A Esposa Perfeita
32 O ÚLTIMO BRINDE
Notas iniciais
Capítulo 32 — O Último Brinde
O teto retrátil do imponente salão histórico de Seattle refletia as luzes da cidade, mas o verdadeiro espetáculo acontecia do lado de dentro. O centenário do Cullen Group não era apenas uma festa corporativa; era um evento de magnitudes imperiais, uma fusão milimétrica entre o glamour do MET Gala e a solenidade de um jantar da realeza. Lustres de cristal de proporções monumentais pendiam do teto, enquanto as paredes de mármore eram cobertas por projeções holográficas em alta definição que narravam a trajetória da empresa, desde os primeiros rascunhos do avô de Edward, Anthony Cullen, até o império multibilionário atual.
A imprensa internacional se acotovelava na área isolada por cordas de veludo, os flashes espocando sem trégua a cada magnata, político ou celebridade que cruzava o tapete vermelho. Mas quando o carro oficial da presidência estacionou e Edward Cullen desceu, abrindo a porta para Bella, o salão pareceu prender a respiração.
Bella estava deslumbrante. O vestido verde-esmeralda fluía como água por seu corpo, mas o detalhe mais sutil e devastadoramente lindo era a forma como sua mão repousava, de maneira quase inconsciente, sobre o ventre. Pela primeira vez em um ano, não havia silicone. Não havia fitas adesivas, mentiras ou artifícios médicos. Era apenas ela, a vida real pulsando ali dentro, e Edward ao seu lado, com os olhos brilhando com uma devoção que nenhuma câmera seria capaz de simular.
Antes de enfrentarem o salão principal, Edward guiou Bella até o camarim privado reservado à diretoria. Uma onda súbita de tontura e enjoo a atingira, e ela precisava de um minuto. Preocupado, Charlie entrou logo em seguida, acompanhado por Sue, que parecia radiante em seu traje social.
— Bella, minha querida, você está bem? — Charlie perguntou, o cenho franzido, aproximando-se da filha com os olhos atentos.
Edward fechou a porta pesada de jacarandá, isolando o barulho da orquestra que já afinava os instrumentos lá fora. O silêncio se instalou no camarim. Bella olhou para o pai, respirou fundo e caminhou até ele. Devagar, ela pegou a mão calejada de Charlie e a posicionou delicadamente sobre a sua barriga.
— Eu estou ótima, pai — Bella sussurrou, as lágrimas já inundando seus olhos castanhos. — Na verdade temos uma boa novidade essa noite...O senhor vai ser vovô...
Charlie congelou. Seus olhos piscaram, olhando da mão na barriga de Bella para o rosto de Edward, e depois de volta para a filha. Ele, que havia chorado em silêncio no ano anterior pela perda do neto, sentiu o chão sumir sob seus pés antes que uma onda de alívio avassaladora o atingisse. Suas feições duras desmoronaram e Charlie chorou. Um choro ruidoso, genuíno, de um pai que ganhava uma segunda chance.
Ele puxou Bella para um abraço apertado e, por cima do ombro dela, estendeu o braço para puxar Edward também.
— Cuida deles... por favor, meu filho, cuida deles — Charlie engoliu em seco, com a voz embargada.
Edward apertou o sogro com força, sentindo um nó na garganta. O peso da mentira passada doeu, mas a pureza daquele momento o fez perceber que o recomeço já havia começado.
Pouco depois, Emmett e Rosalie entraram no camarim para chamá-los. Ao notar os rostos vermelhos de choro, Emmett franziu a testa, mas Bella não conseguiu segurar. Ela olhou para Rosalie, que exibia uma pequena e discreta saliência sob o vestido dourado.
— Rose... — Bella sorriu, apontando para a própria barriga. — Nós vamos juntas viver isso...
