A Esposa Perfeita
21 O Chá de Máscaras
Notas iniciais
Capítulo 21 — O Chá de Máscaras
O salão de festas da mansão Cullen havia sido transformado em um jardim de inverno vitoriano, um cenário que exalava o luxo ostensivo que Alice e Esme consideravam o padrão mínimo para a futura Senhora Cullen. Paredes cobertas por painéis de seda champagne, cascatas de orquídeas brancas pendendo do teto e torres de porcelana de Limoges repletas de iguarias que Bella mal conseguia pronunciar o nome. Para Bella, porém, aquele ambiente era um palco surrealista. Ela se olhou no espelho do lavabo, ajustando o vestido branco de seda pura, curto e estruturado, que delineava suas curvas de forma elegante, mas que parecia um uniforme de guerra. A tiara com um pequeno véu de tule e a faixa de cetim com a inscrição "BRIDE" em cristais eram os adereços de uma farsa que estava se tornando sufocante.
Rosalie entrou no lavabo, fechando a porta e encostando-se nela com um suspiro pesado. A loira observou a melhor amiga através do espelho, notando a palidez sob a maquiagem impecável.
— Você parece uma boneca de porcelana prestes a estilhaçar, B. — sussurrou Rosalie, aproximando-se para ajeitar o véu de Bella com uma suavidade incomum. — Eu sinto muito por ter surtado naquele dia. É que ver você e a Alice juntas... eu senti que estava perdendo a única coisa real que me restava nesse mundo de aparências.
Bella virou-se, os olhos castanhos transbordando uma angústia que ela não podia mostrar lá fora.
— Rosie, eu sinto que estou me afogando. Cada vez que a Esme toca na minha barriga ou que o Carlisle fala sobre o futuro desse "bebê", uma parte de mim morre de culpa. E agora, para piorar, o Edward e eu tivemos que inventar mais uma mentira para justificar por que não queremos um chá de bebê separado. — Bella baixou o tom de voz, temerosa de que as paredes tivessem ouvidos. — Tivemos que dizer ao conselho e à família que, por conta da "gravidez de risco" que inventamos para justificar meu repouso, todos os exames e ultrassons serão feitos por uma equipe médica privada de Milão, a mesma que cuidará da Alice. Estamos criando um prontuário médico falso, Rosie. Se o Jasper conseguir acesso a qualquer documento oficial, ele vai descobrir que não existe batimento cardíaco nenhum aqui dentro. Estamos construindo um castelo de cartas no meio de um furacão.
Lá fora, a festa estava em seu auge. O chá de panela, que deveria ser um momento de descontração feminina, tornou-se um evento social de alto nível. Renée circulava entre as convidadas, vangloriando-se da "fertilidade e sorte" da filha, enquanto Bella tentava sorrir e agradecer pelos presentes luxuosos que recebia. O ápice da tarde aconteceu quando as portas duplas se abriram e o grupo de homens, liderado por Edward e Emmett, invadiu o evento sob aplausos e risadas.
Edward caminhava à frente, vestindo um blazer azul-marinho que realçava o bronzeado de seu rosto e a determinação em seus olhos. Ele carregava um buquê imenso de lírios brancos, tão grande que quase ocultava seu torso. Ao ver Bella, o sorriso dele foi instantâneo, uma mistura de admiração genuína pela beleza dela e a máscara protetora do marido dedicado. Ele se aproximou e entregou as flores, beijando-a com uma intensidade que fez as convidadas soltarem suspiros de encantamento.
— Para a noiva mais linda e a mãe mais corajosa que eu já conheci — disse Edward, a voz firme para que todos ouvissem, embora seus olhos buscassem os dela pedindo perdão pela mentira renovada.
A animação subiu de nível quando Alice anunciou o início das brincadeiras. Bella e Edward foram colocados em cadeiras no centro do salão para o jogo de "Quem conhece melhor o outro?". As perguntas começaram inocentes, mas logo atingiram o terreno perigoso da intimidade forjada.
— Onde foi que vocês descobriram que estavam esperando o bebê? — perguntou uma das amigas de Esme, com os olhos brilhando de curiosidade.
