A Face Oculta Da Lua
25 Call My Name And Save Me From The Dark
Notas iniciais
O corpo de Alice tremia em ondas irregulares de espasmos conforme ela continuava caminhando pelas ruas de Gotham, tendo como única companhia a grossa chuva que caía, densa, encharcando-a dos pés à cabeça, e vez ou outra um novo trovão que chegava iluminando o seu caminho numa rajada de luz que parecia atravessar o céu e dividi-lo, anunciando um novo e barulhento estrondo logo em seguida à explosão luminosa.
Não sabia deduzir há quanto tempo andava, mas a julgar pela queimação nos músculos de suas pernas, concluía que no mínimo algumas horas. E a cada minuto, parecia que a escuridão ficava mais e mais densa, como se fizesse oposição à passagem da estranha mulher, que ainda cismava em avançar sobre as ruas úmidas, geladas e escuras como a noite...
... Mas Alice já estava acostumada ao negro. Até mesmo sentia-se mais aconchegada nos momentos em que apenas a Lua trazia alguma luminosidade.
Não havia a mesma afinidade pela claridade que nascia junto ao Sol, anunciando um novo dia. Era somente quando a cidade dormia, que Alice sentia-se despertar.
Ela estancou momentaneamente, levantando os olhos para apreciar melhor o rumo funesto que seus pés haviam tomado. A ninja afastou uma mecha de cabelo ensopada pela chuva de perto de seus olhos, ainda hesitando em prosseguir, detendo-se apenas a admirar com raiva o galpão que protagonizou a maior de todas as suas dores.
Era incrível como aquele deteriorado prédio ainda mantinha-se de pé depois da explosão que quase matou Alice... O lugar estava aos cacos, totalmente enegrecido e repleto de suas próprias madeiras largadas ao chão, mas ainda assim sobreviveu ao fogo, alto e resistente.
A ninja afastou alguns dos tocos de madeira que fechavam parcialmente a passagem, abrindo apenas o caminho necessário para que seu pequeno corpo passasse. Teve que abaixar a cabeça ao ultrapassar o batente tombado da porta, evitando roçar nas farpas soltas que despontavam em fileiras desorganizadas ao longo da madeira.
Sentiu-se novamente tremer ao livrar-se da chuva, mas não do frio que ficara impregnado em si junto com as águas pluviais que ainda caíam com vontade sobre as ruas e telhados.
Esfregou os braços, vendo pouco resultado no gesto, e novamente começou a andar, tendo que estreitar as pálpebras por várias vezes para conseguir enxergar o caminho escuro que traçava. Mas assim que suas pupilas ajeitaram-se ao completo breu, ela avançou rápida e sorrateira, como a verdadeira ninja que era.
Chegou sem maiores dificuldades no pedaço do galpão que havia sido o palco do assassinato de Krusty, revivendo as mais cruéis lembranças ao reconhecer o lugar. Ela sentou-se de frente ao ponto exato em que o corpo de seu menino havia ficado, encarando aquele espaço vazio com o mais significativo dos olhares. Por um momento, esqueceu-se dos tremores.
Nem uma única lágrima caiu de seus olhos duros quando suas mãos foram de encontro ao pedaço do chão frio que, há vários meses, abrigou um corpo infantil e sem vida. Alice abraçou suas pernas, ainda encarando fixamente aquele único ponto, como se pudesse voltar no tempo e tentar mudar o passado.
_ Eu sabia que a encontraria aqui! – a voz de Batman chegou meio hipnótica aos ouvidos de Alice, mas ela sequer alterou sua posição ou levantou o olhar na direção do Cavaleiro das Trevas.
_ E como você poderia saber? – perguntou, sentindo o queixo tremer conforme falava, fazendo seus dentes baterem algumas vezes.
_ Eu simplesmente soube! – avisou, sentando-se ao lado dela sem jamais desviar os olhos atentos do rosto extremamente pálido da hippie – Eu mesmo já vim muito aqui quando pensei que você estava morta. – contou, e para o espanto de Alice, retirou a máscara de morcego e deixou à mostra suas verdadeiras feições, encarando-a mais abertamente.
_ Por favor, me dá uma trégua hoje... Pelo menos hoje... – pediu, sentindo-se exausta demais para retomar aquela mesma discussão entre eles – E coloca de novo esse negócio! – apontou para o disfarce, incomodada demais com a exposição ao qual o próprio Bruce se submetera de forma tão inconsequente.
_ Por mim, essa trégua se transforma num acordo de paz – sorriu de forma gentil, aproximando-se um pouco mais de Alice e diminuindo o tom de voz como se quisesse segredar algo –, e eu me sinto meio estúpido usando essa máscara com alguém que conhece a minha identidade. Não se preocupe, ninguém vem aqui.
_ Mesmo assim, não gosto disso. Do jeito que eu sou azarada, é bem provável que todos os vilões de Gotham decidam fazer uma conferência, confraternização, inimigo secreto, ou sei lá o quê, justamente aqui e agora. Já perdi gente demais, Bruce, coloca de novo essa máscara, por favor.
_ Eu coloco se você me acompanhar para fora do galpão... – barganhou, estendendo-lhe uma mão.
_ Não posso sair daqui. Não ainda... – fitou novamente o ponto em que Krusty caiu, e pensar em ir embora era como abandoná-lo de alguma forma – Bruce... Eu nem sei onde o meu menino foi enterrado, ou o que foi feito com o corpo dele. Gordon me tirou até o conforto de velar por meu filho. Deve ter se livrado dele como faria com um indigente, só pra evitar perguntas constrangedoras.
_ Eu entendo, Alice, mas ficar aqui remoendo o passado infelizmente não vai mudá-lo. Vamos, você precisa se secar e se aquecer. Por favor. – levantando-se e convidou-a a fazer o mesmo ao oferecer novamente sua mão como apoio.
_ Eu não quero voltar agora. – tremeu novamente, teimosa – Aqui eu ainda posso ser só a Alice... Só uma pessoa normal que pode se deixar levar por algumas fraquezas. Lá eu tenho que ser a Ra’s Al Ghul. A líder inabalável e forte. Só preciso de mais um tempo como Alice, e depois eu volto para o caos.
_ Mas eu não disse que a levaria de volta àquele albergue. Pelo menos não antes de conversarmos! – sorriu um daqueles sorrisos irresistíveis, arrancando um leve e sutil repuxar nos lábios de Alice, que finalmente segurou a mão estendida de Bruce e cedeu ao seu apelo – Acho que você concorda que precisamos de uma conversa civilizada, não? Sem acusações, sem brigas, sem discussões ou explosões. Apenas uma conversa.
_ Podemos tentar... Mas eu não garanto que você tenha essa capacidade – brincou, satisfeita com a proposta. Era o que Alice queria desde o começo; apenas uma conversa, sem maiores pretensões ou preocupações quanto ao seu rumo.
_ Mas antes, você precisa de um bom banho quente! – sorriu com gentileza, friccionando as luvas de couro nas mangas compridas da encharcada túnica de Alice, numa tentativa de esquentá-la com o atrito. O corpo da ninja tremeu novamente, mas dessa vez não por culpa do frio.
