A Face Oculta Da Lua

28 The Worlds Forgotten, The Words Forbidden


Notas iniciais
Penúltimo capítulo, com a possível inclusão de um epílogo! Acho que de todos, esse é o que tem mais revelações. Este será dedicado à TheKillingJoke, que mandou uma recomendação simplesmente incrível lá na 1ª Temporada, que me deixou quase esquizofrênica de tão feliz (veja bem, eu disse QUASE =P). Muito obrigada, sua linda!!! (Ah, tem uma parte da sua recomendação que pede por uma resposta! Se essa hippie realmente te inspirou a escrever o que quer que seja, eu realmente adoraria acompanhar as suas criações! Se você postar pode ter certeza de que eu acompanho! =D) Também dedico esse capítulo à Thayane Lawliet Ryuzaki, que estava levemente ansiosa por essa postagem! (Eu sei que você vai me xingar por mais essa demora, mas tudo bem, eu mereço... rsrs) ;D No mais, espero que gostem do capítulo e que ao final dele vocês não queiram a minha cabeça numa bandeja!

Eu não matei meu pai...

As palavras de Talia retumbavam insistentemente aos ouvidos de Alice, como um martelar inconveniente que fazia questão de incomodar a cada batida, que parecia aumentar de proporções conforme a hippie a analisava. O que de fato mais a perturbava foi ter reconhecido a veracidade daquela distinta revelação, fazendo-a se perguntar qual a profundidade de seu erro. A ninja esfregou os olhos demoradamente, afastando o cabelo do rosto em seguida enquanto suspirava e encarava a paisagem distante, diminuta por conta da gritante extensão entre a terra firme e o avião que a sobrevoava.

Alice encostou-se à pequena janela de formato redondo, imaginando se todas as suas ações foram impensadas e em vão. De repente, todos os seus esforços em tentar honrar a memória póstuma de Ducard pareceram-lhe tão inúteis quanto de fato haviam se mostrado até então.

Todas as suas suspeitas pareciam provar-se apenas suposições infundadas, e agora pairava a desagradável dúvida se de fato suas decisões como Ra’s Al Ghul a levariam a algum lugar... qualquer que fosse...

Tudo o que lhe restava era levar seus ninjas de volta à Liga das Sombras e descobrir ela mesma o que de fato precedeu a morte de Ducard.

Alice desviou os olhos das nuvens esparsas que rodeavam o avião, passando a fitar com uma pontada de otimismo os rostos serenos de seus ninjas, visivelmente satisfeitos por retornarem ao seu lar sobre as curiosas montanhas do Himalaia, que abrigavam segredos milenares daquele seleto grupo anônimo.

Ela mesma não sabia como se sentia ao pensar no retorno...

Havia, inegavelmente, a curiosidade em de uma vez por todas descobrir se de fato a morte de Ducard deu-se por causas naturais ou se alguém a proporcionou. Porém, um contrapeso poderoso parecia sobrepor-se ao interesse acerca das verdades do passado nebuloso de seu Mestre...

...A dificuldade em despedir-se dos rostos de Gotham. De um rosto em específico.

Tony passou pelo corredor entre as poltronas, sorrindo para Alice ao notar que seus olhares se cruzaram. A hippie respondeu com um repuxar fraco nos lábios, recordando-se repentinamente de outra questão pendente que deveria ser resolvida. Respirou fundo antes de levantar-se, girando o corpo na direção do ninja que já se afastava.

_ Hey, Tony! – chamou, fazendo-o virar em sua direção de súbito, dono de um olhar curioso – Podemos conversar?

_ Certamente, Ra’s... – assentiu, um pouco confuso, acertando o rumo de sua cadeira de rodas para a poltrona ao lado de Alice.

_ Aqui não! – olhou para os arredores repleto de ninjas, procurando por algum lugar privado para dar início àquela conversa. Pensou por alguns segundos, até tomar a frente em direção à cabine do piloto, escancarando a porta sem ao menos anunciar-se – Você pode nos dar licença? – perguntou impaciente ao homem pequeno e de nariz adunco que conduzia o avião.

_ Perdão? – arqueou uma de suas ralas sobrancelhas, certo de que não havia compreendido o estranho pedido da mulher que alugou seus serviços.

_ Sair... – gesticulou, inquieta – Preciso da cabine por alguns minutos, pode ser? Isso vai levar só alguns instantes, então você pode programar um piloto automático e nos dar licença, sim? – acrescentou ao ver que o homem estava prestes a protestar. A um visível contragosto ele a obedeceu, mexeu em alguns comandos do painel e por fim os deixou a sós sob o som de alguns resmungos pouco audíveis. O avião manteve-se estável mesmo sem ninguém no controle, seguindo a rota estipulada – Era isso ou o banheiro, e eu não achei que seria uma cena muito promissora que os ninjas nos vissem entrar lá juntos... – justificou-se, dando de ombros.

