A Face Oculta Da Lua

14 Espelho, Espelho Meu...


Notas iniciais
Boas notícias, seus lindos: O retorno a Gotham está relativamente próximo! A minha previsão é que isso aconteça no capítulo 17, mas não me julguem mal se ela estiver errada =P Esse capítulo vai para Lady Candy, que está fazendo aniversário hoje! Parabéns, sócia! =] E aí vai uma musiquinha pra tu: ♫ Hoje vai ter uma festa! Bolo de fubá, muita água pra bebêê, é o seu aniversário! Vamu cunvidá us mendigo pá cumêê! ♫ ;D

Um vento frígido tocava gentilmente o rosto de Alice, quase como se tentasse reconfortá-la pelos infortúnios que pareciam não querer abandonar a rotina sempre tão tortuosa da hippie. Chegava a ser grotesca a sua capacidade de sempre conseguir agravar a própria situação, de sempre tentar evitar as desventuras que ganhavam evidência em sua vida, e acabar se vendo no princípio de toda a tempestade. Ela estava farta de se ver sempre imaginando se viveria até o próximo pôr do sol, cansada de ter a sua palavra sempre contestada e colocada na balança.

A Liga das Sombras estava se tornando um espectro daquilo que viveu em Gotham... Por alguma razão, o presente não a deixava romper os laços com o passado, visto que o primeiro parecia uma repetição irônica do segundo, aonde apenas os coadjuvantes eram substituídos...

A primavera já havia chegado até os limites daquela montanha isolada, afastando os densos flocos de neve que mais pareciam um tapete para o solo, e dando passagem à tímida grama verde e brilhante como novo cenário. Aleatoriamente via-se pétalas azuis e delicadas dando cor e vida ao redor da Liga.

Alice observava aquela paisagem pacífica pela sacada de seu quarto, totalmente debruçada à madeira de contenção – a única matéria que a separava de uma provável queda naquela posição encurvada – e tendo como único consolo a brisa que roçava em sua pele, afastando levemente alguns fios de cabelo do seu rosto.

“Você está sozinha nessa...” – as palavras de Steve retornaram sem o seu consentimento, e a hippie nem mesmo conseguiu sentir raiva do contador... Ele estava apenas se protegendo da maneira que julgou mais prudente, e se Alice demonstrasse ao menos metade daquela sensatez, talvez ainda vivesse tranquilamente em Gotham, na sua pequena casa afastada de tudo e de todos.

Mas, ao invés disso, ela adquiriu a péssima mania de encarar o problema de frente e cuspir na sua cara.

A hippie meneou a cabeça, despertando daquele devaneio tortuoso. Colocou-se numa postura ereta e decidiu que já era hora de ir ao encontro de Ducard... Ainda faltavam vários minutos para o treino começar, contudo Alice simplesmente não conseguia mais ficar parada, e muito menos sozinha com sua própria aversão pelos últimos fatos...

_ Pelo sabre do Mestre Yoda! – Alice sentiu o corpo inteiro pular ao virar-se em direção à saída e praticamente trombar com o enorme homem de máscara a encarando, quase como se tentasse matá-la apenas com o ódio refletido em suas pupilas contraídas pela forte luz que adentrava o quarto – Como você entrou aqui, Darth Vader? – deu passos para trás à medida que ele começou a cortar a distância.

_ Vim terminar o que comecei – sibilou, e se não fosse por aquela enorme máscara, Alice sabia que veria um largo sorriso de contentamento em seus lábios – Parece que nós temos um assunto inacabado afinal...

_ Ah, não me diga? – continuou dando passos em ré para longe do homem, tateando o espaço atrás de si como se implorasse por uma maçaneta, por qualquer fuga que lhe permitisse sair dali intacta – Talvez você possa simplesmente deixar um recado por baixo da porta me informando qual é o tópico que você pretende abordar, e então eu te respondo assim que abrir uma vaga na minha agenda...

_ Creio que não! Esse assunto deve ser tratado... pessoalmente! – replicou, cerrando os enormes punhos, ainda caminhando em direção à mulher abusada.

Alice permaneceu se afastando o quanto pôde, até que as suas costas encontraram a parede, como se lhe avisasse que era inútil fugir... Bane agora estava a míseros passos de distância, enquanto tudo o que Alice podia fazer era tatear bestamente a argamassa que a impedia de se esquivar. Ele apoiou ambas as mãos a poucos centímetros dos ombros da hippie, prendendo-a rente ao concreto ao criar uma impenetrável contenção com seus braços fortes. Ela engoliu em seco ao se sentir dentro de uma armadilha sem volta, tendo plena consciência de que um único peteleco daquele homem seria capaz de virá-la do avesso...