~*~*~*~
O Batmóvel soltava um ronco tão potente e agradável quanto o seu interior repleto de esplendor e de uma tecnologia que encantou Alice. Nada se comparava a estar dentro daquele tanque. E nada se comparava a estar com ele.
_ Se você me dissesse que a carona seria no seu brinquedinho de quatro rodas eu já teria saído do galpão faz tempo! – brincou, fazendo Bruce rir – E aliás, quando vai ser a minha vez de dirigir? – sorriu cheia de más intenções.
_ Quando eu tiver a intenção de destruir a cidade, talvez – fitou Alice de soslaio com um olhar divertido, rindo em silêncio por sua expressão indignada.
_ Eu devia saltar do carro agora mesmo! Só não faço isso porque sempre quis andar nesse troço! Então tudo bem, eu te perdoo... – avisou num tom brincalhão, encarando o lado de fora da janela que parecia passar voando num risco borrado por eles – Aonde estamos indo? – franziu a testa com o trajeto completamente desconhecido.
_ À Mansão Wayne... Segure-se! – avisou rápido, aumentando a velocidade do Bat-Móvel a um tempo estúpido. Alice sentiu-se ser jogada pra trás com força enquanto o ponteiro do velocímetro apenas subia cada vez mais acelerado sem encontrar qualquer resistência.
_ Bruce, não dá pra passar por aí! – Alice advertiu, aflita ao ver que o Bilionário ia de encontro a uma rua sem saída que terminava num enorme abismo e ia direto a uma farta cachoeira, separadas por um largo espaço entre as duas, e ainda fazendo crescer a velocidade do enorme tanque preto.
_ Claro que dá, eu sou o Batman, esqueceu? – riu desdenhoso, chegando finalmente à iminência do abismo com uma velocidade ainda maior.
Alice sentiu o momento exato em que as rodas deixaram o chão, aquele momento em que segurar o volante se torna algo completamente inútil. A ninja virou os olhos incrédulos para Bruce, desacreditando que ele os faria bater numa cachoeira por nenhum motivo para explicar o ato. Alice segurou-se com força no banco ao ver o baque se aproximar, imaginando se haveria muitas pedras por trás daquela cortina de água corrente.
Esperou pela pancada, mas ela não veio. O Batmóvel atravessou toda a cachoeira e caiu com perfeição sobre o chão de uma suja e barulhenta caverna, cantando pneu ao frear. Bruce a encarava com enorme diversão, sem esconder a zombaria de seus olhos.
_ Imbecil! – xingou, sentindo o coração palpitar com um intenso frenesi – Podia ter me avisado que isso ia acontecer!
_ Podia... – concordou, ainda rindo – Mas aí eu nunca saberia de fato o que você achou da nossa entrada.
_ Quer mesmo a minha opinião? Venda a Wayne Enterprises e abra um lava rápido aqui! – sugeriu, arrancando novas risadas de Bruce – Sabe, eu até ia pedir desculpas por ter encharcado todo o seu banco quando sentei nele com essa roupa inundada, mas acho que agora nós estamos quites – mostrou a língua, simulando birra.
_ Você devia sentir-se honrada... – avisou, saindo do Bat-Móvel e esperando até que Alice fizesse o mesmo para voltar a falar – Você é a primeira que eu trago para conhecer a minha caverna!
_ A primeira? – arqueou uma sobrancelha, duvidando.
_ Consciente, é a primeira! – corrigiu-se, repuxando um sorriso maldoso em seus lábios.
_ Que nojo de você, Bruce Wayne! – riu, seguindo-o para mais perto dos guinchos de morcego dentro da caverna.
Conforme caminhavam, Alice reconheceu um Alfred risonho vindo de encontro aos dois, e seu rosto imediatamente ruborizou-se até quase queimar de tão quente. Engoliu em seco ao ver-se fortemente observada por aquele par brilhante de gemas azuis.
_ É bom tê-la de volta ao mundo dos vivos, senhorita Alice – ele a cumprimentou com um aconchegante sorriso, parecendo sincero e em nada irônico apesar da interpretação dúbia que suas palavras poderiam gerar.
_ Alfred! É sempre bom vê-lo! Espero que não tenha sido muito difícil suportar o Bruce na minha ausência – sorriu, ainda acanhada por ter se feito de morta.
_ Ah, foi no mínimo desgastante, senhorita... – confessou, fazendo-a rir.
_ Tinha esquecido o quanto vocês formam uma boa dupla – Bruce adiantou-se, segurando os ombros gelados da ninja sobre a túnica úmida – Alfred, se importa de arranjar umas roupas secas e quentes antes que a Alice pegue uma pneumonia?
_ Certamente, mestre Wayne! – virou-se em direção à mansão, e os dois o seguiram em direção a um elevador que os levaria para fora da caverna.
Entrar novamente naquele lugar aonde tantas lembranças existiam fez um sorriso nostálgico brotar nos lábios de Alice. Bruce ainda tentava aquecê-la passando as mãos por seus braços, mal sabendo que estava fazendo um ótimo trabalho...
Conduziram-na até um dos vários quartos de hóspedes, onde Alfred lhe arranjou uma toalha macia e perfeitamente branca para que ela pudesse se enxugar após o banho. O mordomo retirou-se do aposento, indo buscar roupas secas que a servissem, deixando os dois a sós. Bruce parecia absorto demais na tarefa de retirar as luvas de couro das mãos, dedicando um tempo e concentração exagerados àquele gesto.
_ Fique à vontade! – disse por fim, soando melancolicamente formal – Quando estiver pronta poderemos conversar mais tranquilamente – encarou-a com um brilho novo nos olhos, como se quisesse dizer algo mais.
_ Bruce, eu...
_ Teremos tempo para isso depois, Alice – segurou seu rosto carinhosamente com uma das mãos, sentindo-o roubar todo o calor de seus dedos – Mas agora você precisa se esquentar e se livrar dessas roupas molhadas. Seus lábios e unhas estão roxos, e eu não pretendo enterrá-la uma segunda vez. – avisou, saindo rápido do quarto ainda com os trajes do Batman sobre o corpo, porém não tão rápido a ponto de não ouvir um suspiro frustrado vindo de dentro do cômodo.
Alice não tinha qualquer intenção de demorar-se naquele banho, mesmo com o alívio imediato e com o delicioso formigamento que a água quente provocava em sua pele completamente arrepiada e fria, sedenta por temperaturas mais altas.
Porém, naquela condição, não conseguia aproveitar nenhuma daquelas sensações. Sentia-se apenas aflita pelo que viria a seguir, e chamou-se mentalmente de tola por isso. Desde que retornou a Gotham, Alice esperava por uma conversa com Bruce, e agora que a oportunidade finalmente chegara, apenas sentia vontade de fugir, correndo o mais rápido que pudesse para a direção oposta, com medo do que ouviria.
