A Face Oculta Da Lua

16 O Legado De Um Trono Sem Dono


Notas iniciais
Desculpem a demora, meus lindos! Seria até melhor se eu postasse esse capítulo amanhã, porque eu estou absurdamente cansada e não sei se revisei o capítulo direito, mas eu sou Reviewsólatra, eu admito, portanto postarei hoje mesmo! xD

A expressão de Alice estava totalmente focada ao caminho que os passos apressados e aflitos de Nureen a conduzia. Ela umedeceu os lábios nervosamente ao notá-los invariavelmente secos e incomodativos. Seu coração parecia distender-se a cada batimento com uma dor extra ao pensar na situação em que Ducard, seu mentor e amigo, se encontrava naquele momento.

Um infarto poderia deixar cruéis sequelas se não fosse rapidamente socorrido, inclusive culminar na pior implicação de todas, dependendo de sua gravidade: aquela sequela que não pode ser tratada ou revertida, que reduz a essência da vida a pó... Que te afasta deste mundo para o desconhecido sem o menor consenso.

A hippie repeliu aquele pensamento invasivo com um forte meneio de sua cabeça, buscando focar-se apenas na esperança de intervir a tempo de exercer seus conhecimentos medicinais. Bufou mentalmente, indagando-se como seria possível um homem relativamente jovem e saudável como Ducard ser acometido por um mal súbito como este... Talvez o ninja acobertasse problemas cardíacos há algum tempo.

Não... não um homem como Ducard! Alice testemunhou a destreza de seu corpo e sua mente, e não havia qualquer credibilidade em pensar que um homem com tamanhas habilidades e disposição pudesse sofrer de males crônicos justamente no coração, o órgão mais beneficiado pelos exercícios físicos...

Havia algo de profundamente errado nessa versão dos fatos. É evidente que ninguém está imune a fatalidades, contudo Alice já se sentia cética o suficiente para dar considerações às meras coincidências do acaso...

_ Aonde exatamente você o encontrou? – a hippie questionou Nureen, disposta a distrair-se das infinidades de dúvidas que queriam tragá-la rumo à própria mente.

_ Nas proximidades da entrada da Liga – respondeu prontamente, despejando aflição em seus olhos cor de mel, antes tão serenos.

_ Tente me deixar a par dos sintomas – pediu, apertando ainda mais o passo – O quê, exatamente, você viu?

_ Eu não tive muito acesso aos sintomas... – explicou como se pedisse desculpas – Quando eu o encontrei, ele já estava ajoelhado na neve segurando o peito como se sentisse uma enorme dor por dentro. Eu tentei levantá-lo, mas o Ra’s Al Ghul parecia incapaz de manter-se ereto, até que desmaiou. Assim que o Mestre perdeu os sentidos eu mandei Yal levá-lo até a enfermaria e fui à sua procura.

_ Certo... – mordeu seu lábio superior com força, tentando ligar as consequências às causas. Ao que tudo indicava, parecia realmente tratar-se de um infarto no miocárdio – E ele disse alguma coisa antes de desmaiar?

_ Nada que parecesse fazer muito sentido – coçou a nuca, parecendo realmente incomodado por não poder ser de mais valia –, apenas repetia “Foi ela...!”, e coisas do gênero. Isso lhe diz alguma coisa?

Alice não respondeu, apenas escancarou com fúria e pressa a porta da enfermaria, temendo que seu próprio coração falhasse naquele momento do mais puro e derradeiro medo. Medo de ser tarde demais. Medo de não conseguir. Medo de sentir-se incapaz. Aquele maldito medo de si mesma, como o próprio Ducard lhe elucidou há tempos distantes. Ela reprimiu um arfar desconsolado ao ver o ninja, tão intocável e inatingível, agora deitado inconsciente sobre uma maca fria. Tão fria quanto o seu rosto levemente contorcido pela dor.

_ Saiam daqui! – ordenou firmemente à multidão de curiosos que cercavam Ducard, calando seus burburinhos exaltados – Você fica, Nureen! – avisou-o quando percebeu a intenção que o ninja demonstrou de retirar-se junto com os demais.

_ Vocês ouviram a Alice, deixem-na trabalhar! – Nureen replicou, com um tom de comando bem mais eficaz do que o da hippie. A pequena multidão dispersou-se para fora da enfermaria, porém permaneceram nos arredores, ansiosos pelas novidades. Sayid, antes de retirar-se, destinou um último olhar de soslaio para os dois, que pareceram não perceber.