_ Olha, você não precisa ser metal mandado da PuTalia... Pode ter um pouquinho de controle sobre o que faz! Até poderíamos chamar isso de “O Homem Da Máscara De Ferro Contra Ataca”, que tal? A gente se junta e chuta aquela traíra pra longe daqui, aí você fica livre das ordens daquela maluca...

_ Eu acho que não... – negou em meio aos ruídos arrepiantes de sua própria respiração.

_ Então nesse caso... A oferta da bombinha de asma ainda está de pé! – disse, sabendo que a única coisa que podia fazer por si mesma naquele momento era tentar procrastinar ao máximo o inevitável.

_ Tentador, mas eu passo! – replicou com um grunhido retorcido que a hippie julgou ser uma risada.

_ Então sem chance de resolvermos isso com uma conversa amigável... Que tal tirar nossas diferenças a limpo no jokenpo?

Bane passou os grossos dedos de sua mão direita ao redor do pescoço de Alice, erguendo-a do chão com uma facilidade ridícula, como se ela não pesasse mais do que uma boneca de pano. Ela arregalou os olhos temerosos na direção do homem, entreabrindo a boca numa tentativa falha de puxar o ar.

Aquele par de olhos sádicos vislumbrava o desespero crescer na sua vítima conforme a compressão exercida em sua garganta se tornava cada vez mais significativa, cada vez mais estúpida.

Alice conhecia aquela sensação tão bem que era capaz de prever o que sentiria a seguir... O peso do corpo se depositando cruelmente em cada pulmão, a ardência do aperto cruel no próprio pescoço que comprimia sua traqueia, a ausência de oxigênio no corpo que chegava a doer de tão incômoda, e em breve a tontura sorrateira e inexorável que a convidaria para o desmaio.

As mãos da hippie lutavam inutilmente contra a pressão que Bane exercia, arranhando, tentando afrouxar aquele aperto, cravando a queratina de suas unhas numa investida desesperada, mas quanto mais investia contra Bane, mais percebia que estava cada vez mais difícil encontrar forças naquele fiapo de consciência. A incoerência já rondava sua visão, e curiosamente, a raiva se sobrepôs ao medo por um instante.

Ela olhou fundo nos olhos do homem – uma das poucas porções de seu rosto que não era ocultada pela requintada máscara metálica – como uma última súplica para que vivesse, mas a satisfação estava estampada nas poucas expressões que Bane era capaz de mostrar.

Foi arrebatada pela tontura antes que tivesse a ilusão de ouvir alguém batendo na porta de seu quarto, até que o olhar furioso do homem que a enforcava a fez perceber que aquele som não estava apenas dentro de sua mente afogada pela falta de ar.

_ Alice! – uma voz conhecida veio de trás da soleira da porta, junto com novos murros meio apressados – Eu sei que você está aí, abra essa porta! – a voz adquiriu um tom de comando, e como o silêncio se estendeu, ela voltou a se propagar pelo ambiente – Eu terei que arrombar se você não abrir! – avisou.

Bane afrouxou o aperto insuportável no pescoço de Alice, destinando a ela um olhar tão furioso como se a hippie fosse a responsável por aquela inconveniente interrupção. Não podia arriscar ser visto ali, e nem mesmo podia permitir que encontrassem o corpo de Alice com marcas do homicídio e alimentar uma investigação sobre o assassino, ou toda a sua farsa desmoronaria como um castelo de areia frente a um tsunami...

_ Você! – o homem musculoso sussurrou para Alice, um som tão hediondo que a fez tremer em meio à crise violenta de tosse – Abra a porta, e qualquer tentativa de contar o que houve aqui a fará desejar nunca ter nascido – avisou um tanto sombrio, finalmente largando o pescoço da hippie e permitindo que mais uma vez os seus pés encontrassem apoio no chão.

_ Eu não... – engasgou-se em meio a novas tosses – ...não vou contar! – pigarreou, tentando fazer sua voz rouca voltar ao normal – Mas eu preciso de uma garantia de que essa gentil visita não vá se repetir.

_ Alice! – a voz, que agora a hippie reconheceu como sendo a de Nureen, ecoou alta através da madeira.

_ Atenda! – ordenou Bane com olhos furiosos, empurrando Alice com brutalidade para a direção da porta.

_ Tá, tá, já entendi! – resmungou, indo de encontro a Nureen. O ar atrás da hippie pareceu se agitar, e ela soube que o homem de máscara não estava mais à vista, embora possivelmente ainda se escondesse em seu quarto. Destrancou a porta e girou a maçaneta, revelando um rosto irritado e impaciente – E aí? – levantou as sobrancelhas em cumprimento para o ninja, que mantinha os olhos estreitos na direção da hippie.