Saiu do banheiro com novos tremores, encontrando sobre o canto inferior da cama um conjunto de moletom cinza perfeitamente dobrado. Vestiu-o, e em seguida sorriu largamente ao notar a agradável temperatura do tecido, como se Alfred tivesse acabado de passá-lo a ferro apenas para que ela se sentisse mais quente e despistasse o frio cortante que sentiu debaixo da chuva.
Secou o cabelo com pressa e impaciência, experimentando uma sensação singular de quando queremos que um momento nunca chegue e que ao mesmo tempo termine logo. Enfiou o celular no bolso largo do enorme casaco, e só então saiu do quarto, sem saber exatamente aonde deveria ir.
_ Bruce? Alfred? – chamou, sem receber qualquer resposta em troca – Alguém? – apenas sua voz ecoou ao longo do extenso corredor da mansão.
Dá pra sair de fininho sem ninguém notar! – cogitou em pensamento por algumas intermináveis frações de segundo, bufando em seguida – Alice, sua ridícula! Você cuspiu na cara da máfia com um sorriso no rosto e agora pensa em recuar por causa de uma simples conversa...
Respirou fundo, obrigando-se a continuar. A mansão parecia deserta, mas Alice tinha um palpite de onde encontraria Bruce. Caminhou receosa até o quarto do Bilionário, encarando a porta do cômodo munida de um interesse demorado e essencialmente covarde. Meneou a cabeça em derrota, aproximando-se do batente e dando leves socos na porta.
Tudo permaneceu no mais irritante silêncio e, sem resistir, Alice empurrou de leve a maçaneta até que uma pequena fresta estivesse aberta e lhe mostrasse uma visão limitada do quarto.
_ Bruce? – chamou, encontrando-o sentado em frente a um piano, absorto de tal modo nas teclas como se os maiores segredos da vida ali se revelassem.
_ Alice... – ele se levantou, parecendo um pouco pasmo. Foi em sua direção, sorrindo – Não esperava vê-la nas próximas duas horas. Você costumava demorar eras para se arrumar quando saíamos juntos. – escancarou a porta para que ela entrasse, dando um sorriso cretino e debochado. Ele agora vestia uma camiseta branca de manga curta que ressaltava de leve seus músculos e uma calça jeans azul e simples, mais à vontade do que Alice jamais vira.
_ Se você acha que vestir um conjunto de moletom é se arrumar, então considere que eu estou mesmo mais rápida nisso. – riu enquanto entrava no quarto com certo receio – Aliás, não sabia que você torcia para os Lakers! – estendeu o enorme casaco de forma a deixá-lo reto, encarando o nome bordado em roxo e amarelo.
_ Acho futebol americano um esporte interessante... – deu de ombros, sério. Alice o encarou com um sorriso pasmo e ambas as sobrancelhas arqueadas de espanto.
_ Bruce, é basquete! – avisou, sem saber se o Bilionário estava falando sério ou se fingia como uma forma de zombar dela – Lakers? MBA? Basquete? Aquele jogo em que você tem que arremessar uma bola para dentro de uma cesta... – caçoou, divertindo-se com as expressões de tédio que ele fazia.
_ Eu nem errei tão feio assim, no futebol americano a bola também tem que ser arremessada em algum momento do jogo – defendeu-se, e ambos riram de sua resposta completamente sem noção. Bruce sentou-se na beirada da própria cama e convidou Alice a fazer o mesmo. Ela o imitou, encarando-o ainda com um pouco de medo, sentindo-se talvez mais trêmula do que quando estava à mercê da chuva.
_ Antes que você diga qualquer coisa – ela se adiantou, pigarreando –, eu quero agradecer pela ajuda que você me deu com o Gordon. Se não fosse por você, acho que teria feito uma grande besteira hoje... Obrigada! De verdade!
_ Não por isso. Eu sei o quanto a tentação é grande, o quanto é fácil se deixar levar pela raiva do momento... Passei por uma situação muito parecida com o assassino dos meus pais. Por pouco não cravei uma bala no meio da testa dele no dia em que foi solto...
_ E o que o fez mudar de ideia?
_ Nada... – fitou-a com um sorriso que parecia envergonhado – Na verdade, eu teria atirado sem pensar duas vezes. Mas os acontecimentos não foram favoráveis. Um segundo antes que eu pudesse agir, outra pessoa fez o serviço. Uma mulher que trabalhava para o Falcone. – contou – E depois disso, eu tive quem me alertasse do quanto fui errado em cogitar matá-lo, e do quanto meus pais teriam se decepcionado com esse comportamento.
_ Rachel? – perguntou sem conseguir conter-se.
_ Sim, Rachel. – confirmou sem hesitar, parecendo tentar perscrutar qualquer reação de Alice – Achei que você merecia a mesma cortesia que me foi oferecida quando eu precisei.
_ Bruce?
_ Hnm?
_ Eu sinto muito. Sinto muito ter feito você acreditar que eu estava morta. Sinto muito por ter te deixado no escuro. Por não ser corajosa o bastante para aceitar a sua ajuda e ao invés disso fugir de tudo... Por fazê-lo acreditar que você tinha perdido tanto a mim quanto a Rachel. Espero que um dia ainda consiga esquecer tudo isso!
_ Eu também devo me desculpar, Alice! – segurou as mãos da ninja entre as suas, agora sentindo-as mais ou menos na mesma temperatura – Eu fui um cego. Devia ter percebido antes que suas dores foram bem parecidas com as minhas, e suas necessidades também. Desculpe por demorar tanto a perceber...
Alice analisou por alguns segundos o rosto de Bruce, sem notar que se deixava aproximar dele, quase como se fosse vítima de uma atração há muito contida, agora liberada e forte o bastante para ter vontade própria. Sentiu a maciez aconchegante daqueles lábios sobre os seus, levando uma mão até seus negros cabelos e aproximando-se mais de seu corpo.
A ninja sentiu-o tenso e enrijecido, como se o mais simples gesto de tocá-la lhe causasse uma dor insuportável. Bruce não tentou impedir o beijo, mas sua testa fortemente franzida e o movimento duro de seus lábios foram recados mais do que suficientes para Alice. Ela se afastou, sentindo-se corar pela indisfarçada rejeição que experimentou.
_ Desculpe... – pediu, sem encará-lo, o rosto ardendo em intenso rubor – Melhor eu ir embora! – fez menção de que iria se levantar, mas Bruce a impediu, pousando uma mão sobre sua perna para evitar que ela pudesse se afastar mais.
_ Alice... – ele deu um breve sorriso que precedeu um suspiro – Sabe qual foi a minha maior frustração quando eu pensei que você estava morta? – perguntou, voltando a entrelaçar suas mãos como se fossem uma única. Ela negou com a cabeça sem pronunciar qualquer palavra, apenas mantendo o olhar baixo – Eu nunca disse que a amo. – avisou, e a ninja levantou os olhos na direção do Bilionário com um apertado nó na garganta – E pensar que eu nunca mais teria a chance de dizer foi como se enfrentasse um novo tipo de perda. Mas eu não posso me enganar, Alice. Você nunca sentiu o mesmo, não por mim.