Ela buscou o pulso do homem inconsciente assim que se viu sozinha com Ducard e Nureen, sentindo um arrepio propagar-se pelo seu corpo à medida que os segundos passavam. Rasgou a túnica embebida do suor de Ducard na altura do peito, constatando a parada cardíaca.

_ Desfibrilador, Nureen! – pediu com urgência.

_ Alice... nós... não dispomos dessa tecnologia...

_ Quê? – olhou-o com severidade, deixando a sua frustração se extravasar mais do que era capaz de controlar – Vocês se isolam no meio do nada e nem sequer se preocupam em ter um mínimo de equipamentos médicos?

_ Bom... A nossa medicina aqui é absolutamente preventiva, e não diagnóstica... – tentou explicar-se, mas Alice apenas bufou e voltou sua atenção para o ninja desmaiado.

Regulou a maca na altura do chão e agachou-se sobre o seu corpo rígido, colocando de imediato suas mãos sobrepostas na metade inferior do esterno com os braços rigorosamente estendidos, preparando-se para dar início à massagem. Comprimiu com força o peito de Ducard, sentindo-o abaixar com a pressão. Os olhos negros e semicerrados de Alice estavam completamente focados em seu intuito enquanto continuou com a massagem cardíaca, sem se importar com o suor que escorria gelado por sua testa, tanto pelo esforço quanto pelo nervosismo.

Após cerca de trinta compressões, a hippie segurou o queixo de Ducard e comprimiu suas narinas firmemente com a outra mão, pressionando seus lábios aos dele e expelindo todo o ar que seu fôlego permitia para as vias respiratórias do ninja. Repetiu o procedimento e voltou-se novamente para as massagens cardíacas, pressionando o peito de Ducard num novo ciclo.

A cada falta de resposta, a hippie deixava-se dominar silenciosamente pela desesperança. Já havia completado por volta de seis ciclos de massagens e respirações, vários minutos corriam invariavelmente, desprezando a sua luta contra o tempo. Cada novo minuto completo diminuía as chances de sucesso, e Alice apenas podia continuar tentando, incapaz de desistir...

_ Alice... – Nureen a chamou com uma voz doce, percebendo o quanto seus esforços eram inúteis.

_ Agora não, Nureen! – ofegou, sentindo cada músculo entre o caminho de seus braços e ombros arder e queimar com o esforço descompassado daqueles minutos eternos de massagem cardíaca. Fez uma nova tentativa rápida de respiração boca a boca e no instante seguinte já voltara a bombear o peito do ninja com novas e desesperadas compressões, nem reparando no quanto a força de seus braços ameaçava vacilar.

_ Alice! – ele chamou mais uma vez, segurando o braço da hippie com compaixão – Ele não vai voltar. – sua voz saiu tranquila e cheia de pesar. A hippie levantou os olhos na sua direção, e suas enormes íris negras estavam tão desconsoladas quanto o franzir enrugado de sua testa. Seu rosto estava completamente exausto e banhado do próprio suor, mas nem a combinação mais complexa de palavras podia expressar a dor que ela sentiu ao ouvir aquela verdade de Nureen.

_ Eu preciso trazê-lo de volta! – contrapôs, como se aquele fosse um argumento válido o suficiente para dar vida ao ninja novamente.

_ Você fez o que pôde – consolou-a, mal acreditando que seu mestre realmente se fora – Não há mais nada que se possa fazer...

Ela engoliu em seco, encurvando o corpo em desânimo. Por mais que lhe doesse admitir, Nureen tinha razão! Alice já estava a cerca de treze minutos tentando ressuscitar o ninja, um tempo que, a hippie sabia, era mais do que suficiente para causar danos cerebrais irreversíveis pela falta de aporte sanguíneo. Se não conseguira até agora, não havia mais o que tentar.

Porém, desistir ainda lhe dava a amarga sensação de trair a imagem de seu mentor...

...Mas seu mentor não estava mais ali.

_ Hora da morte... Três e quarenta e sete – calou-se no tumulto de sua mente, recusando-se a acreditar nas feições sem vida de Ducard bem diante de si, pela primeira vez, indefesas.

Nureen aproximou-se de Alice, levantando o rosto da hippie para obrigar os seus olhos inchados a encararem os seus, agora distantes e melancólicos.

_ Você fez o que pôde! – repetiu, tentando transmitir veracidade em meio à própria consternação. A hippie o encarou, cansada, baixando o olhar novamente.

_ Posso pedir um favor, Nureen? – perguntou Alice, ao passo que o ninja assentiu de imediato – Você se importa de dar a notícia aos outros? Do jeito que esses ninjas me detestam, é bem provável que me julguem culpada pela morte de seu líder...