_ Em que posso ajudá-la, Ra’s Al Ghul? – perguntou, com a sombra de um sorriso no canto dos lábios, talvez achando graça da situação.

_ Tony... – Alice suspirou, sem saber muito bem como dar início ao que pretendia dizer – Tony... Isso não vai ser fácil, nem pra mim e muito menos pra você, eu imagino. Eu te aconselharia a sentar, mas isso seria um tanto redundante de minha parte! – comentou, ocupando a larga poltrona do piloto à frente do cadeirante – Sem contar que seria um pouco indelicado... – ponderou com uma breve careta, desviando-se do foco.

_ Aconteceu algo? – o ninja perguntou, agora entre o preocupado e o confuso.

_ Ah, seria mais fácil e rápido dizer o que não aconteceu... – resmungou – Me diga, Tony, você sequer se perguntou por que a Talia não está nesse avião com os outros ninjas?

_ Ela não está? – ele exaltou de leve a voz, denotando surpresa.

Meu Deus, eles nem ao menos perceberam! – Alice pensou, tão pasma quanto o ninja à sua frente – Nada como a popularidade...

_ Não, Tony! Desde que eu dei a ordem do nosso retorno, a Talia não faz mais parte da Liga das Sombras. Na verdade, em tese, ela ainda é uma das nossas, já que a vadia fugiu antes que eu tivesse a chance de bani-la.

_ Bani-la? Por quais razões? – seu tom ficou mais tenso, como se o assunto lhe soasse desconfortável. E Alice já sabia o porquê...

_ Ela estava fazendo uns... serviços por conta própria. Tony, ela só estava na Liga das Sombras para tentar destruí-la! Parece que o episódio que ela presenciou do seu filho sendo espancado por vários ninjas teve um efeito desagradável sobre o seu carisma por essa instituição... – disse, e a menor menção de Bane foi capaz de fazer todo o corpo do ninja se retesar do modo mais desconfortável que Alice já vira.

_ Como você...?

_ Como eu sei sobre o Tony Vader Júnior? Simples, ele foi cúmplice da PuTalia em várias tentativas de me matar... – Alice suspirou ao perceber o olhar perdido de Tony incidindo sobre ela, meneando a cabeça quando voltou a falar – Não existe um modo fácil de dizer isso... Seu filho esteve vivo esse tempo todo, Tony! Sempre à espreita de todos os passos da Liga das Sombras, esperando a melhor oportunidade para destruí-la.

_ Bane sobreviveu? Como...?

Alice respirou fundo antes de contar tudo o que lhe foi dito enquanto se manteve refém da filha de Ducard, explorando cada minúcia que sua mente foi capaz de recordar, de modo a colocá-lo a par da situação da melhor forma possível. Foi mais além, explicando o modo tempestuoso em que as circunstâncias a fizeram conhecer Bane, esclarecendo sua cumplicidade com Talia e seus intuitos em comum dentro da Liga das Sombras. Conforme falava, notava os olhos de Tony cada vez mais tristes e inconformados, aspirando para si uma idade muito além da que lhe foi dada pelos anos. Quando a hippie terminou de narrar cada parte da história que lhe foi confidenciada, ele baixou o olhar para os ferros da cadeira de rodas, amargurado pelo destino alcançado pelo próprio filho. Houve alguns segundos indigestos de silêncio, até que Tony a encarou de volta.

_ Como... Como você escapou?

_ Pra ser bem sincera, nem eu sei direito! Traduzindo para a sua realidade, digamos que foi algo do tipo “Rodas, pra que te quero!”... Mas a questão aqui não é essa, Tony. Eu só consegui escapar porque deixei seu filho realmente ferido. Tony, eu sinto muito, mesmo, mas eu não sei dizer se ele sobreviveu dessa vez...

“Sometimes we find things we're not looking for

And we lose the sense of reason

Sometimes we lose what we are caring for

And then face the day without them

My life, my home, my you

Sometimes we fail to say how hurt we are

When the word we fear speaks treason

Don't wanna be there when my Cupid dies

From a wound by his own arrow

Here's to life, my home, my you

I raise a glass 'n drown my sorrow

When I'm on my own

I dry my eyes on a shoulder

But it's not my own

I cannot hold you, my tears are made of stone

I feel a tap on my shoulder, but... tonight I dance alone.”