_ Bruce, me escute...
_ Eu preciso saber de uma vez o que exatamente você sente pelo Coringa. Acho que conquistei esse direito depois de tudo pelo que passamos.
_ Quer mesmo saber? – Alice deu um sorriso triste em nenhuma direção, já tendo aquela resposta há algum tempo, ou pelo menos imaginando que aquela resposta fosse a que mais se aproximava da verdade que ela tanto buscara e temera – Se você me fizesse essa pergunta até uma semana atrás, eu sinceramente não saberia o que dizer. Mas hoje eu entendo porque me deixei levar tantas vezes pelo Coringa... De certa forma, eu me reconhecia nele. Uma pessoa instável, cheia de conflitos internos, alguém que se resume a problemas. Mas nem de longe esse é o principal motivo... – mordeu o lábio inferior, sem saber se deveria prosseguir.
_ E qual é? – instigou-a, dono de um conjunto de feições que se traduzia em profunda tristeza.
_ Você... – lançou, reprimindo a boca numa linha reta, como se pudesse engolir o que havia dito e fazê-lo se esquecer daquela conversa.
_ Como? – Bruce perguntou, agora boquiaberto e dono de um tom que substituiu a amargura pela dúvida, visivelmente surpreso e ao mesmo tempo confuso com a resposta.
_ Sempre foi você, Bruce, sempre, mas eu só percebi isso tarde demais. A cada vez que eu cedia ao Coringa, era porque me sentia dominada pela certeza de que eu não te merecia, e de que jamais poderia almejar merecer. Coringa era a minha válvula de escape, e se eu tivesse enxergado isso antes... – suspirou, balançando a cabeça em negativa, deixando a frase morrer – Era como se eu me convencesse a tê-lo por saber que jamais teria você, por acreditar que apenas ele seria capaz de conviver com o que eu realmente sou. Existe sim algo em Coringa que me atrai, talvez a autenticidade que eu queria para mim, não sei... Mas a cada vez que eu me deixei fraquejar por sua presença foi porque te via cada vez mais longe e inatingível. – abaixou os olhos em vergonha, brincando compulsivamente com as próprias mãos que suavam frio sobre seu colo, a garganta ameaçando fechar para nunca mais abrir-se – A primeira vez que eu dormi com ele foi logo depois que Ducard me contou que você era o Batman. Foi como te ver partir para um lugar ainda mais distante de mim! Eu já tinha uma forte desconfiança de que não era boa o bastante pra você, mas depois de uma notícia dessas, passei a ter certeza, e me entreguei aos caprichos do Coringa, caprichos que até então eu achava serem meus também, mas que na verdade não passavam de uma visão errada. Houve uma segunda vez... – contou, umedecendo os lábios para depois engolir em seco, ciente de que tais confissões apenas o afastaria ainda mais – Que foi logo que você descobriu que eu estava viva. Nunca me senti tão mal quando vi aquele seu olhar sobre mim, mesmo sabendo que era o que eu merecia, e mais uma vez experimentei a verdade que me dizia que você não era pra mim, e que eu deveria me contentar com alguém como eu. Alguém como Coringa.
_ Como pôde se comparar a ele, Alice? Como pôde pensar que não merecia algo melhor?
_ Porque eu sei, Bruce. Eu simplesmente sei. Fiz coisas terríveis com aqueles que eu amo, deixei que as vidas ao meu redor se afundassem junto com a minha. Quase matei um homem por minhas próprias mãos... Se você não tivesse intervindo, a essa altura eu já teria nas mãos o sangue de Gordon. Eu sei que tudo isso é estranho demais para assimilar, mas por favor, não pense que eu nunca me importei com você... Você foi a melhor coisa que já me aconteceu! – avisou-o, sem evitar o pesar que a frase adquiriu de forma não intencional, seu peito pesando como se ali dentro não tivesse um coração, e sim um pedaço inflexível de chumbo.
_ Todos nós já fizemos coisas horríveis para tentar aplacar a dor. – rebateu, apertando com ainda mais força os dedos da hippie – Isso não a torna melhor ou pior, apenas a torna humana. O problema não é errar, Alice, o que realmente importa é a capacidade de admitir os erros e tentar consertá-los.
_ Tá vendo? – a ninja riu, cheia de afeição – Mesmo depois de tudo você ainda consegue me defender...
_ Alice... – Bruce levou a mão à nuca da mulher, encarando-a a fundo – Eu te amo! – disse uma segunda vez, como se apenas a primeira não tivesse sido suficiente.
_ Você é mesmo um doce, Bruce... – murmurou, sentindo cada gota de sangue se deslocar subitamente para o seu rosto em brasas.
_ Mas...? – ele perguntou com um sorriso triste, já esperando pela recusa.
_ Não, não tem mas nenhum... Eu também te amo, senhor Wayne – segurou o pulso que descansava sobre seu ombro, como se isso pudesse garantir que ele não se afastasse. Mas, na verdade, ele parecia aproximar-se cada vez mais.
Dessa vez quem começou o beijo foi Bruce, seus lábios agora deslizando suaves e naturais pelos de Alice, sem qualquer sombra de receio ou tensão. Ele pressionou a nuca da ninja enquanto tentava trazer-lhe para mais perto. Quase sem perceber, Alice se encaixou sobre o colo de Bruce, que levou a mão que se mantinha livre até a base de suas costas.
Não havia vazio, desespero ou aflição. Com Bruce, tudo parecia fluir da forma certa, sem dores ou agonias, apenas a satisfação de tê-lo ali, sem restrições, sem um preço posterior a se pagar.
Soube que realmente o amava, de um jeito fácil e intenso.
Afastou suavemente o rosto, contemplando os olhos gentis que agora a encaravam, como se o mundo não precisasse mais girar para ganhar algum sentido. Alice passou os dedos pelos fios de cabelo arrumados de Bruce, permitindo-se saborear aquele sublime instante em que o tinha tão perto.
Ela novamente aproximou seus lábios, acariciando o rosto do Bilionário enquanto sentia suas línguas se entrelaçarem cada vez mais ágeis e cheias de afã. Bruce apertou as costas da hippie, fazendo-a inspirar alto e profundamente, levando até suas narinas o característico odor da pele que agora a prensava.
Ele a virou, conduzindo o corpo da ninja sobre o colchão, mantendo-se acima dela, ambos compartilhando a mesma sede insaciável, tentando desfazer-se de uma só vez da saudade que experimentavam em conjunto e guardavam para si em segredo. A pele de Alice novamente se arrepiou por completo, e teve certeza de que Bruce era capaz de sentir o escandaloso bater de seu coração. Uma lágrima escapou do canto de seu olho direito, perdendo-se na confusão emaranhada de seu cabelo.
Bruce procurou pelo pescoço de Alice, mordiscando-o entre beijos. Ela o abraçou ainda mais forte, não querendo deixar que a sensação quente em seu peito escapasse.