_ Por que demorou tanto? – perguntou por fim.

_ Eu estava sendo enforcada, nada de mais – deu de ombros, vendo a incompreensão tingir as feições do ninja – Mas e então, por que você quase derrubou a minha porta? – tossiu novamente, incapaz de evitar aquele irritante protesto de sua garganta – É preciso um mandato pra isso, sabia? – ironizou, morrendo de vontade de abraçar o ninja pela interrupção daquilo que parecia um fim inevitável.

_ O Ra’s Al Ghul me pediu para acompanhá-la até o seu próximo treino – contou –, parece que ele não quer que você vague sozinha pela Liga das Sombras...

_ Ganhei uma babá agora? – levantou alto uma de suas sobrancelhas, sem entender o porquê daquilo.

_ Eu não questiono as ordens que recebo, Alice, apenas cumpro. Agora vamos, antes que você se atrase!

_ Outro que pensa que pode mandar em mim... – reclamou para si mesma, dando uma última olhada em seu quarto antes de seguir o ninja. Nureen fez ecoar um riso cálido, já parecendo recomposto pela impaciência que antes estava tão evidente em seus traços.

_ Não se trata de dar ordens, mas você sabe tão bem quanto eu que não se deve deixar o Ra’s Al Ghul esperando – sorriu, simpático, pousando uma atenção curiosa sobre ela – Você não me parece nada bem – comentou, reparando na lividez daquele rosto intransigente que o seguia – Aconteceu alguma coisa?

_ Aconteceu que eu preciso de uma nova identidade... – sorriu – Digamos que a minha estadia aqui na Liga das Sombras não esteja muito saudável. Talvez seja a hora de dar no pé, com ou sem diploma de ninja!

_ Isso é um erro... – retrucou com um sinal negativo de sua cabeça, adotando uma postura séria – Você está constantemente fugindo da sua realidade, como se não conseguisse se adaptar a coisa alguma... Você vai acabar se engajando em uma busca sem fim por aquilo que você chama de recomeço.

_ Não, você não entende, realmente não dá pra ficar aqui! – exclamou, ainda sentindo o pescoço dolorido pela última tentativa de homicídio. Sem se dar conta levou a mão até a garganta, mas logo a tirou dali.

_ Você nunca vai se adaptar a lugar nenhum, porque ao que parece você sempre vai procurar por algo a mais. Aceite o seu destino na Liga das Sombras, Alice, essa é a decisão mais sábia a se tomar. Aqui você pode gozar de toda a proteção que uma renegada da sociedade como você precisa – brincou, dando-lhe um novo e bondoso sorriso.

“Proteção... Que hilário!” – pensou amargamente, retribuindo ao ninja um sorriso pesaroso – “Proteção!” – a palavra ressurgiu dentro de sua cabeça como um estalo de entendimento – “Ducard não quer que eu vague sozinha pela Liga para me proteger! Porque o Barbicha acreditou em mim...” – deduziu, feliz. Naquele instante, um delicioso alívio arrepiou todo seu corpo e o fez parecer mais leve.

Ela não estava tão sozinha afinal...

Alice sentiu seu ânimo afundar ao ver que Nureen fazia o trajeto até a sala em que eram realizadas as sessões com o Gás do Medo. Respirou fundo, determinada a não vacilar em sua pretensão, mesmo que às vezes a vontade de desistir se pronunciasse mais alta do que deveria.

_ Está entregue... – o ninja abriu a porta para que a hippie passasse, já identificando a cabeleira de Ducard, de costas para os dois. Nureen retirou-se, antes mesmo que Alice conseguisse se despedir ou agradecer pela companhia.

_ Então... Gás do Medo hoje?! – a hippie questionou, atraindo a atenção de Ducard assim que ficaram a sós na sala. As mãos de Alice se entrelaçaram uma na outra atrás de suas costas, encarando o ninja como se visasse decifrá-lo. “Tarefa impossível, ao que parece...”

_ Sim. Os progressos proporcionados pelo Gás do Medo são evidentes, acho que podemos utilizar essa arma com maior frequência.

_ Progresso? Pensei que o gás estava me destituindo da realidade... – zombou, provocando o ninja – Talvez eu até esteja me tornando esquizofrênica com essas alucinações inconvenientes que ando tendo, não acha? E todas essas manias de perseguição... – sorriu – Admita, Barba Grisalha! Você sabe que eu disse a verdade, mesmo que o Steve tenha tentado desmentir!

