A Fúria dos Deuses
2 Conheço uma loira que não é burra, mas sim louca.
Assim que consegui voltar ao chão, a primeira coisa que se encostou ao solo foi minha bunda. Fiquei ali sentada, olhando para o chão e me perguntando se tudo aquilo era minha imaginação fértil demais. Meu corpo todo tremia e meus olhos estavam cheios de lágrimas. Como meu all star podia ter asas — que ainda estavam movimentando-se animadas —? Como eu conseguira derrotar aquele monstro atirando um raio contra ele? E o mais importante de tudo: Como eu conseguira controlar um raio? Era tipo, impossível qualquer pessoa no mundo conseguir controlar um raio. Encolhi-me no chão, mas uma vez desconhecida gritou:
— O que você está fazendo ai sentada? Levante-se e corra, temos que chegar até a Colina Meio-Sangue.
Uma garota alta, com longos cabelos loiros, de olhos azuis, nariz empinado, maçãs do rosto salientes e com uma expressão um pouco arrogante apareceu no meu campo de visão, com uma blusa laranja escrito “ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE” e uma calça jeans escura bem colada. Olhei para ela um pouco confusa e ela estendeu a mão para mim, dando um sorrisinho forçado. Recusei sua mão e levantei sem olhá-la.
— Quem é você? — Perguntei estupidamente.
— Elizabeth Marie Ende — ela respondeu sorrindo —, filha de Apolo.
— Não perguntei o nome do seu pai e nem quero saber o nome dele.
— Educação mandou lembranças. — Elizabeth revirou os olhos.
— E eu mandei você se ferrar — falei, passando por ela e indo em direção à saída do Zoológico.
Elizabeth seguiu-me na saída do Zoológico e até uma longa avenida que tinha que cruzar, então me virei para ela, com o punho já erguido, mas suas palavras fizeram com que eu deixasse o braço cair ao lado do corpo.
— Por mais que eu não goste de você e dos seus modos, infelizmente você é a minha missão e eu tenho que a levar a salvo para o acampamento, então por favor, não dificulte as coisas. — Elizabeth disso, fingindo não ter notado meu punhado erguido, que antes estava se preparando para dar-lhe um soco.
Percebo que aquele não era o momento de contrariar Elizabeth, então resolvi perguntar:
— Você viu o monstro?
— É claro que vi — ela respondeu, dando um suspiro triste. — Me perdoe...
— Pelo que? — Perguntei um tanto confusa pelo pedido de perdão de Elizabeth.
— Eu estava longe, corri o mais rápido que meu corpo permitiu — Explicou. — Mas não consegui chegar a tempo.
Apenas confirmei com a cabeça e voltei a caminhar, com Elizabeth bem atrás de mim. Eu me sentia muitíssimo cansada e agora todo o meu corpo formigava. Assim que senti que meu corpo desabaria no chão, Elizabeth passou por mim e parou ao lado de uma Ferrari vermelha, onde Zoey Moore, minha antiga colega de quarto, estava encostada e sorria. Zoey era uma garota alta, morena, de olhos azuis, nariz empinado, boca bem desenhada. No reformatório todos os garotos queriam ficar com ela, mas ela os dispensava falando que merecia um “Deus grego”, não franguinhos como os garotos do reformatório Brooken. Em vez de estar usando o habitual uniforme preto do reformatório, Zoey usava um vestido rosa curto e bem colado ao seu corpo, com uma jaqueta preta de couro por cima e calçava botas pretas de couro com saltos de 15 cm. Seus longos e lisos cabelos pretos estavam soltos e o vento os levava para trás.
— Zoey?
— Na verdade, meu nome é Phoebe, mas pode me chamar de Phoebs. — Ela sorriu animada. — Não gosto do nome “Zoey”. Ah, sou filha de Afrodite, Elizabeth é filha de Apolo e você... Bem, ainda não sabemos de quem você é filha.
— Chega de falar e entra logo no carro — Elizabeth abriu a porta do motorista.
— Esse carro é seu? — Perguntei.
— Não. — Elizabeth respondeu. — É emprestado.
— Quando você diz “emprestado”, quer dizer “roubado”?
— Possivelmente.
— Ela espancou o dono do carro — Phoebe disse rindo.
O horror passou pelo meu corpo. Roubar era errado e ninguém devia fazer isso, por pior que esteja a sua situação. O que aquelas duas tinham na cabeça para roubarem um carro?
— Agora entrem no carro, as duas — Elizabeth mandou. — Temos uma longa viagem até os Estados Unidos.
— Eu não vou entrar em um carro roubado. — Falei, dando um passo para trás.
