A Esposa Perfeita
24 O Altar das Máscaras
Notas iniciais
Capítulo 24 — O Altar das Máscaras
A luz da manhã de Forks entrou no quarto como uma intrusa, pálida e fria, filtrada pelas copas das árvores. Bella abriu os olhos e, por um segundo, esqueceu-se de quem era. Mas o peso no peito voltou instantaneamente. O estado de dormência emocional era seu único mecanismo de defesa; ela se sentia como uma espectadora assistindo à própria vida ser montada em um palco.
O ritual de "montagem" começou em um silêncio quase fúnebre. Alice, com as mãos visivelmente trêmulas, aplicava as camadas de maquiagem necessárias para esconder as olheiras profundas de Bella. O momento mais tenso foi a colagem da prótese. O som do adesivo médico sendo aplicado na pele de Bella parecia ecoar nas paredes. Alice ajustava as bordas da barriga de cinema com uma precisão cirúrgica sobre o ventre da amiga, garantindo que o volume sob o cetim do vestido de noiva fosse a mentira mais convincente da história de Seattle.
— Está perfeito — sussurrou Alice, embora seus olhos estivessem cheios de pavor. — Ninguém vai notar.
Foi nesse momento que a porta se abriu. Renée Stephens entrou com a elegância de um predador que não precisa de pressa. Ela gesticulou para que Alice saísse. Relutante e sob o olhar suplicante de Bella, a pequena Cullen retirou-se.
O silêncio que se seguiu não era de paz, mas de uma guerra fria. Renée aproximou-se da filha, avaliando-a de cima a baixo. Não havia gritos ou drama; apenas uma sinceridade gélida.
— Você está linda, Isabella. Uma verdadeira Cullen — começou Renée, a voz suave e desprovida de qualquer calor maternal. — Mas pare de me olhar com esses olhos de mártir. Eu sei da verdade. Eu sei sobre o contrato.
Bella sentiu o sangue congelar nas veias. Ela tentou abrir a boca, mas Renée a interrompeu com um gesto leve de mão.
— Não se dê ao trabalho de mentir para mim. Eu sou muito mais inteligente que o Jasper ou qualquer pessoa nesta casa. Eu sempre acompanhei sua vida, Isabella. Acha que eu deixaria você em Forks sem supervisão? Eu usei detetives por anos. Quando vi uma garçonete, cujo pai estava praticamente morto, iniciar um romance relâmpago com o herdeiro mais cobiçado do país, eu soube na hora: ou era o golpe mais clichê do século ou um acordo muito sujo. E conhecendo o sangue que corre nas suas veias... eu sei que você é ambiciosa como eu. Você só gosta de se vestir de boazinha para dormir melhor à noite.
Renée deu um passo à frente, os olhos fixos na saliência do vestido de Bella.
— E essa gravidez? É falsa. Eu sinto o cheiro de uma farsa a quilômetros. Mas não se preocupe, eu não vou te denunciar. Pelo contrário, eu admiro a sua jogada. Você garantiu o trono dele e a sua fortuna. Só não tente me convencer de que você é uma vítima. Você é uma jogadora, Isabella. Seja bem-vinda ao clube.
O choque paralisou Bella, mas antes que ela pudesse responder àquela acusação que a despia de sua moralidade, Rosalie entrou no quarto como um furacão.
— Acabou a audiência, Renée. Fora daqui — ordenou Rosalie, os olhos brilhando de fúria. — A noiva precisa terminar de se preparar. Agora!
Renée sorriu, um sorriso que nunca chegou aos olhos, e saiu com a mesma calma com que entrou. Rosalie trancou a porta e correu para amparar Bella, que tremia violentamente.
Enquanto isso, no escritório principal, o clima era outro. Carlisle estava de pé junto à janela, segurando uma pequena caixa de veludo azul. Quando Edward entrou, o patriarca virou-se com um orgulho tão genuíno que Edward sentiu um soco físico no estômago.
— Edward, meu filho. — Carlisle colocou a mão no ombro de Edward. — Este relógio pertenceu ao meu avô e foi passado para mim no dia em que me tornei médico. Hoje, ele é seu. Não apenas como um presente de casamento, mas como um símbolo da minha confiança.
Edward olhou para o relógio de ouro, sentindo o peso da traição esmagar seus pulmões. Ele estava usando a felicidade mais pura de seu pai para blindar sua posição como CEO. Ele via no olhar de Carlisle a alegria de quem acreditava que o filho encontrara o amor e garantira a sucessão da família.
A culpa era uma lâmina afiada, mas a ambição de Edward era o escudo que a bloqueava. Ele sentia o remorso, sim, mas não recuava um milímetro. Entre a honra de contar a verdade e a queda de seu império para as mãos de Jasper, a escolha já estava feita em sua mente antes mesmo de ele entrar naquela sala. Edward não era um vilão de desenho animado, mas era um homem que preferia carregar o pecado da mentira a carregar o fardo da derrota.
— Obrigado, pai — disse Edward, a voz firme, embora seu coração estivesse em frangalhos. — Eu prometo que vou honrar o nome dos Cullen e cuidar do que estamos construindo.