_ Senti sua falta... – sussurrou rente ao ouvido de Bruce, também beijando-o.
O Bilionário voltou aos lábios de Alice, que recebeu a maciez que havia neles de bom grado, aconchegando-se mais ao corpo que se dispunha acima do seu. Ele aprofundou o beijo, levando uma das mãos a deslizar por dentro do casaco que vestia Alice, agora completamente desnecessário pelo calor que notava nascer dentro de si.
_ Odeio basquete! – ele reclamou por cima de seus lábios, lançando um olhar irritado ao moletom que fez Alice rir.
_ Não por isso... – respondeu com a voz engasgada, sentando-se na cama e tirando o moletom do corpo, rindo mais uma vez ao ver o largo sorriso que se formou no rosto de Bruce – Sua casa, suas regras! – jogou o tecido para algum lugar no canto da cama, avançando novamente em sua direção para selar mais uma vez o perfeito molde que seus lábios formavam, agora podendo sentir livremente o toque de Bruce sobre sua pele enquanto suas respirações se cruzavam com um ritmo sincronizado e audível.
Alice ajoelhou-se sobre o colchão, ficando pela primeira vez mais alta do que Bruce, que a trouxe mais uma vez ao seu colo, deslizando os dedos por suas costas nuas, provocando um delicioso rastro de formigamento que se irradiava por onde eles passassem. Alice até chegou a sentir alguns calos com o contato, e curiosamente, tremeu ainda mais, sentindo-se arder e gelar ao mesmo tempo.
As mãos de Alice encontraram às cegas a barra da camisa de Bruce e, sentindo cada porção definida de seus músculos, deslizou-a para cima, ansiosa por tirá-la. Mal teve tempo de encarar cada pequeno detalhe de seu corpo como gostaria, assim que conseguiu se livrar do tecido branco, Bruce puxou-a novamente para o alcance de seus lábios, tão famintos quanto os dela. Ele a levou com o próprio corpo para o centro da enorme cama, sem em momento algum desgrudar suas bocas daquela nobre coreografia que parecia ensaiada. Foi cedendo espaço conforme ele avançava, apoiando seus cotovelos sobre o colchão e arrastando-se sem ver, até que ele novamente se acomodou acima dela pressionando seus tórax com força e se concentraram novamente no beijo.
Alice arfou ao sentir com enorme nitidez o coração de Bruce tão acelerado e indomado quanto o dela, o que só fez a velocidade de sua frequência aumentar ainda mais numa deliciosa taquicardia que ela daria tudo para prolongar até o fim de seus dias. Ela virou-o, colocando-se por cima com a agilidade e precisão de uma verdadeira ninja, fazendo-o sorrir de um jeito cretino.
_ O que foi? – estreitou os olhos e esboçou um meio sorriso ao notar aquela expressão maliciosa no rosto de Bruce. Ele pousou as mãos em sua cintura, fitando-a com diversão.
_ Nada... – adiantou-se, rindo – Só nunca poderia imaginar que um dia ainda deixaria uma Ra’s Al Ghul encantada por mim. É uma história pra se gabar pros netos...
_ Cala a boca, Bruce! – revirou os olhos sem conter uma risada antes de silenciá-lo cobrindo novamente seus lábios, deixando que parte do peso de seu corpo se depositasse nele. Uma das mãos de Bruce subiu até o pescoço de Alice, pressionando-a para mais perto, enquanto a outra ainda se mantinha na curva de sua cintura.
Era como se Alice estivesse aprisionada dentro de um plano onírico a cada vez que sentia o toque úmido de sua língua conduzindo-a a novos e desejados caminhos, lírico em demasia para de fato chegar a ser real. Ele desceu uma mão até o moletom de Alice, colocando-a por baixo do tecido e segurando entre os dedos a lateral de sua farta coxa, trazendo-a mais para si como se ainda sobrasse um enorme espaço entre eles.
Ela mordeu de leve o lábio inferior de Bruce, puxando-o para frente até que os dois estivessem ajoelhados sobre a cama, e só então voltou a beijá-lo, dando uma nova utilidade às suas mãos, que agora se ocupavam em desfazer-se do jeans do Bilionário. Ela abaixou o zíper, e Bruce fez com que a calça escura deslizasse para fora de seu corpo junto com a samba canção que antes o cobria. Alice teve que empinar o corpo para alcançá-lo novamente. Segurou-se no quadril do moreno e impulsionou-se contra sua boca, reclamando pela doçura e suavidade de seus lábios e pela saciedade que apenas eles eram capazes de trazer junto ao delicioso contato.
Ele puxou as barras da calça da ninja, expondo suas voluptuosas pernas. Alice desfez-se da roupa íntima com pressa, voltando a entrelaçar-se ao homem que lhe sorria.
Com uma agilidade inesperada, Bruce virou-a num único gesto e a fez cair por baixo de si, arrancando uma risada surpresa da ninja, que novamente viu-o acima de seu corpo, dono de um olhar diferente e hipnotizador enquanto se aproximava devagar, afagando com o polegar a maçã do rosto de Alice e mirando seus olhos negros sobre as brilhantes íris igualmente escuras da mulher, despejando tanta intensidade naquele gesto que foi capaz de fazê-la perder todo o ar de um segundo a outro.
Eles novamente se beijaram, com mais paixão do que sabiam ser possível possuir naqueles íntimos tão estragados e mal tratados pelas suas próprias perdas e desilusões. Enquanto sentia-se conduzir pelos lábios de Bruce, Alice o prendeu num abraço frouxo, apenas para senti-lo entre seus braços naquele instante em que julgava não mais pertencer à realidade de seu caótico e aversivo mundo.
Suas pernas roçavam-se à medida que aprofundavam um enlace inespecífico entre suas coxas. O Bilionário tomou o rosto dela entre uma mão, fitando-a com aquele mesmo ardor desconcertante que a fazia esquecer-se de respirar. O negrume brilhante dentro das suas órbitas perscrutava com mínima atenção cada nuance na fisionomia de sua ninja, percebendo-a sustentar aquele olhar e muni-lo com a mesma magnitude, quase solenes.
Idênticos olhos negros mutuamente se encararam, enxergando dentro das íris profundas o refletir de um espelho, como se as duas gemas esmaltadas em ônix pertencessem a uma única pessoa. Donas dos mesmos sentimentos, mesmos pesares e arrependimentos. Íris donas em igual intensidade do mesmo brilho ao encarar sua gêmea, como se soubessem que nenhum outro olhar seria capaz de arrancar tamanha intensidade daquele que fitava.
Bruce introduziu-se a ela, ainda mantendo firme o contato visual enquanto sentia o corpo abaixo do seu se contorcer num breve estremecimento, fazendo com que seu peito subisse e descesse ainda mais rápido e provocando arfares causados pela ligeira respiração que agora cortava o silêncio. Alice arqueou o corpo, alcançando a orelha de Bruce com os lábios e apertando-a de leve entre os dentes enquanto fazia seus dedos e unhas deslizarem pelas costas definidas e retesadas acima de si.
