A Essência do Amor

7 Muralhas de Gelo e Línguas de Fogo




​A manhã na Lâfrer Essences estava pesada. Richard passou a noite em claro, amaldiçoando-se por ter ido ao hospital e, principalmente, por ter deixado Elara tocar sua mão. Para ele, aquela proximidade era uma falha de segurança em seu sistema perfeito.

​Quando Elara entrou no laboratório às dez horas, com o semblante cansado mas um brilho de gratidão nos olhos, Richard nem sequer levantou a cabeça dos seus papéis.

​— Bom dia, Richard. Eu queria dizer que minha mãe acordou e...

​— É "Senhor Lâfrer" no ambiente de trabalho, Srta. Jones — cortou ele, a voz tão cortante quanto uma lâmina de vidro. — E não me interessa o boletim médico da sua família. Eu paguei para que esse assunto fosse resolvido e você voltasse a ser produtiva. Estamos atrasados com a estabilização da essência de sândalo. Mãos à obra.

​Elara parou no meio do caminho, o sorriso morrendo em seus lábios. O choque inicial deu lugar a uma faísca de indignação. Ela respirou fundo, colocou seu jaleco e caminhou até a bancada, mas não em silêncio.

​— O "Senhor Lâfrer" esqueceu a educação no hospital ontem à noite ou o transplante de coração que o senhor precisa é mais urgente que o da minha mãe? — disparou ela, sem olhar para ele enquanto organizava as pipetas.

​Richard travou. Ele largou a caneta e fixou seus olhos cinzentos nela, emanando uma frieza que faria qualquer diretor da empresa tremer.

​— Meça suas palavras, Jones. Você é uma funcionária. Uma que deve uma fortuna à minha conta bancária, se bem me lembro.

​Elara virou-se, apoiando as mãos na cintura. Ela não recuou um milímetro.

​— Eu devo dinheiro ao seu banco, não a minha dignidade ao seu ego. Se o senhor acha que comprar a cirurgia da minha mãe te dá o direito de me tratar como um objeto descartável, sinto informar que sua matemática está errada. O senhor pode ser um gênio dos perfumes, mas como ser humano, exala um cheiro bem azedo de covardia.

​— Covardia? — Richard levantou-se, caminhando em direção a ela com passos predatórios. — Você não faz ideia do que eu tive que enfrentar para chegar onde estou sem ajuda de ninguém.

​— E por isso decidiu que ninguém mais merece gentileza? — Elara riu, um som seco. — O senhor tem medo, Richard. Medo de que, se for humano por mais de cinco minutos, alguém descubra que atrás desse terno de três mil dólares existe um menino assustado que ainda mora num orfanato.

​O silêncio que se seguiu foi absoluto. Richard estava tão perto que conseguia ver o reflexo de sua própria raiva nas pupilas dela. A mão dele chegou a subir, não para agredi-la, mas como se quisesse calar aquela boca atrevida que dizia verdades que ele passara a vida escondendo.

​— Chega — disse ele, a voz rouca e perigosa. — Hoje à noite teremos o coquetel de pré-lançamento para os investidores. Você vai comigo.

​Elara piscou, confusa com a mudança brusca de assunto.

​— Como sua assistente?

​— Como minha assistente técnica. Os investidores querem saber sobre a "estabilização orgânica" que salvou o lote. Você vai usar um vestido decente, vai ficar calada ao meu lado e só vai falar quando eu permitir. Não quero seus comentários "afiados" espantando meus acionistas.

​Elara deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dele.

​— Eu vou. Mas vou logo avisando: se o senhor me tratar como um acessório de decoração na frente deles, eu vou explicar para cada um daqueles homens ricos que o segredo do seu perfume de verão é semente de uva e um pouco de bom senso, algo que o dono da empresa parece estar em falta.

​Richard soltou uma risada anasalada, um som desprovido de humor.

​— Dezessete horas. Esteja pronta. E tente não derrubar café no vestido, seria um clichê muito pobre para a minha assistente.

​— Pode deixar, "Senhor Lâfrer" — ironizou ela, voltando para suas fórmulas. — Vou tentar não ofuscar seu brilho de gelo com a minha "pobreza".

​Richard voltou para sua mesa, mas não conseguiu ler uma linha sequer. Ele estava furioso, sim, mas por dentro, uma parte dele estava vibrando. Elara Jones era a única pessoa no mundo que não tinha medo dele, e isso era mais viciante do que qualquer fragrância que ele já tivesse criado.