A Face Oculta Da Lua

13 “Everybody Lies!”


Notas iniciais
Buenos dias, muchachos! xD Essas Notas Iniciais de hoje serão dedicadas a muitos agradecimentos, preparem o saco de vocês porque ele vai se encher! (Isso ficou estranho, mas deixa pra lá!) Primeiro: minhas boas vindas à KathyLiz, tanto lá na Primeira Temporada como na Segunda!!! Você merecia um prêmio por ter chegado até aqui tão rápido!!! xD Segundo: a Primeira Temporada recebeu duas novas recomendações na semana passada, e eu nem preciso dizer o quanto fiquei eufórica, né? *-* Então, Menta e KathyLiz, vocês são demais, MESMO! Obrigada pelas recomendações perfeitas, elas me deixaram besta, mais ainda do que eu já sou =P Esse tipo de retorno realmente me anima bastante, e faz bem para o coração de qualquer autor! =] Enfim, suas lindas, só espero que vocês tenham paciência pra chegar até aqui e ver esse agradecimento! (Já deu pra notar que eu adoro recomendações, não? Fica a dica! Hahahaha ;D) Então que venha o capítulo, que mesmo estando um pouco mais curto do que o normal, eu sei que vai dar muito o que falar, hehehe

Havia algo de muito errado no desespero com que Talia abordou Steve na noite passada... Em momento algum a filha de Ducard aparentou perder o controle de si mesma, porém foram os seus olhos que a traíram ao emanar toda aquela ânsia de conseguir o que tanto almejava... E o que, afinal, ela poderia querer do contador? Quem era aquele misterioso capanga, que por pouco não matou Alice? A hippie estava completamente presa a essas questões, incapaz de perceber a luta que devia travar com Ducard, altamente absorta dentro das lembranças recentes e ambíguas.

E dentro de uma nova questão em especial, que invadiu sua mente como uma farpa incômoda: O que faria a respeito daquilo que viu? Como proceder diante de tal situação?

Ducard estreitou os olhos inquisidoramente na direção de sua teimosa Aprendiz, estranhando a pouca dedicação que ela destinava ao treino do dia. Alice parecia perturbada, e certamente muito mais distraída do que lhe era habitual.

_ Concentre-se aqui, Alice! – o ninja reclamou ao acertar-lhe um chute relativamente lento acima de seu ventre.

_ Ah, tá... – consentiu, avoada, parecendo nem sentir a dor do último golpe, mesmo que seu corpo tivesse se curvado exageradamente para frente com a inércia do baque.

_ Eu pensei que o seu desempenho seria melhor aproveitável durante os treinos das artes marciais – lançou-lhe um olhar rude de reprovação.

_ Talvez realmente fosse, se a sua filha não me desconcentrasse tentando me matar – replicou, imaginando que Ducard não seria capaz de ouvir o comentário baixo e quase inaudível pronunciado por ela.

_ Como disse? – o ninja deixou que a posição de ataque pela primeira vez desfalecesse durante um treino, e apressou-se a chegar mais perto de sua aluna, com os olhos estreitos de inconformismo – Talia fez o quê?

_ Ah, é isso mesmo! – confirmou, decidindo naquele instante que não seria cautelosa acerca daquele assunto – Na boa, Ducard, sua filha precisa de terapia... Imagine você que ela foi a mandante do quase-homicídio do Steve!

_ Eu pensei que o Steve tivesse sofrido um acidente, não foi você mesma que estava junto dele e forneceu os primeiros socorros?

_ Tem pai que é cego, viu... Acidente uma pinoia, a sua preciosa filha mandou um armário espancar o Steve! E para minha sorte, eu vi tudo, e agora eu sei que a bruaca vai tentar se livrar de mim também – contou, sem muita coerência devido ao próprio afobamento de dar credibilidade à história.

_ Seja mais clara, Alice!

_ Veja bem, Barbicha, a PuTal... A Talia queria alguma coisa do Steve que eu não sei o que é, mas ela parecia bem disposta a arrancar informações dele a qualquer custo. Inclusive mandou um baita homem espancá-lo até que ele falasse, mas o fracote desmaiou antes...

