A Face Oculta Da Lua
15 Prisma De Luz – Like A Ninja
Notas iniciais
Incontáveis semanas se alastraram sem que Alice fosse capaz de esquecer, ou até mesmo ignorar, aquela imagem de si mesma, tão distinta e cruel, como a hippie jamais sonhou em ser. Mas por mais que almejasse renegá-la, aquela outra Alice estava lá, escondida nos recantos mais inóspitos de sua mente, fazendo-se presente quando a raiva se sobrepunha à razão.
E com cada vez mais frequência, a hippie podia perscrutá-la, chegando até a sentir seus lábios copiarem um daqueles sorrisos promíscuos e desafiadores que se tornavam cada vez mais comuns com o desenrolar dos dias...
_ Bom dia, Alice! – cumprimentou-a Ducard assim que a hippie o encontrou para mais um dia de treino. O ninja exalava um ar diferente, mais sério do que o normal, bem mais... solene!
_ Bom dia – respondeu com receio, estreitando os olhos curiosos na direção de seu professor – Cadê as espadas?
_ Estão devidamente guardadas. Elas não terão serventia hoje.
_ Então o que vai ser? Mano a mano? – sorriu travessa, levemente confusa com o tom formal do ninja.
_ Hoje nós vamos apenas dar um passeio – comunicou, sorrindo-lhe pela primeira vez.
_ Quê? Sem cortes, sem roxos, sem sangue? Qual é a graça?
_ Vamos. – desconsiderou-a – Creio que em todos esses meses de estadia você não teve chance de caminhar por essas montanhas.
_ Isso é sério? – perguntou novamente, imaginando que talvez o ninja estivesse blefando e a levasse para alguma câmara de tortura, escondida dos olhares da Liga das Sombras. Talvez Steve estivesse certo afinal... Talvez Alice cometera uma estupidez sem tamanho ao confidenciar a deslealdade de Talia ao ninja...
_ Tão sério quanto possível – disse, dando início à caminhada. – Até porque é de seu conhecimento que eu não costumo pregar peças.
_ Verdade... – concordou quase inaudivelmente, ministrando em silêncio os próprios pensamentos e começando a seguir o ninja que já havia se deslocado vários passos – O que é isto? – apontou para uma alta e larga caixa preta que Ducard carregava rente à lateral do próprio corpo.
_ Tudo no seu tempo, Alice, tudo no seu tempo... Vamos nos permitir aproveitar a majestade desse cenário antes de dar início à conversa.
A hippie semicerrou os olhos, desconfiada das intenções por trás do tom estranhamente afável do ninja, cansada de ser surpreendida pela sua constante bipolaridade. O Ra’s Al Ghul permaneceu caminhando com os olhos erguidos em direção à linha que separava o céu das montanhas, vestindo sua expressão com uma resignação demasiada enigmática.
Seguiram silenciosos pela trilha que usaram para chegar ao topo quando Ducard os trouxe até a Liga no impetuoso Caça, que agora não passava de uma lembrança distante. O caminho estreito, que gravou-se na memória da hippie por ser coberto de um gelo escorregadio, agora estava completamente florido com a troca de estação.
Dali era possível vislumbrar vários montes altivos elevando-se com propriedade, quase como se tentassem alcançar o céu de nuvens esparsas.
_ Vê os limites que o horizonte delineia? – o ninja apontou para o longe, ainda sem encarar Alice.
_ Claro... – assentiu, ainda no completo desentendimento de sua instantânea ignorância – Essas montanhas não passam despercebidas tão facilmente... – ironizou.
_ Pois bem... O território pertencente às instalações da Liga das Sombras se estende até alguns quilômetros além do que seus olhos podem ver.
_ E? – perguntou a hippie, impressionada e desconcertada ao mesmo tempo.
_ Cada alqueire desta terra, cada tijolo que se levanta na alvenaria da sede da Liga, cada ninja que fez história aqui dentro, representam séculos e séculos de trabalho. Incontáveis anos que nos tornaram aptos a lutar em prol de tudo aquilo que julgamos valer a pena, que nos deram armas e meios para fazer valer a nossa voz silenciosa...
_ Aonde você quer chegar, Barbicha?
_ Este lugar é a minha vida, Alice. É o meu orgulho, e toda a minha existência foi dedicada ao que ele representa; ao treinamento, à liderança e à segurança daqueles que me seguem. E agora eu me vejo em um impasse dentro das minhas possibilidades.
_ Que tipo de impasse?
