A Essência do Amor 2 Eloise & Derick
4 Onde a Raiz se Esconde
O Porsche conversível de Eloise parecia uma nave espacial estacionada na frente da casa de Derick, em uma rua estreita e barulhenta da Zona Leste. O contraste era gritante: o brilho da pintura alemã contra o reboco aparente das casas vizinhas.
Eloise desceu do carro, sentindo-se vulnerável pela primeira vez na vida. Ela ainda usava suas roupas de grife, mas o olhar curioso dos vizinhos a fazia querer se esconder atrás dos óculos escuros.
Derick abriu um portão de ferro que rangia.
— Bem-vinda ao meu laboratório, Lâfrer. Cuidado com o degrau.
Ao atravessar o corredor estreito lateral da casa, Eloise parou, sem fôlego. O quintal não era grande, mas era uma explosão de vida. Não havia prateleiras de aço ou sensores de umidade. Havia vasos de barro, latas de tinta reaproveitadas e canteiros feitos de pneus, todos transbordando ervas, flores silvestres e raízes que exalavam um perfume denso e terroso.
— Minha avó chamava isso de "Jardim da Cura" — disse Derick, agachando-se perto de um arbusto de flores miúdas e brancas. — É aqui que está a nota de fundo que a sua "Linha Aurora" precisa. O Patchouli do Mato.
Eloise aproximou-se, esquecendo-se da poeira em seus sapatos caros. Ela se ajoelhou ao lado dele. Derick esfregou uma folha entre os dedos e a levou ao nariz dela.
— Sente isso? Não é apenas amadeirado. É úmido, tem cheiro de chuva que acabou de cair na terra quente. É o que dá fixação sem ser pesado.
Eloise fechou os olhos, absorvendo o aroma. Era visceral. Era a peça que faltava no quebra-cabeça.
— É... primitivo — sussurrou ela, abrindo os olhos e encontrando os dele. — Por que você nunca levou isso para a empresa? Você teria sido contratado na hora, sem precisar de bolsa.
Derick deu um sorriso amargo, desviando o olhar para as plantas.
— Porque na sua empresa, eles querem o resultado puro em um frasco de cristal. Eles não querem a terra sob as unhas, Eloise. Eles não querem saber que essa planta cresceu ouvindo o barulho do ônibus e sendo regada com água da chuva guardada em balde. Eles querem a estética, não a raiz.
Eloise sentiu uma pontada de culpa. Ela olhou para a própria vida, para as salas com ar-condicionado e para os relatórios de lucro. Ela percebeu que, por mais que estudasse, ela era uma observadora. Derick era parte do processo.
— Eu quero a raiz — disse ela, a voz firme. — Eu quero que a "Linha Aurora" conte essa história.
Derick olhou para ela, surpreso pela sinceridade na voz da "Princesinha do Gelo". Houve um silêncio carregado entre eles, interrompido apenas pelo som de rádio vindo da casa vizinha.
— Você está falando sério? Seu pai vai odiar. Ele quer algo comercial, algo que cheire a "luxo sustentável", não a "quintal de vó".
— Meu pai respeita o que funciona — retrucou Eloise, levantando-se e limpando os joelhos. — E isso aqui... isso funciona melhor do que qualquer sintético que tenhamos no estoque. Vamos levar uma muda. Vamos provar para eles.
Derick sorriu, mas desta vez não foi um sorriso de deboche. Foi um sorriso de cumplicidade.
— Você é teimosa, Lâfrer. Igualzinha ao Velho Richard.
— E você é insolente, Deverro. Mas... você tem razão sobre a terra.
Eles passaram a tarde ali, colhendo amostras e conversando. Eloise ouviu histórias sobre como Derick passava as noites estudando sob a luz de um abajur velho para conseguir a bolsa, enquanto ele ouvia sobre a pressão de ser a herdeira de um legado perfeito. Pela primeira vez, a inveja de Eloise se transformou em algo diferente: um desejo de que o mundo visse o talento de Derick tanto quanto ela agora via.
Ao voltarem para o carro, o sol estava se pondo. A tensão entre eles não era mais apenas competitiva; era algo que fazia o ar dentro do Porsche parecer rarefeito.
— Sexta-feira é a apresentação — disse Derick, enquanto ela ligava o motor. — Se a gente falhar, eu perco a bolsa e você perde a sua primeira chance de liderar.
— Nós não vamos falhar — Eloise olhou para ele, os olhos castanhos brilhando com a determinação dos Lâfrer Jones. — Porque agora, nós temos a essência.
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