_ Calma... – Ducard meneou a cabeça como se tentasse organizar mentalmente todas aquelas informações – O Steve foi espancado em vista de algum interesse da minha filha?

_ Isso!

_ E ela realizou tal ato com a ajuda de um homem?

_ Isso! – repetiu, quase emocionada por ver que o ninja havia acompanhado a linha emaranhada do seu raciocínio, confuso até mesmo para ela.

_ E quem era esse homem?

_ Um cosplay do Darth Vader! – Alice respondeu imediatamente, e foi como se um ponto de interrogação se depositasse no brilho safira dos olhos do ninja – Eu não faço ideia de quem ele era! – explicou melhor – Nunca o vi por aqui antes, mas eu garanto que não é uma visão que se esqueça facilmente... Ele era enorme, com os maiores músculos que eu já vi, e uma máscara metálica cobria quase todo o seu rosto... Sem mencionar aquela respiração ruidosa e... hedionda! Aquele ruído envolvido pela máscara era quase uma trilha sonora de um filme de terror. Eca!

_ Acho que eu andei exagerando com as sessões do Gás do Medo... – Ducard balançou lentamente a cabeça, sem parar de observar a aluna.

_ Não, é sério! Sua filha até chegou a falar o nome dele, mas eu não lembro... – praguejou, frustrada – Mas também imagino que o nome não ia servir de muita coisa. Se você não o reconheceu pela minha descrição é porque nunca viu aquela máscara na vida.

_ Bom, e eu posso perguntar como você sabe de tudo isso? – inquiriu com uma tranquilidade quase irritante.

_ Eu estava procurando pela Baguera, quando eu encontrei a pestinha naquela sala de meditação da Ala Norte. Logo que eu ia sair de lá com a minha gata, a sua filha entrou com o Steve e com o Darth Vader, então eu me escondi atrás da divisória antes que eles me vissem, e aí eu escutei tudo; as ameaças, o espancamento, tudo! Até a sua filha descobrir que eu estava lá e mandar o senhor Vader me partir em duas... – respondeu com uma careta, ousando-se sentir arrepiada apenas pela menção daquela lembrança quase letal.

_ Você entrou na sala de meditação? – o ninja perguntou estreitando os olhos, indignado.

_ Só pode ser piada... – bufou – Você prestou atenção no que eu disse? O Steve foi espancado a mando da PuTalia, e depois ela pretendia me matar! E quem bateu no nerd podia muito bem acabar com todos vocês de uma só vez, o cara é um monstro de forte... E você aí, se preocupando se eu entrei ou não em uma sala estúpida!

_ Sinto muito, Alice, mas essa história está muito mal contada.

_ Pergunta pro Steve então! – exaltou-se. Como detestava quando não davam crédito ao que ela dizia... Era uma afronta à sua lealdade com o ninja!

_ Pode apostar que sim. Existe algo de muito errado nessa situação...

_ E o que eu ganharia mentindo, afinal?

_ Em nenhum momento eu insinuei que você estivesse mentindo. Mas entenda uma coisa, Alice, você é a primeira pessoa que se submete com regularidade ao Gás do Medo, e eu não sei se essa exposição prolongada pode ocasionar esse tipo de efeito colateral – avisou, parecendo pensativo quanto àquela hipótese – Talvez você esteja projetando o seu medo para fora das sessões com o gás, e se isso realmente se resumir a uma ilusão, significa que o seu organismo não está sendo capaz de eliminar a droga do seu corpo num tempo previsto. Ou seja, os efeitos dela se prolongam enquanto ela ainda estiver circulando no seu sangue – explicou com calma.

_ Você não pode estar falando sério! Eu sei muito bem separar a realidade das alucinações durante as nossas sessões! Por acaso os machucados do Steve parecem ilusórios pra você?

