A Face Oculta Da Lua
29 Capítulo Final – O Homem Que Ri...
Notas iniciais
Bruce estava quieto, dono de um olhar contemplativo e nebuloso fitando a imagem que transpassava pela arredondada janela de seu jato particular. Suas sobrancelhas, levemente franzidas, traduziam o descontentamento que sentia.
Alice, no entanto, mantinha-se quase aprisionada à carta deixada por Ducard, relendo-a repetidamente por vezes incontáveis, até que cada vírgula e até mesmo a disposição das palavras se fincassem com precisão em sua memória.
O silêncio reinava entre eles enquanto os olhos ágeis da hippie ainda passeavam pela folha que não lhe saía do domínio das mãos. Ela soltou o ar ruidosamente, encarando Bruce somente depois de vários minutos em debate mudo com seus próprios pensamentos.
_ Você sabe o que isso significa? – perguntou, sentando-se à frente do Bilionário e chamando sua atenção ao finalmente descansar a carta sobre a mesa que separava as poltronas de ambos – Bruce, Ducard praticamente me disse pra seguir os seus passos nessa mensagem! – fitou a máscara negra em forma de felino que parecia encará-la de volta, e no instante seguinte um arrepio repentino pareceu arrebatar o fundo de seu estômago.
_ Alice... – Bruce suspirou, parecendo cansado – Eu realmente não sei quais foram os motivos que levaram Ducard a pensar que esta seria uma boa ideia, mas... Acredite, não é! Eu conheço muito bem o fardo que se agrega a essas máscaras e disfarces, e não é algo que você consiga se livrar com facilidade! Há anos eu busco uma alternativa para o Batman, há anos eu tento fazer com que Gotham seja uma cidade protegida apenas pelas autoridades, como deveria ser, mas cada vez mais eu me sinto responsável por tudo aquilo que eu comecei e sempre me vejo inseparável desta carga que eu mesmo me incumbi e que, acredite, é bem pesada. Não é o tipo de vida que alguém iria querer para si. Esqueça isso! Ducard sequer devia entender o que estava lhe sugerindo. Até mesmo uma vida inteira de servidão à Liga das Sombras é uma opção melhor, ao menos não é tão solitária...
Alice levantou-se da larga poltrona em que estava sentada, dando a volta na mesa que os separava e se acomodando no acolchoado ao lado de Bruce, sem desviar os olhos do moreno em minuto algum. Pousou o cotovelo no encosto da poltrona e deixou que seus dedos brincassem pelo cabelo farto e sedoso do Empresário, permitindo que a intensidade em seu olhar fosse aplacada pelo sorriso gentil que lhe oferecia.
_ Bruce, eu sou uma pessoa morta para o resto do mundo. Eu não posso simplesmente resolver que sou capaz de recomeçar uma vida normal do zero, eu já fui longe demais pra cobiçar esse tipo de coisa, e não sou ingênua a ponto de acreditar que consigo. Eu não posso ter uma vida normal, Bruce, entende? Eu acho que nem me contentaria com uma. O meu histórico me diz isso, assim como a minha situação mórbida atual. Se eu estou morta para o mundo, eu devo permanecer assim, e uma máscara vem muito a calhar. Eu entendo o quanto a sua vida dupla tirou de você, e o quanto você perdeu e sacrificou por ela... Mas, talvez, dividir o mesmo fardo com alguém possa deixar essa vida um pouco menos solitária... – sussurrou, ainda mexendo em seus fios negros e arrumados – Não acha? – perguntou ainda mais baixo enquanto notava diminuir a distância entre ambos.
Alice mordiscou o lábio inferior do empresário, ainda com os olhos completamente voltados aos orbes negros de Bruce, como se o infinito residisse naquele brilho fundo e vívido. Ele manteve sua expressão entristecida em Alice, como se fosse o único capaz de enxergar uma armadilha que ela ainda não conseguia notar, mas ainda assim parecia tentado com a proximidade que se instalou. Uma resposta tardia se mostrou quando suas mãos puxaram a cintura de Alice docilmente, determinado a nada muito específico, apenas a tê-la mais perto.
~*~*~*~
_ E o que exatamente você pretende agora? – Bruce perguntou enquanto desciam à terra firme, novamente no cenário de Gotham em frente à bela Mansão Wayne.
_ Me esconder em algum lugar... – arriscou, dando de ombros enquanto assistia Baguera pular graciosamente para fora do jato, chacoalhando o corpo em seguida como se tentasse despistar o cansaço da viagem – Talvez minha melhor opção seja voltar para o Narrows, pelo menos lá ninguém faz perguntas demais.
_ Alice... – o tom de Bruce era repreensor, como se aquela ideia o agradasse tanto quanto imaginá-la combatendo o crime da mesma forma que ele fazia – Não há necessidade disso! Esse lugar é enorme – disse, apontando para a própria mansão –, você não precisa se arriscar pelos subúrbios de Gotham quando tem um lugar seguro à sua espera...
_ Pode parar, Bruce! Por mais que seja tentador morar debaixo do mesmo teto de alguém galante e charmoso como o Alfred, sem mencionar suas incríveis receitas e sotaque inglês, isso nunca poderia dar certo. Você atrai qualquer tipo de mídia e atenção, e eu preciso ficar o mais longe possível dessas coisas...
_ Será que nunca vamos concordar em nada? – sorriu fracamente, esperando algum dia ainda ser capaz de converter a teimosia de Alice a um pouco de juízo que fosse.
_ Nós concordamos em discordar, dê-se por satisfeito! – piscou, sorrindo de volta – E falando no Alfred... Será que eu posso dar um abraço naquele sem vergonha antes de me juntar à escória marginalizada de Gotham? – perguntou, feliz, arrancando uma risada do Bilionário pelo seu tom radiante que não combinava em nada com o contexto da situação.
_ Contraproposta. Por que você não passa ao menos essa noite aqui? Assim você pensa melhor no que fazer pela manhã e ainda desfruta da companhia de meu adorável mordomo pelo tempo que quiser! – brincou, parecendo dissipar um pouco a tensão pelo decorrer dos últimos acontecimentos – O que me diz?
_ Bem que eu gostaria, mas entenda uma coisa, Bruce, absolutamente nada vai me afastar do meu objetivo central de começar a minha caçada por um lar no Narrows ainda essa noite! Entende o que eu quero dizer? Isso se chama foco, e razão alguma pode me desviar disso!
_ ...E, você escolhe o jantar e a sobremesa!