Rosalie soltou um grito contido, esquecendo completamente sua postura aristocrática, e correu para abraçar Bella. As duas começaram a pular e falar ao mesmo tempo, uma enxurrada de palavras sobre roupinhas, ultrassons, quartos de bebê e o medo compartilhado do parto. Emmett, por sua vez, abriu a boca em um "O" perfeito, antes de agarrar Edward pelos ombros e sacudi-lo com uma alegria brutal.
— Cara! Você tá brincando?! Nossos filhos vão crescer juntos! — Emmett exclamou, com os olhos vermelhos de emoção. — Vão correr por aquela floresta e dar dor de cabeça para nos juntos!
Edward riu, um som livre e leve, abraçando o melhor amigo. A realidade de uma família de verdade parecia, finalmente, estar ao alcance de suas mãos.
A revelação final antes do anúncio público foi para Carlisle e Esme, que os aguardavam na antessala do palco. Quando Edward e Bella deram a notícia, Esme levou as mãos ao peito, soltando um soluço de pura felicidade. Ela abraçou Bella, beijando sua testa repetidamente, com as mãos trêmulas acariciando o ventre da nora.
— Minha menina... minha querida... Deus é bom. Um recomeço para nós — Esme sussurrou, com lágrimas de alegria rolando por suas bochechas. Para ela e para Carlisle, aquela criança era a alma que voltava para preencher o vazio deixado pela suposta perda em Milão.
Carlisle deu um passo à frente, os olhos fixos em Edward. Havia um orgulho tão monumental na expressão do patriarca que Edward sentiu um aperto no peito.
— Eu não poderia estar mais orgulhoso do homem que você se tornou, Edward — Carlisle disse, a voz firme, mas carregada de emoção, apertando o ombro do filho. — Você protegeu sua esposa, liderou nossa empresa com maestria através da crise e agora nos dá a maior alegria de todas.
A teia de mentiras do ano anterior ainda estava oculta, e a felicidade daquela família parecia um castelo de cartas montado à beira de um abismo.
As luzes do salão principal começaram a baixar gradualmente. A orquestra diminuiu o tom, dando lugar a uma melodia suave e solene. Mais de duas mil pessoas se acomodaram em suas mesas, os talheres de prata e as taças de cristal refletindo a iluminação cênica. Carlisle Cullen subiu os degraus do palco sob uma salva de palmas estrondosa. Ele parou diante do microfone de ouro, a postura impecável de um homem que dedicara a vida a construir um legado limpo.
— Boa noite a todos — a voz magnética de Carlisle ecoou pelo salão, silenciando a multidão instantaneamente. — Há cem anos, meu pai, Anthony Cullen, abriu um pequeno escritório nesta cidade. Ele tinha pouco dinheiro, mas possuía algo que o mercado não podia comprar: uma visão inabalável de que uma empresa não é feita de números, mas de pessoas. De ética. De caráter.
Ele fez uma pausa, olhando para a mesa principal, onde Esme, Bella, Edward, Charlie, Sue, Emmett e Rosalie o observavam.
— Durante muito tempo, confesso que acreditei que expandir esse império era o meu maior legado. Mas eu estava errado. Meu maior legado está sentado ali. Minha esposa, meus filhos Edward e Alice,minha nora Isabella, nossos amigos... e os futuros Cullen que estão por vir para dar continuidade a essa história.
O salão explodiu em aplausos emocionados. Esme limpou uma lágrima.
— E é com essa certeza de dever cumprido que eu passo a palavra ao homem que liderou o Cullen Group rumo ao futuro, mantendo nosso nome no topo do mundo. Senhoras e senhores, o nosso CEO, Edward Cullen.
Edward levantou-se sob uma ovação de pé. Ele abotoou o paletó do smoking, trocou um olhar cúmplice e profundamente apaixonado com Bella, e subiu ao palco. Ele parou diante do microfone, olhando para aquela massa de acionistas e investidores. Mas ele não falaria como o robô corporativo que eles estavam acostumados a ver. Ele falaria como o homem que havia sido salvo pelo amor de Bella.