_ Não se preocupe... Eu mesmo falarei com eles e contarei o que aconteceu. – avisou, tristonho, antes de sair da enfermaria deixando Alice a sós com o corpo de Ducard.

Ela se ajoelhou novamente na altura da maca, acariciando o rosto lívido e incomodamente distante do homem que parecia apenas preso no mundo dos sonhos... Ou, mais provavelmente, no mundo dos pesadelos.

_ Nos vemos numa outra vida... Mestre! – repetiu a mesma despedida de quando se falaram pela última vez, usando o tratamento respeitoso pela primeira vez desde o princípio do treinamento, odiando notar o quanto o aperto em sua garganta e peito se intensificou com a mera menção daquele título... Que não era nada menos do que verdadeiro. Digno do implacável Henri Ducard, o eterno Ra’s Al Ghul.

Que agora se fora... Em todos os mais desagradáveis aspectos.

O alarido já alcançava proporções insustentáveis à medida que a voz de Nureen era superada pelas outras vozes alvoroçadas de cada integrante indignado da Liga das Sombras, inconformados com a morte súbita de seu Ra’s Al Ghul e com as implicações posteriores que essa enorme perda se traduziria.

_ Acalmem-se, meus fiéis ninjas! – Talia manifestou-se, adotando expressões duras após a notícia – Por incontáveis eras os nossos líderes mais habilidosos também tiveram que sucumbir à fragilidade precoce da carne. É um desperdício lamentável, mas temos que nos adaptar a ele o quanto antes, em prol da soberania da Liga das Sombras.

_ Palavras duras e comedidas demais para alguém que acabou de perder o pai. – Alice intrometeu-se ao finalmente juntar-se aos outros – Chega a ser... emocionante a sua dedicação – sorriu-lhe, indiscreta e ferina, movida pela fúria do fracasso.

_ O meu luto terá de esperar até que as questões primordiais estejam resolvidas. Talvez seja algo estranho para você, Alice, mas trata-se de priorizar as responsabilidades – atacou, rechaçando a hippie apenas pelo olhar faiscante que lançou, impassível, em sua direção.

_ A mesma responsabilidade que te induziu a fazer propagandas da morte de Ducard enquanto ele permanecia recluso e esquecido numa cela fria de Gotham? – rangeu os dentes, sentindo o sangue ferver. Aproximou-se de Talia a passos firmes, dizendo-lhe palavras sussurradas para que apenas ela pudesse ouvir o seu posterior comentário, sem jamais vacilar no contato visual tenso que se ergueu como um elo entre as duas – A mesma responsabilidade que te permitiu terminar de vez com o serviço de assassinar Ducard para recuperar o posto de líder? De transformar a mentira em verdade?

Talia estreitou ameaçadoramente os olhos, crispando os lábios frente àquela afronta de tom contido.

_ Você não vai querer dar início a esta guerra, Alice! – deu um aviso nada amigável, contendo a fúria que fez suas íris safira brilhar daquele jeito audacioso que tanto lembrava Ducard. A hippie sentiu o peito apertar com a pequena lembrança dos olhos perspicazes do ninja, sedenta por um pouco de justiça.

_ Talvez eu queira! – desafiou quase inaudivelmente, testemunhando a tensão intensificar-se. Sentia-se como se não tivesse nada a perder, e de fato, não tinha. Desejava apenas extravasar...

_ Os procedimentos que devem ser tomados a partir de agora restringe-se aos ninjas – Talia principiou, direcionando agora o seu comentário para todos, mas ainda encarando Alice intensamente –, acredito que você não se encaixe nesses termos.

_ Parece que as suas fontes estão ultrapassadas – sorriu, tornando o gesto abusado e desafiador.

_ Já chega! – Sayid interviu com o vigor de seu sotaque, disposto a retomar o foco da discussão para o rumo certo – Temos que nos concentrar agora para discutir quem ocupará o posto de Ra’s Al Ghul! A Liga não pode permanecer ao léu, sem um novo líder.

_ Certamente! – assentiu Talia, voltando-se para a pequena multidão aglomerada à sua volta com um porte diplomático – Nossa função agora se resume a encontrar um novo representante, o quanto antes. Reunamo-nos, e levemos essa discussão para um lugar mais apropriado que um corredor.

_ Vadia... – Alice xingou num sopro baixo, imaginando a satisfação que a mulher deveria estar sentindo ao dar aquelas pequenas ordens e verem-nas sendo seguidas.