Tonight I Dance Alone – Sonata Arctica

~*~*~*~

O restante do voo até o Himalaia deu-se sem grandes complicações, apenas uma preocupação silenciosa de Alice pela apatia pálida de Tony ao receber tantas notícias cruéis de uma única vez. Por um momento, a ninja perguntou-se se havia feito a escolha certa ao decidir lhe contar aquela verdade e reacender antigas mágoas que pareciam adormecidas e bem guardadas dentro do ex cozinheiro. Jamais seria capaz de responder aquela pergunta com exatidão, mas sentia que ele merecia ouvir a verdade, por pior que fosse.

O piloto aterrissou o avião num lugar indicado por Alice, longe o bastante para que a sede da Liga das Sombras não fosse exposta àquele mero desconhecido. Ele pareceu mais do que satisfeito em se livrar dos estranhos passageiros, e mais ainda ao dar as costas àquele clima congelante, temendo que o combustível sofresse algum dano pela temperatura extrema.

Finalmente, Alice viu-se acompanhada apenas pelos seus ninjas, que, apesar de serem fortemente treinados a nunca demonstrarem qualquer sentimento que fosse, pareciam mais do que satisfeitos pelo retorno tão esperado.

Tarde demais para manter seguras as atividades de Nureen aqui... – Alice pensou, imaginando em que condições estaria a investigação acerca da morte de Ducard. Sabia que seus ninjas se horrorizariam com a visão do corpo violado de seu antigo líder, mas não tinha tempo para esconder-lhes a verdade. Já estava na hora de eles serem colocados a par da situação, especialmente no caso de Nureen finalmente ter encontrado uma conclusão para aquele dilema que envolvia a morte de seu antecessor.

Ela liderou o restante de seus homens pela conhecida e íngreme subida que os levaria até o topo da montanha, aonde se escondia a sede da Liga das Sombras. A hippie arquejou por um momento, desacostumada ao frio e principalmente à rarefação do ar naquela porção do Himalaia, porém em momento algum deu sinal de que fraquejaria naquela longa caminhada até seu frio lar.

Cada passada parecia arrastar-se durante vários minutos por conta do forte vento que se opunha à sua passagem e à de seus homens, até que, após longos três quartos de hora de uma rígida e silenciosa caminhada, Alice finalmente avistou a arquitetura esbelta e estonteante da Liga, tirando-lhe o ar como se novamente a visse pela primeira vez.

Subiram o restante da montanha com um novo entusiasmo, cedendo o passo apenas quando se viram diante da estrutura impenetrável. A hippie suspirou, exausta, experimentando o gosto da melancolia ao se encontrar novamente de frente àquelas paredes, com o cansaço de repente tomando conta até mesmo de seus pensamentos.

_ Lar, doce lar... – sussurrou apenas para si, de modo que somente ela pudesse identificar o tom entristecido da sua voz enquanto seus ninjas já se apressavam em entrar no seu verdadeiro doce lar.

_ Ra’s Al Ghul? – Nureen apareceu sobre a vasta sacada do segundo andar do prédio, transbordando confusão em seus olhos apertados. Seus dedos estavam tensos sobre o aperto que infligia à grade protetora, e era visível o quanto seus músculos pareciam duros e carregados.

_ Desça aqui, Nureen. Precisamos conversar... – ordenou, atenta às reações do ninja como se um alerta lhe avisasse de que algo parecia errado. Nureen aderiu ao comando, estando ao lado da sua líder no minuto seguinte.

_ O que houve? Vocês retornaram cedo... Eu não esperava tê-los aqui antes de uma ligação sua! – avisou, quase ameaçador e frustrado.

_ Vamos caminhar – ignorou o tom irritado do ninja e colou-se à frente numa caminhada para longe de ouvidos alheios, e cada canto daquela montanha parecia guardar uma recordação diferente para Alice, muitas mais nostálgicas do que ela gostaria – Eu não tive tempo de te avisar do nosso retorno. Ele ocorreu às pressas, ainda não era minha intenção sair de Gotham, mas alguns incidentes me obrigaram a isso.

_ Algo deu errado? – perguntou num tom mais suave, como se tentasse se desculpar pela rudeza de suas últimas palavras.

_ Não importa... – desconversou, reduzindo a frequência de seus passos a um ritmo mais lento, encarando-o em seguida – O que você tem a me dizer sobre a morte de Ducard?

_ Na verdade, nada do que você já não tenha deduzido, Ra’s. Tudo o que foi possível descobrir é que Ducard foi vítima de uma falência cardíaca, mas como isso se decorreu... – suspirou – Nenhum indício de homicídio. A única conclusão que pudemos chegar é que realmente se tratou de uma morte natural.

_ Eu gostaria de fazer uma análise no corpo antes de ter certeza disso. E também quero conversar com o médico que você contratou antes de dispensá-lo do serviço! – disse, determinada a colocar de uma vez por todas um ponto final naquela história.