_ Feito! – concordou sem qualquer sinal de hesitação, oferecendo um aperto de mão para selar o acordo enquanto ambos riam. Bruce envolveu os ombros de Alice com o braço direito enquanto ainda caminhavam para a entrada da mansão, conduzindo-a gentilmente com aquele meio abraço gostoso e aconchegante. Há alguns centímetros da porta, porém, os dois estancaram, encarando-se com uma preocupação mútua – Isso... deveria estar assim? – ela perguntou, empurrando com um único dedo a maçaneta destrancada.
_ Fique aqui! – lançou, adotando um tom sério enquanto ameaçava entrar sozinho na propriedade.
_ Nem fodendo! – resmungou, seguindo-o assim que o Empresário ultrapassou a entrada agora escancarada, mais uma vez ignorando seus apelos.
Os olhos de ambos vagueavam com agilidade pelo aposento, tão silenciosos quanto seus próprios passos firmes. Ao menos esteticamente, a mansão não aparentava qualquer anormalidade visível. Alice o viu estreitar o cenho em desconfiança, ainda desconfortável e tenso.
_ Alfred? – Bruce chamou, mas a resposta que se seguiu não carregava o característico sotaque inglês, tampouco a sua gentileza. Um vulto curvilíneo demais para se tratar do mordomo chegou ao alcance visual de Bruce e Alice, os tão intensos olhos azuis idênticos aos de Ducard faiscando obliquamente enquanto encarava o casal com descaro e a mesma crueldade fria que sempre parecia disposta a brincar dentro das íris de um profundo tom índigo.
_ O seu cachorrinho de estimação não se encontra no momento... – Talia comentou quase cordialmente, contudo permitindo-se exalar um ar frígido que, de tão comedido, soava preocupante. Naquela expressão odiosa Alice viu bem mais do que gostaria, e novamente temeu tanto por si quanto por Bruce – Se bem me lembro, ainda temos uma pendência a resolver! – Talia avisou enquanto se aproximava, revezando olhares enfurecidos entre os dois.
_ Vamos sair daqui, Bruce! – Alice puxou o punho do Bilionário, sentindo-se tonta ao recordar o último encontro que os dois partilharam com aquela mulher e todo o desespero que a impotência lhe fez sentir ao quase não conseguir salvá-lo das investidas de Bane. Virou-se novamente para a saída, e sua tensão apenas cresceu quando um arfar escandaloso escapou de seus lábios ao notar a porta pela qual acabaram de passar agora fechada, bloqueada por um homem alto e dono de um característico terno roxo e verde, o par de cicatrizes sempre tornando suas expressões as mais macabras possíveis – Coringa! – exclamou, sentindo a gravidade de repente puxá-la com mais força em direção ao centro da Terra.
_ Docinho! – ele sorriu, munido de infinita malícia naquele simples gesto.
_ Como vocês entraram aqui? – Bruce perguntou, e Alice pôde sentir a tensão se espalhar pelo seu corpo enquanto ainda agarrava o pulso do Bilionário com uma força exagerada – Essa é uma propriedade privada! – esbravejou, tentando decidir qual seria a melhor compostura a adotar naqueles termos em nada favoráveis.
_ Aí está uma pergunta realmente interessante, Wayne – Coringa gesticulou e ao mesmo tempo lambeu o canto da cicatriz que formava um sorriso em seu rosto enquanto fingia refletir de uma forma zombeteira – Você vai acabar descobrindo que nem todos precisam de uma fortuna para ter seus truques... Ou até mesmo de uma máscara, não? – sorriu ao perceber o sutil retesar do casal à sua frente, e degustou daquele momento cada fino e doce sabor que pôde extrair – Bruce Wayne, o príncipe de Gotham! – o Palhaço aproximou-se, segurando com rudeza o queixo do Empresário e expondo vários ângulos de sua fisionomia contra a luz como se avaliasse um animal em exposição – São poucos os que conseguem me enganar, acredite! E você... – riu, apontando para o seu rosto com o indicador em riste – Você realmente fez um papel e tanto! Todos esses anos se esforçando para que sua imagem pública se firmasse como a de mais um tipo de burguês fútil e egocêntrico, mas que na verdade passava o seu tempo livre nas ruas, combatendo crime atrás de crime, e pra quê?
_ Eu não sei do que...
_ Ah, não, não, não! – Coringa segurou novamente o rosto de Bruce, silenciando-o – Não se preocupe em manter as aparências! O seu segredo morre com você, aliás, mais cedo do que você imagina... – gargalhou, novamente umedecendo a cicatriz com um movimento rápido da língua – Sabe, Batsy... Posso te chamar de Batsy? – perguntou, sem esperar pela resposta – Sabe o que eu realmente acho de tudo isso? Que nós dois devíamos dividir uma cela em Arkham, com todos os privilégios que a insanidade pode oferecer. O que me diz, temos um encontro? Vamos, não me decepcione, eu sou o seu maior fã, embora eu ache que a capa seja um pouco de exagero! – riu novamente, debochado.
_ Você está delirando! – desvencilhou-se do Palhaço com uma expressão dura. Alice permanecia estática ao seu lado, mais pálida do que Bruce jamais vira – Peguem o que quiserem de valor e saiam daqui.
_ Ah, sim, pode estar certo de que eu não saio daqui de mãos vazias... – encarou Alice sugestivamente, com um brilho vil no olhar – Mas, para quê apressar as coisas, hã? Assim você me leva a duvidar dos seus bons modos, Morcego! Depois de tudo pelo que nós já passamos eu esperava ser mais bem recebido na sua caverna...
Alice apertou a mão de Bruce entre as suas quase sem perceber, atônita pelo conhecimento que o Palhaço fazia questão de despejar acerca da outra identidade de Bruce. Ele sentiu a magnitude de sua aflição, quase como se esse sentimento também pertencesse ao Bilionário e, talvez para tentar acalmar a ambos, trouxe a hippie para mais perto de si ao puxá-la pela cintura. Respirou fundo a fim de ordenar os pensamentos.
_ Como você soube? – perguntou, percebendo que fingir desentendimento não o isentaria do problema que agora tinha em mãos; sua identidade revelada a um dos homens que mais almejava destruí-lo.