_ A escolha entre a segurança da Liga das Sombras ou a segurança de minha própria filha. Parece que essas duas questões não podem coexistir pacificamente – sua voz era cansada, quase melancólica. Alice se aproximou mais do ninja a fim de observar melhor seu semblante aflito, pousando gentilmente uma mão solícita em seu ombro largo.
_ Então você sabe que eu lhe disse a verdade, não sabe? – questionou-o de forma afável, terrivelmente incomodada com a dor que aquele azul vivo de seus olhos deixava transbordar tão facilmente, pela primeira vez permitindo-se emitir algum sentimento. Ele lhe sorriu antes de responder, um sorriso amargo e repleto de significado.
_ Eu soube que você falava a verdade no momento em que o Steve tentou negar suas palavras. Ele mente pior do que você – riu baixinho, como se tivesse acabado de ofender o contador.
_ Então por que deixou que eu acreditasse que você não havia dado crédito a nada do que eu lhe contei?
_ Porque o fato de desacreditá-la foi a única maneira aceitável capaz de te proteger da verdade. Eu presumo quais sejam as intenções da Talia, e o único meio de afastá-la da ira de minha filha era macular a sua versão dos eventos.
_ Eu não entendo... O que a sua filha quer afinal?
_ Isso é irrelevante, Alice. Para você é irrelevante.
_ Sério? Porque é a mim que a PuTalia, com o perdão da ofensa, está caçando, então eu acho que mereço saber o motivo pelo menos.
_ Eu a trouxe aqui por uma razão específica, e ela não envolve discutir os possíveis planos de minha filha... – comentou, desconsiderando a réplica de sua aprendiz.
_ E eu espero sinceramente que essa razão não envolva me jogar dessa altura para queima de arquivo, como uma forma de proteger as tramoias de sua querida primogênita! – disse, relembrando as palavras distantes de Steve.
_ Ao contrário do que você julga, eu sei ser justo. Sei posicionar-me do lado certo, mesmo que isso acabe gerando-me algum desagrado ou desconforto.
_ Por mais imbecil que isso possa soar, eu confio em você. Não plenamente, mas o suficiente para saber que você faria o certo pela Liga das Sombras.
_ Já é o suficiente – sorriu novamente para Alice, parecendo outra vez recomposto de seus próprios sentimentos antes tão amargurados. – Eu a trouxe aqui para dizer que você está pronta.
_ Pronta pra quê? – perguntou bestamente.
_ Pronta para partir, Alice! – encarou-a de soslaio, sorrindo levemente ao vê-la arregalar os olhos em surpresa.
_ P-partir? Você está me expulsando do treinamento?
_ Pelo contrário! Estou cumprindo a minha condição no nosso acordo. Estou te eximindo de tomar parte na Liga das Sombras agora que o seu treinamento está terminado.
_ Como assim, terminado? Eu recebi as suas lições apenas por alguns meses, e você mesmo me avisou que são necessários no mínimo dois anos para tornar-se um ninja! E eu quero o treinamento inteiro, e não um supletivo!
Ducard gargalhou melodiosamente, encarando Alice pela primeira vez com carinho. Algo se aqueceu dentro dela sob aquele olhar quase paternal.
_ Sim, você está coberta de razão. O treinamento habitual leva alguns anos, mas nós dois sabemos que o seu caso vai muito além do previsto. Você passou por provações aqui dentro que jamais foram vividas anteriormente, e que fizeram o papel de catalisador nas suas habilidades.
_ Você está se referindo às sessões com o Gás do Medo?
_ Seguramente! A sua idoneidade nos embates já era notável graças aos seus conhecimentos prévios sobre algumas artes marciais, você apenas precisava ser lapidada, e o Gás do Medo certamente foi um grande aliado para acelerar esse processo – afirmou, arrancando uma das flores de pétalas azuis da grama, como se admirasse silenciosamente a potência daquela poderosa matéria-prima quando manuseada e processada corretamente. – Você está pronta. E posso dizer que se tornou uma obra-prima.
_ Mas... Eu não me sinto pronta... – confessou – Eu sinto como se ainda tivesse muito o que aprender, e que parar agora seria o mesmo que deixar um trabalho manual pela metade, sem o acabamento...
_ Tudo o que você poderá aprender a partir de agora será ensinado pela experiência! O que eu podia lhe passar já foi assimilado e, aliás, com muito êxito, devo ressaltar! – elogiou, disseminando todo o orgulho que sentia.
_ Mas mesmo assim... – começou a retrucar, ainda descrente de suas próprias capacidades.
