A Excluída

39 PARTE 5 A Solução


Mesmo em meio à saudade e tristeza, e as diferenças do século 20 ao 21, a vida na Vila Nerd era cheia de paz e de pequenas alegrias. Porém algo inusitado aconteceu, e isso gerou mudanças. Mudanças boas. Devido a alguns acontecimentos, a Vila Nerd e a Vila Descolada entraram em comum acordo para viver em paz e respeito uma com a outra.

Depois disso, percebi o quanto isso tinha mexido comigo e David. Descolados não são monstros, talvez quando eles também são valentões, mas fora isso, em sua essência, eles só são diferentes de nós e não nos compreendem. Era nisso que eu refletia. Se era possível nerds e descolados se respeitavam no século 20, por que então isso seria impossível no século 21?

No fim das contas, a chave para essa convivência harmoniosa é o respeito. Posso não entender porque descolados são como são ou gostam do que gostam, mas eu entendo perfeitamente o que é gostar de alguma coisa diferente. Daí brota-se o respeito mútuo, enxergar-se no outro apesar da diferença, ver o que há por trás da diferença.

E conforme os dias passavam, David e eu pensávamos cada vez mais nisso.

—Eu não sei se é sábio pensar numa certa possibilidade – disse David um dia, de uma forma pensativa e pesarosa – mas... aprendemos uma lição valiosa aqui, e... eu acho que deveríamos voltar, levar isso pra lá, pro nosso tempo original.

—Não, eu... – fiquei surpresa com a ideia de meu marido – não sei se aguentaria passar por tudo de novo.

—Há várias hipóteses do que poderia acontecer conosco – David me disse me olhando nos olhos – podemos voltar como adultos, como adolescentes, mas o mais importante, com esperança. Temos um ao outro e a Melissa, e já é suficiente para termos força contra o mundo, se necessário. Mas se levamos o respeito, não vamos mais ter que correr de valentões, pelo menos não todos os dias.

—Lembra-se do segundo travado? – eu repliquei – se voltarmos, tenho certeza que voltaremos como adolescentes. E o que vai acontecer com Melissa?

—Melissa já está fixada na nossa linha do tempo – David tentou me confortar mas também estava triste – no futuro, nós vamos encontra-la de novo.

—Nós vamos voltar então – eu decidi resolver o problema – e levaremos melissa conosco, e está decidido.

—Eu concordo com você, amor da minha vida — falou David numa voz cansada e rendida.

Nós trocamos um abraço. Começamos a refazer nossos cálculos, guardados há 15 anos. Melissa perguntava o que estávamos construindo e eu só respondia que era algo especial. Aos poucos um portal temporal foi surgindo. Então chegou o dia em que ele estava pronto. Encontramos Rudolf Milatos nas suas macieiras.

—Bom dia Rudolf – David cumprimentou – eu vim para avisar que vamos partir, uma grande viagem... a negócios, e... não sei quando retornaremos.

—Se precisa dizer adues Loxtraide – Rudolf percebeu suas intenções – diga logo.

—Eu sinto muito – eu tentei remediar a situação.

—Não peça desculpas Lilian – ele balançou sua cabeça, compreensivo – todos partem um dia, até mesmo vocês.

Rudolf nos abraçou com força. Ele ficou um pouco com Melissa no colo e demos nosso último adeus.

—Pra onde vamos? – perguntou minha filhinha no seu típico jeito curioso – voltamos pra casa.

—Vamos te mostrar aquilo especial que estávamos construindo – respondeu David.

Juntos, os três demos as mãos e atravessamos o portal. Ao abrir nossos olhos, eu era uma adolescente de 17 anos no meu quarto, encarando um portal. Uma das minhas mãos segurava a de David, mas a outra estava vazia. Eu desabei em choro. Melissa não estava conosco. David me abraçou, mas eu também o ouvi chorar.