_ Que o Steve está ferido, não resta dúvida, a questão aqui é como você fantasiou isso – respirou fundo, coçando a nuca – Existem pessoas que são mais receptivas à droga do que outras, Alice. Cada metabolismo age de uma maneira em contato com alucinógenos, e talvez o seu demore um pouco mais do que o habitual para normalizar a situação.

_ Eu sou médica, Ducard, eu sei os efeitos que uma droga pode ter, e sei que cada corpo tem uma variação maior ou menor de tempo para expulsar a droga, mas agora você precisa me dar um voto de confiança, eu sei muito bem o que eu vi, e garanto que não foi ilusão...

_ O seu voto de confiança vai ser a minha conversa com o Steve. Eu estou disposto a ouvir a versão que ele vai me contar dessa história, e caso ele confirme o que você acabou de me contar, então eu terei um problema em mãos.

_ Não foi uma mera alucinação, Ducard – ressaltou Alice, terrivelmente incomodada com o foco do assunto. Parecia extremamente conveniente depositar aquele fardo sobre suas costas, e isso ela não podia permitir...

_ Eu sei bem o quanto as visões que o Gás do Medo te proporciona são reais, Alice. Seria negligência minha se eu não considerasse esse fato e saísse acusando a minha própria filha, baseado apenas no relato de uma testemunha que havia acabado de ser drogada.

_ Mais essa agora... – revirou os olhos, inconformada com aquela dúvida do ninja. Era quase cruel ver a sua credibilidade ser colocada na balança dessa forma.

_ Sinto muito, mas eu já errei muito com a minha filha no passado, e não pretendo correr novos riscos às cegas – o ninja a encarou com olhos abrasivos de culpa, e Alice limitou-se a analisá-lo por um tempo que pareceu longo demais.

_ Eu só espero que você fique do lado certo quando a verdade vier à tona.

_ Eu acho que posso solicitar o mesmo de você.

_ Ninja turrão... – resmungou baixinho, tomando a frente para o interior da Liga enquanto Ducard a seguia até o aposento de Steve, cada um com razões específicas para querer tirar logo aquela história a limpo.

Chegando à porta do quarto do contador, a hippie quase a esmurrou de ansiedade para ver aquele dilema ter um fim.

Ou, talvez, ela só sentisse necessidade de que alguém finalmente acreditasse puramente na sua palavra, sem a intervenção de terceiros...

A hippie nem percebeu que continuava batendo estrondosamente na porta, até que seu punho cerrado tocou o nada. Steve abriu uma pequena fresta, curioso e amedrontado ao mesmo tempo para ver quem era o responsável por todo aquele barulho em seu aposento.

_ Alice? – perguntou, confuso, e logo seus olhos inchados e roxos se arregalaram ao ver que o próprio Ducard estava atrás da hippie, observando a cena atentamente – Ra’s Al Ghul! Em que posso ser útil?

_ Se importa se nós entrarmos? – Ducard questionou, mas Alice já escancarava a porta. O contador não fez qualquer objeção, e permitiu que os dois passassem por ele e se acomodassem dentro do aposento – Tranque a porta, Steve, por favor – pediu, e imediatamente o contador obedeceu e foi se juntar aos dois, curioso com a inesperada visita.

_ Steve, eu preciso que você conte ao Ducard o que realmente aconteceu na noite do seu “acidente” – Alice fez as aspas com os dedos – Você precisa deixá-lo a par do que de fato ocorreu.

O ruivo demorou-se um momento revezando olhares impenetráveis entre Alice e Ducard. Embora tentasse não demonstrar, o medo enrijeceu completamente sua expressão. A hippie notou a respiração do contador se tornar mais profunda, como se ele se concentrasse para espantar a gagueira que mais cedo ou mais tarde viria à tona para tirar o crédito de suas palavras.

_ Eu devo explicar o quê, exatamente? Pensei que já era de conhecimento geral que eu fiquei nesse estado por cair dois lances de escada... – pigarreou, parecendo ainda fazer um grande esforço para dominar a própria voz.

_ Isso foi o que a gente inventou! – a hippie interviu, já sem muita paciência – Conte o que a Talia mandou fazer com você, e aproveita pra dizer de uma vez o porquê dela ter feito o que fez.