_ Como eu soube? – ele riu, fazendo uma breve pausa – Nenhum palpite? Olhe ao seu redor, Wayne... – deu a dica, mas o silêncio permaneceu exigindo uma réplica, embora Bruce já suspeitasse da resposta – Bom, parece que vocês realmente irritaram essa distinta mulher, não sei como, mas me sinto em dívida com vocês por isso. – sorriu cinicamente, e todos os olhares se voltaram para Talia, que manteve a expressão dura enquanto os observava.
_ O quê? – ela bufou, revirando os olhos que tinha herdado de Ducard – Vocês realmente acreditaram que sairiam impunes do nosso último encontro? – sua voz saiu enfurecida, tão ameaçadora quanto a sobrancelha que perigosamente se erguia, como um sinal pouco amigável – Bane morreu por sua causa, Alice, e agora eu te retribuo o mesmo favor com a ruína do seu parceiro. Ah, mas não tema! Não se preocupe com a sua saúde física. Você vai viver, assim como eu. Vai viver para testemunhar seus dias sem aquele que você mais ama, vai viver para se lembrar por cada segundo como Bruce definhou diante de seus olhos sem que você pudesse mover um único músculo para intervir ou impedir o inevitável, e vai viver tempo o suficiente para perceber que você jamais se habituará a isso. Nossas escolhas nos definem, e você mesma escolheu condená-lo pela sua impertinência e estupidez de realmente acreditar que poderia me dobrar com seus pequenos truques patéticos. E só após esse momento em que você passar a conhecer a minha dor, a minha impotência, nós estaremos quites.
_ Eu gosto dela! – Coringa comentou com um sorriso amplo e satisfeito – Criatura adorável!
_ Sua vadia! – a hippie rangeu os dentes, impulsionando o corpo na direção da mulher com um instinto quase irracional. Bruce pressionou-a com mais força contra o seu corpo, impedindo a investida e tentando acalmá-la.
_ Está tudo bem, Alice – ele sussurrou apenas para ela, tentando transmitir uma confiança que ele não estava certo de possuir – Agora nós só precisamos ser racionais...
_ Ela fica uma delícia quando perde o controle, não acha, Batsy? – Coringa provocou num tom alegre, revezando olhares interessados entre Bruce e a sua Alice – Uma delícia... – repetiu, envergando ainda mais o sorriso enquanto a fitava intensamente.
_ Por que você não vai retocar a maquiagem, hein? Tá só um pouco borrada... – a hippie lançou, sem saber se o que predominava em si era a forte irritação que sentia ou o temor do que poderia acontecer a partir de agora que todas as cartas estavam sobre a mesa.
_ O que vocês querem? – Bruce perguntou, prático, esperando que eles estivessem dispostos a aceitar algum tipo de negociação, ao menos até que ele pudesse pensar em uma solução definitiva para se livrar do problema que certamente ainda o assombraria – Apenas digam o preço.
_ Algo me diz que o meu... preço... não seria aceito de boa vontade. – Coringa principiou, rodeando lentamente o casal até que parou ao lado da hippie – Embora você seja minha por direito, Docinho! – avisou, mordendo a orelha de Alice sem qualquer intenção de interromper o súbito contato que ele mesmo firmou. Bruce puxou-a para si dotado de um silêncio esmagador que intimidaria qualquer pessoa com um mínimo de sanidade. Aquele não era mais o olhar do famoso empresário, e sim o do famigerado e intolerante Cavaleiro das Trevas – Viu, como eu disse! – ilustrou, voltando a caminhar em volta dos dois – Então, meu caro Batsy, só existe uma forma de você evitar o inevitável, e eu suspeito de que você já conheça essa resposta! – fez uma pequena pausa de efeito antes de responder ao próprio comentário, incidindo ainda mais satisfação em seu sorriso – Quebrar sua preciosa e imutável regra. Você sabe que esse é o preço, que é o único meio de me impedir, e ainda assim hesita... Vê, Docinho? Ele coloca os próprios princípios até mesmo acima da sua segurança. Eu jamais faria isso, primeiro porque nunca tive princípios, segundo porque sua segurança ao meu lado já seria um tanto contestável – riu, soando insano – Agora, em consideração aos nossos bons e velhos momentos, Batsy, eu te dou o dom da escolha. Você sabe como me impedir! – desafiou, lambendo com compulsão o canto da cicatriz enquanto esperava por sua reação.
_ Você não vale a pena. – Bruce rebateu, já sem qualquer sombra de paciência – Se acha que eu vou atender às chantagens de um maníaco na minha própria casa, então você é mais problemático do que eu pensei.
_ Provavelmente eu de fato não valha a pena, mas será que o mesmo se aplica à Alice? Não? Docinho, eu mataria por você, como já fiz várias vezes! – disse, como se fosse um elogio – É simples, Wayne! Um de nós morre hoje, e isso termina aqui. Mas quem será? – cantarolou a pergunta, um tanto zombeteiro – A propósito, quase me esqueci de comentar... Parece que apenas um de nós terá direito a armas – Coringa tirou do paletó uma faca de lâmina larga, esbanjando insensatez em seu cruel sorriso enquanto se aproximava de Bruce, que não tinha qualquer proteção sem sua armadura de titânio, ou até mesmo seu cinto de utilidades.
_ Ei... Calma aí, Palhaço, vai devagar! – Alice colocou-se entre os dois, fitando Coringa com energia – Por que vocês não podem resolver suas diferenças no par ou ímpar? Não? Talvez cara ou coroa?
_ Deixe que os adultos resolvam os assuntos de adultos, Docinho! – propôs com um sorriso indócil, desviando-se da hippie e indo de encontro ao Empresário.
_ Tudo bem, eu já entendi! – Alice o seguiu, tagarelando ainda mais alto – Você quer jogar pesado, eu respeito isso. Qual o seu preço? É só falar a marca da maquiagem! L'oreal Paris? Chanel? Mary Kay? Talvez algumas peças de roupa decentes? Uma fantasia de enfermeira, quem sabe? Dinheiro queimado? Uma tenda de circo? O quê, criatura? – puxou a manga de seu paletó ao ver que ele a ignorava.
_ Eu não sou o tipo de cara que tem um preço, Alice – ele parou, encarando-a perto demais – Mas nesse caso até poderia abrir uma exceção...
_ Há! Sabia que você ficaria tentado pela fantasia de enfermeira! – sorriu largamente, satisfeita com o seu poder de negociação – Conheço um lugar ótimo que...
