A Essência do Amor

13 O Trono de Marfim


O jogo de poder agora tinha um novo cenário. Richard recebeu um envelope de papel texturizado no hotel, contendo apenas um cartão com um endereço em Upper East Side e um horário: 20:00.

​Ao chegar, Richard sentiu o peso da nova realidade de Elara. Não era um apartamento de luxo; era uma mansão histórica de calcário, protegida por portões de ferro fundido e uma equipe de segurança privada que verificou seu nome em tablets antes de permitir sua entrada. O jardim de inverno brilhava sob luzes suaves e, no hall de entrada, empregados de uniforme impecável se moviam com eficiência silenciosa.



​Richard subiu a escadaria de mármore, sentindo-se, pela primeira vez na vida, um intruso. O silêncio daquela mansão não era o silêncio vazio da sua cobertura; era o silêncio preenchido pelo som do dinheiro e da autoridade. Um mordomo de postura aristocrática o conduziu até uma biblioteca de pé-direito duplo, onde o cheiro de livros antigos se misturava a uma nota sutil de orquídeas.

​Elara estava sentada em uma poltrona de veludo, segurando um tablet. Ela não se levantou quando ele entrou. Apenas deslizou o dedo pela tela, finalizando algum contrato, e então o encarou com a mesma frieza do coquetel.

​— O senhor foi pontual, Richard. Gosto de pontualidade — disse ela, a voz ecoando suavemente na sala vasta. — Mandei o endereço porque detesto assuntos inacabados. O senhor cruzou o oceano para me dizer algo. Pois bem, estou recebendo-o. O que era tão urgente?

​Richard olhou ao redor, para os seguranças discretos na porta e para a opulência que o cercava.

​— Você mudou muito, Elara. Mansão, seguranças, empregados... É essa a vida que você queria? Se cercar de muros, como eu fiz?

​Elara deu um sorriso de canto, gélido e desprovido de humor.

​— O senhor me ensinou que o mundo é um lugar perigoso para quem não tem defesas. Eu apenas segui o exemplo do meu melhor mentor. Esses muros não são para me esconder, Richard. São para garantir que ninguém mais entre sem o meu consentimento. Incluindo o senhor.

​Richard deu um passo à frente, mas um dos seguranças se moveu sutilmente. Elara fez um pequeno gesto com a mão, e o homem recuou.

​— Eu vim dizer que eu errei — a voz de Richard falhou por um segundo. — Errei em como te tratei, errei em não reconhecer o que você significava para mim antes de te perder. Eu não quero mais ser o monstro de gelo, Elara.

​Elara levantou-se devagar, caminhando até ele. O som dos seus saltos no piso de madeira nobre era o único barulho na sala. Ela parou a um passo de distância, olhando-o de cima a baixo com uma indiferença que doía mais do que qualquer grito.

​— Pedidos de desculpas são reações químicas tardias, Richard. Não alteram o resultado final da fórmula. O senhor não está arrependido porque mudou; o senhor está arrependido porque perdeu o controle sobre mim. O seu ego não aceita que a "auxiliar de cozinha" agora comanda um império maior que o seu.

​— Não é sobre o meu ego! É sobre você! Sobre nós!

​— "Nós" nunca existiu — cortou ela, a voz cortante como cristal. — Existiu um patrão arrogante e uma jovem desesperada. Essa jovem morreu naquela noite em que o senhor a expulsou do laboratório. Esta mulher que está na sua frente não sente nada por você. Nem ódio, nem amor. Apenas... reconhecimento profissional.

​Ela voltou para sua mesa, pegando uma caneta-tinteiro de ouro.

​— Se era apenas isso, a audiência está encerrada. Meu tempo é muito caro hoje em dia para ser gasto com nostalgias mal resolvidas.

​Richard sentiu o impacto das palavras. Ela estava usando a própria armadura dele contra ele, e ele não tinha armas para revidar.

​— Você se tornou exatamente o que eu era, Elara — sussurrou ele, com amargura. — Sozinha no topo.

​— Talvez — respondeu ela, sem levantar os olhos do papel. — Mas com uma diferença fundamental: eu escolhi estar aqui. O senhor foi empurrado pela dor; eu fui movida pela sobrevivência. Agora, por favor, saia. Tenho uma conferência com Londres em dez minutos.

​Richard saiu da biblioteca sob o olhar vigilante dos seguranças. Ao descer a escadaria, ele percebeu que a mansão de Elara era, de fato, uma fortaleza. E ele acabara de ser banido para fora dos portões, sem direito a retorno.