O ar da madrugada em São Paulo tinha um frescor que raramente sobrevivia ao meio-dia. Eloise chegou à sede da empresa às 05:45, os passos ecoando no saguão de mármore vazio. Ela usava calças de montaria escuras, botas e uma jaqueta leve — um visual bem menos corporativo que o habitual.

​Ao subir para a estufa do 40º andar, ela esperava encontrar o local deserto. Mas, ao abrir a porta de vidro, parou bruscamente.


​Derick já estava lá. Ele não estava mexendo nos computadores ou ajustando as lâmpadas UV. Ele estava sentado no chão, encostado no suporte de madeira da orquídea rara, de olhos fechados, apenas respirando.

​— Você dormiu aqui? — Eloise perguntou, a voz cortando o silêncio.

​Derick abriu um dos olhos e sorriu. Ele parecia terrivelmente à vontade para alguém que estava invadindo o santuário dos Lâfrer.

​— O primeiro ônibus da periferia sai às quatro, Lâfrer. Cheguei cedo para não perder o "despertar". Shh... escuta.

​Eloise caminhou até ele, pronta para dar um sermão sobre protocolos de higiene, mas parou quando ele apontou para a flor. No silêncio absoluto da estufa, antes que o sistema de som ambiente ligasse, ouvia-se o estalido quase imperceptível das pétalas se expandindo.

​— A luz do sol ainda não bateu no vidro — sussurrou Derick, levantando-se devagar. — É agora. A planta está relaxada, a essência está no auge da pureza, sem o estresse da fotossíntese acelerada.

​Ele entregou a ela um frasco de vidro âmbar e uma pipeta de precisão manual.

​— Sem máquinas hoje. Só o seu olfato e a sua mão. Você consegue, ou precisa que um computador te diga onde está o coração da flor?

​Eloise sentiu o desafio arder em seu peito. Ela se aproximou da orquídea. O cheiro era diferente do que ela conhecia dos relatórios de laboratório. Era mais verde, mais úmido... mais vivo. Ela inclinou-se, o rosto tão próximo da flor que sentia a textura aveludada nas bochechas.

​Derick ficou logo atrás dela. Ela podia sentir o calor do corpo dele, a respiração calma soprando perto do seu pescoço.

​— Agora — ele comandou suavemente. — Aspira a primeira gota da condensação do cálice.

​Eloise realizou o movimento com uma precisão que surpreendeu a si mesma. Ao colher o líquido, ela levou o frasco ao nariz. Seus olhos castanhos se arregalaram. Era uma explosão de notas cítricas e terrosas que ela nunca tinha conseguido capturar com os extratores automáticos.

​— É... é perfeito — ela admitiu, a voz falhando.

​— É real — corrigiu Derick. — Esse é o segredo que o seu pai esqueceu e que a sua mãe sempre soube: a natureza não trabalha com horários de escritório.

​Eloise virou-se para ele, o frasco ainda na mão. A luz do sol finalmente rompeu a linha do horizonte, inundando a estufa com um tom alaranjado e dourado. A luz bateu nos olhos de Derick, revelando nuances de âmbar que ela não tinha notado antes. Por um segundo, a inveja dela desapareceu, substituída por algo muito mais perigoso: admiração.

​— Como você aprendeu isso? — ela perguntou, a voz mais baixa.

​— Minha avó benzia com ervas no quintal de casa — ele deu de ombros, mas o olhar não desviou do dela. — Ela dizia que cada folha tem uma história, se você souber ouvir. Eu só aprendi a traduzir.

​Eloise olhou para as próprias mãos, limpas e bem cuidadas, e depois para as dele. Ela percebeu que, embora vivesse naquele império a vida toda, Derick conhecia o coração da Lâfrer & Jones melhor do que ela.

​— Nós temos a base — disse ela, recuperando a postura de herdeira, embora o coração estivesse acelerado. — Mas ainda falta a nota de fundo para a "Linha Aurora".

​— Eu conheço um lugar — Derick disse, pegando a mochila. — Mas você vai ter que sair deste arranha-céu. Topa ir até a zona leste conhecer um jardim de verdade?

​Eloise hesitou. Sair da segurança do seu mundo para seguir um estagiário bolsista até a periferia era algo que seu pai odiaria. Mas os olhos dele a desafiavam, e Eloise Lâfrer Jones nunca fugia de um desafio.

​— Eu dirijo — respondeu ela, pegando as chaves do seu carro esportivo.