A Essência do Amor
12 Frieza na medida certa
O ar de Manhattan estava gélido, mas o salão de festas do Rainbow Room ardia com o brilho do poder. Richard Lâfrer atravessou as portas de vidro sem ser anunciado, sua presença cortando a multidão como uma lâmina de bisturi. Ele não olhou para os garçons com bandejas de cristal, nem para os investidores que tentavam cumprimentá-lo. Seus olhos procuravam apenas um alvo.
E ele a viu.
Elara estava no centro do salão, cercada por uma corte de executivos americanos. O vestido de seda esmeralda caía perfeitamente em seu corpo, e o cabelo, agora em um corte moderno e sofisticado, emoldurava um rosto que não carregava mais o cansaço da pobreza. Ela segurava uma taça de champanhe com uma elegância que parecia inata.
Richard caminhou até ela. A conversa ao redor cessou conforme as pessoas reconheciam o magnata brasileiro. Julian Sterling, ao lado de Elara, sorriu com um prazer predatório.
— Richard! Que surpresa deliciosa. Veio pedir uma trégua ou veio tentar comprar o que não pode ter? — provocou Julian, colocando a mão possessivamente no ombro de Elara.
Richard ignorou Sterling completamente. Seus olhos estavam fixos nos de Elara. Ele esperava ver raiva, mágoa ou até triunfo. Mas o que encontrou foi algo muito pior: indiferença.
— Elara — disse ele, a voz rouca pela viagem e pela tensão.
Ela tomou um gole calmo de sua bebida, olhou para ele como se estivesse observando um estranho que pedia direções na rua e deu um sorriso profissional e vazio.
— Senhor Lâfrer. Que surpresa vê-lo em Nova York. Acredito que não temos nenhuma reunião agendada entre a Sterling Global e a sua empresa.
O "Senhor Lâfrer" atingiu Richard como um soco no estômago.
— Recebi sua transferência — disse ele, dando um passo à frente, ignorando o burburinho ao redor. — Precisamos conversar. A sós.
— Conversar? — Elara arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada. — Sobre o quê? Se for sobre o pagamento, os juros foram calculados pela minha equipe financeira para garantir que não houvesse nenhuma pendência ética entre nós. Considere nossa "transação" encerrada.
— Não é sobre dinheiro, Elara! É sobre o que aconteceu no laboratório... sobre como as coisas terminaram.
Elara soltou uma risada leve, um som cristalino que não chegava aos olhos. Ela se aproximou dele, e por um segundo Richard sentiu o cheiro dela: não era mais a baunilha doce de antes, mas uma fragrância complexa, cara e fria de íris e almíscar.
— O que aconteceu, Richard, foi que eu recebi uma lição valiosa sobre o mercado de trabalho — disse ela, a voz baixa e gélida. — O senhor me ensinou que sentimentos são impurezas em uma fórmula química. Eu apenas segui seu conselho. Me livrei das impurezas.
— Você não é assim — sussurrou ele, os olhos suplicantes. — Aquela garota que cuidava da mãe...
— Aquela garota não podia pagar os médicos da mãe, Richard. Esta mulher aqui — ela apontou para si mesma com a taça — pode comprar o hospital inteiro se desejar. O senhor queria uma CEO implacável? Pois aqui está ela. Criada à sua imagem e semelhança.
Julian Sterling interveio, percebendo o desconforto de Richard.
— Richard, receio que a nossa CEO tenha uma agenda lotada. Temos um brinde para fazer.
Elara olhou para Richard uma última vez, uma expressão de tédio absoluto cruzando seu rosto.
— Se me der licença, Senhor Lâfrer. Tenho negócios reais para tratar. Julian, vamos?
Ela deu as costas a ele sem hesitar. Richard ficou parado, no centro do salão, cercado por centenas de pessoas, sentindo o frio de Nova York entrar em seus ossos. Ele viera para resgatá-la, mas percebeu, com um horror tardio, que Elara Jones não precisava mais de um coração. Ele a transformara exatamente no monstro que ele mesmo era.
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