_ Me perdoe, Alice, mas isso não faz o menor sentido pra mim... Eu não faço a menor ideia do que você está falando – o ruivo replicou, arrancando um olhar inconformado e abrasivo da hippie.

_ Como assim, seu palerma? Faça o favor de não me desmentir na frente do Ducard e confirmar o que realmente aconteceu!

_ Bom... – o ruivo principiou, dando de ombros como se a história chegasse a ser tediosa – Eu estava a caminho da cozinha, meio sonolento por causa da hora avançada da noite, mas ainda assim disposto a molhar a garganta. Comecei a descer a escada e logo nos primeiros degraus eu escorreguei e... caí! – respondeu simplesmente, ignorando o ódio estampado no rosto ferino de Alice.

_ Você me assegura que tudo não passou de um infeliz acidente? – perguntou Ra’s Al Ghul, analisando Steve com tanta profundidade que era como se o ninja pudesse ver através dos olhos meio cansados do contador.

_ Dou a minha palavra – assentiu, para o completo ódio e rancor de Alice. Depois de tudo o que ela fez por ele...

_ Bom, acho que isso encerra essa questão – Ducard proferiu, já ameaçando retirar-se, porém Alice foi mais rápida ao se colocar entre ele e a passagem.

_ Então você está me dizendo que realmente caiu, que ninguém te espancou? Pense bem, Steve, eu te socorri e acho que mereço ouvir você dizendo a verdade! – disse, quase rangendo os dentes na direção daquela cabeleira ruiva despontada.

_ E eu sou muito grato pela sua ajuda, mas essa verdade que você quer que eu confirme nunca aconteceu.

_ Então, isso é tudo que você tem a dizer a esse respeito?

_ Creio que sim... – Steve aquiesceu, passando a encarar as próprias mãos pousadas em sua perna, talvez com olhos de culpa, que Alice implorou para que Ducard tivesse notado.

_ Barbicha, esse covarde tá mentindo! – Alice implorou, mas o ninja apenas balançava a cabeça.

_ Já chega, Alice. Eu imagino o quanto essa sensação deve ser estranha para você, mas aceite que tal história jamais aconteceu. Essa lembrança nada mais é do que uma ilusão provocada por um efeito tardio do Gás do Medo, e eu não quero mais ouvir falar nesse absurdo. Te darei o resto da tarde de folga para que você consiga assimilar tudo isso, mas é bom que amanhã você retorne aos treinos com maior foco e determinação – ele proclamou, como se desse um veredicto a um réu.

Ducard saiu sem mais nenhuma palavra, e Alice virou-se na direção do contador, que por alguma razão parecia não conseguir encará-la.

_ Por que você fez isso? – ela perguntou, tentando dar uma calmaria inexistente à própria voz.

_ Eu avisei pra você não tomar partido nessa história – lembrou, ainda repousando o olhar sobre as mãos como se fosse incapaz de levantá-lo na direção da hippie.

_ Seu tonto! – xingou, caminhando furiosamente pelo quarto – O Ducard era o único que podia nos proteger daquele... troço de máscara!

_ E ele nos protegeria dele mesmo, Alice? – questionou, finalmente encarando a hippie – Será que ele seria capaz de banir a própria filha para nos proteger? Você realmente acha que, se disséssemos a verdade, Ducard não se livraria de nós dois para poder manter a Talia aqui dentro em segurança?

_ A única coisa que eu sei é que ficar omisso no nosso próprio medo não vai melhorar em nada a nossa situação. O Ducard pode ser estranho à primeira vista, mas eu sei que ele faria o certo pela Liga das Sombras! Se o preço para manter a Liga saudável fosse expulsar a própria filha...

_ Expulsar? – Steve a interrompeu, quase rindo do termo – Não, Alice... Ninguém é simplesmente expulso de uma instituição do porte da Liga das Sombras.

_ Como assim?

_ Por se tratar de uma instituição secreta, ninguém que não seja membro da Liga pode ter consciência de sua existência... Então aqueles que são condenados ao banimento... – deixou a frase morrer no ar, lançando-lhe um olhar alusivo.