_ Alice, permita-me perguntar uma coisa... – interrompeu-a – Você já teve a oportunidade de presenciar o comportamento de um feixe de luz branca incidindo em um prisma?
_ Ih, o ninja tá bêbado – Alice concluiu, levando a mão ao rosto. – Eu tenho que ter uma conversinha com o Tony a respeito da comida que ele anda lhe servindo, porque não tá te fazendo muito bem pelo visto.
_ Eu ainda sou seu Mestre, Alice, então responda à pergunta com todo o respeito e seriedade que você fez questão de ausentar durante cada minuto dos nossos treinos... – suas palavras, apesar de rudes, eram amolecidas pelo seu tom descontraído.
_ Essa doeu, Barbicha... Alfinetada desnecessária essa, hein...
_ Apenas responda ao que lhe foi questionado. Você sabe o que acontece com a luz branca que cruza um prisma? – repetiu a própria indagação.
_ Claro que sim. É o tipo de experiência que se faz na escola. A luz branca se fragmenta em seis cores diferentes após atravessar o prisma – respondeu, falhando miseravelmente ao tentar compreender as intenções de Ducard com aquela improvável conversa.
_ Exato! A luz branca é decomposta em suas verdadeiras cores, revelando toda a complexidade que passaria despercebida aos olhares desatentos.
_ Por acaso isso é um exame de conhecimentos gerais para que eu ganhe o diploma de ninja? Não vai me dizer que foi nesse teste final que o Bruce não passou...? – perguntou, sentindo a gargalhada explodindo em sua garganta.
_ Não, isso é uma comparação, bem compatível com a nossa realidade, aliás!
_ Hum... Certo, mas ainda não faz o menor sentido pra mim!
_ Nessa analogia, você é a luz branca, Alice. Aos olhares distraídos, você não passa de uma mísera luz branca, sendo por vezes subestimada e reprimida por todos à sua volta que julgam não haver qualquer complexidade em sua essência, porque todos se atêm apenas àquilo que seus olhos falhos podem captar como verdade absoluta, mas que não passa de ignorância. Porém, atreva-se a colocar um prisma no caminho dessa simples luz, e ouse destacar cada uma das seis cores que o prisma refrata, e só então as pessoas verão o seu verdadeiro potencial. E eu sinto-me honrado de ter feito o papel do prisma e revelado a quem quiser ver aquilo que você verdadeiramente é. Aquilo que nem mesmo você tinha consciência de ser.
Alice permaneceu calada, profundamente tocada pela confiança depositada pelo ninja acerca de suas aptidões. Algumas lágrimas subiram-lhe aos olhos, mas não se atreveram a cair, deixando-os apenas marejados e invariavelmente mais brilhantes. A hippie, que sempre viu a si mesma como alguém constantemente rejeitada e subjugada pelas próprias incapacidades, agora provava a singela e derradeira sensação de dever cumprido, de estar à altura daquelas palavras tão incomuns, de finalmente dar uma chance a si mesma e à sua própria competência. De permitir-se valorizar com todas as suas derrotas e conquistas.
_ Então, minha pequena aprendiz, posso dizer com toda a certeza que me cabe que você está pronta, e que foi uma das melhores alunas que eu já treinei.
_ Bom, mas... – pigarreou, tentando despistar o tom abalado de sua voz – ...eu nem mesmo fui capaz de te acertar em nenhum dos treinos! O que quer dizer que eu ainda não sou boa o bastante.
_ Pelo que me consta, na sua última sessão com o Gás do Medo você conseguiu atacar e surpreender Sayid, um dos ninjas mais hábeis que residem na Liga das Sombras, ouso dizer, e isso já é bem mais do que o bastante! – sorriu, desapegando-se de suas reações sempre duras e rudes e adotando ares quase afetivos.
Alice riu com a lembrança dos olhos arregalados de Sayid, tão inconformados quanto seu próprio rosto. Ela levantou seus olhos travessos em direção ao ninja, que voltou a encarar o horizonte com feições perdidas e absortas.
_ Mas então é isso? Eu não precisava passar por uma última avaliação para provar o meu valor, assim como Bruce? – a hippie falou devagar, chamando novamente a atenção de Ducard para si.
_ Chega de provações, Alice. Mesmo que você ainda precisasse provar o seu valor, esta avaliação é feita apenas para aprovar a inclusão de novos membros à Liga das Sombras, e como nós dois sabemos bem, esse não é o seu caso.
