A Fúria dos Deuses

1 Mato um monstro com um raio


Olhe, eu não queria ser uma meio-sangue.

Se você está lendo isto porque acha que pode ser um (a), meu conselho é o seguinte: feche esta página agora mesmo. Acredite em qualquer mentira que sua mãe ou seu pai lhe contou sobre o seu nascimento, e tente levar uma vida normal.

Ser um (a) meio-sangue é perigoso. É assustador. Na maioria das vezes, acaba com a gente de um jeito penoso e detestável.

Se você é uma criança (ou adolescente) normal, que está lendo isto porque acha que é ficção, ótimo. Continue lendo. Eu o (a) invejo por ser capaz de acreditar que nada disso aconteceu.

Mas, se você se reconhecer nestas páginas — se sentir alguma coisa emocionante lá dentro —, pare de ler imediatamente. Você pode ser um (a) de nós. E, uma vez que fica sabendo disso, é apenas uma questão de tempo antes que eles também sintam isso, e venham atrás de você.

Não diga que eu não avisei.

Meu nome é Soph Redfield.

Tenho catorze anos de idade. Até alguns meses atrás, era uma adolescente que vivia no reformatório Brooken, para crianças e jovens problemáticos — que perderam os pais — em Londres. O reformatório era um lugar horrível e escuro. As únicas cores que se via lá dentro era preto, branco e cinza. Nossas camas eram feitas de um metal vagabundo que rangia a qualquer movimento, os lençóis eram cinzas, assim como os cobertores e as fronhas dos travesseiros. As paredes brancas nos dava uma sensação de vazio e o uniforme preto que cobria praticamente todo o corpo me fazia pensar que eu estava pesa em uma camisa de forças.

Se eu sou uma adolescente problemática?

Sim. Pode-se dizer que sim.

Desde que me lembro de ser uma pessoa, acontecimentos estranhos ocorreram em minha vida. Cresci sem mãe e trancada em uma pequena casa rodeada por um bosque, o que era muito estranho. Meu pai era um homem incrível. Cuidava de mim, me ensinava a lutar, ensinou-me a ler, escrever, fazer contas e gostar de cantar e dançar, mas mesmo assim, eu ainda era/sou uma criança/adolescente problemática. Perdi meu pai aos doze anos, então para não ser levada para um orfanato decidi reunir pistas sobre minha mãe, já que meu pai nunca quisera falar uma palavra sobre ela, pois ela fizera muito mal para ele. Assim que descobri onde a mulher que me pariu morava, rapidamente segui para lá. A casa era simplesmente horrível — não que eu me importasse muito com isso, mas uma limpeza às vezes não faria mal algum —. As paredes que antigamente podiam ser brancas estavam praticamente cinzas por conta da sujeira, assim que entrei, reparei em um sofá de couro falso e mais nada na sala. Assim que olhei para o chão encontrei uma cena totalmente deplorável. Uma mulher loira, alta e magra estava jogada no chão, seus olhos estavam abertos e ela murmurava algo que eu não conseguia entender. Ela estava pálida, mas mesmo assim, vi as feições em seu rosto. Ela parecia muito comigo, ou eu parecia com ela. Nossas únicas características que não eram semelhantes eram nossos olhos e nossos cabelos, enquanto os meus olhos eram azuis, os dela eram verdes, meus cabelos que caiam até a altura dos ombros eram castanhos, os dela loiros. Já seu nariz reto, sua boca bem desenhada, as maçãs do rosto e a cor da pele eram uma cópia de mim.

— Minha filha... — Finalmente consegui entender as palavras que saiam de sua boca assim que me aproximei dela e ajoelhei-me ao seu lado. — Devolva-me minha filha! Zeus saberá disso! Zeus saberá que você levou minha menininha!

O que eu sabia de Zeus é que ele era um deus. Na religião da Grécia Antiga, é o “pai dos deuses e dos homens”, que exercia a autoridade sobre os deuses do Olimpo como um pai sobre sua família. É o deus dos céus e dos trovões, na mitologia grega. Seu equivalente romano é Júpiter, enquanto seu equivalente etrusco é Tinia; alguns autores estabeleceram seu equivalente hinda como sendo Indra. Também sabia que Zeus algumas vezes tivera casos com mortais e teve filhos, mas eu não acreditava nisso. Eu como uma verdadeira disléxica, não conseguia entender muito bem, mas meu pai praticamente enfiara tudo aquilo na minha cabeça, repetindo diversas vezes que era necessário que eu aprendesse tudo sobre mitologia grega, deuses e tudo o mais.

Mas voltando para a mulher jogada no chão... Coloquei a mão em sua testa para verificar sua temperatura e a retirei rapidamente, pois ela estava ardendo em febre. Logo em seguida todo o seu corpo começou a agitar-se e eu cai de costas, assustada. Eu sabia o que estava acontecendo, e não era nada bom. E não havia mais ninguém na casa a não ser nós duas.

— Shiu, vai ficar tudo bem. — Toquei seu rosto com delicadeza. — Vai ficar tudo bem. Shiu! Zeus saberá. Zeus saberá que levaram sua menininha de você. Vai ficar tudo bem.