_ Shhh... – Coringa prensou a lâmina da faca sobre os lábios da mulher, silenciando-a – Acho que devo esclarecer melhor os meus termos... – avisou, deslizando sugestivamente o polegar pelos lábios fartos de Alice, dono de um sorriso libertino que se aproximava cada vez mais da expressão apreensiva e anestesiada da mulher, como se ela se encontrasse em transe.
Bruce avançou sobre ele com rapidez, quase cego ante a própria raiva, restabelecendo uma distância segura entre Coringa e a hippie. O Palhaço caiu com a investida, rindo descontroladamente mesmo quando o Bilionário se apressou em socar o rosto pálido pela maquiagem, borrando-a ainda mais ao som do riso histérico de seu oponente. Talia apenas observava tudo friamente, como se ansiasse pelo desfecho que ela almejava presenciar, sempre em silêncio.
_ Finalmente uma reação digna do Cavaleiro das Trevas! – o Palhaço gargalhou, divertido – Mas receio que agora seja minha vez, caro Batsy! – anunciou, enterrando completamente a lâmina na lateral do corpo de Bruce, apenas um pouco acima da altura de seu quadril, deixando-a cravada ali e contorcendo o cabo antes de novamente puxá-lo, fazendo a nova ferida espirrar sangue com violência. Bruce gemeu ao mesmo tempo em que Alice, que se ajoelhou ao lado de Coringa e tentou puxá-lo para longe, mas sem sucesso. Ele a empurrou com força, contudo sem tirar os olhos do Bilionário – Não seja apressada, Docinho. A sua vez já vai chegar! – lembrou, bem-humorado, enquanto se levantava. O Palhaço revelou uma ponteira afiada que saía do bico da sola de seu sapato, chutando com vontade a perna de Bruce e novamente fazendo um farto filete de sangue escorrer para o carpete.
_ Já chega! – Alice segurou-o firmemente pelo braço, forçando Coringa a se virar para encará-la – Eu vou com você. – avisou, sem sequer vacilar em sua decisão impensada.
_ Alice, volte aqui! – Bruce chamou com a voz embebida em dor, mas a hippie continuou fitando o Palhaço como que para confirmar suas palavras. Ele apenas a observava em resposta, com farto interesse escancarado naquele sorriso oblíquo e de várias intenções.
_ Eu vou com você! – repetiu com ainda mais convicção, sem desviar seus olhos do brilho quase verde que a encarava de volta – Sem truques, prometo – acrescentou, cansada –, mas isso acaba aqui e agora. Eu só preciso saber que temos um acordo.
_ Incrível como você adora destruir o melhor da festa... – comentou risonho, usando a mão livre para passear rudemente pelos cachos da hippie, que tremeu involuntariamente – Percebe, Batsy? Ela tem mais atitude do que você. Deve ser desolador ver a mulher que você ama escolher o outro, aquele que é... Qual foi mesmo o termo? – franziu a testa, pensativo – Ah, sim o problemático, não é isso? – zombou, rindo alto.
_ Já chega... – Alice cortou-o – Isso é um sim?
_ Alice, não... – Bruce pediu, agora aparentando mais lividez, desta vez não proveniente da dor ou do ferimento.
_ Ao que me parece, o Morcego viverá para mais um de seus voos... – Coringa consentiu, passando um dos braços pelo ombro da hippie e encarando Bruce com uma expressão divertida – Mas nós dois sabemos, Batsy, que isso ainda não acabou. Ela só te deu algum fôlego até que nós dois voltemos à mesma questão: ou você quebra a sua regra, ou se torna vítima dela!
_ Não foi esse o combinado! – Talia se aproximou, parecendo realmente furiosa e se manifestando após um longo tempo apenas como observadora – Você vai matá-lo agora, conforme o nosso acordo!
_ Ah, sim, o nosso acordo... – Coringa levantou os olhos para o teto, parecendo considerar o protesto, inspirando lentamente uma porção de ar como se de fato se importasse – Veja, todos vocês fazem ideias muito erradas de mim! Eu não sou o tipo de cara que segue exatamente o combinado... Desculpe, esse era o seu plano? – riu, debochado.
_ Que seja, eu mesma faço! – rosnou, impaciente, dirigindo-se com firmeza até o empresário a passos determinados, dominada por uma dose crescente de expectativa no brilho que parecia transpassar seus olhos azuis.
_ Você quer que eu a impeça, Docinho? – Coringa perguntou bem rente ao seu ouvido, sempre valendo-se de um tom estranhamente sedutor ao destilar cada palavra direcionada à ela, o seu segredado e merecido troféu, sua indisfarçada obsessão, que força alguma poderia separar ou negar-lhe enquanto ele a quisesse. E ele a queria. Seus lábios roçaram quase gentis sobre a orelha de Alice quando voltou a sussurrar sobre ela – Hã? Como uma prova das minhas boas intenções? Eu posso! – mostrou-lhe o arsenal de armas sob o próprio paletó, como uma confirmação de suas palavras e evidente poder.
_ Sim! – Alice aceitou na mesma hora, sem saber ou se importar com o quanto aquilo poderia lhe custar mais tarde, apenas tendo ciência de que Bruce estava desarmado e ferido o bastante para defender-se com competência, contra uma mulher cega de ódio e em posse de uma arma – Faça o que precisar! – reforçou com certa urgência, aflita ao ver a filha de seu antigo Mestre carregar algumas munições ao revólver que empunhava, já moldando a mira enquanto colocava as balas dentro da arma, sem desviar sequer uma vez o olhar focado de seu potencial alvo.
_ Fique olhando! – ele sorriu, talvez satisfeito demais com a escolha de palavras de Alice. Tirou de dentro de um dos bolsos um controle, uma espécie de detonador que a fez sobressaltar no mesmo instante.
_ Não, espera, assim não! – gritou, porém tarde demais. Um estrondo ensurdecedor pareceu vir do andar de cima da mansão, tão forte como se apenas a potência daquele som fosse capaz de causar a destruição que se seguiu. No momento em que o teto começou a despencar sobre suas cabeças em tamanhos diversos, Coringa puxou a hippie junto a si pela cintura, levando-a a tempo para fora da Mansão Wayne enquanto esta ruía em pedaços, desfazendo-se sob o próprio peso de sua alvenaria.
Já do lado de fora, sem sequer entender muito bem como chegara lá, Alice fitou a imagem à sua frente, desconsolada, enquanto percebia Bruce ser soterrado pela sua própria estupidez. Poeira e fumaça uniam-se ao cimento que caía, até que finalmente o pequeno desabamento se estabilizou, deixando apenas um rastro da altivez que já pertencera à Mansão Wayne.
