A Esposa Perfeita
29 Entre Cinzas e Promessas
Notas iniciais
Capítulo 29 — Entre Cinzas e Promessas
A luz da manhã de Forks entrou no quarto com uma suavidade que parecia zombar do caos interno de Bella. Ela acordou primeiro, o corpo ainda sentindo o calor de Edward, que dormia profundamente ao seu lado. Pela primeira vez em um ano, a expressão dele não era a do CEO implacável ou do homem atormentado pela culpa; ele parecia em paz. A mão dele ainda repousava sobre a cintura dela, um toque possessivo, mas agora tingido de uma esperança que aterrorizava Bella.
Para Edward, aquela noite fora o milagre da reconciliação. Para Bella, fora uma rendição perigosa. Ela o observou dormir e sentiu uma pontada de pânico ao perceber que, apesar de todas as cicatrizes e das mentiras que quase a destruíram, ela ainda o amava. E esse amor era a sua maior vulnerabilidade.
Quando Edward desceu para o café da manhã, ele parecia "leve". Ele puxou a cadeira para Bella, serviu seu café e buscou o olhar dela com um sorriso que não era visto há muito tempo. Ele tentava agir como se o casamento estivesse voltando aos trilhos por um passe de mágica. Bella, no entanto, mal conseguia retribuir. Ela estava estranha, esquiva, sentindo o peso de que uma noite de paixão não apagava um ano de desolação.
Mais tarde, no quartel-general do Cullen Group , o clima era de negócios, mas Emmett interrompeu a rotina de Edward ao entrar em seu escritório com um brilho diferente nos olhos.
— Preciso da sua ajuda com uma coisa, Ed. — Emmett sentou-se, esfregando as mãos nervosamente. — Eu vou pedir a Rosie em casamento. Oficialmente. Com anel, joelho no chão, tudo o que ela merece.
Edward sentiu um choque de alegria genuína atravessar sua armadura. Ele levantou-se e abraçou o irmão, sentindo um nó na garganta. Ver Emmett ainda acreditando no amor, depois de tudo o que haviam passado, era um bálsamo.
— Faça isso, Emmett. — Edward disse, a voz embargada. — Não deixe o amor de vocês virar uma negociação, como eu fiz com o meu. Nunca permita que a ambição chegue perto do que vocês têm.
Emmett percebeu a mudança no irmão. Edward estava tentando se reconstruir, mas o caminho ainda era longo e cheio de espinhos.
Enquanto isso, na cidade, Charlie convidou Bella para um café. Ele parecia inquieto, mexendo no boné sobre a mesa.
— Bella, eu... eu queria te contar uma coisa. — Charlie pigarreou, evitando o olhar da filha. — Eu comecei a conversar com uma pessoa. Ela tem sido uma companhia muito boa. Sabe, eu achei que nunca mais olharia para ninguém depois da sua mãe, mas ela me faz sentir vivo de novo. Ela já faz parte da nossa rotina há algum tempo, cuida de mim sem eu perceber... tem o sorriso mais gentil que já vi.
Bella sentiu um nó de emoção. Ela ficou feliz por ele, mas um pouco desconfortável com a ideia de ver o pai com outra pessoa. Ela ainda não percebia que a mulher por quem Charlie estava se encantando era Sue Clearwater, que sempre estivera por perto, cuidando de todos em silêncio.
O ápice emocional do dia aconteceu durante uma tarde de SPA que Rosalie organizou para as duas. Entre massagens e o vapor relaxante, o silêncio entre elas se tornou denso. Rosalie, geralmente tão segura de si, parecia prestes a quebrar.
— Eu estou grávida, Bella — soltou Rosalie de repente, as lágrimas transbordando instantaneamente.
Bella congelou na maca. A ironia era cruel: ela havia passado um ano fingindo uma gravidez para salvar o império, e agora Rosalie carregava uma vida real.
— Eu estou feliz, mas estou apavorada — confessou Rosalie, soluçando. — Eu vi o que aconteceu com a Alice. Vi o que essa obsessão por herdeiros fez com você e o Edward. Tenho medo de não saber ser mãe, medo de que o mundo dos Cullen destrua meu filho antes mesmo dele nascer.
Bella levantou-se e abraçou a amiga, as duas chorando juntas. Ali, Bella confessou que havia dormido com Edward novamente, mas o sentimento de culpa a corroía. A gravidez real de Rosalie era o espelho de tudo o que Bella perdera na teia de mentiras.