Era meio tolo de falar aquilo, mas eu não conseguia pensar em outra coisa para falar. Olhei ao redor e vi que havia um celular jogado no sofá, peguei rapidamente e disquei o número.

— Preciso de uma ambulância, AGORA! — Gritei para o telefone. A mulher que atenderá perguntou-me o que havia acontecido. Tropecei nas palavras ao falar: — A DONA DA CASA ESTÁ PASSANDO MAL, EU SÓ TENHO DOZE ANOS, NÃO POSSO FAZER NADA, SOCORRO!

A mulher perguntou a localização, novamente tropecei nas palavras e dei-lhe o endereço, ela disse que a ambulância estava a caminho. Mas a ambulância nunca chegara. Fiquei sentada ali durante algum tempo, tentando acalmá-la, mas logo ela parou de tremer e seus olhos tornaram-se vagos e algo dentro deles pareceu sumir. Ajoelhei-me novamente ao lado dela, passei a mão por cima de seus olhos e eles fecharam-se, fazendo uma trilha de lágrimas rolarem pelo meu rosto. Eu era uma pessoa extremamente fria, o fato de ter perdido meu pai e nunca ter tido nenhum amigo ou parente além dele me tornara assim, mesmo que eu fizesse de tudo para mudar, mas ver aquela mulher morrendo daquela forma me abalou muito e eu estava chorando. Eu sabia que ela era minha mãe. Naquele instante um homem entrou na sala e encarou-me.

— Quem é você? — Ele perguntou com uma voz extremamente rouca. — O que você fez com ela?

— Sou Soph Redfield — responde em meio aos soluços, mas percebi que seu rosto contraiu-se ao ouvir meu sobrenome. — Eu... Eu não fiz nada, eu juro. Ela estava tremendo, falando que tinham levado a menininha dela... Eu sou a menininha... Ela... Ela está... Morta...

O homem tinha as feições parecidas com a da mulher, ou melhor, de minha mãe, que também eram parecidas com as minhas feições. Provavelmente era um parente. Ele aproximou-se e empurrou-me para o lado, colocando as mãos nos ombros da mulher e sacudindo-a.

— Sandra? — Ele chamou. — Sandra? Acorde, mulher! Não brinque. Acorde!

— Ela não irá acordar. — Falei tocando seu ombro com uma das mãos e com a outra secando uma trilha de lágrimas que rolava. Eu também estava chorando. — Ela está morta. Eu sinto muito.

— Não! — Ele bradou, empurrando minha mão. — Minha irmã não está morta.

— Você é meu tio? — Perguntei.

Ele levantou-se, virou-se para me encarar e sua expressão mudou de dor para ameaçadora, fazendo com que eu me encolhesse no chão. O medo tomava conta de meu corpo. O homem puxou um celular do bolso de sua calça jeans e discou um número, enquanto a pessoa para quem ele ligava não atendia, ele dirigiu-se até a porta de entrada, trancou-a e guardou a chave no bolso da calça.

— Tenho uma jovenzinha órfã para mandar para o reformatório. — Ele falou em alto e bom tom, dando um sorrisinho. — Poderia vir o mais rápido possível? Ok, obrigado.

— Não! — Gritei, mas ele já havia desligado o telefone. — Reformatório? Eu não fiz nada! Deixe-me ir embora agora mesmo.

— Escute aqui, garota — ele aproximou-se novamente. — É sua culpa minha irmã ter entrado nesse mundo de drogas. Dá muito bem para ver que você é a filha dela, que o Redfield sequestrou. Você irá para o reformatório onde é o seu lugar, pestezinha.

Passou meia hora e ele me deixou ali, trancada. Então dois homens grandões e fortes chegaram e me arrastaram para o reformatório Brooken, onde não deixei ninguém em paz, aprontando todos os dias, mesmo que os castigos fossem muito severos. Numa tarde de verão, enquanto eu brigava com um garoto e dei-lhe um soco no rosto, um homem apontou o dedo para mim e falou com uma voz fanhosa:

— A levarei.

— Quem é ele? — Perguntei, virando-me para Peter Johnson, o homem que cuidava do reformatório.

Mas Peter não me respondeu.

— Tem certeza, senhor? — Johnson perguntou. — Redfield é uma garota rebelde e difícil de lidar.

— Cale a boca, Saco de Gordura. — Falei irritada. Eu já estava formando um plano em minha cabeça. Assim que saísse do reformatório com aquele cara, eu fugiria.

Quinze minutos depois eu já estava pronta para ir embora do reformatório. Minha mochila estava jogada sobre meu ombro direito e eu caminhava rapidamente até o escritório do diretor do reformatório, onde o homem que me levaria estava acertando a papelada. Assim que cheguei à porta do escritório, bati com força e segundos depois a porta foi aberta pelo Sr. Williams, que me olhava com raiva, pois ele simplesmente odiava barulho e quase tinha um ataque do coração quando alguém batia com força na sua porta. Ele fez um gesto com a cabeça para que eu entrasse no escritório. Entrei e joguei-me numa cadeira ao lado do homem que me “adotaria”, tá legal, como se eu fosse deixar. Ele era alto, muito magro, com um nariz gigante, olhos verde-vomito e cabelos pretos — alguns fios eram brancos —.

