A Esposa Perfeita
22 A Ilusão de Milhões
Notas iniciais
Capítulo 22 — A Ilusão de Milhões
Os dias que antecediam o casamento oficial de Isabella Swan e Edward Cullen não eram marcados apenas pela contagem regressiva para os votos, mas por uma escalada coreografada de enganos que desafiava a própria realidade. No centro do quarto principal, Alice, movendo-se com a precisão de uma figurinista de Hollywood, abria uma maleta de alumínio revestida de veludo. Dentro, repousava uma prótese de silicone médico de última geração, adquirida através de contatos obscuros na indústria cinematográfica europeia. Era uma peça de engenharia anatômica: a textura imitava a pele humana, com poros imperceptíveis e uma variação tonal que se mesclava perfeitamente à pele de Bella.
Edward observava a cena encostado no batente da porta, as mãos nos bolsos e o cenho franzido em uma expressão que misturava fascínio e pavor absoluto. Para ele, aquela barriga não era apenas um acessório; era a personificação de uma mentira que agora ganhava volume e peso.
— Isso é loucura, Alice. — sussurrou Edward, aproximando-se enquanto Bella permanecia imóvel, permitindo que a cunhada ajustasse as bordas adesivas da prótese em sua cintura. — Estamos literalmente construindo uma pessoa de mentira. Como vamos fazer para esse bebê "sumir" depois? As pessoas esperam um nascimento, esperam fotos, esperam um herdeiro real que o conselho possa validar.
Bella olhou para o próprio reflexo, sentindo o peso estranho e frio do silicone contra seu abdômen. A pequena protuberância, embora discreta por baixo da blusa de seda, era inegável.
— O Edward tem razão, Alice. Estamos subindo um degrau que não tem volta. Se eu aparecer com isso hoje no almoço, a história se torna oficial. — Bella desviou o olhar para Edward, seus olhos castanhos carregados de uma tensão febril. — Como vamos encerrar isso sem que eu pareça uma fraude ou uma tragédia nacional?
Edward respirou fundo, sua mente de estrategista já traçando as rotas de fuga.
— A lua de mel. — disse ele, a voz soando sombria. — Decidi que não iremos para as Ilhas Gregas ou para o Caribe. Iremos para Milão. O pretexto oficial será que, devido à sua "gravidez de risco", precisamos estar perto dos melhores especialistas em obstetrícia da Europa, que por acaso são amigos do meu pai. Alice irá conosco para "ajudar" você, já que ela conhece a cidade. Lá, inventaremos um acidente. Uma queda, uma complicação súbita no terceiro mês... algo que nos permita anunciar a perda do bebê de forma privada, longe dos olhos de Jasper e da imprensa de Seattle. É a única saída para que você volte "recuperada" e a Alice possa ficar lá para ter o filho dela em paz.
O almoço de domingo na mansão foi o palco para a estreia da "nova" Bella. Enquanto Alice se escondia sob um cardigã de tricô três vezes maior que seu tamanho para ocultar sua gravidez real que começava a despontar, Bella descia as escadas usando um vestido de malha ajustado, que deixava a pequena e firme saliência da barriga em evidência. Quando entraram na sala de jantar, o silêncio caiu por um segundo, antes de ser substituído por um coro de exclamações emocionadas.
Esme foi a primeira a se aproximar, as mãos levadas ao rosto e as lágrimas já brilhando em seus olhos.
— Oh, Bella... querida... olhe para você! — Esme tocou, com uma delicadeza quase religiosa, a curva da barriga falsa, sentindo a resistência do silicone que ela acreditava ser seu neto. — Já está aparecendo! Carlisle, venha ver! Parece que foi ontem que vocês nos contaram, e agora... a vida está florescendo bem diante dos nossos olhos.
Charlie levantou-se da poltrona, a bengala batendo ritmicamente no chão enquanto ele se aproximava com um sorriso que irradiava um orgulho puro e devastador para a consciência de Bella.
— Minha menina... — disse Charlie, a voz embargada, abraçando Bella de lado com cuidado. — Você está radiante. Eu nunca pensei que veria esse dia. Edward, você está cuidando bem do meu neto, não está?
Edward colocou a mão sobre o ombro de Bella, sentindo o tremor sutil que emanava dela. Ele forçou um sorriso charmoso, o tipo de sorriso que usava para convencer investidores céticos, mas que agora servia para proteger o coração de seu sogro.
— Estamos fazendo o nosso melhor, Charlie. Mas acho que esse bebê puxou ao pai... — Edward disse, olhando para Bella com uma cumplicidade ensaiada que escondia a angústia em seu peito. — Ele é um exibido, não é, querida? Imagina se ele ia ficar de fora de aparecer no próprio casamento e deixar de ser um dos grandes destaques da festa? Ele queria garantir que todos soubessem quem é o verdadeiro dono do império Cullen.
Bella soltou uma risada que soou surpreendentemente natural, embora por dentro ela sentisse que cada célula de seu corpo protestava contra a encenação.
— Pois é... — Bella completou, acariciando a barriga falsa e olhando para Esme e Sue, que observavam tudo com adoração. — Eu tentei usar um vestido mais solto, mas parece que ele decidiu que hoje era o dia de dar as caras. Ele não aceita ficar em segundo plano, Edward tem razão. É um pequeno Cullen nato, já querendo comandar o ambiente antes mesmo de nascer.
Sue e Esme trocaram olhares de "eu não disse?", enquanto Carlisle discutia com Edward sobre os cuidados que Milão exigiria. A cena era de uma felicidade doméstica perfeita: o patriarca feliz, a mãe empolgada, o pai orgulhoso e o casal radiante. No entanto, por trás das risadas e dos planos para o berçário, a teia de mentiras se tornava uma prisão de luxo. Cada carinho que recebia na barriga de cinema era uma punhalada de culpa para Bella, e cada promessa de proteção que Edward fazia era um passo a mais em direção ao abismo que os esperava na Itália. Eles estavam criando uma memória linda para a família, cientes de que, em breve, teriam que destruí-la sistematicamente para sobreviver.