Ele fechou a caixa do relógio com um clique seco. Era o som de uma porta se fechando para sua consciência. Edward olhou-se no espelho e viu o homem que ganharia o mundo naquela tarde, mesmo que isso custasse uma parte de sua alma. Ele era um mestre na arte de se passar por mocinho, mas ali, no silêncio do escritório, ele sabia que era apenas um homem sedento pelo topo, capaz de transformar o amor de seu pai em uma peça de seu tabuleiro.
O palco estava montado. A noiva estava "colada", o noivo estava "blindado", e as mentiras estavam prontas para serem oficializadas perante Deus e a alta sociedade. O casamento não era o fim de um capítulo, mas o início da fase mais perigosa de suas vidas.
O jardim da mansão Cullen havia sido transformado em um santuário de flores brancas e luzes flutuantes que pareciam estrelas capturadas. O aroma de jasmim e orquídeas era inebriante, mas para Bella, cada passo sobre o tapete de pétalas parecia o caminhar de um condenado. Quando a marcha nupcial ecoou, um silêncio reverente caiu sobre os convidados. Ao surgir no braço de Charlie, Bella sentiu o peso de centenas de olhares. A silhueta saliente sob o vestido de noiva era o centro das atenções, o símbolo da vitória dos Cullen.
Jasper, na primeira fila, não piscava. Seu olhar não era de um convidado, mas de um perito criminal. Ele analisava a fluidez do tecido, a forma como a luz incidia sobre a curva da barriga e a hesitação milimétrica no passo de Bella. Ao final do corredor, Edward a esperava. Ele estava impecável, uma estátua de perfeição e controle. Quando seus olhos se encontraram, o mundo ao redor desapareceu por um segundo. Naquele olhar, não havia o CEO ou a noiva troféu; havia apenas dois sobreviventes que compartilhavam o mesmo segredo sombrio.
No momento dos votos, o roteiro ensaiado foi deixado de lado. Edward segurou as mãos de Bella, e sua voz, geralmente calculada para salas de reunião, soou com uma vibração que desarmou Bella.
— Isabella, eu entrei nesta jornada acreditando que sabia exatamente o que o futuro me reservava. Mas você... você salvou a minha vida de uma forma que eu não sabia que precisava ser salva. — Edward fez uma pausa, olhando para a barriga dela com uma intensidade que fez o coração de Bella disparar. — O fruto dessa nossa união mudou as minhas prioridades. Ele me deu um motivo para olhar além do império e entender o que realmente significa deixar um legado. Prometo proteger vocês dois com cada gota do meu sangue.
Lágrimas brotaram nos olhos de Esme e Carlisle. Para os convidados, era a declaração de amor mais pura da década. Para Jasper, era a confirmação de que Edward era o mestre supremo da manipulação, capaz de usar uma mentira biológica para selar seu poder. Mas para Bella, o mundo girou. "Ele está dizendo isso para o conselho ou para mim?", ela se perguntou, perdida entre a doçura das palavras e o gelo da farsa.
A recepção era um turbilhão de luzes e brindes. Durante a dança com o pai ao som de "My Girl", o momento de ternura foi interrompido pelo desastre. Charlie, em um giro emocionado, acabou esbarrando o braço com força contra a lateral da cintura de Bella. Ela sentiu um estalo seco. O pavor a paralisou: a borda da prótese de silicone, castigada pelo suor e pelo movimento, começara a descolar na altura das costelas.
— Bella? Você está bem? — Charlie perguntou, notando a palidez súbita da filha.
Antes que ela pudesse responder ou que Jasper, que observava a poucos metros, pudesse notar a irregularidade no vestido, Edward surgiu como uma sombra protetora. Ele envolveu Bella pela cintura, pressionando exatamente o ponto que descolava com a palma da mão.
— Perdão, Charlie, mas acho que o dia longo finalmente cobrou seu preço. — Edward disse, com um sorriso de desculpas perfeitamente ensaiado. — Um enjoo súbito. O herdeiro decidiu que é hora de a mãe descansar um pouco antes de partirmos.
A saída foi uma explosão de vivas e uma chuva de pétalas de rosas brancas. Eles correram para o carro, sob os aplausos de uma família que acreditava estar celebrando o início de uma dinastia. Assim que a porta do Mercedes fechou e o veículo ganhou a estrada escura de Forks, o silêncio caiu como uma guilhotina.
Bella desabou no banco de couro, a mão ainda pressionando a barriga de silicone que ameaçava cair. O alívio de estar sozinha com Edward foi imediato, mas curto. Ela olhou para o anel de diamantes em seu dedo e depois para o homem ao seu lado, que já pegava o celular para confirmar os detalhes do jato privado.
— Conseguimos — sussurrou Bella, a voz rouca.
Edward guardou o aparelho e olhou para ela. Não havia mais o sorriso do altar, apenas o olhar focado de quem estava prestes a entrar em território inimigo.
— O teatro em Forks acabou, Bella. Mas a parte mais perigosa começa agora. — Edward olhou para o horizonte escuro, onde o avião os esperava. — Em Milão, não haverá festas ou aplausos. Apenas nós, a Alice e uma mentira que precisa de um fim trágico para nos manter vivos. Bem-vinda à nossa lua de mel...
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