Edward não hesitou, segurando a mão de Bella e olhando para ela com uma ternura que parecia assustadoramente real.
— Foi em uma manhã chuvosa, logo depois que decidimos que Forks seria nosso refúgio. Olhamos um para o outro e simplesmente soubemos que a nossa família estava começando ali. Foi o momento mais silencioso e sagrado das nossas vidas. — Ele mentia com uma perfeição que assustava Bella. Ela teve que confirmar com a cabeça, forçando uma lágrima de emoção que não foi difícil de produzir, dado o seu estado de nervos.
Em seguida, pediram para Bella descrever o que sentiu ao ver o primeiro teste.
— Eu senti... medo e uma alegria avassaladora ao mesmo tempo — respondeu ela, olhando para Alice no fundo do salão. — Medo do futuro, mas a certeza de que, com o Edward ao meu lado, eu poderia enfrentar qualquer tempestade.
Cada resposta era uma nova camada de cimento na estrutura da mentira. Enquanto todos riam e brindavam com espumante, Bella sentia o peso da faixa "BRIDE" como se fosse uma corrente. Jasper, que observava tudo de um canto discreto com uma taça na mão, mantinha um olhar analítico. Ele notava como a mão de Edward tremia levemente ao tocar o ventre de Bella e como o sorriso dela não chegava aos olhos. O chá de panela chic e animado era, na verdade, a maior encenação de suas vidas. Edward e Bella estavam cada vez mais enredados em uma narrativa que os protegia de Jasper, mas que, ao mesmo tempo, os distanciava de qualquer chance de uma verdade simples e honesta entre eles. A cada brinde, a farsa tornava-se mais grandiosa, e o risco de uma queda catastrófica tornava-se a única certeza absoluta que restava para o casal Cullen.
As risadas ecoavam pelo salão de mármore como notas de uma melodia desafinada para os ouvidos de Bella. O chá de panela, que deveria ser sobre jogos de cozinha e lingeries de seda, havia sido completamente sequestrado pela obsessão coletiva com o suposto herdeiro. Alice, com sua agilidade habitual, saltitava entre os grupos, tentando desviar o foco das perguntas sobre enxoval e ultrassons, mas a curiosidade das convidadas era como uma maré alta, impossível de conter apenas com sorrisos e canapés de caviar.
— Mas Bella, querida, você não sente nadinha? Nem um enjoo matinal com o cheiro desse café? — perguntou a Sra. Weber, uma das senhoras mais tradicionais do conselho, aproximando-se com os olhos semicerrados em uma inspeção clínica. — Lembro-me que, na minha primeira gravidez, eu não conseguia nem olhar para o meu marido sem querer vomitar!
Edward, que estava logo atrás de Bella, sentiu o corpo dela tencionar sob o vestido branco. Com uma rapidez que faria qualquer jogador de pôquer profissional invejar, ele envolveu a cintura dela, puxando-a para o calor de seu peito e depositando um beijo protetor em sua têmpora, enquanto seu cérebro trabalhava a mil por hora para fabricar uma resposta que não os levasse à ruína.
— A Isabella é uma força da natureza, Sra. Weber. — Edward disse, a voz aveludada carregada de uma adoração fingida que já estava se tornando perigosamente fácil de encenar. — Ela herdou a resiliência do Charlie. O bebê parece estar sendo tão gentil com ela quanto ela é com todos nós. Na verdade, o único "desejo" estranho que ela teve até agora foi por maçãs verdes... de madrugada. Tive que acordar o motorista para buscar em Seattle.
Bella forçou uma risada nervosa, sentindo o suor frio brotar na nuca. "Maçãs verdes?", ela pensou, "De onde ele tirou isso?".
— É verdade... — Bella completou, a voz saindo um pouco mais aguda do que o normal. — O Edward quase se tornou um especialista em pomares nas últimas semanas. Eu me sinto... ótima. Quase como se não houvesse nada diferente, o que é um milagre, não é?
A "saia justa" seguinte veio na forma de uma caixa imensa e pesada entregue por uma das assistentes de Esme. Alice, percebendo o perigo iminente de um presente temático de bebê aparecer em um chá de panela, tentou interceptar, mas Renée foi mais rápida. Com um movimento teatral, a mãe de Bella rasgou o papel de presente, revelando um conjunto de prataria de berço antigo, pesado e reluzente.