_ Sinto muito, Ra’s, mas o legista já foi dispensado há alguns dias, e o corpo de Ducard já está novamente enterrado. – contou, com uma desenvoltura tão natural que chegou a soar estranha.

Alice parou, fitando-o com desconfiança.

_ Você dispensou o médico sem esperar por ordens minhas? Sem ao menos me avisar a que conclusão chegaram? – perguntou, dominada agora por uma estranha e pouco agradável sensação. Os olhos acastanhados de Nureen se arregalaram, e ele baixou a cabeça em seguida, num sinal humilde.

_ Sinto muito, Ra’s Al Ghul... As investigações não chegavam a lugar algum, e tampouco davam a entender que dariam algum progresso! Você me deu o controle da situação, e eu pensei que deveria tomar essas pequenas decisões e deixá-la livre para resolver suas pendências em Gotham...

_ Desistir dessa investigação não é uma decisão pequena, eu deveria ter sido informada disso antes que qualquer atitude fosse tomada! – avisou cortante, frustrada por ver-se novamente no princípio daquela inútil busca pela verdade. Voltou a caminhar, quase sem notar a força excessiva que fazia contra o solo – Encontre esse médico novamente, o mais rápido que puder, e vamos acabar com isso logo.

_ Creio que isso não seja possível, Ra’s Al Ghul... – falou com receio, ainda de olhos baixos enquanto a seguia – Você fez questão de sigilo absoluto nessa operação, então eu tive que procurar um profissional sem registro, que trabalhasse por fora. Uma espécie de mercado negro dos médicos que por algum motivo perderam sua licença. Se por acaso eu contratasse um médico que exercesse a profissão na legalidade e ele encontrasse sinais de homicídio no corpo de Ducard, isso acabaria sendo reportado às autoridades, e todo o nosso esforço de manter segredo acabaria caindo por terra, até mesmo a Liga das Sombras estaria em ameaça...

_ E você não pode encontrar o infeliz de novo? – bufou, respirando fundo algumas vezes para controlar a própria raiva.

_ Seria quase impossível fazer contato com ele uma segunda vez. Esses médicos não deixam nomes, registros, nada que seja capaz de identificá-los... Eu sequer via seu rosto com clareza. Quando se trabalha às margens da lei, sua única garantia é que não terá que responder perguntas inconvenientes, e essa condição era a que melhor nos atenderia...

Alice esfregou os olhos, esgotada, reconhecendo coerência na explicação de Nureen, mas ainda assim incomodada com suas iniciativas, com a forma oportuna como tudo conspirou para afastar a hippie de seus intuitos... Coincidências não faziam mais parte de suas crenças, e algo parecia realmente falho em todas aquelas justificativas. A hippie estancou, encarando o túmulo imaculado de Ducard e de repente entendendo.

_ Você nunca nem mesmo chegou a desenterrá-lo! – afirmou calmamente, adotando uma postura rígida que sustentasse sua súbita certeza.

_ Claro que sim, Ra’s! Meus esforços foram todos reais, mas as circunstâncias não permitiram que...

_ Você jamais dispensaria o legista sem a minha ordem. O que acontece é que esse médico nunca chegou a ser contratado e o corpo de Ducard sempre esteve enterrado! Você foi pego de surpresa com a nossa chegada inesperada e essa foi a melhor história que você pôde inventar de imediato... Só me resta entender por que minhas ordens foram ignoradas! – lançou, irredutível.

Nureen levantou a cabeça antes baixa para encará-la, e no seu rosto não havia mais os olhos domados e dóceis de alguns segundos atrás, mas sim um brilho frio e sádico no fundo de sua íris, potencializado pelo largo sorriso cruel que deu em seguida. O negro contraído de sua pupila guardava um fulgor vil que Alice jamais associaria àquela pessoa.

_ Suas ordens? – questionou com uma voz atroz que combinava perfeitamente com sua nova expressão – Em que mundo você poderia ordenar qualquer coisa a mim, Alice? Em que universo eu me curvaria às suas vontades estúpidas?

_ Que conversa é essa? Eu sou sua Ra’s Al Ghul, seu merdinha!

Nureen repuxou um sorriso ainda mais amplo e debochado antes de responder.

_ Só você mesmo para acreditar nesta farsa! Suas capacidades de ocupar o posto de líder da Liga das Sombras são tão limitadas quanto às da sua gata!

_ Não subestime a Baguera, ela luta melhor do que qualquer um aqui! E daria um ótimo pokémon também... – considerou, recordando a ousada e improvável investida que possibilitou a queda de Bane – E espera aí, se bem me lembro, foi você quem me sugeriu como líder! Por que a conspiração agora?

