu sangue...
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