_ O que você fez? – perguntou com certa histeria, sentindo a voz embargar tanto pela raiva quanto pelo desespero.
_ Fiz o que você pediu, Docinho! Eu impedi aquela adorável moça de concluir seus planos mal intencionados! – explicou, um tanto radiante – De nada! – acrescentou com cinismo.
Alice o empurrou para longe de si, ultrapassando novamente a entrada da mansão e correndo os olhos pelo tapete de destroços que havia se formado acima de Bruce e Talia, limitando-se a procurar pelo Bilionário enquanto sua respiração se desregulava em pavor. Tirou algumas fileiras de pedras de cimento até chegar a um corpo, mas logo parou seus esforços ao perceber que se tratava de Talia.
_ Ah, você não! – falou impaciente, jogando a pedra que acabara de remover novamente na cabeça da mulher, sem qualquer delicadeza. Recomeçou sua busca mais à direita, aonde calculava ser a posição de Bruce, e não demorou a encontrá-lo, repleto de poeira misturada ao sangue do Bilionário. Ele respirava com dificuldade, ainda mais por conta das pequenas partículas de argamassa que se mesclavam ao ar – Te achei! – Alice acariciou sua testa com todo o cuidado que possuía, tirando de cima de Bruce cada indício de cimento e arrastando-o para uma parte mais plana do chão – Vai ficar tudo bem! – garantiu ao vê-lo abrir os olhos com dificuldade – Bruce, vai ficar tudo bem! – repetiu com um sorriso falho, fracassado pelo seu próprio medo, sempre tão inconstante e irascível – Aqui, fique comigo! – soou enérgica ao vê-lo ameaçar fechar os olhos.
_ Alice... – ele tossiu, e sangue espirrou de sua boca, contrastando com a lividez de sua pele – Sinto muito! Me perdoe. Não podia... – tossiu com mais afinco, parecendo pouco capaz de recuperar o fôlego – Não podia terminar assim! Eu... Eu falhei com você!
_ Não! Ei, Bruce, me escute, nada vai terminar hoje, entendeu? Nós... nós vamos dar um jeito nisso! Eu prometo! – disse, sem ser capaz de conter uma lágrima, que limpou furiosamente assim que a sentiu descer, quente, pelo seu rosto transtornado – Você já passou por coisas piores! Essa vai entrar pra lista das suas cicatrizes, só isso! Gotham ainda vai ser muito atormentada pelos seus passeios noturnos!
Bruce sorriu com pesar e indisfarçada dor, e Alice notou a brancura de seus dentes ser sobreposta pelo tom escarlate e brilhante do sangue.
_ Acho... acho que não dessa vez, minha menina! – acariciou brevemente o rosto da hippie, segurando seus cachos sem muita firmeza, a força de seus dedos vacilando naquele mero gesto.
_ Conversa! – ela passou a mão com carinho ao redor do rosto de Bruce, limitando-se a um sorriso tenso, fazendo o inimaginável para desconsiderar o próprio tremor e a conhecida angústia que já a espreitava – Você é o Batman, esqueceu? Sempre dá um jeito de sair por cima, não importa como!
_ Hoje eu sou só um Wayne, Alice. Mas, apesar... – tossiu novamente, demonstrando sentir uma enorme dor com o gesto – ...apesar da situação desfavorável, ao menos ainda tenho um teto sobre a cabeça – deu um meio sorriso fraco e dolorido, extremamente condizente com o restante de sua expressão igualmente abalada.
_ Inacreditável... – Alice meneou a cabeça em negação, ainda com os dedos passeando com cuidado pelo rosto machucado de Bruce – Isso é hora de fazer piada?
_ Tive com quem aprender! – sorriu, com uma aparência levemente anêmica e dorida. Seus dedos se demoraram um pouco mais no rosto de sua bela e doce hippie, admirando nela algo que parecia ir muito além de sua aparência. Porém, no que pareceu a Alice uma fração interminável de um vil segundo, os lábios de Bruce paulatinamente se afrouxaram, ainda entreabertos, e suas pálpebras se fecharam lenta e invariavelmente, e Alice soube que elas não mais se levantariam.
_ Não, não, não, não, não! Não se atreva a me deixar também! – sacudiu os ombros do Empresário, que apenas sacolejou mole diante dos movimentos impostos por Alice – Bruce, você não! Por favor, eu não consigo sozinha... – sussurrou ao encostar a própria testa na dele, sentindo-se reduzir ao mesmo pó insignificante que a cercava em sua pequenez. – Bruce... – soluçou, já conhecendo o vazio estarrecedor que viria a seguir, varrendo seus anseios com a mesma vontade de um buraco negro que sorve tudo à sua volta. Lágrimas grossas corriam soltas para além do limite de seus olhos, e Alice chorou como acreditava não mais ser possível para alguém que já perdera tanto...
Manteve o corpo do bilionário envolto por um abraço protetor e forte, soluçando mais e mais à medida que se dava conta do quanto estava destruída por dentro, do quanto sabia ser incapaz de prosseguir sem aquele que ela verdadeiramente amava. Bruce... Me abrace de volta, por favor!, ela pediu numa prece fervorosa de esperança, contudo, os braços gentis do empresário permaneceram caídos ao lado de seu corpo que, em vida, fora tão aconchegante.
E Alice sentiu o gosto salgado e molhado de sua perda, como se um grotão fosse formado em seu peito diluído em dor. Nada restara para si. Descobriu tarde demais o quanto amava Bruce, e mais tarde ainda o quanto aquele sentimento era sua única esperança de manter suas diretrizes nos caminhos certos.
Uma espécie de guinchado baixo ecoou, soando zombeteiro mesmo em sua fraqueza. Alice encarou o ponto em que Talia estava, identificando a origem do estranho som. Tirou mais uma vez a pedra larga que escondia seu rosto sangrento pelos inúmeros cortes, e um ódio sem tamanho se apoderou de Alice ao ver a mulher sorrindo debochadamente mesmo à beira da morte.
_ É desolador, não acha? – ela retaliou, ainda que restasse apenas uma fração de sua voz, uma parcela que tentava soar cruel, mas que não conseguia camuflar a dor de seus últimos minutos – Pena que não tenha sido por minhas mãos, mas finalmente estamos quites agora! – soltou uma risada que mais parecia uma tosse desajeitada – Espero que você viva muito mais do que eu. Que chegue à velhice ainda com esse fardo nas costas... Que nunca se esqueça de se culpar todos os dias...