_ Esse é um assunto concluído, Alice – decretou, mas ela não pôde deixar de notar que o ninja não havia negado seu comentário.

_ Como queira – assentiu, esbanjando um enorme sorriso satisfeito – Mas é como diz aquele velho dito popular: “O pior cego é aquele que come cru!”... – a expressão de Alice ganhou um porte pensativo – Talvez porque o cego não consiga ver se a comida já assou... – começou a debater consigo mesma – Ou então pode se tratar de uma citação xenofóbica se referindo aos japoneses de olhos pequenos, que no sentido figurado são vistos como cegos, e da sua culinária crua, tipo o Sashimi... – ponderou, franzindo o cenho com a dúvida – Ou até mesmo...

_ Sim, Alice, eu já entendi – o ninja revirou os olhos, revelando impaciência – Agora deite-se, e me permita começar logo com isso – mandou, apontando para a maca com as sobrancelhas erguidas.

_ Grosso... – xingou baixo, obedecendo de má vontade, fungando teimosamente como uma criança mimada. Bastou deitar-se para que o ninja a preparasse para mais aquele tormento, como sempre procedia, e saísse apressado dali sem trocar ao menos uma palavra de incentivo com a sua aprendiz.

Logo a hippie já estava deitada com as mãos pousadas desconfortavelmente por cima da barriga, tendo como única companhia a expectativa de sua próxima alucinação. O que mais poderia existir de oculto dentro de si mesma que ela ainda não teria visto e provado? Parecia ousado demais crer que a nova visão não a assombraria, mas era assim que Alice se sentia... Dentro dela perpetuava uma certeza sólida e irrefutável de que sua mente já havia lhe pregado todas as peças possíveis, e que talvez a droga não a afetasse tanto quanto nas experiências anteriores que experimentou com o Gás do Medo.

E aquela certeza durou apenas pelo tempo em que Alice se manteve consciente de seu corpo, apenas antes que a droga inalada intoxicasse cada ínfima porção de seu ser...

...E por fim, tudo resumiu-se a tormento.

Um grito rasgava a minha garganta enquanto eu caía cada vez mais rápido na direção do mesmo nada que me era tão familiar naquelas circunstâncias. Não havia qualquer controle sobre o meu corpo que me permitisse suportar aquela sensação perturbadora da queda, que se prolongou por um tempo desesperador...

Meus olhos se fecharam com força perante a violência com que o ar resistia à minha passagem, e eu apenas me sentia apta a continuar gritando, como se isso fosse capaz de me eximir da brutalidade da queda.

Caí por cima do meu braço direito, e a dor foi tão real e lancinante, que eu sabia que num plano material alguns ossos teriam se partido, talvez até se esmagado. Me coloquei de pé instantaneamente, curiosa com o ambiente desconhecido que me cercava... Era a primeira vez que o Gás do Medo me levava a um lugar além da minha própria memória, além do meu conhecimento, e talvez até além da existência física.

O assoalho de madeira fosco rangia baixo ao comando dos meus passos, mas nem de longe era o piso que mais chamava a minha atenção naquele espaço fechado... A minha fascinação estava toda direcionada para aquilo que deveriam ser as paredes, mas que eram ocupadas por enormes seis espelhos, tão altos que a visão quase não alcançava o seu fim, dando à lateral do recinto um formato hexagonal. Cada espelho convergia vários metros acima de minha cabeça, até se encontrarem no topo e formarem uma ponta envidraçada pelo material refletor.

E apesar de ser uma visão estonteante, algo se agitou na boca do meu estômago...

Minha boca se entreabriu de surpresa com a percepção de estar completamente envolvida por vários reflexos de mim mesma, que curiosamente não imitavam meus movimentos e expressões, apenas mantinham os olhos fixos em mim. Caminhei sorrateira até o maior dos reflexos, que me encarava com muito mais intensidade do que eu sabia que meu olhar transmitia. Estanquei diante da inusitada visão, quase com vontade de me encolher perante a soberania daquele ‘eu’ que me fitava de maneira oblíqua.

Os olhos dentro do espelho tinham exatamente a mesma tonalidade escura que o meu, mas era impossível me reconhecer dentro deles. Ou talvez eu só quisesse acreditar que a semelhança entre os dois era inexistente...

O par de íris cor de ônix revelavam um brilho cruel, frio, distante... Sórdido! Chegou uma hora em que sustentar aquele olhar tornou-se insuportável, mas por alguma razão eu era incapaz de desviar-me daquela cena mais do que hipnotizante.

