A Excluída

38 PARTE 5 A dúvida


Passou-se mais de 20 anos que chegamos à Vila Nerd. Vivemos muita coisa ali, mas poderia resumir tudo a dias cheios de trabalhado, colhendo e vendendo e negociando maçãs e noites jantando sob um teto de estrelas, à beira de uma fogueira, ouvindo e criando histórias.

Nesse tempo também fomos agraciados com uma linda surpresa, nossa filha, Melissa Loxtraide, nasceu e estava crescendo num ambiente de amor e respeito, onde pessoas como os pais dela podiam viver sem medo de serem perseguidos por serem o que eram.

Melissa já tinha 6 anos enquanto eu e David tínhamos chegado aos 30. Por mais que amávamos a Vila Nerd de coração, a saudade de quem deixamos para trás apertava nosso coração ocasionalmente. Eu sentia falta de minhas conversas com Lana e, por mais que tivesse conhecido Tim muito pouco, também sentia falta do meu sogro. Tim era o melhor amigo e pai de David, e para meu marido, a falta de Tim doía ainda mais.

Melissa percebia nossa tristeza quando ela batia, mas não perguntava o motivo. Quando percebia que ela estava preocupada, ligava o rádio na sua estação preferida, que tocava sinfonias o dia todo. Foi quando tive uma ideia. Chamei David em um canto.

—Se nós usássemos as ondas do rádio para deixar uma mensagem para a minha irmã e o seu pai, acha que daria certo? – sugeri.

—Bem não sei se eles ouviriam – considerou David – lembra-se que o tempo em que eles estão está congelado em um segundo?

—Então... – eu disse, pensando em outra solução – se... voltássemos, só pra vê-los?

—Voltar? – David estranhou o que sugeri – tem que se considerar muito bem. Não estamos só falando de um lugar diferente, mas de um tempo diferente, tempo esse que está congelado. Se nós voltássemos, poderíamos encontrar uma versão jovem nossa e seríamos apagados dessa versão de agora. O que significaria que nunca vivemos aqui nem...

—Nem Melissa teria nascido – percebi horrorizada – o que vamos fazer?

—Por enquanto – ele me abraçou – podemos trabalhar na mensagem. Eles podem ouvir e ficar na subconsciência deles. Ou...

—Ou o que? – David se afastou inquietamente, como fazia quando tinha uma grande ideia.

—Gravamos uma pequena mensagem de um segundo – ele me explicou – assim não mudamos o passado, ou futuro. É confuso.

Eu sorri concordando e nos pusemos a trabalhar. Infelizmente, um segundo era muito pouco tempo, mas mesmo assim acreditava que Tim e Lana entenderiam o que queríamos expressar.

Gravamos a frase “Teamopai” e “TeamoLana”, enviamos pelas ondas do rádio ligadas através de um novo portal temporal que criamos. Pra nós ainda não era o suficiente, mas era o máximo do possível que podíamos fazer para aplacar nossa saudade.