Alice foi em direção à voz fraca a passos firmes, com uma certeza difícil de revogar, tão indomável quanto a sua própria fúria. Tomou a arma que Talia pretendia usar contra Bruce e mirou na mulher, atirando repetidas e incontáveis vezes em seu corpo já condenado. Um dos projéteis disparados acertou o centro da garganta de Talia, expondo sua traqueia ao sangue que jorrava violentamente em todas as direções, fazendo-o atingir os pulmões da mulher e resultando num lento sufocar causado pelo líquido viscoso e rubro. Seus últimos sons em vida resumiram-se a alguns engasgares medonhos, até que eles por fim se calaram.
Ela direcionou o olhar incomodamente marejado na direção de Coringa, que a fitava com um sorriso vibrante de satisfação. Alice apontou a arma para a cabeça do homem, estreitando os olhos em desafio.
_ Você vai mesmo fazer isso, Docinho? – perguntou, aproximando-se de sua musa secreta, sua voz sedutora incapaz de disfarçar o quanto a desejava, o quanto sempre a quis, e o quanto estava disposto a alcançar seu desígnio.
_ Acha que eu não teria coragem? – desafiou, mirando com firmeza o revólver na direção do homem sorridente.
_ Talvez... Quem pode dizer? Sabe, eu sempre fui muito bom no quesito de prever as pessoas, mas você... Desde o começo foi um desafio – sorriu, lambendo a cicatriz num movimento rápido. Se aproximou ainda mais, sem nem mesmo demonstrar desconforto por estar na mira de uma arma, parecendo até extremamente à vontade com toda a situação – Mas sejamos realistas, Alice... Eu sou a única coisa que te restou. Atire, e o que mais você terá?
A hippie apertou com fúria o cano do revólver nos cachos esverdeados do Palhaço, rosnando de frustração ao reconhecer a temível verdade que se escondia naquelas palavras. Por mais doentio que fosse aquele sentimento, depois de tantos desfalques em sua vida, era ele e apenas ele que havia restado em sua tumultuada e sombria existência. O homem por quem ela sempre nutriu os mais confusos sentimentos antagônicos, o homem capaz de desestruturar todas as suas firmes e sólidas bases com apenas um toque. O homem que ri. Aquele que sempre a torna mais vulnerável, mais despedaçada e insana.
Ela redirecionou a arma, deixando o cano rente à própria cabeça. Segurou uma das mãos de Coringa e levou-a até o cabo metálico, fitando os olhos fracamente esverdeados com intensidade e súplica.
_ Então faça! Eu sempre soube que acabaria assim, e acho que você também. Você quer fazer isso desde o começo, então apenas faça rápido. Por favor.
_ Tem certeza de que é isso o que você quer? – Coringa perguntou, aceitando segurar a arma que lhe foi tão inusitadamente oferecida. Como um rei que se rende no jogo de xadrez ao perceber-se encurralado por todos os lados, sem nenhuma opção de saída no tabuleiro.
_ Apenas faça! – repetiu o pedido com a voz fraca, desprezando o orgulho, incapaz de continuar sustentando sua própria situação.
Coringa segurou o revólver com mais firmeza, posicionando o indicador sobre o gatilho de forma extremamente controlada e fria. Alice fechou os olhos esperando nunca mais precisar abri-los, aceitando o próprio destino, traçado para si desde o dia em que encontrou aquele homem desacordado sobre os domínios de sua propriedade, e inexorável desde então. Não importava o quanto fugisse, isso era tudo o que ela teria. Tudo o que sua estupidez lhe permitiria ter.
Um estalido fraco irrompeu da arma, indicando que Coringa havia apertado o gatilho e fazendo Alice estremecer com o breve ruído. Levantou as pálpebras em desentendimento ao perceber que estava viva e que bala alguma fora fincada na porção de sua cabeça que se encostava ao frio cano de metal.
_ Parece que você descarregou a arma naquela simpática mulher... – Coringa sorriu largamente, parecendo não ter sido pego de surpresa pelo ocorrido.
Alice deixou-se cair de joelhos, mais cansada do que poderia expressar por meras palavras. Era inconcebível imaginar que Bruce se fora, que tudo o que lhe restava deste mundo era o sentimento duvidoso e perigoso que nutria pelo homem que destruiu cada mínimo aspecto de sua vida, até mesmo quando esteve longe... Talvez sua ausência tenha sido um castigo tão desolador quanto a sua presença. Ele ajoelhou-se apenas com uma perna à sua frente, usando a outra como apoio para o braço que foi de encontro ao rosto de Alice, fazendo-o se arquear para encará-lo. Ela não se opôs em nenhum momento.
_ Mesmo que eu quisesse disparar contra você, Alice, eu não o faria. – avisou com seus olhos indomados, cheios de cobiça e insanidade – Nós dois somos estragados aos olhos do mundo, e já está na hora de parar de fingir que conseguimos nos contentar com a ausência do outro. – falou com seriedade como poucas vezes Alice o tinha visto fazer. Ou... como nunca o vira fazer antes.
Ela soltou o ar num riso frio e sem humor.
_ Suas palavras são tão falsas quanto a maquiagem que você faz questão de usar como rosto. – replicou, não de modo acusativo, apenas exausta. Olhou de relance para Bruce, sem saber o que de fato havia dentro de si, ou ao menos se ainda havia alguma coisa. Em seguida encarou o corpo sanguinolento de Talia, encontrando certa satisfação por ter sido ela a responsável pela morte da insuportável mulher, por mais que sua vida já estivesse condenada com o desabamento da mansão.
_ Posso ser muita coisa, Alice, mas ninguém pode me acusar de inautêntico... – umedeceu os lábios ao mesmo tempo em que um discreto sorriso se fez presente. Ele segurou a nuca da hippie, levando seus rostos a uma distância insignificante – Quanto mais você terá que perder para entender que as regras impostas pela sociedade só nos tiram aquilo que mais prezamos? Segui-las é o mesmo que renunciar ao único donativo que este mundo pode oferecer; a liberdade. É permitir que os próprios pulsos sejam contidos por grilhões que não se pode ver, mas que estão lá, mais fortes do que a matéria. É criar uma barreira para delimitar os próprios instintos, é deixar-se manipular por conceitos ultrapassados de uma honraria que a humanidade nunca sequer chegou perto de possuir. Você e eu não fomos feitos para os regulamentos e códigos. Tentei lhe mostrar isso desde o começo, mas sua teimosia só não era maior do que o seu orgulho... – falou no mesmo tom baixo e intenso que vinha usando com ela, e Alice, mais do que nunca, inclinou-se à sua visão.