O cabelo da minha versão espelhada esvoaçava continuamente, como se as mechas castanho claras estivessem submetidas a uma brisa suave, dançando ao comando de um vento sorrateiro. Um vestido negro e justo recortado num valoroso decote caía sobre as curvas da minha imitação, deixando meus ombros à mostra naquelas alças grossas ao estilo frente-única.

A pele do meu reflexo parecia feita de cera, chegando a exalar um brilho altivo nos pontos de maior manifestação luminosa, recriando os meus traços quase amarelados por aquela cor tão específica e reluzente da parafina. Era sem dúvida a minha imagem ali, só que inegavelmente mais majestosa com aquela postura inabalável de força e crueldade. Um sorriso atroz brotou naqueles lábios extremamente vermelhos, e a voz que se seguiu tinha o mesmo timbre que a minha, porém era revestida de uma displicência quase pedante.

A única semelhança maior entre aquela visão e eu mesma, era a roupa que nos vestia, apesar daquele vestido cair inegavelmente melhor no outro e melhorado eu.

_ Eu esperava por você – enviesou ainda mais o sorriso, despertando calafrios pelo meu corpo ao ouvir aquela frieza musical sair de meus próprios lábios.

_ Esperava, é? – perguntei, confusa, admirando aquela miragem quase sem fôlego. Apesar de me reconhecer naquela imagem, parecia impossível me identificar dentro de feições tão soberbas e rudes, tão cheias de si, tão... sedutoras!

_ Estava ansiosa para ter a minha chance com você – explicou-me, porém suas palavras apenas fizeram aumentar ainda mais a minha confusão – Já estava inquieta por um pouco de... verdade! – riu, e aquele som foi no mínimo perturbador.

_ Do que diabos você está falando?

_ De você, Alice! Mulher estúpida, fraca, confusa, insípida. Você!

_ É um prazer te ver também, alter-ego! – acenei tediosamente para o meu reflexo, freando um bufar irônico que quase me escapou.

_ Alter-ego? – a minha cópia gargalhou, parecendo verdadeiramente divertida com a minha interpretação dos fatos – Não, sua tola! Eu não sou uma personalidade destacada da sua... Eu sou você! – corrigiu, ampliando o sorriso.

_ Se você fosse eu... – principiei, apontando para o reflexo e depois para mim – ...você não teria essa cara de psicopata e muito menos esse cabelo invejosamente mais brilhoso. Wow, qual marca de shampoo você usa? – lancei a pergunta como pura zombaria.

_ Eu sou a parte de você que repudia cada indício da sua fraqueza. Eu sou os instintos que a vida inteira você tentou suprimir. Eu sou a única porção de você que vale a pena mostrar, mas que você insiste em esconder!

_ Ah, não brinca? – retaliei, visando camuflar o tamanho da minha insegurança num riso pungente, tentando emanar a mesma autoconfiança daquele outro eu que me lançava um olhar sarcástico e firme de sua própria capacidade.

_ Você é patética – sorriu – e se quiser começar a tomar as atitudes certas, precisa prestar mais atenção na parte de você que sou eu. Precisa parar de me ignorar.

_ Oi? Desculpa, o que você estava dizendo mesmo? – tripudiei, mais como uma forma de tentar tirá-la do sério do que uma tática defensiva que normalmente estava por trás das minhas piadas e constantes zombarias.

O meu reflexo resplandeceu ainda mais ao soltar um riso desregrado e ao mesmo tempo elegante, bem diferente da minha própria risada escandalosa e desajeitada. Ela – ou eu, eu já não sei mais se a distinção cabe naquela comparação – caminhou graciosamente pelos outros espelhos, fazendo-me notar pela primeira vez que os outros reflexos de mim haviam sumido.

Um sorriso indócil adornava o belo rosto daquela imagem de mim mesma, deixando-a com um ar indomável e misterioso, que por si só era capaz de tirar o fôlego com o tamanho da amplitude que decorava aquele repuxar promíscuo dos lábios vermelho-sangue por trás do espelho.

_ É exatamente esse tipo de atitude que faz de você uma completa incapaz. Porque não consegue encarar nenhum assunto com seriedade. Assim como as pessoas que a rodeiam. Por isso todos se machucam perto de você.

_ Não necessariamente – defendi-me sem muita convicção, buscando algum exemplo que desmentisse aquela acusação, mas ele simplesmente não me veio em mente, talvez por nem ao menos existir...

_ Veja por si mesma, Alice. Em todas as infinidades de seus relacionamentos você não foi capaz de preservar um único sequer. Seu irmão, por exemplo – ilustrou, e para o meu completo desespero, a imagem magra e ligeiramente descabelada de Will se materializou no espelho ao lado do meu reflexo, fitando-me com um olhar desfocado que eu interpretei como indiferença – Você nem mesmo foi capaz de manter a promessa que fez a si mesma de ajudá-lo. Sua única família antes do filho que você matou, e você simplesmente o abandonou à própria sorte malograda.