_ Justamente... Eu pensei que você ia tentar usar todos os seus métodos ninja-orientais de persuasão para me convencer a permanecer na Liga! – avisou, confusa, e ele soltou um riso abafado e tristonho com o comentário.
_ Muito me agradaria se você decidisse ficar. Mas a Liga das Sombras não é o seu destino... Você deve partir!
_ Por que diz isso? – perguntou, curiosa com o significado que se escondia por trás daquelas palavras aparentemente triviais.
_ Porque há muito tempo, as minhas ambições de vingança foram tiradas de mim junto com o meu orgulho. Os anos que eu passei na cadeia dizimaram qualquer resquício pretensioso que me permitisse vingar todos os infortúnios que Bruce trouxe ao meu lar – disse, referindo-se à Liga – A minha própria família traiu o legado da minha vingança quando me permitiu apodrecer na cadeia sem quaisquer ferramentas para concluir o que eu comecei em Gotham – ele fez uma pausa, quase estratégica pelo mistério que o rondava. – Tiraram-me a oportunidade de vingança na flor da minha raiva, e não serei eu a fazer o mesmo com você!
_ Fazer o mesmo comigo? Mas eu já disse que não tenho interesse algum em me vingar...
_ Você realmente não quer tirar a limpo a morte de seu filho? – fitou-a, cético – Não tem interesse em honrar a memória dele e acalentar o seu espírito com um pouco de justiça?
_ O Smith morreu, Ducard! Como é possível vingar-se de um defunto?
_ Ah, meu Pequeno Gafanhoto... O tempo da ingenuidade já se foi. Eu posso lhe garantir que esse policial não foi o único envolvido com a morte do garoto – afirmou, e Alice sentiu-se retesar – Você nunca estranhou o fato de seu filho ter sido sequestrado por Smith justamente na mesma noite em que Coringa lhe visitou? Você de fato acredita que esses dois incidentes simultâneos não passam de uma infeliz coincidência?
_ Ducard... Você está querendo dizer que... – arfou, visando reprimir as palpitações em seu peito – ...que Coringa pode estar diretamente envolvido com o sequestro de Krusty?
_ Cabe a você descobrir. Talvez não se trate de Coringa, mas você deverá preparar-se para encarar esse tipo de verdade... – alertou-a, aprovando silenciosamente a frieza dentro daqueles olhos negros que tornava a sua expressão inescrutável – Procure os mais próximos ao policial Smith, e talvez você encontre sua resposta. A única coisa que eu posso fazer por você agora é dar-lhe uma ferramenta importante para a sua vingança. Um pequeno presente de um velho ninja, algo que lhe ajudará a preservar a sua suposta morte enquanto você investiga os possíveis envolvidos com o sequestro e assassinato de seu filho! – Ducard ofereceu-lhe a caixa escura e larga, tornando aquele momento solene apenas pelo olhar cortês que dirigiu à hippie naquele pequeno e discreto rito de passagem – Seja prudente em sua busca e procure não se desviar de seu rumo.
_ O que é isso? – perguntou, balançando violentamente a caixa pesada próximo ao próprio ouvido.
_ São os meus votos de boa sorte. Mas não abra aqui! – alertou, assim que percebeu a intenção por trás dos olhos curiosos de sua aluna – Não permita que ninguém, além de você, veja o conteúdo dessa caixa.
_ Mas nós estamos sozinhos aqui... – retrucou.
_ Absorva uma última lição de minha parte, Alice: Sempre desconfie do silêncio. Ele, na maioria das vezes, é traiçoeiro e traz consigo infortúnios e perigos maiores do que os sons de uma catástrofe. Do caos você sempre sabe o que pode esperar, mas da calmaria não. Ainda mais quando se está rodeado por ninjas dotados de um periculoso treinamento. – Ducard acariciou brevemente o alto da cabeça de Alice, que por sua vez o encarava repleta de afeição, mais do que grata por toda a ajuda e paciência que ele lhe dedicou naqueles vários meses.
_ Então... agora eu sou oficialmente uma ninja? – abriu os lábios em um enorme sorriso.
_ Sim, Alice. Meus mais sinceros parabéns, você passou com maestria pelo treinamento e conquistou o direito desse título. Agora você é uma ninja. – proferiu as palavras que ela tanto ambicionou ouvir, estendendo sua mão direita para uma saudação àquela conquista. Alice o olhou fundo nos olhos, ainda sorrindo amplamente enquanto largou a caixa preta no chão em um baque alto e o apertou firme em um abraço forte e já cheio de nostalgia. Ducard pareceu pasmo por um instante, hesitando seus braços ainda distantes de sua recém-formada aluna. Por fim, em meio a um sorriso discreto, aceitou o carinhoso abraço e o correspondeu, munido da mesma afeição.