— Sophia, por favor...
— Não me chame de Sophia.
— Mas é o seu nome. — Elizabeth disse, revirando os olhos.
— Não importa — retruquei. — Além do mais, não irei com vocês a lugar nenhum nesse carro roubado.
— Quíron dará um jeito de devolvê-lo ao dono assim que chegarmos ao acampamento. — Phoebe assegurou-me.
— Quíron é o cara que manda vocês roubarem? Deixe-me ir embora, eu não conto nada para ninguém, eu juro.
Elizabeth soltou uma gargalhada e jogou seus longos cabelos para trás, então Phoebe acompanhou-a na risada.
— Soph, não é nada disso do que você está pensando. — Elizabeth disse, entre risos.
— Eu não acredito!
Elizabeth aproximou-se de mim com uma rapidez impressionante, e com a mão direita pressionou meu ombro, perto da jugular, durante trinta segundos, então meu corpo amoleceu e logo a escuridão me engoliu.
Tive sonhos estranhos, cheios de monstros. A maioria queria me matar. O restante roubava Ferrari’s.
Devo ter acordado várias vezes, mas o que ouvi e vi não fazia sentido, então adormecia de novo. Lembro-me de estar deitada em uma cama macia, sendo alimentada com colheradas de alguma coisa que tinha gosto de pipoca com manteiga, mas era pudim. O rapaz bonito, com um cabelo curto loiro, brilhantes olhos azuis como os meus e uma cicatriz no canto do seu lábio superior limpava as gotas de meu queixo com a colher.
Quando ele viu meus olhos abertos, perguntou:
— Você está bem?
Eu consegui resmungar:
— Sim.
— Tente descansar um pouco, sim?
Apenas confirmei com a cabeça e voltei a dormir.
Quando finalmente voltei a mim de vez, não havia nada de estranho com o lugar ao meu redor, a não ser que era mais agradável do que eu estava acostumada. Estava sentada numa espreguiçadeira em uma enorme varanda, olhando ao longo de uma campina para colinas verdejantes a distância. A brisa tinha cheiro de morangos. Havia uma manta sobre as minhas pernas, um travesseiro atrás do pescoço. Tudo isso era ótimo, mas minha boca me dava a sensação de ter sido usada como ninho por um escorpião. A língua estava seca e pegajosa, e todos os dentes doíam. Sobre a mesa ao lado havia bebida num copo alto. Parecia suco de maçã gelado, com um canudinho verde e um guarda-chuva de papel enfiado em uma cereja.
Minha mão estava tão fraca que quase derrubei o copo quando passei os dedos em volta dele.
— Cuidado — disse uma voz familiar.
Phoebe estava apoiada no gradil da varanda, e parecia não dormir havia uma semana. Estava usando uma calça jeans justa, um all star e uma blusa laranja-claro com os dizeres ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE.
— Por quanto tempo dormi? — Perguntei.
— Você ficou desacordada por dois dias. Do que se lembra?
— Daquele homem me tirando do reformatório, me levando ao Zoológico, então praticamente me jogou para o monstro, Elizabeth apareceu, levou-me até a Ferrari roubada onde você estava esperando, então ela pressionou meu ombro e tudo escureceu...
Ela confirmou com a cabeça.
Olhei ao longo da campina. Havia pequenos bosques, um riacho sinuoso, campos de morangos espalhados embaixo do céu azul. O vale era cercado por colinas ondulantes, e a mais alta, bem na nossa frente, era a que tinha o grande pinheiro no topo. Mesmo isso parecia bonito à luz do sol.
— Oh, Estige! — Ela bateu o pé no chão com frustração. — Eu deveria ter lhe ajudado a lutar contra o monstro, me desculpe.
Um trovão ecoou no céu claro.
— Não tem problema.
Tomei um gole da bebida que tinha no copo. Recuei com o gosto, porque estava esperando suco de maçã. Não tinha nada a ver com isso. Era gosto de biscoito com pedacinhos de chocolate. Biscoito líquido. Ao beber aquilo, meu corpo inteiro se sentiu bem, aquecido e cheio de energia.
Antes de me dar conta, já tinha esvaziado o copo inteiro. Olhei para dentro dele e, com certeza, não era uma bebida quente, pois os cubos de gelo não tinham nem derretido.
— Estava bom? — perguntou Phoebe.
Confirmei com a cabeça.
— Vamos. Quíron e o Sr. D estão esperando.
A varanda circundava toda a casa da fazenda.
Senti as pernas trêmulas tentando andar toda aquela distância. Quando demos a volta até o lado aposto da casa, parei para recuperar o fôlego.