Ele aumentou o ritmo cadenciado de seu quadril, fazendo crescer as inconstantes oscilações de seus pulmões, que pareciam pequenos demais para a quantidade de ar que reclamavam. Seus lábios novamente se buscaram, e, ao se encontrarem, mais uma vez deixaram-se levar e sucumbir pelo gosto úmido e doce daquele arrebatador contato, tão longo que até mesmo o tempo parecia incapaz de calcular com seus métodos obsoletos e imutáveis.
“No more talk of darkness,
Forget these wide-eyed fears.
I'm here, nothing will harm you
My words will warm and calm you.
Let me be your freedom,
Let daylight dry your tears.
I'm here, with you, beside you,
To guard you and to guide you
Say you love me
Every waking moment
Turn my head with talk of summertime
Say you need me with you, now and always
Promise me that all you say is true
That's all I ask of you
Let me be your shelter
Let me be your light.
You're safe: no one can find you
Your fears are far behind you
All I want is freedom
A World with no more night
And you always beside me
To hold me and to hide me
Then say you'll share with me
One love, one lifetime
Let me lead you from your solitude
Say you need me with you here, beside you
Anywhere you go,let me go too
That's all I ask of you
Then say you'll share with me
One love, one lifetime
Say the word and I will follow you
Share each day with me, each night, each morning
Anywhere you go let me go too
Love me
That's all I ask of you”
All I Ask Of You – The Phantom Of The Opera
~*~*~*~
Os dois mantinham-se deitados de lado, encarando-se mutuamente num silêncio que tudo era capaz de dizer e expressar. Bruce alisava uma mecha castanha sobre o rosto de Alice, enquanto ela imitava os mesmos movimentos suaves sobre a nuca do Bilionário, sentindo-se um tanto sonolenta e alheia ao mundo à sua volta. Uma voz doce e quente chegou até seus ouvidos enquanto Bruce a aconchegava melhor para mais perto de seu corpo.
_ Alice? – chamou-a, afastando vários cachos de seus ombros nus.
_ Eu. Que bom que você acertou meu nome... – brincou, sorrindo frouxamente ainda dominada pelo sono inconveniente que a queria tirar daquele momento, embora ela se mantivesse relutante – Mas caso você se esqueça, pode me chamar de benzinho. Melhor do que ouvir um Tiffany ou Ashley, ou sei lá mais quantos nomes de vadias você deve ter na cabeça! – disse, fazendo-o rir.
_ Só tenho um nome na cabeça, e é o seu... ãhn... Benzinho! – zombou com um sorriso sacana, passando a ponta dos dedos sobre as costas da ninja e fazendo sua pele se arrepiar no mesmo instante.
_ Vou fingir que eu não entendi, seu palerma. Caso contrário eu me veria obrigada a ir embora e isso te deixaria extremamente feliz. – avisou, repousando a cabeça sobre o corpo virado na sua direção e fechando os olhos sobre o reconfortante odor que exalava de sua pele. Sentiu o peito de Bruce tremer com uma risada baixa.
_ Eu tenho que te contar uma coisa... Meio chocante, inclusive... – ele murmurou sedutoramente, despertando a curiosidade da ninja, que ergueu os olhos em sua direção sem impor um único milímetro de distância a mais entre ambos – Eu sou o Batman! – disse num tom solene, arrancando um olhar arregalado e incrédulo de Alice. Ela apoiou-se no colchão sobre um dos cotovelos para ser capaz de enxergar melhor o rosto à frente do seu, e explodiu em uma gargalhada incontrolável.
_ Quê? Acho que essa sua revelação chegou meio tarde demais, senhor Wayne... – riu novamente, franzindo o cenho ao perceber a expressão séria no rosto de Bruce que deixava claro que não se tratava de uma brincadeira. O sono subitamente passou.
_ Eu sei. – avisou, acariciando o rosto que agora o fitava cheio de confusão, porém ainda com a sombra de um sorriso – Mas eu queria ter podido contar isso eu mesmo, só isso... – sorriu – Nunca disse nada por medo que essa verdade também a afastasse de mim – contou, numa referência clara ao modo com que Rachel havia lidado com o fardo dessa verdade –, mas eu devia ter percebido que você saberia reagir diferente... Que seria mais forte a essa notícia. – lamentou-se com um novo sorriso.
Por um momento, Alice não soube o que dizer, apenas limitou-se a encará-lo com os olhos mais embasbacados que sabia estar estampado em suas feições. Contou algumas piscadas antes que finalmente recobrasse o bom senso de esboçar alguma reação menos idiota. Ela sorriu largamente, entrelaçando uma de suas mãos à dele e ignorando o quanto se sentia ruborizada.
_ Então, você quer que eu pareça chocada, ou algo assim?
_ Por favor! – assentiu com um brilho nos olhos que parecia acompanhar o seu sorriso.
_ Ok, então lá vai... – pigarreou, mudando sua expressão para algo próximo de irritado e abatido antes de dar início ao seu discurso de tom duro – Mas o que diabos você tem na cabeça, Bruce Wayne? Acha que pode sair por aí à noite fazendo o que bem entende só porque você fica realmente gostoso com aquela armadura? Não, péra, vou tentar de novo... Eu sei que dá pra melhorar isso – alegou, baixando os olhos por um momento antes de novamente direcioná-los ao Bilionário – Suas cordas vocais! – lançou, triunfante – Tem noção do quanto você as força e... e... Ah, foda-se, eu peguei o Batman! – deu de ombros e os dois caíram numa nova gargalhada, chegando a provocar algumas lágrimas em Alice pela intensidade do riso – Já que hoje é o dia das revelações... – principiou, limpando a umidade dos olhos – Não, calma, eu não sou homem! – brincou, novamente rindo – Já que você me confiou seu segredo, acho que posso contar o meu também. Cartas na mesa. Bruce, eu me fingi de morta e me tornei a líder de um grupo de ninjas, dotados de um seleto treinamento e que têm por costume dizimar civilizações em nome da justiça e da paz.
_ Uau... hnm... Prefere mais chocado ou mais irritado? – verificou, na dúvida, antes de dar a sua resposta.
_ Mais para o atônito, se não se importa!
_ Mas que loucura, Alice! – ele esboçou uma expressão de desagrado tão tonta que a fez novamente rir com gosto, e morder o lábio em seguida, buscando por uma seriedade que não conseguiu encontrar – Em que exatamente você estava pensando quando se submeteu a este deplorável papel?
_ Que um dia você poderia se gabar para os seus netos? – recordou-o com um sorriso lascivo e triunfante.
_ Certo, me convenceu! – avisou vencido, puxando-a para o seu rosto e mordiscando sua boca antes de mais uma vez beijá-la, como se brincasse com os lábios entre os seus. Soltaram-se ainda com traços de sorrisos, encarando-se com diversão.
_ Sabe, acho que se eu já não soubesse que você é o Batman, eu desconfiaria fortemente depois de hoje! – comentou, fitando os vários hematomas e cicatrizes que se destacavam entre seus músculos – Ou sairia correndo, achando que você não passa de um daqueles bilionários excêntricos e sadomasoquistas que a gente vê por aí.