_ Muito obrigada por acreditar em mim! – agradeceu, enterrando o rosto no peito musculoso de seu ex-mentor para dar mais força ao abraço.
_ Você fez por merecer cada conquista. Estou orgulhoso do que você se tornou, e espero ainda poder vê-la mesmo que seu caminho permaneça distante da origem de seu treino.
_ Não se preocupe, seu ninja turrão. Eu estarei sempre pronta para te tirar do sufoco da prisão cada vez que você for pego fazendo alguma asneira... – levantou os olhos divertidos em sua direção, desfazendo o abraço com certo pesar à medida que a despedida tornava-se inevitável.
_ Posso dormir tranquilo então! – disse debochado, arrancando uma risada da hippie, e logo em seguida seu tom ficou urgente – Agora preste atenção em uma coisa, Alice. Teremos que providenciar a sua partida o quanto antes. Quanto mais cedo você se afastar da Liga, mais segura estará dos desentendimentos que fizeram a minha filha tentar matá-la, e poderá arquitetar melhor a sua busca pelo acerto de contas. Porém, enquanto você ainda estiver sob o teto da Liga das Sombras, eu tenho um último favor a pedir.
_ Que seria...?
_ Esconda essa caixa – tirou-a do chão e ofereceu novamente a ela –, e não permita que ninguém a encontre! Mantê-la em segredo é crucial, entendeu?
_ Tudo bem! – assentiu, permitindo que aquele peso se depositasse novamente em seus braços estendidos.
_ Escute, o aposento em que você foi alojada quando chegou à Liga já foi o meu quarto, e eu abri mão dele justamente por prever que esse momento chegaria.
_ Poxa, e eu achando que tinha sido cavalheirismo... – interrompeu-o, dando uma risada.
_ Eu construí um pequeno alçapão camuflado pelo assoalho do piso do qual ninguém tem conhecimento. É lá que você deve esconder essa caixa até o momento de partir, apenas lá ela estará segura de possíveis olhares curiosos, entendeu?
_ Entendi. Mas como eu acho esse alçapão? Eu nunca vi nenhum indício dele no piso...
_ Arraste a cama e procure por uma falha na conformação da madeira, e só ouse retirar esse caixote de lá imediatamente antes de partir – orientou, prático.
_ Certo. Alçapão, caixa, madeira, partir!
_ Agora vá, Alice! Esconda-a bem e espere minhas próximas instruções.
_ Pode deixar, Barbicha! – saudou-o imitando as honras militares – E saiba que você foi um grande mentor! – deu-lhe um soco carinhoso no ombro.
_ Eu sei. E você foi uma aluna condizente com os padrões que eu procuro! Agora cabe apenas a você mostrar ao mundo todas as seis cores que habitam secretamente a luz branca que por tantos anos a escondeu. E não se esqueça; um ninja não se resume à brutalidade e à astúcia, mais do que isso, um ninja representa a mudança que ele quer ver no mundo, então não tenha receio de ser essa mudança, mesmo que ela se mostre desagradável aos olhos alheios. Mas vá, não há necessidade de apressarmos nossa despedida. Teremos tempo para um último adeus antes que você siga o seu caminho.
_ E você vai ficar aí?
_ Vou. A primavera sempre potencializa a beleza destas montanhas, e esse cenário me permite pensar melhor. E no momento é exatamente disso que eu preciso...
_ Nos vemos numa outra vida então! – brincou, retomando imediatamente o seu caminho até a enorme sede da Liga das Sombras, tão concentrada em sua tarefa que nem se deu conta da presença distante de Talia no cume da montanha, observando enojada a cena fraterna que se passou entre Alice e Ducard.

Ninja! – pensou, repleta de orgulho – Quem diria que eu realmente conseguiria chegar até esse ponto...
Alice escancarou a porta de seu quarto com pressa, cortando caminho até a sua cama assim que se viu novamente fechada em seu temporário dormitório.
Pousou a caixa alta e quase tão larga quanto a cama em cima dos lençóis, desviando a sua atenção por um momento para o pequeno criado mudo que se dispunha à lateral de seu leito. Caminhou lentamente até ele, engolindo em seco.