— Escute com atenção o que vou lhe falar, Srta. Redfield, porque você quase nunca faz isso... — O Sr. Williams começou a falar, mas eu interrompi, a raiva tomando conta de mim.

— Escute você com muita atenção, seu babaca — levantei-me imediatamente. — Eu não sei de que mundo você vem, alienígena. Mas entende de uma vez por todas: Eu sou disléxica. Quer que eu soletre? D-I-S-L-É-X-I-C-A. E tenho transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Então não me venha falar que eu não presto atenção e blá-blá-blá por falta de interesse e vai se ferrar.

— Como uma garota de apenas catorze anos pode falar desse modo e ser tão mal educada? — Ele perguntou, levantando-se mais uma vez. — Eu não gosto do seus modos.

Ergui meu punho direito e ele recuou, pois sabia que eu pratiquei um pouco de box e que meu pai me ensinara a lutar, mas em vez de meter um soco na cara dele, olhei para a mesa que estava entre nós. Um monte de papeis, seus notebook, celular, iPad e outras coisas estavam em cima dela, dei um sorrisinho e as joguei no chão. Williams soltou um grito e contornou a mesa, agarrando meu braço com força e sacudindo-me. Seu rosto estava vermelho de fúria e a alguns centímetros do meu.

— Solte-me imediatamente, seu rato. — Ordenei, mas ele não obedeceu, então levantei meu punho e dei-lhe um soco na cara. Assim que meu punho chocou-se com o seu rosto, Williams cambaleou para trás, afastando-se de mim e gritando.

— Você não irá fazer nada com essa garota, Miller? — Ele perguntou, agarrando-se na cadeira do homem que ainda continuava calado.

— Sim. — Miller levantou-se e me encarou, em seguida encarou Williams. — Os papeis já estão assinados. Vou levar a garota. Vamos.

Segui-o para fora do reformatório e assim que chegamos à calçada, olhei para o céu. Estava nublado e trovões ecoavam em meus ouvidos, mas não tive muito tempo para pensar, já que Miller estava indo para o outro lado. Resolvi que o seguiria até a metade do caminho e em seguida fugiria.

— Você quer ir ao Zoológico, menina? — Miller perguntou, parando de repente e eu quase colidi com ele.

— Tanto faz — dei de ombros —, nunca fui a um mesmo.

Então ele voltou a caminhar e eu o segui um pouco receosa. Assim que chegamos ao Zoológico, o local estava totalmente vazio e Miller me conduziu até uma parte que tinha um pedaço do muro, que dava para uma floresta. Olhei em volta, um pouco confusa.

— Não tem nenhum animal aqui — falei, virando-me para ele, que agora sorria com horríveis dentes pontudos, tortos e amarelos.

— Conheça meu amiguinho. — Ele falou e eu senti alguém movimentar-se do outro lado do muro.

Virei-me rapidamente e deparei-me com o animal mais estranho que eu já vira na vida. Ele tinha corpo de leão, asas, patas, cauda de escorpião e cabeça de homem. Recuei alguns passos, mas Miller me segurou com força e atirou-me na direção do animal.

— O que é isso? — Gritei apavorada.

— Chama-se Manticora, garotinha. — Miller respondeu, rindo-se. — Fará um belo estrago em você.

O monstro atirou-se em minha direção, e por incrível que pareça, tive um incrível reflexo, pois consegui me desviar rapidamente para o lado e levantar-me prontamente. O monstro novamente virou-se em minha direção e tentou atacar-me novamente, mas meus reflexos eram bons, mas aquilo não duraria por muito tempo. Ele conseguiria me pegar. Eu precisava de ajuda. Um estrondo bem perto de nós vez com que eu pulasse de susto e mais uma vez fugisse do monstro. “Preciso de ajuda”, pensei, e imediatamente um raio caiu muito perto do monstro, o que o fez recuar um pouco.

— Parece que seu pai está lhe defendendo, não? — Miller falou, rindo-se. — Mas ele não poderá salvar-lhe.

Eu não entendi o que ele queria dizer, mas não tive tempo para pensar, o monstro atirou-se novamente contra mim, mas em vez de eu tentar me desviar novamente, eu comecei a voar. Espere um pouco... Voar? Assim que olhei para os meus pés, vi que meu all star branco tinha duas asas de cada lado e me tirava do chão. Esse era o presente que eu tinha ganhado de um carinha enquanto eu estava procurando pistas de minha mãe. Aquilo era estranho demais, mas o monstro levantou voo também e tentou me pegar, passando de raspão. Vi que mais um raio se aproximava, e não sabendo de onde veio aquela ideia, estiquei a mão para ele, que parou por alguns instantes e eu fiz um movimento com a mão na direção do monstro, e o raio me obedeceu. O monstro virou pó e sumiu, assim como Miller, me deixando ali, atordoada e voltando ao chão.

Notas finais
Bem, é o primeiro capítulo e ainda tem muita coisa para acontecer, então espero que gostem e comentem! xx