Todos se precipitaram a caminhar para a sala mais próxima à enfermaria em que ainda jazia o corpo de Ducard, acatando silenciosamente ao comando da filha do recém-falecido. Alice seguiu a pequena multidão de ninjas mantendo-se ligeiramente afastada, já prevendo os planos e intenções de Talia. Era mais do que evidente que ela queria a liderança para si novamente, e nem ao menos esforçou-se em disfarçar dor pela morte de seu pai.

Uma vez acomodados no amplo recinto, Talia, como Alice esperava, tomou a frente em um novo discurso.

_ Cabe a nós agora, ninjas, adiar nossa resignação e luto e nos ater aos interesses da Liga das Sombras para provê-la de novos regimentos. É sabido por todos que, como sucessora e primogênita do antigo líder, eu me disponho a ocupar o lugar de meu pai e guiá-los através das tradições...

_ A liderança da Liga das Sombras não se trata de um posto hereditário, como você bem sabe, Talia! – Nureen a interrompeu com uma fúria que imediatamente chamou a atenção de Alice. Talia adquiriu uma postura exageradamente ereta, adotando feições pouco amigáveis – Você já nos guiou em uma regência nada cuidadosa e sem propósitos, e creio que o mais sensato seria não repeti-la.

Talia sorriu, altiva e indócil, com ares de deboche.

_ Então, Nureen, devo presumir que você se crê apto a tomar o lugar de meu pai – avaliou-o, zombando – Sinto dizer que esta ambição não lhe cabe. Você não tem a força necessária para tal posição.

_ Posso não ser o mais indicado para o posto, mas não deixarei que você novamente se valha da morte de Ducard para consegui-lo – avisou, e todos os olhares presentes pareciam revezar-se entre Nureen e Talia, quase tensos pela discussão.

Ela sorriu novamente antes de responder-lhe.

_ E quem você julga digno destas responsabilidades?

_ Alice – respondeu pronta e firmemente, apesar do completo descaso na voz de Talia.

_ O quê? – todos, inclusive a hippie, perguntaram em uníssono, chocados.

_ Sei que parece tolice, mas sim! Alice! – reforçou, sem se abalar com os olhares duvidosos que o perscrutavam, e que pareciam questionar-se sobre a sanidade do ninja – Ela passou por provações nunca antes presenciadas por nossa rotina aqui dentro. Seu treinamento foi muito mais forte e eficaz do que o de qualquer um de nós.

_ Isso é ridículo! – Talia riu, verdadeiramente divertida com a sugestão.

_ ...O Ra’s Al Ghul depositava uma confiança extrema em sua capacidade – Nureen prosseguiu –, e eu acredito verdadeiramente que a sua liderança poderia ser muito bem aproveitada por nós, se soubermos valorizá-la em seus esforços aqui dentro.

_ Nureen tem razão! – Sayid tomou a palavra, atraindo um olhar ainda mais incrédulo e confuso da hippie – Eu mesmo testemunhei uma de suas sessões diferenciadas, e nesses longos meses, o Ra’s Al Ghul não estava treinando-a apenas com as espadas, mas também com o Gás do Medo. – contou, ao passo que todos encararam Alice com uma faísca de surpresa nos olhos.

_ Verdade... – a hippie confirmou, dando de ombros, incomodada por todas as atenções atraídas para si.

_ E, além de se submeter às dores de seus mais profundos medos, Alice também provou-se uma guerreira de estimado valor. – Nureen concluiu, encarando todos ali com a mesma confiança que destinou às suas palavras – Eu estou certo de que seria a escolha mais...

_ ...Imbecil! – Talia completou rapidamente, inconformada com o interesse que os ninjas incidiam sobre a hippie ao conhecerem a história de seu treinamento inusitado – Será que ninguém percebe? Esta tola não passa de uma ingênua que jamais seria capaz de prover a Liga de suas necessidades mais simples...

_ Não que eu de fato concorde com a PuTalia – Alice se manifestou pela primeira vez durante o debate –, mas eu realmente não sei o que os levou a pensar que eu seria uma boa indicação à liderança... – contemplou as dezenas de rostos que a encarava, incapaz de evitar um meio sorriso com aquela mera possibilidade, sem saber se a achava espirituosa ou lisonjeira.

_ Parece-me uma sugestão oportuna! – Yal comentou, avaliando a situação – Precisamos mesmo de uma liderança que possa nos propiciar outros horizontes.