_ Você estava prestes a colocar a Liga das Sombras em perigo quando decidiu partir após o treinamento! Ninguém, sem exceção, pode tornar-se um ninja sem servir a Liga das Sombras em troca, sem se comprometer integralmente com o treinamento e dedicar o resto de sua vida ao que este lugar representa!

_ Foi o meu acordo com Ducard! Desde o princípio ele conhecia as minhas intenções!

_ E foi por isso mesmo que eu tive que matá-lo... – anunciou tranquilamente, banhado em indiferença. O choque nos olhos de Alice foi a resposta mais elaborada que ela conseguiu dar àquela revelação – O quê? Você esperava mesmo que eu veria Ducard concordar com termos que vão contra os princípios mais básicos e absolutos da Liga e não fazer nada? Ducard já foi um grande líder, é verdade, mas estava mais do que claro que esse tempo havia acabado. Ele estava se curvando às suas condições, barganhando com uma reles aprendiz, e isso é inadmissível! Sua condescendência acabaria levando a Liga das Sombras à ruína, assim como a todos nós. Então eu o matei, pela saúde da Liga, e incitei a sua ascensão ao trono para que você se comprometesse com o lugar, de uma forma que não o largasse, ao menos até que eu conseguisse uma forma de me livrar do problema.

Alice apalpou de leve a própria túnica na região do quadril, instintivamente buscando por sua arma. Seus dedos tatearam com uma agilidade sutil e disfarçada, mas nada encontraram além da textura amaciada do Nextel ainda preso em sua cintura, logo abaixo do pano negro de sua túnica. A hippie apertou alguns botões que sabia que a levariam à discagem rápida com Tony. Pediu no silêncio tumultuado de sua mente para que o cadeirante ainda estivesse em posse do outro aparelho e conseguisse entender a conversa deles a partir dali... E, mais do que tudo, que estivesse disposto a intervir em seu auxílio.

_ Como você simulou o infarto? – questionou-o calmamente, pressionando continuamente o botão de fala com mais força do que pretendia, esperando que alguém ouvisse o inusitado diálogo entre eles.

_ Uma injeção letal de Cloreto de Potássio. Incrível a potência desse mero produto! Basta uma dose e seu coração para quase que imediatamente, sem rastros, sem sujeira... Como se o Ra’s Al Ghul de fato fosse acometido por um infarto fulminante.

_ E no caso, quando você diz “se livrar do problema”, significa me oferecer o mesmo tratamento que foi dado a Ducard? Uma injeção letal e um túmulo ao seu lado?

_ Ah, não, de forma alguma, Alice! – sorriu, dando passos comedidos em sua direção – Veja, mesmo que Ducard tenha errado muito em seus últimos meses de vida, eu ainda o respeitava por todos os anos bem servidos à Liga, por isso dei-lhe uma morte rápida e fácil! Já você... – levantou as sobrancelhas de modo sugestivo – Não tenho razão alguma pra me preocupar com os métodos. Até mesmo porque um novo infarto seria suspeito, ainda mais na sua idade... Mas, por outro lado, acidentes acontecem, afinal, essas montanhas são tão íngremes, não acha? Basta um passo em falso e a gravidade faria o resto.

_ Então esse é o plano? Me deixar rolar montanha abaixo e depois ter que explicar a minha morte pra toda Liga? Dois Ra’s mortos em menos de um mês, isso não soaria estranho?

_ Uma opção completamente plausível, desajeitada do jeito que é. – troçou, chegando cada vez mais perto – Sinceramente, eu preferia não ter que fazer isso com todos os ninjas tão próximos, mas para quem já se livrou de alguém como Henri Ducard, qual a dificuldade de repetir o feito com você?

_ Parece que eu sempre acabo descobrindo que confiei nas pessoas erradas...

_ De fato, é um dom! – anuiu, ganhando ainda mais espaço.

Nureen avançava com determinação fortalecida em cada passada, e dentro de seus olhos Alice reconheceu as certezas de suas intenções. Encarou-o com tristeza ao se dar conta do quanto apostou errado, do quanto confiou naquele que foi o responsável por destruir todos os seus planos. Sentiu o solo cada vez mais íngreme sob seus pés, e viu um punhado de terra rolar pelo declive, simulando sua possível futura trajetória.

_ Então é assim? Terminamos ao estilo “Rei Leão”, com você me jogando daqui enquanto sussurra “Vida longa ao rei” e ocupa meu lugar e o de Ducard na Liga das Sombras? – balançou a cabeça, como se negasse algo – É nisso que dá ter torcido pelo Scar no desenho, você acaba pagando na pele por não ter chorado pelo Mufasa e por ter rido da cara do Simba quando ele tomou um pinote das hienas, hilárias, por sinal...

_ Você é sempre tão incoerente assim?