Eu estremeci, não exatamente com a acusação proferida, mas ao perceber que aquele confronto comigo mesma seria uma carnificina injusta. Não havia qualquer defesa passível de crédito para aquele tipo incontestável de lógica, simplesmente porque aquela era eu, e eu me acusava... Chegava a ser esdrúxula a facilidade com que eu me acuava perante os efeitos daquele maldito Gás do Medo, que escancarava meus temores mais profundos sem conceder-me uma única chance de defesa...

_ E o que você fez por Logan se não negligenciar sua carreira e desrespeitar tudo o que ele arriscou ao simplesmente fugir de sua presença? – ao lado de meu irmão, a imagem do psiquiatra surgiu assim que o seu nome foi citado, também me encarando com a mesma atenção que destinaria a um inseto inconveniente. A outra Alice passou lentamente a língua pelos lábios rubros, como se saboreasse internamente a aversão estampada em meu rosto – E o que falar da sua tentativa patética de ser mãe? – riu alto, como se acabasse de contar uma piada a si mesma. A imagem diminuta e encolerizada de Krusty ocupou o espelho ao lado de Logan – Você deixou bem claro que a sua incompetência não tem limites quando permitiu que ele morresse por sua culpa. – fez uma pausa, saboreando em silêncio a minha dor em forma de impotência – Lembra-se do seu antigo professor, Aldo? Aquele homem que por toda a vida você admirou por resgatá-la daquele covil repleto de freiras displicentes. O homem que você jurou que um dia orgulharia, que faria jus à cega confiança que ele depositava em você... Mas, no entanto, a última visão que o virtuoso professor teve de sua prodigiosa aluna foi o momento vergonhoso da sentença que a levou ao Asylum Arkham – prosseguiu, sempre indolente, exalando veneno em cada sílaba e expressão, e à medida que o meu reflexo ditava aqueles nomes, suas respectivas imagens se formavam em um dos cinco espelhos ainda desocupados – E, por fim, o que podemos dizer do célebre Bruce Wayne e sua identidade secreta, o não menos famoso Batman? Um homem gentil, disposto a ajudá-la de uma forma que ninguém mais poderia, e como você o retribui? Fazendo-o acreditar que você está num caixão! Permitindo que a culpa de não conseguir salvá-la repousasse sobre seus ombros já tão carregados, tão fatigados pelas perdas e responsabilidades...

_ Cala a boca! – manifestei-me, finalmente lembrando que eu tinha voz – Se você realmente fizesse parte de mim, saberia que eu fiz de tudo para...

_ Salvá-los? Protegê-los? Poupá-los? Resguardá-los? – questionou, soltando uma risada irritante de deboche, reclinando a cabeça para trás em um gesto gracioso, quase malévolo ante a minha posição desfavorável e ferida – Aceite, Alice, você foi um fracasso. Você é um fracasso! Se ao menos tivesse considerado reclinar-se aos seus instintos... Se não fosse tão fraca... Estas sombras daqueles que você diz que ama ainda poderiam levar uma vida normal, sem os constantes retrocessos em suas vidas causados única e exclusivamente por você. Porque você, Alice... Você não é nada.

_ Então suponho que estejamos no mesmo barco – retruquei, sentindo um atordoamento surreal se apossar de meu corpo à visão daqueles cinco espelhos me rodeando com os reflexos daqueles que foram citados pelo meu outro eu, encarando-me com feições perturbadoras, como se eu não passasse de um amontoado fétido de carniça...

_ Eu navego noutras águas... – sorriu debochadamente, estreitando de leve os olhos fulgurantes repletos de desafio, e como aquilo me irritou! Eu inventei aquela expressão desprovida de respeito, era eu, e somente eu, quem deveria estar por trás do sorriso desinteressado e zombeteiro, e não vê-lo direcionado para mim! – Mas eu não espero que você compreenda no que consiste se desfragmentar dos próprios medos. Você já se mostrou há muito um caso perdido.

_ Ah, sendo assim eu te ajudo a se ‘desfragmentar’ um pouco mais, ô, versão pela-saco de mim! – rosnei em resposta, atirando o sapato preto de salto fino que me calçava na direção do espelho que abrigava o meu reflexo, mirando imediatamente abaixo do decote.

Porém, assim que se deu o impacto, meus olhos praticamente saltaram das órbitas, apreensivos com o que se seguiu. O salto preto estava fortemente cravado no material espelhado da outra Alice, contudo...