As últimas lembranças que Alice trouxera de Gotham antes de fugir para a Liga das Sombras – a carta coringa e a rosa branca – ainda estavam em sua posse, ocupando o espaço da madeira envelhecida. A ninja segurou a rosa completamente seca e de aparência morta com os dedos trêmulos, permitindo-se sentir a textura aveludada das pétalas sem vida e agora escurecidas em seu perecimento.
Sentou-se na beirada da cama e pousou aquele espectro de flor gentilmente sobre seus joelhos, pegando em seguida a carta coringa que, ao contrário da rosa, permaneceu intacta ao longo dos meses. Girou a carta várias vezes entre os dedos, incapaz de se cansar da mensagem debochada gravada em seu verso.
E então sua mente vagou, bem longe da realidade de seu corpo...
As palavras recentes de Henri Ducard tomaram uma forma estranhamente sólida dentro de seus pensamentos, quase palpável ante o fluxo de adrenalina que se seguiu. “Eu posso lhe garantir que esse policial não é o único envolvido com a morte do garoto”.
Poderia Coringa estar ainda mais envolvido com aquele brutal assassinato que tirou a vida de seu Krusty tão covardemente? Que reduziu a pó qualquer alicerce que ainda sustentava Alice em pé?
Ela mantinha os olhos desfocados em uma direção incerta, recordando-se instantaneamente da expressão apática e tediosa que prevalecia na postura de Coringa quando presenciou a morte do próprio filho...
...Que acompanhou tudo com a frieza descabida de um estranho.
Para o total desagrado de Alice, aquela linha de raciocínio a feriu. Esfolou-a por dentro pensar no quão oco Coringa era, e mais dolorosa ainda era a certeza de que ele simplesmente não sentia. Em nenhum aspecto, em nenhuma circunstância...
_ De volta a Gotham... – Alice pronunciou aquelas palavras com cuidado, prestando atenção em como elas soavam aos seus ouvidos – Eu vou ser obrigada a começar a acreditar em destino! – bufou, incerta se aquele retorno lhe trazia entusiasmo ou desagrado.
Ela voltou sua atenção para a enorme caixa pousada em sua cama, dominada por uma incontrolável curiosidade sobre o seu pesado conteúdo. Passou a língua furtivamente pelos lábios, levantando com cuidado a tampa do caixote como se pudesse apenas espionar o seu recheio.
Antes que conseguisse vislumbrar o teor daquele obsoleto cofre, o gesto foi interrompido por altas batidas na porta que a fizeram sobressaltar em cima do colchão.
_ Alice! – a voz discernível de Nureen retumbou claramente por detrás da porta, quase irreconhecível pelo timbre alarmado e desesperado de seu tom – Abra, por favor!
Céus, esse ninja me ama... – Alice pensou com humor, recobrando-se do susto.
_ Já vai! – gritou em resposta, sentindo o coração se acelerar com a necessidade vigente de acatar ao pedido de Ducard. Arrastou a cama com pressa, sem se importar com a estridência que o ato provocou, e logo estava ajoelhada e encurvada sobre o assoalho, caçando a tal irregularidade na madeira do piso que revelaria o alçapão.
_ Por favor, venha rápido... – pediu Nureen, com tamanho desalento que por um instante desconcertou Alice.
Ela começou a mover os dedos com mais pressa, passando a duvidar se haveria mesmo algum esconderijo por baixo daquele assoalho... A madeira parecia completamente regular ao toque, exceto...
...por um pequeno vão, que parecia não seguir o padrão daquela conformação impecável.
Alice cravou as unhas ali, aplicando uma força no sentido de levantar a madeira, que com relativa facilidade cedeu e revelou um vasto orifício de aproximadamente um metro quadrado. Vislumbrou a cena por um breve segundo de surpresa, e rapidamente depositou a caixa sobre uma pilha de papéis velhos e gastos que já ocupavam algum espaço naquela abertura. Tapou-a mais uma vez e arrastou porcamente a cama para a sua posição original.
Abriu a porta, ofegante.
_ Desculpa a demora, eu estava... hum... fazendo alguns polichinelos... – sorriu, porém a feição abatida de Nureen fez com que sua expressão se fechasse – O que houve?
_ Alice... Você é médica, não é?
_ Sou sim. Por quê? Precisa que eu indique um urologista de dedos fartos a você? – brincou, mas estava mais do que claro que o momento não era oportuno para os seus rotineiros deboches – Não, sério, o que houve?
_ O Ra’s Al Ghul, ele... – Nureen hesitou, passando a mão nervosamente pelo cabelo – Eu acho que ele teve um infarto...
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