_ Bom, eu poderia dizer o mesmo de você... – arqueou uma sobrancelha indicando também as várias cicatrizes que Alice ganhou com muito esforço e com o suor de seu trabalho duro.
_ Minhas marcas são meus troféus, já as suas só mostram o quanto você é ruim no que faz! – provocou, tentando lastimavelmente conter um sorriso. Ele levantou as sobrancelhas como se aceitasse um desafio.
_ Vejamos então. Conte-me sobre seus troféus. Este aqui... – ele passou o indicador suavemente sobre uma linha de mais ou menos cinco centímetros abaixo do umbigo de Alice.
_ Coringa. Com uma faca... Ganhei essa no dia em que vim a Gotham procurar por Krusty e seu sequestrador que eu ainda acreditava ser o Palhaço... – contou, agora com uma sutil tristeza no olhar. Mas logo se obrigou a recompor a expressão zombeteira – Por alguma razão ele acreditava que eu sabia a verdadeira identidade do Batman! Que imaginação fértil, não? – sorriu satírica – Minha vez. Como você ganhou esta? – apontou para uma irregularidade em seu bíceps que chamou a atenção de Alice pela ausência de padrão. Parecia não ter sido feita por arma alguma.
_ Cachorros... – avisou, parecendo repudiar a lembrança. Alice riu alto, esperando qualquer resposta, menos aquela.
_ Cachorros, Bruce? Sério? Céus, se os vilões soubessem, bastava abrir um canil pra derrotar o tão temido Batman! Será que eles me pagariam bem por essa informação? – riu novamente, sentindo o próprio rosto ficar vermelho e a garganta reclamar.
_ Eram cachorros grandes! – defendeu-se, afastando uma mão da outra como que para demonstrar o tamanho.
_ Claro, claro... – forçou aos lábios uma maior seriedade, mas logo cuspiu uma nova risada que realmente não conseguiria controlar mesmo que tivesse tentado.
_ Enfim... – Bruce prosseguiu, fingindo ofensa – Sua vez de me contar! Como você conseguiu isso? – perguntou de testa franzida ao pousar os olhos num enorme corte que se alastrava por toda a lateral direita da cintura de Alice.
_ Num dos meus treinos de espada com o Ducard. – lembrou, com alguma saudade – Ele costumava levar os treinos a sério demais, você deve saber disso tão bem quanto eu... – afirmou, vendo-o confirmar aquele comentário com um sorriso cúmplice – Esta? – passou os dedos cuidadosos por um corte cicatrizado entre o ombro e o pescoço do Bilionário.
_ Coringa. – falou num rosnado pouco amigável pela recordação que não lhe trouxe as melhores expressões – No dia em que eu decidi investigar o seu túmulo.
_ Como é? – perguntou, confusa, e Bruce lhe contou desde sua visita ao cemitério até o momento em que abriu o caixão e o encontrou recheado com incontáveis cartas coringas e nem sinal de suas falsas cinzas. Quando ele terminou de falar, Alice sentiu o próprio queixo caído – Que... doente!
_ Mas chega de falar de palhaços – voltou a sorrir com as piores intenções e Alice o acompanhou naquele gesto. Bruce levantou os braços da ninja em direção ao próprio ombro, porém deteve-se no meio do caminho ao ouvir um gemido doloroso escapar pelos lábios da mulher. Ela esfregou rapidamente o ombro esquerdo, e logo Bruce percebeu o corte vermelho que ele mesmo tinha lhe infligido ao atirar um de seus morcegos cortantes contra ela no Banco da máfia, quando ainda não poderia sequer sonhar que sua vítima era a mulher que ele acreditava estar morta – Sinto muito por isso... – disse, pesaroso.
_ Sem problemas. Eu mereci essa... – piscou, aproximando-se novamente dele e descansando a cabeça o mais perto possível de seu corpo aconchegante e convidativo. Enlaçaram novamente as pernas umas nas outras por baixo do lençol que os cobria até a cintura, e ali permaneceram, não querendo mais ninguém ou qualquer outro lugar no mundo.
Uma das mãos de Bruce a abraçava pelo ombro, enquanto a outra passeava por suas costas provocando-lhe as mais deliciosas cócegas. Ela sentiu mais uma vez o sono chegar, e rendeu-se a ele ainda com um resquício de sorriso nos lábios.
~*~*~*~
Acordou ainda naquela mesma posição que não sabia se era real, sentindo a claridade invadir o quarto, porém recusando-se por um momento a abrir os olhos. Mantinha-os ainda fechados, receando as consequências caso resolvesse abri-los, como se ainda não estivesse preparada para descobrir que todas as suas lembranças não haviam passado de um sonho que jamais poderia concretizar-se...
... Mas havia o cheiro de Bruce para fazê-la recordar que tudo fora autêntico e dissipar qualquer dúvida de seu peito.
Alice respirou fundo, finalmente erguendo as pálpebras e tendo como a primeira visão embaçada do dia a imagem adormecida do Bilionário, que tinha como único movimento o ressonar que fazia seu peito subir e novamente descer. Ela sorriu, afastando com movimentos suaves alguns fios de cabelo de sua testa, tomando cuidado para não acordá-lo. Ele sequer se mexeu, mantendo a mesma expressão pacífica e despreocupada tão típicas do torpor do sono.
Deslizou com cautela para longe de Bruce, procurando pelo conjunto que ele lhe emprestara. Riu baixo ao identificar a roupa largada longe da cama, chegando a sentir o próprio rosto esquentar com algumas recordações. Caminhou até o moletom, vestindo-o o mais rápido que seus sentidos ainda dormentes lhe permitiram, e ao fazê-lo, notou um peso extra sobre o bolso do casaco.
O celular! – lembrou num estalo, antes mesmo de precisar verificar. Retirou o aparelho dali, quase se engasgando ao encarar a tela luminosa – Trinta e seis ligações perdidas? Alguém morreu e eu perdi o enterro?
Alice correu até o banheiro da suíte de Bruce, procurando o autor da chamada. Sayid. Ela reproduziu uma careta, finalmente percebendo a falta de consideração que tivera para com ele e com seus outros ninjas. Ela saiu apressada do albergue sem dar qualquer explicação e passara a noite fora, sem nem ao menos avisá-los de que o faria...
A tela do celular brilhou com mais intensidade, e o aparelho começou a vibrar freneticamente, anunciando uma nova chamada. Alice respirou fundo, aceitando-a antes de apertar o eletrônico bem rente ao ouvido direito.
_ Sayid, até que enfim retornou uma de minhas ligações! – ela usou uma voz autoritária ao atender, simulando impaciência e desagrado – Pensei que depois de ignorar minhas chamadas a noite inteira você estivesse me evitando... – bufou, feliz ao ver que a mentira soava convincente.
_ Ra’s... – ele respondeu, desconcertado – Eu não entendo! Estou tentando contatá-la há horas, desde a madrugada de hoje... – avisou num tom de desculpa que fez a ninja morder com força os lábios pra não rir da situação.