O almoço prosseguiu sob uma redoma de euforia que, para Edward e Bella, parecia mais uma sentença de prisão perpétua. Cada comentário de Carlisle sobre a genética dos Cullen ou a disposição dos quartos na mansão para as visitas de fim de semana era recebido por Edward com um aceno de cabeça polido, embora, por dentro, ele sentisse o estômago dar voltas. A barriga de silicone, agora aquecida pelo contato com o corpo de Bella, tornava-se uma extensão física da farsa. Durante a sobremesa — um suflê de chocolate que Esme insistira em preparar por ser "rico em magnésio para o bebê" —, a tensão atingiu um novo ápice de ironia dramática.
— Sabe, Bella, eu estava conversando com o conselho da fundação do hospital — comentou Carlisle, limpando os lábios com o guardanapo de linho e olhando para a nora com um brilho de esperança paternal. — E todos estão ansiosos para ver a nova geração. Jasper tentou questionar se o estresse da campanha de marketing não seria prejudicial para você, mas eu o informei que, com o acompanhamento em Milão, você estará nas melhores mãos do mundo. Ele pareceu... particularmente interessado na data prevista para o parto.
Edward tencionou o maxilar, sentindo o perigo se aproximar através das palavras do pai. Jasper não estava apenas interessado; ele estava cronometrando a mentira.
— O Jasper precisa se preocupar com as próprias métricas de desempenho e deixar a saúde da minha esposa para quem entende do assunto — rebateu Edward, a voz cortante como uma lâmina de gelo, enquanto sua mão encontrava a de Bella por baixo da mesa, apertando-a em um pedido silencioso de resistência. — Decidimos que Milão é o melhor caminho. Alice já conhece os melhores distritos e poderá dar o suporte que a Bella precisa enquanto eu resolvo os detalhes finais da fusão na Europa.
Alice, que até então mantinha um perfil discreto sob seu cardigã largo, forçou um sorriso cúmplice, embora seus olhos estivessem fixos no prato.
— Com certeza, papai. Eu serei a sombra da Bella. Não deixarei que ela suba um degrau sequer sem a minha supervisão. — A voz de Alice tremeu levemente, mas Esme interpretou aquilo como a empolgação de uma tia ansiosa.
Após o almoço, Bella e Edward refugiaram-se no jardim de inverno para um momento de "privacidade", que na verdade era uma reunião de crise disfarçada. Bella sentou-se em um dos bancos de ferro batido, sentindo o peso da prótese incomodar sua respiração. O vestido, embora lindo, agora parecia um figurino de teatro que ela não podia despir.
— Edward, nós estamos criando um monstro. Você ouviu o seu pai? Jasper está contando os dias. Se chegarmos em Milão e "perdermos" o bebê rápido demais, ele vai investigar os registros hospitalares. Se demorarmos muito, a barriga terá que crescer... e eu não sei se a Alice tem próteses para todos os meses de uma gestação inexistente.
Edward caminhou de um lado para o outro, os passos pesados contra o piso de pedra. Ele parou diante dela e se ajoelhou, ficando na altura dos olhos de Bella, as mãos repousando sobre os joelhos dela.
— Nós vamos sustentar isso até o altar, Bella. Depois que os votos forem trocados e o contrato de casamento estiver registrado, minha posição como CEO fica blindada juridicamente por um período de transição. O plano de Milão é a nossa única rota de colisão segura. — Ele suspirou, o semblante carregado por uma tristeza que ele não conseguia mais esconder. — Eu odeio ver o Charlie e a Esme olhando para essa... essa coisa... com tanto amor. Eu sinto como se estivéssemos roubando algo deles que nunca poderemos devolver.
Bella tocou o rosto de Edward, sentindo a pele tensa e a barba por fazer que ele negligenciara devido ao estresse.
— Nós estamos devolvendo a vida da Alice, Edward. Esse é o preço. Mas depois disso... depois de Milão... o que sobra de nós? — perguntou ela, a voz baixa, quase inaudível. — Quando a gravidez "acabar" e o contrato de cinco anos for a única coisa que restar entre nós no papel, como vamos olhar um para o outro sem lembrar de cada mentira que contamos para chegar até lá?
Edward não respondeu imediatamente. Ele apenas inclinou a testa contra a dela, fechando os olhos e permitindo-se, por um breve segundo, imaginar que a saliência sob o vestido era real, que a alegria de Charlie era fundamentada e que o amor que ele sentia por Bella não precisava de cláusulas ou justificativas.
— Sobra o que for real, Bella. E eu começo a desconfiar que a única coisa real nesse castelo de vidro somos nós dois, tentando não nos cortar nos cacos.
O sol de Forks começou a se pôr, lançando sombras longas sobre os jardins dos Cullen. O casamento estava a poucos dias de distância. Os convites haviam sido entregues, o vestido estava pronto, e a barriga de cinema estava devidamente colada. Eles eram o retrato da perfeição, os heróis de uma dinastia, mas enquanto caminhavam de volta para dentro para se despedir da família, Edward e Bella sabiam que estavam subindo ao altar não apenas para unir suas vidas, mas para oficializar a mentira mais cara e perigosa que a alta sociedade de Seattle já vira. E no fundo, o maior medo de ambos não era o Jasper, mas o momento em que as luzes se apagassem e eles tivessem que encarar, sozinhos, o vazio do que deixaram de ser para se tornarem o que o mundo esperava.
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