A Essência do Amor
16 O acordo
Dois dias depois, o escritório da Lâfrer Essences em São Paulo parecia uma câmara de tortura para Richard. Ele observava o pôr do sol sobre a Marginal Pinheiros, sentindo o peso da derrota. A oferta de aquisição hostil da Sterling estava sobre sua mesa, pronta para ser assinada. Ele estava prestes a perder o império que construiu com o próprio suor para não ser esmagado pela solidão.
O som da porta abrindo sem aviso o fez despertar. Richard não se virou, esperando que fosse a Sra. Albright com mais papéis de falência.
— Eu disse que não queria ser interrompido — rosnou ele, a voz rouca.
— Então é bom que eu não tenha vindo pedir permissão — a voz de Elara ecoou pela sala, mas havia algo diferente nela. Não era a frieza cortante de Nova York, nem a mágoa do passado. Era a voz de uma estrategista que acabara de vencer uma guerra mundial.
Richard virou-se bruscamente. Elara estava ali, vestindo um conjunto de seda branca, com uma pasta de documentos na mão.
— Elara? O que faz no Brasil? Você deveria estar celebrando a minha queda com o Sterling.
— Julian Sterling não vai celebrar nada por um bom tempo, Richard — ela caminhou até a mesa dele e jogou uma pasta preta sobre a madeira. — Eu deixei a Sterling Global. Mas não saí de mãos vazias. Eu levei a empresa comigo.
Richard franziu o cenho, confuso.
— Como? O conselho nunca permitiria...
— O conselho não teve escolha. Eu descobri o que o "visionário" Julian estava planejando para a nova linha internacional. Ele desenvolveu uma solução sintética, um aditivo químico que age diretamente nos receptores de dopamina do cérebro. Não era apenas um perfume, Richard. Era uma droga olfativa. Ele queria viciar os consumidores para garantir vendas perpétuas.
O rosto de Richard empalideceu.
— Isso é criminoso. É desumano.
— Exatamente. Eu reuni as provas, as fórmulas e os registros dos laboratórios secretos dele. Quando coloquei os documentos na mesa dele em Nova York, Julian entregou o controle acionário da divisão de pesquisa e a autonomia das filiais sem pensar duas vezes. Ele sabe que, se isso vazar, passará o resto da vida na prisão.
Richard sentou-se, absorvendo o impacto. Ela não apenas o salvara; ela destruíra o maior predador do mercado.
— Por que você voltou, Elara? Você podia ter ficado com tudo lá.
Elara se aproximou, e pela primeira vez em meses, a barreira entre eles pareceu derreter.
— Porque eu percebi que o topo é muito frio quando não se tem ninguém com quem brigar — ela deu um sorriso de lado, genuíno. — E porque a Lâfrer precisa de uma parceria. Uma real, não uma aquisição.
Richard olhou para ela, sentindo o coração bater com uma esperança que ele já tinha esquecido. Ele pegou um papel timbrado da própria empresa e começou a escrever rapidamente.
— Você tem razão. A Lâfrer Essences e a Jones Research agora são uma só. Mas eu não quero você como sócia minoritária.
Ele estendeu o documento para ela.
— Eu sou o CEO Chefe, o fundador. Mas a partir de agora, você assume o cargo de CEO Executiva Global. Você terá 48% da empresa. Apenas 2% a menos que eu, para que eu ainda possa te irritar com as decisões finais, mas o suficiente para você mandar em mim 98% do tempo.
Elara leu o documento, os olhos brilhando. Ela olhou para Richard e, por um momento, o empresário frio e a jovem química se viram como realmente eram: dois gênios que se completavam no caos.
— Dois por cento, Lâfrer? — ela brincou, aproximando-se da cadeira dele. — Você ainda é um egocêntrico calculista.
— E você ainda tem a língua mais afiada do mundo, Jones — ele levantou-se, encurtando a distância entre eles. — Mas agora, somos um império. O que me diz? Temos um acordo?
Elara estendeu a mão, mas Richard a ignorou e a puxou para um abraço firme, sentindo o perfume de ambos finalmente se misturar em uma fragrância única de vitória e redenção.
— Temos um acordo, Richard. Mas o café da manhã amanhã ainda é por sua conta.
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