_ Vocês matam os próprios integrantes? Sério? Mas isso não faz sentido, eu mesma fiz um acordo com o Ducard de que eu não ficaria aqui depois do treinamento...

_ Eu não acreditaria nisso – avisou – o Ra’s Al Ghul jamais permitiria colocar em risco todo o legado dos ninjas por conta de um mísero acordo... Ele é altamente persuasivo quando lhe convém, e é bem provável que ele tenha em mente fazê-la mudar de ideia! Sabe, convencê-la a ficar aqui como se a decisão partisse de você.

_ Nós teremos um sério problema se esse for o caso. Mas nem por isso eu vou permitir que a PuTalia continue me ameaçando assim, impunemente. Nós não temos nada a perder contando a verdade, Steve! Já estamos ferrados de qualquer forma...

_ A nossa melhor chance agora é ficar o mais longe possível de tudo isso. Se arriscar nesse jogo pode ser fatal, e é um risco que eu não estou disposto a correr. E para o seu próprio bem, espero que você também não.

_ Claro, afinal é muito mais sensato levar uma surra por semana a tomar alguma providência – alfinetou – Numa coisa a Talia tem razão, Steve. Ou você resolve ajudá-la de uma vez ou faz o possível para atrapalhá-la, não pode haver meio termo aqui. Não existe um muro para você ficar em cima, não nesse caso.

O contador fitou-a longamente, talvez analisando suas escolhas, talvez digerindo o que acabara de ouvir. Seus olhos se demoraram com tristeza no semblante decidido de Alice, e ele baixou-os novamente.

_ Sinto muito, mas você está sozinha nessa...

Do outro lado do mundo, num ponto degradado da perturbada Gotham City, um Palhaço dotado do seu mais cruel sorriso observava um médico ferido, totalmente amarrado a uma cadeira. O sangue brilhante e viscoso que escapava de um corte acima de sua sobrancelha tornava evidente a última agressão.

_ Como eu lhe dizia, Doutor... House, é isso? – Coringa fingiu interesse – Bom, pouco importa. Eu tenho razões bem específicas para acreditar que você ajudou a Alice a simular a própria morte, e como isso me deixaria irritado, Doutor... – acrescentou, dando às suas feições um significado de falso moralismo.

_ Bem, então vamos torcer para que ela realmente tenha morrido – retrucou, fazendo Coringa inclinar a cabeça para trás em uma gargalhada escandalosa.

_ Realmente acha que vale a pena se sacrificar por aquela garota? – ele se agachou na altura do médico, brincando com o frasco laranja de Hidrocodona.

_ Algo me diz que eu não tenho muita escolha quanto a isso – rebateu, encarando os comprimidos do frasco como se estes fossem uma sombra fresca em meio a um deserto escaldante.

_ Verdade, verdade... – confirmou vagamente, fazendo o frasco do remédio passear por entre seus dedos ágeis – Mas se você colaborar, eu prometo uma morte bem rápida, dotada da minha mais infinita benevolência!

Foi a vez de o médico rir.

_ Isso me parece um tanto inautêntico vindo de você...

_ Chega de prorrogar o inevitável, Doutor Gregory House! Você vai me dizer onde a Alice está.

_ Acredito que ela esteja espalhada por vários lugares – respondeu ironicamente –, afinal você destruiu a urna com as cinzas dela...

_ Que acidente horrível o da sua perna, não? – comentou casualmente enquanto encarava o frasco de remédio – Realmente deve ser... desolador depender de doses cavalares de droga para ser capaz de tornar a dor relativamente suportável – deu-lhe um sorriso condescendente antes de arremessar o remédio do médico no chão e pisar em cima, espatifando e tornando inútil cada comprimido – De fato é uma pena... – balançou a cabeça, percebendo com satisfação o suor escorrer indiscriminadamente pelo rosto tenso de House – E o mais interessante é como o nosso psicológico nos boicota apenas pela consciência de que não há mais remédio... Imagino que a dor na sua perna já esteja um tanto aflitiva, não?