_ Eu não vou permitir que o legado de meu pai caia nas mãos inexperientes desta tola! – Talia arfou, agora realmente irritada com o rumo que cogitavam para o trono que era seu, e apenas seu! Vários ninjas começaram a falar ao mesmo tempo, alguns chegando a gritar para se fazer entender em meio ao intenso burburinho.

_ Basta! – Tony arremedou-os, dando enorme propriedade à sua voz já grossa e imponente. Todos silenciaram-se no segundo seguinte e adotaram uma curiosa pose respeitosa na presença do cozinheiro – Como seu antigo líder, eu acredito que possuo uma visão mais ampla do que seja mais auspicioso para o futuro da Liga das Sombras! – afirmou, e Alice sentiu o próprio queixo cair com aquela declaração repentina vinda do cozinheiro – Talia aproveitou-se da morte de seu pai uma vez para tentar usurpar seu posto, e tenta fazer o mesmo agora, valendo-se exatamente dos mesmos argumentos inválidos de outrora – disse, sem esconder a fúria que a lembrança daquele passado lhe trazia – Nós já erramos antes, quando permitimos que Talia ocupasse esse cargo apenas baseando-se no seu laço de sangue com Ducard, e cabe a nós, mais uma vez, decidir se deixaremos esse mesmo erro se repetir.

O azul escuro dos olhos de Talia se estreitou enquanto todos ali pareciam confirmar silenciosamente as colocações prudentes de Tony. Ela umedeceu os lábios impaciente enquanto o cozinheiro voltou a falar, direcionando-se imediatamente à hippie, a ninja recém-formada que agora estava em evidência naquele meio dos mais exímios e talentosos guerreiros.

_ Alice – Tony direcionou a cadeira de rodas na direção da mulher pasma, deslizando as rodas para mais perto dela –, eu acompanhei o seu caso de longe nesses meses em que você se dedicou de maneira honrosa ao treinamento que lhe foi imposto, e posso afirmar sem sombra de dúvidas que a sua aptidão foi muito além da esperada, e que a grande e esmagadora maioria teria sucumbido em frente ao que você viveu nestas instalações, tão antigas quanto o próprio passar dos séculos permite – disse cheio de pompa e polidez – E eu garanto que seria uma grande honra pessoal vê-la ocupando a liderança que, um dia, me pertenceu, guiando esses ninjas com a sabedoria que lhe foi designada sem a necessidade das décadas que a precedem.

_ Você já foi o Ra’s Al Ghul? – Alice sorriu atônita para Tony, admirando-o de uma forma verdadeiramente sincera e peculiar ao conhecer aquela pequena parcela do passado do antigo ninja.

_ Há muito mais escondido nessas minhas velhas rugas do que você é capaz de imaginar! – sorriu-lhe, gentil e parcialmente tristonho – Mas o que me diz, Alice? Você pode fazer a sua história aqui se quiser. A meu ver, você tem a aprovação dos outros ninjas.

Alice olhou em volta, como que para testar a verdade daquele comentário, e seu coração pareceu descompassar-se ao comprovar a adesão quase unânime daqueles que a observavam com curiosidade e quase apreço ao serem informados sobre as dificuldades extras na jornada de Alice ali dentro. Exceto por Talia, é claro. Sua raiva parecia quase superar a ansiedade que os demais ninjas demonstravam silenciosamente pela resposta da hippie.

Por alguns segundos, Alice negou a si mesma aquele fardo. Mas, cuidadosamente, analisou mais uma vez a expressão contrariada e furiosa de Talia, e foi como se algo se acendesse dentro dela junto com a raiva e o desafio. Alice tinha a chance de honrar a memória de Ducard ao impedir que a filha do ninja ocupasse novamente o legado daquele trono. Devia isso ao seu Mestre, apenas pela consciência da importância que a Liga das Sombras representava para aquele que, em vida, foi o único a enxergar e dar valor ao seu potencial aparentemente invisível, mas que agora, graças a ele, se destacava na multidão com facilidade.

Ela sentiu-se sorrir internamente quando a fúria pareceu se redobrar nas feições de Talia, como se, sem querer, a filha de Ducard lhe desse a confirmação necessária. A hippie soube, então, a sua resposta.

Sorriu em concordância para Tony e para todos que se dispuseram a lhe dar aquele voto incalculável de confiança, desacreditando que até mesmo Sayid parecia tê-la em alta conta agora.

Alice encarou todos os rostos inexpressivos dos ninjas que a fitavam com ligeiro interesse, dotando-se de feições solenes que pareciam correspondidas, ávidas como a própria chama que se apoderou de seus mais parcos sentidos.