— Obrigado, pai — Edward começou, a voz firme, ecoando com clareza. — Meu pai falou sobre legado. E, durante o último ano, eu admito que fiquei cego pelo peso desse conceito. Eu cometi erros. Deixei que a ambição e o medo de perder o controle ditassem minhas ações, minhas escolhas... e quase me perdi no processo.
O salão estava em um silêncio absoluto, capturando cada palavra. Bella sorria do seu lugar, sabendo o que viria a seguir.
— Mas eu aprendi que um império construído sobre sacrifícios pessoais e aparências não é um legado. É uma prisão de luxo. E o amor, se não for baseado na mais pura verdade, não sobrevive. Por isso, nesta noite de celebração dos cem anos do Cullen Group, eu gostaria de fazer um anúncio que mudará o rumo da nossa família. Eu estou...
Edward travou. A frase morreu em sua garganta.
No fundo do salão, o som pesado das imensas portas duplas de carvalho se abrindo ecoou como um tiro de canhão pelo ambiente. A luz do corredor externo invadiu a penumbra do salão.
Os sussurros começaram instantaneamente, como uma onda de choque que se espalhava pelas mesas.
Alice Cullen entrou primeiro, ela estava deslumbrante, usando um vestido longo preto, cortado sob medida como uma armadura de alta-costura. Suas feições, antes doces, estavam esculpidas em uma expressão de frieza absoluta, os olhos fixos diretamente no palco. Logo atrás dela, Jasper caminhava com a postura elegante e letal de um predador que finalmente encurralara sua presa. E fechando o trio da destruição, Renée Dywer avançava com a imponência de uma rainha prestes a comandar uma execução pública.
O silêncio que se instalou no salão foi aterrador.
Esme deu um meio passo à frente na mesa, o coração disparado entre a alegria de ver a filha de volta e o pavor do clima que ela trazia. Carlisle empalideceu. Charlie franziu o cenho, confuso.
No palco, o sangue sumiu completamente do rosto de Edward. Suas mãos agarraram as bordas do púlpito de madeira com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Na mesa principal, Bella sentiu o estômago revirar violentamente; instintivamente, suas duas mãos voaram para a barriga, tentando proteger o milagre real que carregava dentro de si.
Alice parou no início do corredor central, a mil metros de distância do palco, mas sua voz, fria e cortante, ecoou com uma clareza assustadora através do silêncio estupefato dos dois mil convidados.
— Antes que você renuncie ao cargo, Edward... — Alice disse, erguendo o queixo, o olhar queimando o irmão com um ressentimento destrutivo. — Talvez o conselho de acionistas, o nosso pai e o mundo inteiro mereçam ouvir como esse império realmente foi construído durante o último ano. E qual foi o preço de sangue que você cobrou para manter essa mentira viva.
O apocalipse havia chegado à casa dos Cullen.
A ameaça de Alice pairou sobre o salão como uma lâmina suspensa. Os murmúrios dos acionistas e os cliques frenéticos das câmeras dos jornalistas cresceram em um coro caótico. Os repórteres, farejando o maior escândalo corporativo da década, apontavam lentes e microfones na direção do corredor central.
Edward continuava estático no palco, o microfone captando sua respiração pesada e descompassada. Na mesa principal, Bella sentiu o chão desaparecer. Seus olhos se cruzaram com os de Renée. A mãe mantinha uma expressão indecifrável, fria, mas seus olhos estavam fixos na postura defensiva de Bella, que continuava a proteger o ventre com as mãos trêmulas.
Jasper deu um passo à frente, retirando um controle remoto do bolso do terno. Com um clique firme, as projeções holográficas que antes mostravam a história gloriosa do avô de Edward piscaram violentamente. O telão gigante atrás do púlpito foi tomado por uma estática cinzenta antes de revelar documentos digitalizados em alta resolução.
— O que vocês veem na tela — a voz de Jasper ecoou, amplificada pelo sistema de som que ele e Alice haviam hackeado previamente — não é uma história de sucesso. É um contrato de compra e venda de dignidade.