Para aonde o “certo” e as regras a levaram? A perder tudo o que mais prezou, a ser perseguida incansavelmente pelos carrascos da lei, que se diziam protetores da justiça e da ordem, mas nada mais eram do que oportunistas políticos. Quantas recompensas lhe foram designadas por tentar se ajustar ao que a sociedade estipula como correto? Quantas vezes fora cruelmente julgada sem o benefício da dúvida? Não havia uma única conta em sua vida que não estivesse no negativo, mas ainda assim se manteve cega tempo o bastante para este fato, tentando sempre arrumar algo em si quando na verdade era o mundo que parecia precisar de conserto. Sempre tentou reparar a si mesma para provar àqueles que amava que ela não era um caso perdido...
...Mas agora não havia mais ninguém a quem convencer. Todos haviam partido, e acabaram levando consigo a parte de Alice que tentava ser melhor, aquela que ainda lutava por um ajuste interno.
Ela sempre se sentiu uma pessoa deslocada no mundo, nunca chegou a se encaixar em fase alguma de sua vida, e nada do que fizesse poderia amenizar esse fardo que sempre a perseguiu. Até que ela simplesmente resolveu parar de tentar se adaptar, passando a investir no próprio isolamento, afastando-se ao máximo de tudo e principalmente de todos...
...Mas nem isso mostrou-se uma solução. O caos a encontrava, como um metal atraído por um ímã.
Alice fitou demoradamente o Palhaço, tornando-se novamente uma testemunha da própria insensatez inexplicável que alimentava a sua estranha obsessão por aquela figura que, assim como ela mesma, era tão problemática quanto complexa.
Seus olhos se mantiveram fixados um no outro, como se ambos tentassem desvendar algo dentro deles. E Alice se perdeu ao talvez entender o motivo de sua constante vulnerabilidade naquela perturbadora presença.
Não era amor, não era ódio, nem mesmo curiosidade pela vida livre que ele tão orgulhosamente fazia questão de ostentar. Era, na verdade, uma espécie peculiar de dependência, como se ele representasse tanto o afogar agoniante e lento em meio ao alto mar como o alívio de um sopro de ar na iminência da asfixia. E, pela primeira vez em toda a sua história com Coringa, ela percebeu nele algo recíproco, como se ele mesmo também se sentisse fortemente preso à estranha mulher que acabara cruzando acidentalmente o seu caminho.
E ver aquele mesmo sinal de fragilidade estampado no homem de cicatrizes a fez estremecer, fez com que Alice percebesse o quanto eram parecidos até mesmo na forma de lidar um com o outro. E, agora, parecia que a insanidade se alargava para além dos limites do amêndoas que brilhava intensamente sobre o olhar dele, estendendo-se para toda a sua realidade, passando a fazer muito mais sentido do que qualquer lógica que antes defendia com afinco – como uma forma de ignorar o seu verdadeiro e estragado teor.
Simplesmente porque não havia coesão alguma na forma como havia conduzido a própria vida durante todos os seus anos de servidão à lei. Agora Alice podia discernir isso com uma nitidez que, de tão fácil, chegava a ser estúpida. Sua visão hipócrita do certo e errado sempre foi seu ponto mais fraco contra as guerras que travou, sempre a levou às perdas mais dolorosas. Quantos males, quantas dores em vão não seriam evitadas se ela meramente enxergasse o que via agora, sem a percepção utópica que cegava a grande maioria sobre a legitimidade do sistema, e que era vista por uma seleta minoria como mais uma inverdade – impostora e cruel – dentre tantas que rodeavam as fachadas mentirosas de uma sociedade...
Coringa levantou-se, oferecendo uma das mãos para que Alice se erguesse do chão também. Ela encarou o braço estendido por alguns momentos, sem saber em específico o que cogitava. Por fim, aceitou, ciente de que de fato só lhe restava aquele homem para partilhar os dias frios que se estenderiam. Justamente aquele homem...
...O portador de suas mais espetaculares ruínas, e também o seu sopro de ar.
Alice sempre se perguntou se seria capaz de sentir a loucura rondando-a como abutres em volta de um animal condenado à morte certa, resignados e sorrateiros, contudo prestes a atacar no momento mais oportuno. Sempre imaginou como seria o momento transitório entre o sadio e o doentio e principalmente se ele se mostraria perceptível, palpável, tangível... Porém, curiosamente, notou que era com o antes daquele momento que ela devia ter se preocupado durante todo o tempo, a cada minuto de sua hipócrita vida. Somente agora era capaz de notar o quão ensandecida era, e que a antiga compreensão de sua realidade não passou de um blefe de mau gosto manchando o seu passado com conceitos errôneos e manipulados. Conceitos rubros, como o sangue daqueles que perdera.
Via tudo com mais clareza ao aceitar o ponto de vista elucidado por Coringa e nunca, em toda a sua vida, sentiu-se tão sã quanto naquelas circunstâncias um tanto atípicas.
_ Venha comigo, e eu te mostro o mundo como ele realmente é! – sussurrou a proposta ao pé de seu ouvido, parecendo tão dominado pela expectativa quanto a própria Alice. Uma das mãos do psicopata apertava o quadril da mulher, enquanto a outra desnudava o seu ombro, e em seu olhar Alice notou o mesmo brilho indomado e desesperador da dependência que compartilhavam um pelo outro. Como se de fato estivessem à beira de se afogar, necessitando do sopro de ar que os salvaria. Um dia. Basta apenas um dia ruim, Docinho. Um único dia pode te fazer mais forte e ao mesmo tempo mais fraco. Cabe escolher qual das opções ser.
_ Não é o mundo que me interessa ver... – segredou de volta, levando a manga comprida da blusa até o rosto de Coringa e limpando toda a maquiagem que o pano foi capaz de absorver. Alguns pontos de seu rosto ainda permaneceram borrados, porém a maior parte da tinta foi removida, e, de alguma forma, Alice pôde ver ainda mais intensidade através de suas expressões. As feições agora à mostra de Coringa eram o maior dos trunfos de Alice, pois elas lhe gritavam que ele precisava dela da mesma forma que a recíproca era inegavelmente verdadeira.