...era eu quem estava dividida, literalmente aos cacos, como se a minha própria pele não passasse de um material facilmente quebrável. Meu corpo adquiriu a estranha forma de um mosaico com aquelas fissuras que marcavam e separavam minha pele antes interligada, redobrando o meu desespero.

Eu encarava minhas mãos como se pudesse religar os espaços vazios das trincas apenas com o olhar. Levantei os olhos para o meu reflexo, que me amaldiçoava com um sorriso oblíquo de contentamento, visivelmente deliciada por testemunhar a derrota que eu mesma me infligi.

_ Ah, Alice... Tentar me atingir implica em sofrer as consequências. Porque você sou eu!

Àquelas palavras, tudo o que eu poderia querer era resignar-me dentro de minha própria invalidez, fechar os olhos e me encolher de fúria pela minha indiscriminada estupidez que sempre me induzia ao erro, à perda, ao fracasso... Mas nem mesmo isso eu poderia fazer, simplesmente porque não conseguia me livrar do encarar assombroso que cada reflexo nos outros cinco espelhos despejavam em mim. William, Logan, Krusty, Aldo e Bruce, cada rosto exatamente nessa ordem me fitando com a mais pura e cruel repulsa, e no sexto espelho a outra Alice, que ainda sorria abertamente na minha direção.

Às vezes, uma única palavra é forte o suficiente para mudar toda uma vida. Mas, para mim, bastou a plenitude do silêncio daquela cena mórbida ardendo em minhas retinas.

Sayid encarava o rosto adormecido de Alice, notando que ele era marcado por leves traços abatidos, como se os músculos faciais da mulher estivessem retesando-se por conta de algum pesadelo. O ninja circundou lentamente a maca em que a hippie ainda se mantinha desacordada, imaginando que tipo de tormento poderia causar aqueles breves espasmos musculares pelo corpo de Alice.

Ficou realmente impressionado quando descobriu que Alice estava sendo submetida àquele tipo doloroso de treinamento, experimentando doses periódicas de seu mais profundo e cru medo... Até mesmo para ele, que se vangloriava por concluir seu treinamento ninja com êxito, parecia pesado demais se ver à mercê dos efeitos de tal droga.

Mas, ainda que uma parte de si admirasse silenciosamente a disposição de Alice em uma quietude consternada, ainda assim Sayid a via como uma ameaça para a Liga das Sombras, como uma frívola perda de tempo que nublava a visão do Ra’s Al Ghul. Simplesmente porque o seu supremo líder estava cego diante do treinamento de Alice, dando muito mais atenção àquela mera aluna do que já havia destinado a qualquer um dali, chegando até mesmo a ignorar algumas necessidades vigentes na Liga para concentrar-se apenas naquele treinamento em especial.

Como por exemplo, retirar Sayid de suas próprias obrigações para servir de vigia àquela insultante presença, como se ele mesmo não passasse de um reles guarda costa...

Ele ainda encarava Alice, quando seus olhos acidentalmente pousaram sobre o pescoço da hippie, puxando-o para novos devaneios. Um formigamento de ansiedade preencheu-o ao se dar conta do quanto aquela estrutura cilíndrica era frágil, vulnerável... Abrigava veias, artérias, traqueia, espinha cervical, cada uma dessas estruturas desempenhando um papel de suma importância para a sobrevivência, porém envolvidas por aquela combinação tão delicada e rarefeita de carne.

Era tentador cogitar a hipótese de acabar de vez com aquele estorvo que Alice havia se tornado para a rotina antes tão regrada da Liga... bastava apenas uma pressão a mais em sua garganta, e talvez tudo voltasse ao normal! Não haveria gritos, protestos, nada. Alice apenas não acordaria mais, e Sayid ainda poderia sugerir que sua súbita morte fora causada por uma overdose graças às doses exageradas que a hippie andava consumindo do potente alucinógeno.

Tudo pela saúde da Liga das Sombras...

Os dedos do ninja pressionaram de leve o pescoço da hippie, e a outra mão logo se ocupou em impedir a passagem do ar pelo nariz. Alguns segundos se arrastaram antes que as pálpebras da hippie se levantassem, revelando um desespero no fundo de seus olhos que desconcertou Sayid. Aquele brilho facínora mesclado a um curioso desalento era o que predominava no fundo das íris escurecidas da hippie, sentimentos fortemente propulsionados por mais aquela visão causada pela droga.

