Três meses de um silêncio sepulcral haviam transformado a cobertura de Richard em um mausoléu de luxo. Ele se tornara ainda mais implacável, se é que isso era possível. Seus funcionários caminhavam sobre ovos e o faturamento da Lâfrer Essences batia recordes, mas o café da manhã agora tinha um gosto amargo e as fórmulas químicas pareciam ter perdido a alma.

​Richard estava em sua mesa de carvalho, analisando gráficos de expansão, quando o celular vibrou com uma notificação do banco. Ele franziu o cenho. Um depósito de alto valor não identificado. Ao abrir o aplicativo, seu coração, aquele órgão que ele jurava ser de gelo, deu um solavanco violento.

​Transferência Recebida: R$ 500.000,00

Remetente: Elara Jones

Descrição: Quitação de dívida hospitalar e honorários de consultoria.

​Os dedos de Richard tremeram levemente. Aquela era a quantia exata, com juros, que ele havia gasto com a cirurgia da mãe dela. Ela estava devolvendo. Ela estava se libertando de qualquer laço que ainda os prendesse.

​— Abutre... — rosnou ele, referindo-se a Julian Sterling. — De onde ela tiraria tanto dinheiro em três meses?

​Movido por uma fúria inquisitiva, ele abriu o notebook e começou a pesquisar. Não demorou muito. A notícia estava na capa da Global Cosmetics Review e em todos os portais de negócios de Nova York.

​A manchete o atingiu como um soco:

​"A Ascensão Meteórica: Elara Jones, a nova CEO da Sterling Global Research."

​Abaixo, uma foto de alta resolução mostrava Elara. Ela não era mais a jovem de camisa branca simples e cabelos desordenados. Estava deslumbrante em um conjunto de alfaiataria azul-marinho, o olhar afiado, a postura de quem comandava um exército de cientistas. Ao lado dela, Julian Sterling sorria como se tivesse ganhado o prêmio mais valioso da terra.

​Richard leu o artigo com os olhos injetados.

​"Jones, que assumiu a divisão de pesquisa há apenas 90 dias, revolucionou a linha orgânica da Sterling, garantindo contratos bilionários na Europa. Fontes internas confirmam que Julian Sterling a nomeou CEO da divisão global esta manhã, citando-a como 'o cérebro mais brilhante que a indústria já viu em décadas'."

​Richard fechou o notebook com um estrondo. O som ecoou pelo escritório vazio.

​— CEO... — ele sussurrou para as paredes de vidro.

​Ele percebeu o erro tático que cometera. Ele tentara esmagar um diamante para que ele não brilhasse fora de suas mãos, e tudo o que conseguiu foi lapidá-lo para seu maior inimigo. O cartão de Julian não era apenas um convite de emprego; era um resgate.

​Mas o que mais doía em Richard não era o sucesso dela, nem o dinheiro devolvido. Era a mensagem implícita: Elara Jones não precisava mais de um "imperador" para salvá-la. Ela agora tinha seu próprio império.

​Richard pegou o celular e discou para sua secretária.

​— Albright, cancele todas as minhas reuniões da próxima semana.

​— Senhor Lâfrer? Aconteceu alguma coisa? — a voz dela tremeu.

​— Reserve o primeiro voo para Nova York. Jato particular. E descubra em qual hotel a nova CEO da Sterling vai comemorar a nomeação esta noite.

​— Sim, senhor. Mas... e a conferência de sândalo?

​— Esqueça o sândalo, Albright — disse ele, levantando-se e pegando o paletó, os olhos brilhando com uma determinação perigosa. — Eu vou buscar algo que deixei escapar. E desta vez, não vai ser por contrato.

​Richard sabia que Elara não o receberia com flores. Ela provavelmente usaria aquela língua afiada para humilhá-lo diante de todos os figurões de Manhattan. Mas, pela primeira vez na vida, ele não estava indo para fechar um negócio. Ele estava indo para a guerra.