— Uma herança de família para o primeiro neto! — exclamou Renée, olhando para Edward com um brilho de triunfo nos olhos. — Diga-nos, Edward, vocês já decidiram se o quarto será na ala leste ou oeste? Ouvi dizer que vocês estão planejando uma reforma completa para criar uma suíte "presidencial" para o pequeno Cullen.
Edward sentiu a pressão do olhar de Jasper, que estava encostado em uma pilastra a poucos metros de distância, observando a cena com a frieza de um falcão. O silêncio que se seguiu foi torturante. Se dissessem que não haveria reforma, pareceriam indiferentes; se dessem detalhes demais, poderiam se contradizer mais tarde.
— Estamos... — Edward começou, sentindo a palma da mão suar contra o tecido do vestido de Bella. — Estamos priorizando o conforto. A ala leste tem a melhor luz da manhã, mas a Bella prefere o silêncio da ala norte. Ainda estamos em debate com o arquiteto. Sabe como é, queremos que tudo seja... impecável.
— Ah, mas a ala norte é fria para um recém-nascido! — retrucou outra convidada, iniciando uma discussão acalorada sobre isolamento térmico e cores de berçário. Bella sentiu uma tontura real. A mentira estava crescendo, ganhando cômodos, cores e arquitetura própria. Cada detalhe que Edward inventava era uma nova pedra no muro que os separava da verdade.
A situação atingiu o ápice do ridículo quando Emmett, empolgado pela terceira taça de espumante, decidiu que era hora de uma brincadeira "especial". Ele trouxe dois balões grandes e amarrou-os sob a camisa de Edward e Emmett, desafiando-os a uma corrida de obstáculos para "sentir o que as mulheres passam".
— Vamos lá, Edward! Mostre que você está pronto para carregar esse peso! — gritou Emmett, rindo enquanto tentava equilibrar a "barriga" de borracha.
Edward, embora morrendo de vergonha interna, entrou na brincadeira com um desespero cômico para manter o disfarce de marido entusiasmado. Ele corria pelo salão, desviando de mesas de chá e convidadas, enquanto Bella assistia a tudo entre o riso histérico e o pavor absoluto. Em um momento, Edward tropeçou no próprio sapato de verniz e caiu de joelhos aos pés de Jasper, o balão fazendo um som alto de fricção contra o chão.
— Cuidado, primo. — disse Jasper, a voz baixa e gélida, estendendo a mão para "ajudar" Edward a se levantar. — Você não quer estourar essa bolha de felicidade antes da hora, quer?
Edward levantou-se, limpando o blazer com uma dignidade ferida, seus olhos encontrando os de Jasper em um duelo silencioso de vontades.
— A felicidade dos Cullen é mais sólida do que você imagina, Jasper. — retrucou Edward, recuperando a postura de CEO. — Algumas coisas são feitas para durar, não para estourar.
Ao fim da festa, enquanto as últimas convidadas se retiravam, Bella e Edward desabaram no sofá do salão, cercados por papéis de presente e flores murchas. Ela retirou a tiara com o véu, jogando-a sobre a mesa, e olhou para ele, que ainda segurava o buquê de lírios como se fosse um escudo.
— Maçãs verdes, Edward? Sério? — ela perguntou, a voz carregada de um cansaço que beirava o riso.
— Foi a primeira coisa que veio à mente! — ele se defendeu, soltando um suspiro longo. — Eu senti que se não dissesse um desejo específico, elas iam começar a suspeitar da sua silhueta impecável.
Eles riram, uma risada nervosa e seca, que logo morreu diante do silêncio da mansão. Estavam salvos por mais um dia, mas a avalanche de mentiras estava ficando mais pesada a cada hora. Eles eram o casal mais invejado da noite, os protagonistas de um conto de fadas moderno, mas no fundo, eram apenas dois fugitivos tentando não serem esmagados pelo peso das próprias palavras, esperando que o casamento chegasse logo para que pudessem, finalmente, respirar sem precisar ensaiar cada suspiro.
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