O brasão do Cullen Group timbrava o topo da primeira página, seguido pelos nomes em destaque: Edward Cullen e Isabella Swan. As cláusulas de metas financeiras, os prazos de cinco anos, os termos de confidencialidade e os bônus por desempenho conjugal foram expostos em letras garrafais para as duas mil pessoas no salão.
— Edward Cullen nunca se casou por amor. Ele comprou uma esposa para convencer o conselho de que era um homem de família estável o suficiente para assumir a presidência — Jasper continuou, o olhar cravado em Edward. — Mas a farsa não parou por aí.
Esme levou as mãos à boca, as lágrimas de horror rolando por seu rosto. Carlisle deu um passo na direção do palco, a voz falhando ao tentar intervir:
— Jasper, pare com isso imediatamente! Este não é o lugar...
— Não, pai! É exatamente o lugar! — Alice o cortou, caminhando a passos firmes pelo corredor, os saltos estalando contra o chão como tiros. Ela parou diante da mesa principal, encarando Bella com um desprezo que fez a jovem recuar. — Deixem que o mundo saiba quem é o CEO herdeiro e a sua esposa perfeita! No ano passado, todos vocês choraram pela perda trágica do bebê deles, não choraram? O conselho se comoveu, as ações subiram, o luto virou estratégia de marketing!
Alice subiu os primeiros degraus do palco, apontando o dedo diretamente para o peito de Edward.
— Mas a Isabella nunca esteve grávida! O bebê que morreu em Milão era meu! Meu e do Jasper! Edward me trancou em um quarto de fundos, roubou o meu aborto, o meu sangue e a minha dor, e usou como escudo para que vocês não descobrissem que o casamento dele era uma fraude de papel! Eles transformaram a minha maior tragédia em lucro corporativo!
O salão explodiu em um clamor ensurdecedor. Acionistas se levantaram gritando, flashes estouravam na cara de Edward e Bella, e a segurança tentava conter os repórteres que invadiam o perímetro das mesas.
— Bella... — a voz de Charlie subitamente cortou o ruído na mente da filha.
Bella virou-se para o pai. Charlie estava de pé, mas seu rosto havia perdido completamente a cor. Seus olhos estavam arregalados, fixos no contrato projetado no telão, ligando os pontos de cada mentira, de cada sofrimento que vira a filha passar no último ano. Ele olhou para Bella, a decepção e o choque misturando-se em suas feições.
— Pai... por favor, me escuta, o Edward mudou, agora é de verdade... — Bella implorou, as lágrimas sufocando sua voz enquanto ela tentava dar um passo na direção dele.
Charlie levou a mão ao peito, apertando o tecido do smoking com força. Suas pernas fraquejaram. Ele tentou respirar, mas o ar não veio. O coração, que já era frágil e havia sido castigado por anos de doença, não aguentou o impacto brutal daquela traição.
— Charlie! — Sue gritou, tentando segurá-lo, mas o corpo dele já estava caindo.
— PAI! — Bella soltou um grito dilacerante.
Ela se jogou para a frente, amortecendo a queda de Charlie com o próprio corpo. O impacto a levou ao chão do salão, sobre o tapete esmeralda. Charlie desabou pesado em seus braços, com os olhos revirados e completamente desacordado.
— Pai! Acorda, por favor, olha para mim! Alguém chama uma ambulância! — Bella clamava, desesperada, batendo de leve no rosto dele enquanto o segurava contra o peito.
Do palco, ao ver a cena, o mundo corporativo deixou de existir para Edward. O choque da humilhação pública e a perda do império evaporaram. Ele saltou do púlpito, quebrando a estrutura de madeira, e correu em direção à mesa principal, empurrando cadeiras e convidados pelo caminho.
— Bella! — Edward gritou, jogando-se de joelhos ao lado dela na pista, com o rosto banhado em pavor puro ao ver o sogro imóvel e o desespero da esposa.
No meio do caos de flashes, gritos e a iminente ruína dos Cullen, o castelo de vidro havia desabado por completo, cobrindo o chão de estilhaços e sangue...
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