_ Já esteve pior – respondeu, presunçoso, tentando abafar o oscilar desregulado de sua respiração teimosa, imediatamente nublada pela dor excruciante que mal lhe permitia pensar.

_ Interessante... – sorriu ainda mais amplamente, segurando agora a bengala do médico e afiando a ponta recurvada com uma enorme faca, que de tão afiada parecia cortar nada mais resistente do que uma folha de papel vegetal. As lascas da madeira voavam com facilidade em torno do sorriso explícito de Coringa à medida que ele moldava a bengala da forma que bem entendesse, criando uma ponta fina na extremidade curva, como se apontasse um lápis com um estilete – Então eu creio que uma pequena pressão a mais não vá fazer diferença – constatou, enfiando a terminação pontuda da madeira na enorme cicatriz da perna direita de House.

O médico soltou um grito agonizante antes mesmo de sentir aquela aflição descomunal atingindo não só sua perna, mas todo o seu corpo em profundo tremor. O sangue manchava o apoio de mão da bengala ainda cravada em sua pele, e Coringa ria cada vez mais alto ao presenciar o ar prepotente do médico dar lugar àquele estado patético causado pela dor.

_ Creio que agora podemos fazer um progresso maior! – Coringa sentou-se na frente de House, sorrindo como se fosse um enorme prazer vê-lo ali – E então, vai responder à minha pergunta?

_ Escuta... De médico pra enfermeira, realmente não há nada que se possa fazer pelo seu brinquedinho. A Alice está morta, e me torturar não vai mudar isso!

_ Resposta errada... – cantarolou alegremente, aprofundando ainda mais a curva da bengala na perna do médico, de forma que todo o apoio adunco da madeira agora estava cravado na carne de sua perna já defeituosa. House urrou, cego por cada protesto de seu sistema nervoso que lhe avisava do perigo que aquele tormento causava. Nenhuma Hidrocodona agora seria capaz de amenizar a agonia daquele suplício, daquele desgaste não só físico, mas também psicológico.

Coringa lambeu o canto esquerdo da cicatriz, aproveitando as ondas de prazer que a tortura lhe proporcionava. Ver os sinais de fraqueza nas suas vítimas era sempre renovador, e era a única coisa capaz de impedir que ele não se empolgasse em matar de uma vez. Adorava vê-los definhar antes de cair... Adorava descobrir a verdadeira identidade de cada um que se dispunha a matar, como um jogo sórdido aonde o único vencedor era sempre ele.

O médico jazia completamente largado sobre a cadeira, seus olhos fechados e o fio de sangue que escorria de sua boca entreaberta davam àquela feição lívida uma aparência ainda mais mortífera. O único sinal de que House ainda estava consciente era a respiração difícil que se propagava em torno dele.

_ Me diga onde está a Alice e você ainda pode morrer com um pouco daquilo que os tolos chamam de dignidade, Doutor – Coringa forçou uma voz mansa, mas o amêndoa de seus olhos preservava o mesmo brilho vil e psicótico, talvez desmentindo aquela promessa.

_ Não existe dignidade na morte – House abriu fracamente os olhos, ansiando pelo fim – Nunca existiu, nem mesmo na vida.

Coringa alargou ao máximo o sorriso, como se aprovasse internamente o comentário. Agachou-se rente ao ouvido do médico, brincando com o cabo de uma faca, já sentindo seus dedos coçarem com a perspectiva de usá-la.

_ Então essa é uma questão que certamente nós dois concordamos! – o Palhaço frisou com um ar risonho, um segundo antes de enterrar todo o corpo da lâmina afiada entre o pescoço e o queixo do médico, que começou a cuspir sangue em meio aos próprios espasmos de dor.

Até que o seu corpo tombou, inerte.

Notas finais
Eu sei que vou para o inferno por isso! Ou talvez nem o diabo vá aceitar a pessoa que matou Gregory House, e aí eu vou ficar eternamente vagando entre as barcas do céu e do inferno que nem o judeu e o seu bode 0_0