_ Sei... Isso me parece muito oportuno, mas enfim... – fez questão de fungar para que ele ouvisse o som falsamente irritado.
_ Está tudo bem? – perguntou, fazendo o sotaque despontar com certa hesitação – Aconteceu algo?
_ Não, eu estou bem! Estava tentando ligar justamente para avisar que não tinha hora para voltar. – mentiu com descaro – Tive que... ãh... resolver alguns problemas... pessoais. Você nem imaginaria o tamanho do nabo! – gargalhou por dentro, perguntando-se como conseguia manter o tom de voz sério e ainda por cima aborrecido.
_ É algo com que os outros ninjas e eu podemos ajudar? – perguntou, prestativo, mal sabendo o real sentido que suas palavras tinham.
_ Não! – ela quase gritou, tentando não imaginar a cena. Tossiu em seguida, recompondo a voz o melhor que pôde – Não, obrigada, Sayid, mas esse é o tipo de coisa que é melhor não envolver terceiros... – pigarreou, agora querendo mudar de assunto o mais rápido possível – Mas não se preocupe, logo estarei de volta. E ah! – lembrou-se, agora realmente interessada – Quase me esqueci... O que você fez com o bigode de piaçava?
_ Como? – o árabe perguntou, sem entender, parecendo cada vez mais perdido com as palavras de sua líder.
_ O Gordon! – explicou – Quando eu saí do albergue ele ainda estava aí, e eu pedi para você levá-lo pra casa – lembrou-o da noite passada.
_ Ah, sim! Eu o levei de volta de acordo com a sua ordem, Ra’s Al Ghul.
_ Mas você não o deixou ver o lugar em que estamos nos abrigando, não é? – questionou com certo receio.
_ Não, eu o dopei antes de tirá-lo do cômodo em que o deixamos preso. – avisou, tranquilizando-a.
_ Ótimo! – aprovou abertamente, aliviada – Nos vemos mais tarde então, Sayid. E daqui por diante, fique de olho no celular, está bem? – riu apenas consigo mesma mais uma vez.
_ Estarei atento, Ra’s – anuiu com certa inocência, parecendo tentar entender o que levou àquele grosseiro erro de comunicação entre os aparelhos eletrônicos.
Alice certificou-se no mínimo três vezes de que já havia encerrado a chamada antes de dar início à crise de riso que ela tanto se esforçou em conter naquela breve conversa. Escorou-se na parede do banheiro e ali permaneceu por vários minutos a fio, esperando pacientemente que a vontade de rir cedesse. A gargalhada a largou, porém não conseguiu se desvencilhar do sorriso bobo que elevava as maçãs de seu rosto.
Saiu do banheiro assim que passou uma água sobre o rosto e pescoço, encontrando Bruce agora completamente largado sobre a cama, ocupando boa parte do espaço disponível do colchão.
_ Esse folgado não tem que ir trabalhar, não? – perguntou baixinho, rindo maldosamente com a perspectiva de fazê-lo acordar.
Bruce parecia dominado pelo mais profundo dos sonos, e seu rosto nunca esteve tão belo e pacífico. Alice escancarou com estrondo a cortina sobre a enorme e pomposa janela do vasto quarto, dando passagem a uma explosão luminosa que atravessou o cômodo com propriedade. O Bilionário sequer se mexeu. A ninja estreitou os olhos que agora ardiam pelo excesso de luz, caminhando até a cama com passos pesados e nada silenciosos, tentando não distrair-se com a bela visão dos ângulos de seu corpo refletindo diferentes intensidades de iluminação. Passou as unhas de leve sobre seu definido tórax, mas também não causou qualquer efeito.
A respiração do homem continuava tão intensa quanto a sua submersão no próprio subconsciente. Alice bufou, agora levando aquilo para o lado pessoal. Fazê-lo despertar tornara-se uma questão de honra.
_ Vamos ver se agora esse palerma não acorda... – ofereceu a si mesma um sorriso farto, achando difícil tirá-lo do rosto.
Ela subiu na cama, ajeitando-se com cuidado sobre o seu corpo largado e espaçoso, vislumbrando seus traços tão tranquilos e suaves, adorando testemunhar um pouco de serenidade num rosto que costumava ser tão tenso e por vezes aflito. Prensou suas bocas enquanto deixava que seu peso fosse depositado aos poucos sobre ele, movendo seus lábios mais rápido à medida que o sentia acordar, primeiro repleto de confusão, mas que logo foi substituída pela surpresa.
Bruce pareceu levar alguns segundos extras para perceber o que ocorria, mas logo que se deu conta, suas mãos tatearam pelo corpo de Alice e seus lábios se sincronizaram em um ritmo comum. A ninja fazia os dedos passearem por sobre o rosto que se mantinha abaixo do seu, permitindo-se embalar por aquele que parecia ser o único capaz de lhe trazer a paz que ela tanto buscava e ansiava.
Ela desprendeu-se de seus lábios, a fim de fitá-lo por alguns segundos que fossem. Talvez pudesse gravar em sua memória cada pequena mudança de expressão, cada traço tão simétrico e perfeito, cada pequena brasa que saía desejosa de seus olhos, cada ângulo de seu sorriso... Talvez pudesse guardar consigo cada segundo que sua memória fosse capaz de abrigar.
Quando notou que observá-lo por todo aquele tempo em silêncio já parecia estranho, sorriu, irônica.
_ Desculpe acordá-lo, senhor Wayne, não era a minha intenção! Eu estava passando por aqui, tropecei e caí bem em cima de você... – brincou, usando um tom lamuriento, falando baixo sobre seus lábios agora risonhos.
_ Para o seu próprio bem, é bom que já tenha passado do meio-dia! – ameaçou com a voz rouca e embriagada pelas horas de desuso.
_ Bem se vê que você só podia ter herdado a sua fortuna mesmo... Porque trabalhar que é bom, nada! – riu, provocando aquele brilho divertido em seus olhos.

Do lado de fora da mansão, um estranho casal observava, parecendo esperar por algo. Um homem alto e musculoso ao lado de uma mulher de olhos azuis cortantes, bem mais ameaçadores do que a máscara metálica que cobria boa parte do rosto daquele que a acompanhava. Ambos mantinham-se atentos, escondidos de qualquer visão curiosa que pudesse abrangê-los.
Os minutos rolavam e o silêncio permanecia inquebrável, dando ainda maior potência à concentração que ambos partilhavam entre si.
Viram Bruce e Alice finalmente saírem da enorme mansão após várias horas que permaneceram em vigília, esperando apenas por aquele momento em questão. Talia sorriu, sentindo-se triunfante.
_ O Wayne é o ponto fraco dela, Bane. – avisou com tamanha satisfação que não parecia caber em si – É através dele que devemos atingi-la, e terminar de uma vez por todas com o que começamos. – disse, dona de uma determinação que não pedia por qualquer resposta.
Bane anuiu apenas com o olhar.
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