_ Costuma piorar quando me encurralam num precipício... – deu de ombros – Mas o ponto é... Ser Mufasa ou ser Simba, eis a questão?! Veja bem, Mufasa foi um personagem incrível, e durante todo o filme o Simba foi um otário, mas ao final, quem sobreviveu e reconquistou o trono foi o aspirante a rei... Embora eu dê todo o mérito da vitória do Simba às distrações formuladas pelo Timão e Pumba, mas eu não tenho nenhuma dupla de ninjas aqui disposta a dançar a Hula, então isso restringe as minhas opções...

_ Opções? – riu, meio incrédulo por aquele falatório tão fora de contexto à sua compreensão – Parece que você ainda não entendeu que suas opções aqui se reduzem a nenhuma.

_ Sabe, certa vez alguém me disse que nós sempre temos escolha em tudo o que fazemos e passamos. E é a mais pura verdade. Nós dois fizemos nossas próprias escolhas, agora resta saber qual delas será bem sucedida. – fitou os arredores com alguma apreensão, achando ter visto algum movimento sobre a montanha, porém incerta se não se tratava apenas de sua mente lhe pregando peças. Ainda pressionava furiosamente o botão do Nextel, como se somar pressão ao aparelho de alguma forma aumentasse suas chances de ser ouvida por algum ninja.

_ E o que você pretende? Devo supor que sua mencionada ‘escolha’ seja medir forças comigo? – riu, desdenhando – Ah, Alice, sejamos honestos... Você realmente recebeu um fantástico treinamento, e até provou que poderia se tornar uma exímia ninja, mas... lhe falta experiência, e isso eu tenho de sobra!

_ Concordo! – assentiu, quase não conseguindo disfarçar o sorriso ao reconhecer num relance distante os traços mouros de Sayid, aproximando-se com competência junto a outros ninjas que o seguiam. – Mas quando Scar caiu, Simba ficou apenas olhando enquanto as hienas faziam o serviço sujo, e sabe, algo me diz que a história se repete hoje... – fitou-o com um ar divertido ao notar sua expressão confusa, que logo se transmutou a uma singular feição temerosa ao perceber seus companheiros ninjas vindo em sua direção com olhares focados e hostis.

_ Meus irmãos! – Nureen os saudou com um sorriso forçado ao vislumbrar a dúzia de ninjas que se aproximava irredutivelmente de si com olhos ferozes – Já não podia mais esperar pelo retorno de vocês... – disse, ameaçando gaguejar nas sílabas ao reconhecer a extrema frieza em cada par de olhos.

_ Basta de encenações por hoje, Nureen! – Sayid avisou, ríspido, seu olhar enviesado ameaçador e intolerante – Ouvimos o bastante de sua conversa com a Ra’s Al Ghul, e suas palavras o condenam, irmão. – cuspiu o tratamento com repulsa, deixando claro que não estava disposto a tratá-lo em igualdade.

_ Você cometeu o pior dos crimes! – um dos ninjas complementou – Uma liderança na Liga das Sombras jamais pode ser interrompida por um aprendiz.

_ Você matou Ducard! – outra acusação colérica soou.

_ Sua insolência nos privou da continuidade da liderança de Ducard! – Sayid rugiu, furioso em sua indignação – Você está ciente de qual será o preço a se pagar, não está, Nureen?

_ E não se esqueçam de que ele planejava me matar também! – a hippie disse, incomodada por toda a repulsa dos ninjas residir apenas na morte passada de Ducard, ignorando-a completamente.

_ Vocês não entendem a grandeza do que eu fiz? – Nureen berrou com sua voz rouca – Tudo em nome da Liga das Sombras, tudo por um bem maior que vocês deveriam ser capazes de compreender!

_ Cabe apenas ao Ra’s Al Ghul julgar o melhor à Liga! A nós, nos concerne apenas garantir que as vontades do líder sejam cumpridas, nem mesmo nos compete questionar. – Sayid retrucou cheio de uma devoção difícil de assimilar, mas que parecia ser partilhada pelos demais com a mesma paixão. Uma paixão que desde o início faltou à Alice – A Liga das Sombras funciona assim desde o seu princípio, e é por essa mesma razão que seus tijolos ainda se erguem ativos. Mas quando esse padrão se rompe, isso sim representa perigo a nós, porque nós só podemos sobreviver ao que fazemos se soubermos o nosso devido lugar! E você deu mais importância a si mesmo do que merecia, Nureen!

_ Exílio! – alguém gritou a sentença, impaciente, e mais vozes se juntaram em concordância àquele clamor.