_ Habemus Ra’s! – a hippie anunciou, abrindo os braços em direção à pequena multidão e arqueando-os ligeiramente, como se o gesto intensificasse a grandiosidade da notícia. Todos os olhares permaneceram calados ao redor de Alice, apenas perscrutando suas palavras – Ora, quando é o Papa todos festejam... – resmungou, cruzando os braços em birra pela apatia de seus novos subordinados. Talia bufou audivelmente, quase soltando faíscas pelas ventas dilatadas.

Tony saudou-a com um ligeiro inclinar de cabeça que denotava sua aprovação, satisfeito por ser um contribuinte para afastar Talia daquela responsabilidade que não a merecia e, simultaneamente, dá-la a alguém com a coragem necessária.

_ Então, saudemos a Ra’s Al Ghul mais jovem que nossos olhos já presenciaram – alegrou-se, e todos os ninjas presentes fizeram uma pequena mesura em saudação e respeito. Talia apenas curvou a cabeça para frente, quase com nojo do gesto. O cozinheiro voltou a discursar, dando um ar grave e hipnótico ao som melodioso que era a sua voz – Alice, ninja recém-formada pelas honras de Henri Ducard, filha da Liga das Sombras, e agora também mãe dela, que você saiba nos guiar com sabedoria e justiça pelo tempo que se mantiver nesse posto de glória. Ra’s Al Ghul significa “Cabeça do Demônio”, este é o teu nome agora, tua espada são os teus ninjas, e este é o teu dom, acima de todos. Honre-o bem.

Alice estremeceu sem qualquer motivo coerente ante aquelas palavras tão dignas de consideração e ao mesmo tempo desconcertantes... seus pensamentos mais se assemelhavam a um emaranhado de sentimentos das mais diversas origens, e, confusamente, todos eles pareciam prevalecer dentro de si. Respirou fundo, lembrando-se da última conversa que tivera com o seu eterno Mestre e de como ele demonstrou orgulho e alegria ao torná-la ninja... Ao torná-la uma igual.

_ Eu jamais serei capaz de me equiparar ao que Ducard representou para vocês, mas garanto que serei muito melhor do que a PuT... Talia – corrigiu-se a tempo, disfarçando um pequeno pigarro – Eu realmente jamais poderia esperar um voto de confiança dessa proporção, e espero estar à altura dele – sorriu verdadeiramente, chegando a sentir o rosto enrubescer com a inusitada situação. Gostou de ver que os olhares daqueles ninjas, antes tão indiferentes e por vezes hostis, agora eram respeitosos e com uma pontada de reconhecimento, Alice ousava pensar.

A hippie vislumbrou mais uma vez o rosto inescrutável de Talia. Seus traços eram inexpressivos, porém seus olhos estavam em brasa, refletindo toda a fúria que sentia, que se recusava a esconder e transbordava pelos azuis intensos que rodeava suas pupilas negras e contraídas.

Por um momento, Alice se perdeu naqueles olhos abrasivos, idênticos aos de Ducard. E a tristeza percorreu-lhe o corpo ao ser invadida pela verdade de que jamais os veria novamente no rosto daquele distinto homem.

Todos os ninjas rodeavam o corpo sem vida de Ducard, mal prestando atenção na paisagem calma e indiferente às suas tristezas, quase desfocada de seus olhos pela cena irreal de ver o antigo Ra’s Al Ghul ocupando o espaço de um elegante caixão de madeira, com o rosto apaziguado pela morte.

O silêncio protagonizava a cena, sendo interrompido apenas pelo assobio insistente do vento que cismava em fazer algumas folhas voarem, interpondo-se com propriedade ao redor do sofrimento calado de cada ninja.

Alice apenas encarava o rosto de Ducard, recriando em sua mente cada intenso momento que ele havia lhe propiciado e, junto a eles, suas expressões sempre vivazes, por vezes rígidas, por vezes cálidas... Mas sempre cheias de viva. Só que agora não mais.

A tampa do caixão se fechou, imutável, sobre aqueles traços agora frágeis.

Um vazio parecia apoderar-se de si conforme o corpo de seu Mestre alcançava cada novo palmo de terra, escondendo-se cada vez mais no seio da Liga, aonde todos os antigos líderes jaziam em túmulos respeitosos. E em nenhum lugar neste ou em outros mundos, Alice poderia imaginar um lugar mais propício para fazer descansar o seu corpo já destituído de vida.