Devíamos estar na costa norte de Long Island, porque daquele lado da casa o vale seguia até a água, que cintilava a cerca de um quilômetro de distância. Da casa até lá, eu simplesmente não consegui processar tudo o que estava vendo. A paisagem era pontilhada de construções que lembravam a arquitetura grega antiga — um pavilhão a céu aberto, um anfiteatro, uma arena circular —, só que pareciam novos em folha, as colunas de mármore branco reduzindo ao sol. Em uma quadra de areia próxima, uma dúzia de crianças e sátiros em idade escolar jogavam voleibol. Canoas deslizavam por um pequeno lago. Crianças de camisa laranja-claro como a de Phoebe corriam uma atrás das outras em volta de um agrupamento de chalés no meio do bosque. Algumas praticavam arco e flecha em alvos. Outras montavam cavalos em uma trilha arborizada e, a não ser que eu estivesse tendo alucinações, alguns cavalos tinham asas.
Na extremidade da varanda, dois homens estavam sentados frente a frente em uma mesa de carteado. O rapaz de cabelos loiros que me alimentara com colheradas de pudim com sabor de pipoca estava apoiado no gradil da varanda, ao lado deles.
O homem de frente para mim era pequeno, mas gorducho. Tinha nariz vermelho, grandes olhos chorosos e cabelo cacheado tão preto que era quase roxo. Parecia uma daquelas pinturas de anjos-bebês, querubins.. Ele parecia um querubim que chegou à meia-idade em um acampamento de trailers. Usava uma camiseta havaiana com estampa de tigre, e teria se encaixado perfeitamente em uma daquelas rodas de pôquer.
— Aquele é o Sr. D — murmurou Phoebe para mim. — Ele é o diretor do acampamento. Seja educada. O menino é Jason Grace, ele é um campista. E aquele é Quíron — ela apontou para um homem sentado em uma cadeira de rodas. Seu cabelo era castanho ralo e a barba era desalinhada.
Quíron voltou-se e sorriu para mim. Os olhos estavam com um brilho travesso.
— Ah, bom, Soph — disse ele. — Agora já temos quatro para o pinochle.
Ele me ofereceu uma cadeira à direita do Sr. D, que olhou para mim com olhos injetados e soltou um grande suspiro.
— Ah, suponho que devo dizer isto. Bem-vinda ao Acampamento Meio-Sangue. Pronto. Agora, não espere que eu esteja contente em vê-la.
— Obrigada pela sua falta de educação — retruquei. Logo me afastei um pouco dele.
— Jason? — Quíron chamou o menino loiro.
Ele avançou e Quíron nos apresentou.
— Este rapaz cuidou de você até que ficasse boa, Soph. Jason, por que não vai verificar o beliche de Soph? Vamos instalá-la no chalé 11 por enquanto...
— Não é necessário. — uma voz sobressaltou a todos.
Uma névoa mostrava a imagem de um homem. Tinha uma barba bem-aparada, cinza-mármore e preta, como uma nuvem de tempestade. Seu rosto era orgulhoso, belo e severo, os olhos tinham o tom cinzento da chuva.
— Pai. — Jason murmurou ao meu lado.
— Quem é ele? — perguntei baixinho.
— Zeus.
— Não é necessário, senhor? — Jason perguntou, respeitosamente.
— Não. — Zeus respondeu. — Ela é minha filha.
Todo o ar pareceu sumir dos meus pulmões, e parece que os dos demais também, pois todos ficaram calados e absorvendo as palavras.
— E ela tem todos os poderes de todos os deuses, pois eu pedi para que eles os concedessem, sem saber que ela era minha filha. Agora quero ficar a sós com Jason e Sophia.
Quando todos saíram e ficamos só Jason, Zeus — na névoa — e eu, falei cerrando os dentes:
— Não me chame de Sophia, Zeus.
— Me respeite, Sophia. Sou o deus dos céus e dos trovões. — ele falou, arrogante.
— Você nunca se preocupou comigo, muito menos com minha mãe. Não se importou que eu tivesse sido sequestrada e nunca teve a capacidade de me amar. — eu já sabia que era uma meio-sangue. Lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto e eu tentei secá-las em vão. — Agora não peça que eu lhe respeite, pois você nunca fez por merecer e nunca quis saber de mim. Você não tem esse direito!
— Soph... — Jason começou, mas Zeus o interrompeu.
— Você me deve respeito, sim. Eu fiz os deuses lhe concederem seus poderes.
— Eu nunca os pedi. — Gritei. — Agora já basta.