_ Nureen – Alice principiou, dedicando-lhe um olhar excluso de sentimento, ciente do que deveria ser feito –, você traiu a confiança de seus irmãos e sua líder. Abusou de sua posição de confiança para tirar proveito e fazer valer suas ambições deturpadas... Roubou da Liga das Sombras os anos que meu antecessor ainda poderia oferecer de serviço nestas montanhas. Não satisfeito com seus crimes, ainda investiu contra mim, sua líder, numa nova tentativa de homicídio. Sendo assim, eu o exilo, Nureen, e deixo que o mau uso do seu treinamento se perca junto com a sua vida. – ela fez uma pequena pausa, encarando agora os outros ninjas que pareciam cheios de perspectivas – É todo de vocês! – anunciou, saindo do caminho.

No mesmo instante, cada ninja posicionou-se ao redor de Nureen, cercando-o por todos os lados e ignorando os olhos que imploravam por clemência. Aproximaram-se devagar e com certo ritmo nos passos, dando início à fatal armadilha. Alice ainda observava a cena quando o ataque começou, quase no mesmo instante em que os gritos aflitos e doloridos de Nureen tiveram início, atacado por todos os lados e condenado a ser linchado até a morte.

Seus urros se mesclaram aos gritos daqueles que o atingiam, unindo vários timbres e sentimentos, misturando o arfar do carrasco com os apelos da vítima num único e gutural som, capaz de fazer tremer até mesmo aquelas firmes montanhas. Alice deu-lhes as costas, disposta a dar continuidade aos seus assuntos pendentes, porém ainda foi capaz de ver os vários filetes de sangue que se moldavam como pequenas estrias ao longo do solo, dando ao seio daquela montanha um peculiar aspecto vívido, tão vivo como só a morte seria capaz de gerar.

Alice encarou por um instante o quarto que durante os longos meses de estadia a abrigou, e um longo suspiro escapou-lhe entre os lábios. Um olhar monótono vasculhou o aposento sem grandes expectativas, até que uma voz a fez sobressaltar.

_ Já não era sem tempo... – Batman saiu de um canto um pouco mais marcado pela penumbra, revelando o negro de sua armadura.

_ Mas o quê... – Alice olhou para os lados, confusa com a repentina aparição – O que você pensa que está fazendo aqui?

_ Alice, se você realmente acreditou que eu a deixaria cometer exatamente a mesma loucura que te afastou de toda a sua vida, acho que você não me conhece tão bem... – comentou calmamente, tirando a máscara de morcego e arqueando uma sobrancelha.

_ Você é mesmo inacreditável! – brigou, sentindo o rosto enrubescer – Bruce, o que você tem na cabeça pra aparecer justamente aqui? Tem noção do que esses ninjas fariam se dessem de cara com o homem que quase destruiu a Liga das Sombras e de quebra ainda deu uma bicuda no ego de cada um quando Gotham estava sob ameaça?

_ Ninguém sequer desconfia de que eu estou aqui – avisou, parecendo esforçar-se para não rir da situação – Não há por que se preocupar.

_ Bruce Wayne, eu acabei de ver aqueles ninjas espancarem um dos seus até a morte, como você espera que eu não fique aflita em te ver aqui? – sua voz soou entre irritada e chorosa, quase como se implorasse por algo óbvio – Eles receberam o mesmo treinamento que você e estão em maior número, e duvido que até mesmo uma ordem minha os faria recuar!

_ Eu também estou feliz em te ver! – zombou, chegando mais perto e passando o dedo pelos longos cabelos da hippie, encarando-a agora com um sorriso aberto. Alice sentiu suas defesas caírem no mesmo instante, e o puxou para um abraço apertado.

_ Seu doente... – xingou, porém seu timbre era afetuoso. Ele a apertou ainda mais forte, e Alice pôde embriagar-se com o odor viciante de seu perfume, um aroma que ela pensou nunca mais sentir, ao menos não tão cedo.

_ Esqueça essa vida, Alice... – ele pediu, usando o seu melhor tom sedutor – Não desperdice seus anos aqui. Esse lugar, essas pessoas... Nada disso vale a pena quando você pode ter uma vida de verdade!

_ Eu me comprometi a isso, e não sei se é o tipo de compromisso que te permite dizer um ‘até mais, otários’ e partir. – desabafou, soltando-se do abraço para encará-lo – Mas... também não é o tipo de lugar em que eu gostaria de envelhecer – deu um meio sorriso culpado.

_ Eu parti. Não diga ‘adeus’, Alice, apenas vá, sem se sentir na obrigação de deixar satisfações. E seremos duas ovelhas desgarradas que ninguém terá coragem de reclamar.

Alice sorriu, tentada a ceder. Por mais que sentisse o quão desrespeitoso seria abandonar a Liga das Sombras depois de tudo, ainda assim, queria fazê-lo.