A hippie sentiu seus olhos arderem com aquela nova perda, mas cada pequena emoção estava muito bem guardada dentro de si, exatamente como Ducard lhe ensinou tão firmemente. Ela apenas limitava-se a encarar a pequena cerimônia, ainda desconcertada com a cadeia de eventos que a levou até aquele ponto baixo, quase plano, da sede da Liga das Sombras. Que agora estava sob sua responsabilidade...

Cada ninja, resolutamente, formou uma fila perante o túmulo já na terra cavada. Alice ocupou o último lugar naquela conformação extensa e indiana, observando a solenidade daquele momento de dor. Sayid era o primeiro daquela fila, e sua expressão tornou-se ainda mais resoluta quando viu-se diante do novo túmulo. Ele encheu a pá de terra e jogou aquele primeiro punhado sobre a madeira do caixão, inclinando-se a um breve instante de silêncio respeitoso ao fazê-lo. Logo, posicionou-se à direita, e os ninjas, um por um segundo a ordem daquela fila, começaram a imitá-lo.

Vários minutos se passaram até que cada um deles prestasse sua homenagem, até que a pá fosse finalmente oferecida à Alice. Ela enterrou com vontade o metal na terra e despejou-a sobre o caixão já coberto do ninja, sussurrando-lhe alguns clichês de pêsames, tão sinceros quanto era possível.

_ Vá em paz, Mestre das Espadas! Eu farei o possível para ficar à altura deste império silencioso e honrar a sua memória e sua liderança com os meus próprios esforços – deu-lhe um meio sorriso, triste em essência. – Obrigada por ter sido o meu prisma de luz – concluiu, baixinho, com algumas lágrimas marejando o seu olhar e sentindo-se tola por se deixar levar tão facilmente por aquelas palavras que não queriam calar em sua mente. E, mais ainda, em seu coração.

Assim que a terra cobriu homogeneamente aquela nova alcova de Ducard, Alice e os demais ninjas retornaram à sede da Liga das Sombras, mergulhados nos próprios silêncios fúnebres e respeitosos, aderindo ao luto à sua maneira. Alice permitiu-se sorrir à memória dos ensinamentos de Ducard, recordando cada pequena palavra de sabedoria que ele compartilhou com ela, sua última aprendiz.

_ Alice... – Steve a alcançou, com o rosto levemente ruborizado e aparentemente sem jeito perante aquela situação — ...quer dizer... ãh... Ra’s Al Ghul... – corrigiu-se, passando uma das mãos nervosamente pelos fios ruivos – Eu queria me desculpar por não ter te apoiado e confirmado o que realmente aconteceu naquela noite em que... você sabe... – anunciou, ainda sem jeito.

_ Ora, como as coisas mudam quando se tem o poder por aqui... – brincou, dedicando-lhe um sorriso fácil, receptivo, sem qualquer sombra de ressentimento – Não se preocupe, Steve. Você não tem culpa de ser um borra-botas. – piscou – Você fez o que achou certo, e ninguém pode culpá-lo por isso.

Os lábios do contador brincaram num sorriso tímido e, apesar de constrangido, também aliviado. Continuaram caminhando, sem trocar mais nenhum comentário, apenas dispersos demais em seus próprios pensamentos e conjecturas para trocar mais que alguns olhares. Tudo ainda era recente e demasiado denso para ser absorvido em tão pouco tempo.

Assim que entraram novamente na Liga, Tony veio ao seu encalço, falando-lhe com urgência.

_ Os ninjas esperam por suas ordens – avisou, parecendo exausto sobre aquela cadeira de rodas. Talvez abatido com o peso simbólico que a morte de Henri Ducard representava, ou simplesmente concentrado demais nos novos rumos que sua casa tomaria.

_ Certo. Eu já vou me pronunciar. – pigarreou, esperando que todos se acertassem à sua volta para ouvi-la. Não demorou mais do que meio minuto, e cada ninja já a observava atentamente, como se pudessem sorver cada pequena ordem que sairia de seus lábios. Seus rostos, apesar de resolutos, pareciam os mais fiéis aos olhos de Alice, e isso a reconfortou – Muito bem, agora que estão todos aqui, eu posso colocá-los a par da situação. Sei que vocês esperam por novos rumos, e eu os darei. Então, lá vai... O meu primeiro decreto como sua líder é dizer que não somos mais a Liga das Sombras, agora nós nos intitularemos de Liga da Justiça, e cada um de vocês poderá se vestir do seu super-herói favorito dos quadrinhos – proferiu, vislumbrando vários rostos verdadeiramente confusos e prestes a protestar. – Mas, como eu sei que a maioria de vocês vai preferir se vestir de Mulher Maravilha, eu sou obrigada a advertir que também teremos que ter pelo menos um Aquaman, por mais que ele seja o rejeitado! – disse, autoritária. Vários olhos inconformados a encaravam, descrentes daquilo que ouviram. Alice riu, verdadeiramente divertida com a confusão rondando os olhos de seus ninjas – Hey, calma! Isso foi uma piada... Vocês têm permissão para rir a partir de agora – disse, mas o silêncio se prolongou – Tudo bem, esqueçam! Vocês querem a minha ordem, certo? Bom, aqui vai ela: faremos uma viagem com destino a Gotham, sem previsão imediata de retorno.