Ele a prendeu rente aos destroços, pressionando-a contra si como se aquela fosse a única rendição possível a ambos. A única rendição a qual se submeteriam de bom grado, a única disputa que aceitariam perder em prol do outro, ambos cientes de que, na verdade, perder aquela batalha em que afinal se aceitavam sem qualquer restrições ou barganhas, era na realidade ganhar a guerra. Ela mordeu do pescoço ao queixo de Coringa, finalmente alcançando sua boca entreaberta e sincronizando juntos movimentos que chegavam a ser brutais contra os lábios do outro, que tencionavam guerrear entre si por novos territórios a conquistar. Alice pressionou-se mais fortemente contra o corpo de Coringa, um modo de trazê-lo mais perto. Este respondia comprimindo-a ainda mais contra os destroços e apertando quase sem notar as coxas que preenchiam suas largas mãos.
E dessa forma firmava-se o ciclo vicioso ao qual jamais se habituariam; o desespero que levava ao alívio e o alívio que fazia retornar ao princípio do desespero e desalento.
I am lost with no key
And I worry there's no easy way out of this place
I'm the pain that I cause.
Must I let out all the evil to be healed?
To be healed. Is it really what I want?
Don't be mean now, you know how I feel.
Give relief, don't be mean to me
Just leave me the key
For this once, it's my turn to be the strong one,
You're in pain, I try to leave with grace
Say hello to my tear, I have only one,
I kept it safe for this moment
To be healed, is that really what we want?
Don't be mean, it's not what we need now
Give relief, don't be mean to me
That's not what we need.
Believe in me, don't be mean to me
Just leave me the key
To be healed, is it really what we want
Don't be mean, that's not what we need
Be relieved, don't be mean to me
Just do as you please.
When you leave, don't be mean to me
Just leave me the key
So when you leave, don't be mean
Leave in peace
(Don't Be Mean – Sonata Arctica)

Alice encarou o horizonte cinza de Gotham, sentindo uma incontrolável ojeriza pela degradante visão. De cima do parapeito de um alto prédio, a vários andares acima da cidade, podia ver o quanto aquele ambiente era imundo e sem atrativos. Sequer era capaz de imaginar por que razões Bruce havia sacrificado tanto de sua vida para manter aquele lugar o menos repugnante possível, sem se dar conta de que Gotham já era desgraçada por natureza. Também não pôde deixar de pensar que ela mesma quase seguiu por este caminho, que provavelmente só teria lhe trazido mais infortúnios.
Ela encarou a máscara negra em forma de gato, passando os dedos pelas orelhas pontiagudas com um olhar frio incidindo sobre a matéria morta. Deu uma última fitada nos detalhes que adornavam o resistente material antes de arremessá-lo com força para longe, acoplado com a roupa preta que fazia o conjunto do elaborado disfarce.
Imediatamente o negro se perdeu em meio à noite, e apenas foi possível ouvir o ruído distante que o titânio provocou ao chocar-se com o solo a vários metros dali. Ela rolou os olhos pelas ruas, procurando por algum sinal de Baguera, que não via desde o episódio na Mansão Wayne e que, estranhamente, sabia que jamais voltaria a ver. Por mais que tivesse se afeiçoado ao animal, a perspectiva a agradou. A gata não merecia a vida turbulenta que Alice estava disposta a levar.
Ela virou-se, indo de encontro a Coringa com os lábios enviesados num sorriso cúmplice.
_ Já terminei o que precisava ser feito... – anunciou, segurando-o pela gravata verde com um brilho divertido no olhar – E agora, senhor Palhaço, como vai ser?
_ Eu pensei em começar com algo bem discreto – ele sorriu maldoso, inclinando-se para mais perto dela – Temos que anunciar a sua volta ao mundo dos vivos!
_ E aproveitar para semear um pouco do caos que você tanto preza? – arriscou com um sorriso sagaz, incapaz de desviar os olhos dele – Talvez, não sei... confirmar alguns boatos antigos, quem sabe? – encarou-o com olhos faiscantes, referindo-se à cumplicidade que agora os dois de fato possuíam. Pousou as mãos sobre o abdômen de Coringa, ainda com o mesmo sorriso alusivo e ambíguo.
_ Pode apostar que sim – assentiu em resposta, fascinado pela mulher à sua frente e por tudo o que ela ainda poderia se tornar ao seu lado. Ele a beijou com brusquidão, incitado a desfrutar de cada pequena mudança que notava em sua bela e ousada hippie, dona dos mais inusitados atrativos.
E partiram, em busca de seus caóticos intuitos, guiados pela incoerência de seus sentimentos, que faziam sentido unicamente para aquele estranho casal.
Pouco se compreende da mente humana para chegar a conclusões cabíveis acerca da iminência da loucura. Há quem diga que a vilania seja uma característica herdada, assim como os genes que definem nossas características externas. Que pessoas acometidas dessa frieza já demonstram predisposição para a tirania desde cedo, ainda na fase inicial da vida, e que a insanidade as privilegia com o seu amaldiçoado toque, independente do ambiente se mostrar favorável a ela ou não.
Porém, nem sempre se trata de uma questão de ordem tão pragmática.
A insanidade tem suas formas de sempre encontrar o preço da vítima que almeja. Alguns se mostram mais susceptíveis, outros, no entanto, demonstram que são dotados de maior resistência aos seus encantos. Contudo, todos sucumbem aos seus braços abertos – acolhedores e convidativos, como só a derradeira loucura é capaz de fornecer em seu conforto –, cedendo aos seus mais diversos aspectos. Como alguém que nunca teve chance alguma de dobrá-la.
Sua mira é à prova de erros, e suas munições atingem os pontos mais frágeis e propensos à queda. Não há luta justa quando se está em batalha com a loucura, pois ela não tem regras, não tem planos, não se utiliza de métodos previsíveis...
...Apenas encontra o preço a se pagar, trazendo para si um novo aliado.
I started a joke
Which started the whole world crying
But I didn't see
That the joke was on me
I started to cry
Which started the whole world laughing
Oh if I'd only seen
That the joke was on me
I looked at the sky
Running my hands over my eyes
And I fell out of bed
Hurting my head from things that I said
'Till I finally died
Which started the whole world living
Oh if I'd only seen that the joke was on me
I looked at the sky
Rolling my hands
Over my eyes
And I fell out of bed
Hurting my head from things that I said
'Till I finally died
Which started the whole world living
Oh if I'd only seen that the joke was on me
Oh no! That the joke was on me
(Bee Gees – I Started A Joke)
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