Por um segundo, Alice despertou ainda dominada pelos efeitos perversos do Gás do Medo, mas bastou um curto intervalo de tempo para que ela intuísse o desígnio de Sayid, que tentava bloquear as vias aéreas da hippie, porém o olhar do ninja parecia estranhamente perdido dentro dos olhos de Alice, como se os visse pela primeira vez ao presenciar aquela infinita rede na qual se teciam os sentimentos mais complexos... Medo, desalento e ao mesmo tempo uma indiscutível força, força esta que ele jamais associaria àquela mulher.

Uma sensação de ira se apossou da hippie, que reuniu cada fagulha de determinação e investiu contra o ninja, empurrando-o para o chão e sentando sobre o seu forte quadril numa tentativa de imobilizá-lo. Suas costas se projetaram para frente assim que ela limitou-se a aderir os braços de Sayid bem rentes ao chão.

_ Pensando em me matar, Sherazade? – sua voz soou rouca, apesar de muito mais controlada do que Alice previu.

_ Sempre perspicaz. – Sayid debochou, repuxando seus lábios em um meio sorriso, levemente surpreso com a energia daquela pequena mulher – Você tem potencial... – levantou-se de um pulo, empurrando com violência o corpo de Alice junto à parede, prendendo seus ombros com força – ...mas ainda é só uma novata!

_ Filho da mãe-bomba! – piscou, atordoada com a investida repentina. Sayid era ainda mais rápido do que Ducard, mas certamente não era tão ardiloso. – Resolveu se bandear para o ramo do terrorismo aterrorizando moças indefesas por aí? Aposto que toda a sua família ficaria muito orgulhosa, se quer saber... O pequeno Sayid seguindo os passos do vovô Bin Laden – estreitou os olhos em desafio, ainda com a imagem de seu próprio reflexo aperfeiçoado e cruel gravado nos confins de seu cérebro.

_ Depende do ponto de vista. Aos seus olhos pode parecer terrorismo, mas garanto que se ver livre de você é a melhor providência a ser tomada em prol da Liga das Sombras.

_ Então por que não deseja isso ao gênio da lâmpada, Aladim?

Alice cravou as unhas no bíceps do ninja, sorrindo de um jeito falsamente doce em seguida. Sustentou todo o peso de seu corpo naquele aperto, erguendo as duas pernas em um chute duplo que fez a cabeça de Sayid ser jogada para trás com a força do impacto. O ninja cambaleou alguns passos, e logo a hippie já estava livre de seu aperto.

Não mais do que dois segundos depois, Alice alcançou a saída, permitindo-se rir com a raiva em evidência nos olhos do ninja, que a encarava em total perplexidade. Ótimo! Já estava mais do que na hora de todos ali darem crédito aos seus esforços na Liga das Sombras. Retirou-se da sala do Gás do Medo, mal sabendo que jamais voltaria a colocar os pés naquele lugar.

_ Duas tentativas de homicídio em um único dia... Cacete, eu sei mesmo como socializar! – disse a si mesma enquanto entrava em seu quarto e trancava a porta com cuidado.

Alice olhou o ambiente em volta, desconfiada com a indiscutível falta de segurança em seu próprio dormitório. Afinal, o homem da máscara metálica ainda poderia estar lá, esperando pacientemente para terminar o que não teve oportunidade de concluir mais cedo... Depois de alguns minutos estática, mergulhada no mais profundo silêncio e considerando essa hipótese, Alice relaxou um pouco, sabendo que se o protótipo de Darth Vader ainda se escondesse lá, já teria no mínimo se manifestado.

Um suspiro exausto a fez cerrar os olhos, que pareciam estar em brasa.

Alice caminhou até o espelho do banheiro de seu quarto, temendo por um momento encontrar aquele reflexo malévolo que protagonizou sua última alucinação com o Gás do Medo. Uma careta brotou em seu rosto ao se deparar com sua própria imagem cansada, sem qualquer vestígio da altivez e beleza daquela porção obscura de si mesma.

_ Espelho, espelho meu... – dirigiu-se ao material refletor com autoridade – Existe alguém mais fodida do que eu? – lançou a pergunta de forma categórica, deixando a voz relativamente mais grossa ao responder à própria interrogação – Não, Alice! Dentre todos os hippies, dentre todos os ninjas de todos os reinos, tu és a mais fodida de todas!

Notas finais
Sei que o treinamento da Alice já está cansativo, mas esse "mergulho interior" é um ponto crucial da fanfic, e ok, eu confesso que o Barbicha é um vilão (ou anti-herói) que me fascina, quase tanto quanto a Libélula Saltitante (saudade de usar esse apelidinho sem-vergonha... =P), por isso eu mesma não tenho tanta sede assim pelo retorno ao Asylum Gotham. Ou seria Arkham City? xP (Trocadalho do carilho... hehehehe)