_ Esse era o plano, desde o começo... – disse a si mesma, como uma réplica para convencer-se – Sim, você tem razão! Eu acho que nem saberia como governar a Liga agora que estou tentando ficar em paz com o meu passado... Mas antes, eu preciso terminar uma coisa!

Sem prévio aviso, Alice começou a arrastar a cama de sua posição original, arrancando um olhar curioso de Bruce, que sem suspeitar do motivo, foi até ela e a ajudou naquele serviço. Assim que se deu por satisfeita, a hippie agachou-se sobre o assoalho e começou a procurar pela falha na madeira, sem dificuldade em achá-la desta vez.

_ O que você está procurando? – Bruce perguntou ao vê-la tateando o chão cegamente.

_ Antes de morrer... – a hippie principiou, fazendo uma pequena pausa enquanto levantava a madeira solta do piso e deixava à mostra o fundo falso – Ducard me deixou uma pequena herança, digamos assim, que devido às circunstâncias eu não tive tempo de xeretar... – contou, tirando a enorme e pesada caixa do esconderijo e colocando-a sobre a cama, agora repleta de poeira. Parou por um breve instante, permitindo-se observar o fundo falso daquele esconderijo, um breve arrepio circundando-a ao ver uma farta pilha de papéis amareladas pelo tempo transcorrido. E mesmo sem analisá-las, soube imediatamente do que se tratava. Aqueles malditos documentos..., pensou, levemente desorientada. Porém, acabou desprezando-os ao esquecimento. Aqueles papéis de nada lhe serviriam agora, e seria melhor que se mantivessem escondidos no sigilo daquele pequeno galpão. Voltou a sua atenção para a misteriosa caixa, intuindo sabiamente que algo valoroso se escondia naquelas formas retangulares – Já está mais do que na hora de descobrir o que tem aqui dentro! – Alice levantou de leve a beira da tampa, mas se deteve no meio do caminho, encarando Bruce com um sorriso divertido antes de prosseguir – Topa fazer um bolão?

_ Acho melhor eu não opinar... – sorriu, parecendo tão ansioso quanto Alice pelo conteúdo daquela caixa que, de certa forma, guardava os últimos momentos de Ducard em vida.

_ Certo, lá vai então! – avisou, tirando de vez a tampa empoeirada do caixote. Baguera saltou com agilidade na cama para cheirar o conteúdo, e Alice entreabriu a boca, mais confusa do que saberia expressar – Hnm... Parece que Ducard queria que eu fosse a uma festa de Halloween... – comentou, tirando de dentro da caixa uma fantasia de material negro e reluzente, que tinha por máscara um formato de gato – Ou talvez ele quisesse que eu te caçasse... Gato ganha de morcego, não?

_ Isso é... titânio... O mesmo material da minha armadura... – lembrou Bruce, parecendo surpreso e ligeiramente desagradado.

_ E tem uma carta! – arfou, tirando o papel dali assim que o viu, amassado, sobre a armadura. Começou a lê-la em voz alta e trêmula, imaginando cada expressão de Ducard ao escrever aquelas palavras.

“Alice,

Sei que há muito nossos rumos já estarão separados quando esta carta chegar ao seu conhecimento. Gostaria de poder dizer-lhe estas palavras pessoalmente, mas a precaução me fez optar pelo seguro, e em tempos de desconfiança como estes, julguei que o melhor seria não arriscar.

Nesta caixa, você encontrará uma alternativa. Um álibi capaz de manter viva a sua farsa e proteger o seu rosto com a segurança que você tanto procura. Isto é tudo o que eu posso lhe oferecer no momento. Gostaria de poder partilhar os seus dons adquiridos com a Liga das Sombras, mas sei que esta não é a alternativa que você busca, e como pagamento pelo resgate que me foi fornecido em Gotham, eu a respeitarei.

Escolhi a figura do felino por esboçar o contorno marcante de sua personalidade; atitude, desenvoltura, inteligência e audácia, e também por se mostrar um tanto apropriado para a situação. Há muitos séculos, culturas antigas acreditavam que o gato representava um ser sagrado, um símbolo místico que guardava e vigiava o mundo inferior. Nessa condição, estes animais seriam capazes de dar uma nova vida a mulheres que julgassem dignas de receber seus dons, reclamando-a dos mortos e trazendo-a de volta ao mundo mortal com habilidades que vão além da capacidade humana.

Sua falsa morte lhe abriu uma porta, e com ela você se aperfeiçoou em todos os aspectos. Mas agora já está na hora de voltar à vida, e usar suas habilidades da maneira que ponderar ser o melhor.

Nunca duvide do quanto você é capaz, e ao mesmo tempo jamais subestime aquele que porventura te desafiar.

Daquele que te deseja os mais sinceros apelos de boa sorte em sua nova jornada,

Henri Ducard.”