Sai correndo da casa grande e segundos depois Jason conseguiu me alcançar, enquanto eu corria para o bosque.
— Não entre no bosque! — Gritou. — Pode ter algum monstro lá.
Enfiei-me na bosque, sem medo que ali tivesse algum monstro, para chorar horas e horas sem fim.
Depois do que se pareceram horas, sai de dentro do bosque e caminhei perto do lago. Assim que já havia se passado dez minutos da minha caminhada, dois garotos de mais ou menos nove anos passaram correndo por mim, e como eu estava completamente distraída, perdi o equilíbrio e cai dentro do lago, batendo com os braços e tentando levantar. Foi quando uma mão grande, forte e quente pegou a minha pequena e fria, ajudando-me a levantar. Assim que fiquei de pé, encarei aqueles lindos olhos e sorri feito boba. Ele devolveu-me o sorriso, mas ao contrário do meu, não era nem um pouco bobo.
— Sophia? — Ouvi a voz de Jason vindo de trás do rapaz que ainda segurava minha mão.
— Sophia? — Ele perguntou, tentando confirmar meu nome. Fiz que sim com a cabeça. — Muito prazer, Percy Jackson.
Continuei sorrindo igual uma boba, foi quando Jason aproximou-se de nós dois e parou ao meu lado.
— Percy, essa é minha irmã, Sophia Redfield.
— Não me chame de Sophia — falei, tentando parecer irritada, mas na verdade, continuava uma boba.
— Então você é filha de Zeus? — Percy perguntou.
— Com licença. — Sai de perto dos dois, pois a menção do nome de Zeus tirou-me dos devaneios e de parecer boba perto de Percy. Eu simplesmente não queria ouvir o nome de meu pai.
Eu estava triste, machucada, sentindo-me um lixo e tudo era culpa de Zeus. Fiquei caminhando pelo acampamento, sem me importar muito para onde ia. Quando cheguei a um local onde não tinha ninguém, a raiva finalmente explodiu em meu corpo e não pude aguentar, olhando para o céu e gritando:
— Por que você é meu pai? Por que não podia ser qualquer outro? Eu lhe odeio!
O céu que antes estava azul, tornou-se cinza-escuro e trovões foram ouvidos. As lágrimas voltaram a rolar pelo meu rosto e sentei-me no chão. Eu odiava chorar. Odiava. Era sinal de fraqueza. Eu não era fraca.
— Por que estou viva? — murmurei. — Aquele monstro deveria ter me matado.
— Não diga isso. — Ouvi a voz familiar atrás de mim e virei o rosto em sua direção. Parada ali, Elizabeth me encarava, e ela aproximou-se de mim, sentando ao meu lado e tocando meu ombro. — Ouvi Jason dizendo que você é irmã dele e Percy perguntando se você é filha de Zeus. Vi você saindo de perto deles e entendi a razão. Você está muito zangada com seu pai, não?
Apenas confirmei com a cabeça, sem vontade de falar e olhando para o chão.
— Venha, vamos nos divertir. — Elizabeth me puxou em direção ao lago novamente, onde Jason e Percy ainda conversavam. Evitei olhar para eles.
— Ei, Peter! — Elizabeth chamou um menino alto, de cabelos castanhos e olhos azuis, muito bonito, diga-se de passagem. Elizabeth aproximou-se do menino, envolvendo seus braços no pescoço dele e beijando-o.
Jason olhou a cena com o rosto um pouco vermelho, foi quando uma garota aproximou-se dele. Seus cabelos eram marrom-chocolate, espessos, longos e luxuosamente trançados com fitas de ouro e parecia muito uma descendente dos Cherokee. Jason virou-se para ela e beijou-a. Assim, Elizabeth e Peter, Jason e a garota que eu não sabia o nome ficaram beijando-se por um longo tempo. Percy virou-se para mim sorrindo e eu desviei o olhar, corando. Eu não iria beijá-lo. Assim que tentei sair disfarçadamente de lá, Percy veio correndo para perto de mim e agarrou minha mão, no mesmo instante eu recuei, fazendo-o soltá-la.
— O que é isso? — Perguntei indignada. — Você quer que eu lhe quebre os dentes, rapaz?
— Não — ele respondeu rapidamente. — Desculpe. Eu só iria conduzir-lhe até o refeitório, nada de mais...
— Pois eu não preciso que me levem pela mão até o refeitório, está bem?
— Desculpe.
— Não. — Falei, jogando meus cabelos em seu rosto e correndo para longe dele, imaginando que ele estivesse me achando uma louca.
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