Ao som daquelas palavras, todos os ninjas se empertigaram. Foi Talia quem falou primeiro.

_ Então, Ra’s Al Ghul – disse, quase debochando em seu tom de escárnio ao usar aquele título de liderança para Alice –, eu devo supor que você tem em mente usar a Liga das Sombras como uma arma para resolver seus próprios carmas pessoais? – perguntou, repleta de veneno.

_ É isso aí, você entendeu! – confirmou, irritada – E antes que você decida fazer um protesto ou induzir um motim, eu já aviso: isto aqui não é uma democracia, então, se não tiver nada de útil para dizer, sugiro que cale a boca e me obedeça como sua líder. – estreitou os olhos em desafio, sabendo que desde já deveria impor-se, colocar-se no seu patamar para que aqueles ninjas realmente a respeitassem. Tony esboçou um leve sorriso no canto dos lábios, aprovando em silêncio aquela atitude e, sem querer, recordando-se de quando ele mesmo passava por aquelas inúmeras provações e precisava ratificar o seu valor a pulsos firmes.

Talia amarrou a cara, retrocedendo em sua arrogância.

_ Contudo – Alice prosseguiu, fazendo um enorme esforço para não levantar o dedo médio para Talia com aquela tentativa de colocar todos os ninjas contra si –, eu compreendo que a Liga não deve ficar às moscas. Alguns de vocês não farão essa viagem, e eu manterei contato com aqueles que ficarem, apenas pelo tempo em que precisar me manter ausente. Assim que eu conseguir resolver minhas pendências em Gotham, a rotina de vocês voltará ao normal.

_ E quem deverá permanecer nas instalações, Ra’s Al Ghul? – algum ninja perguntou, e Alice sentia-se sobressaltar cada vez que aquele título era usado para se referir a ela.

_ Creio que a pessoa mais apropriada para manter-se aqui sob as minhas ordens seja Nureen. – anunciou, e o ninja imediatamente assentiu, talvez um pouco surpreso – Você poderá escolher quatro ou cinco homens de sua preferência para se manter aqui junto com você, e o resto partirá comigo.

Alice calou-se para testemunhar que tipo de adesão a sua ordem resultaria nos outros e, para o seu completo contentamento, eles assentiram obedientemente, sem qualquer sinal de afronta ou desagrado, apenas fiéis.

_ Então, arrumem as malas, recrutas! A Liga das Sombras vai para Gotham.

"If it keeps on rainin', levee's goin' to break,

If it keeps on rainin', levee's goin' to break,

When The Levee Breaks I'll have no place to stay.

Mean old levee taught me to weep and moan,

Mean old levee taught me to weep and moan,

Got what it takes to make a mountain man leave his home,

Oh, well, oh, well, oh, well.

Don't it make you feel bad

When you're tryin' to find your way home,

You don't know which way to go?

If you're goin' down South

They go no work to do,

If you don't know about Chicago.

Cryin' won't help you, prayin' won't do you no good,

Now, cryin' won't help you, prayin' won't do you no good,

When the levee breaks, mama, you got to move.

All last night sat on the levee and moaned,

All last night sat on the levee and moaned,

Thinkin' about my baby and my happy home.

Going, going to Chicago... Going to Chicago... Sorry but I can't take you..."

When The Levee Breaks – Led Zeppelin

Notas finais
Eu estou muito assassina ultimamente, né não... =[ Um minuto de silêncio pelo Barbicha, o ninja dos nossos corações! Doeu matá-lo, e eu aceito os xingamentos que advirão disso! Mas antes, uma pergunta aos que comentaram o capítulo anterior: o que vocês acharam do diploma? =] Espero que tenham gostado, e espero encontrá-los nos reviews! Beijos, beijos! (E só a nível de curiosidade, Gotham foi inspirada em Chicago, o que deixa essa música ainda mais compatível com o momento do capítulo! Led Zeppelin sempre me fazendo feliz ^^)