Ao retornar para a mansão ao final do dia, a "calmaria falsa" foi estilhaçada. Ao abrir a porta, Bella encontrou Renée sentada na sala de estar, impecável em um conjunto de alfaiataria, tomando chá com Esme como se nunca tivesse partido.
— Querida, você demorou — disse Renée, com aquele sorriso gélido que fazia Bella se sentir minúscula. — Estávamos justamente conversando sobre o futuro da sua família. Afinal, depois de um ano de casamento e uma perda tão "trágica", os acionistas estão ficando impacientes, não acha?
O coração de Bella despencou. A predadora estava de volta, e a paz que ela e Edward tentavam esboçar estava prestes a ser testada pelo veneno da mulher que conhecia todos os seus segredos.
Renée pousou a xícara de porcelana com uma precisão que fez o tilintar do pires ecoar como um disparo de aviso. Esme, sempre a anfitriã perfeita, mantinha um sorriso polido, mas Bella percebeu a rigidez nos ombros da sogra. Esme não sabia do contrato, mas sentia o rastro de enxofre que Renée deixava por onde passava.
— Mãe, o que você está fazendo aqui? — Bella perguntou, a voz saindo mais firme do que ela se sentia.
— Ora, Isabella, que recepção gelada. — Renée levantou-se, caminhando até a filha e ajeitando uma mecha de cabelo de Bella com um carinho que parecia uma ameaça. — Eu soube do jantar de ontem. Um ano de casados. Uma marca impressionante para um arranjo tão... complexo. Fiquei sabendo também que o Cullen Group está em uma fase de transição delicada. Vim garantir que minha única filha não seja descartada agora que o "luto oficial" está perdendo a validade para os investidores.
Esme levantou-se, percebendo a voltagem da conversa.
— Vou deixá-las a sós. Bella, querida, se precisar de qualquer coisa, estarei no jardim.
Assim que a porta se fechou, a máscara de Renée caiu.
— Não me olhe com essa cara de cachorrinho abandonado, Isabella. Eu vi as fotos de Milão na época. Eu li os relatórios. E eu sei que você e o Edward estão brincando de casinha de novo. Mas deixe-me te dar um choque de realidade: se você não engravidar de verdade, e rápido, o Edward vai ser pressionado a encontrar uma solução que talvez não inclua você. A ambição dele é maior que o amor que ele sente, e você sabe disso.
— Saia daqui, Renée — Bella sibilou, os dentes cerrados. — Você não sabe nada sobre o que eu e o Edward temos.
— Eu sei exatamente o que vocês têm: um contrato que está sangrando. — Renée pegou sua bolsa de grife. — Vim avisar que não vou ficar assistindo você afundar. Se você não segurar esse homem com algo real, eu mesma farei os meus movimentos.
Renée saiu com a elegância de uma tempestade que acabara de devastar um vilarejo, deixando Bella trêmula no meio da sala.
Mais tarde naquela noite, Edward chegou em casa. Ele trazia um buquê de peônias, as favoritas de Bella, e um brilho nos olhos que ela não via há eras. Ele atravessou a sala e a beijou no topo da cabeça, ignorando a palidez dela.
— Tivemos um dia incrível na empresa, Bella. O Emmett está radiante. Acho que as coisas estão finalmente se alinhando para nós. — Ele se afastou, percebendo o silêncio dela. — O que houve?
— Minha mãe esteve aqui, Edward. — Bella sentou-se no sofá, sentindo o peso do mundo retornar. — Ela sabe. Ela sempre soube da verdade. Ela disse que o conselho está impaciente e que a "calmaria" acabou...
Edward fechou a expressão. O "modo CEO" tentou reassumir o controle, mas ao ver o desespero nos olhos de Bella, ele hesitou. Ele sentou-se ao lado dela, pegando suas mãos frias.
— Bella, escute. Eu disse que as regras seriam suas. Eu não vou deixar a sua mãe ou os acionistas ditarem o que acontece dentro deste quarto.
— Mas você quer, não quer? — Bella o olhou nos olhos, buscando a verdade. — Você quer um herdeiro. Você quer a segurança que um filho traria para o seu cargo. Ontem à noite... foi por amor, Edward? Ou foi o primeiro passo do seu novo plano?
Edward sentiu o golpe. A desconfiança dela era o preço que ele teria que pagar por cada mentira contada no último ano. Ele se aproximou, encostando a testa na dela, a voz soando rouca de uma sinceridade dolorosa.
— Foi por amor. Foi por desespero. Foi porque eu não consigo mais passar um segundo sem sentir você. Mas eu mentiria se dissesse que o mundo lá fora vai parar de cobrar. — Ele suspirou. — A Renée está certa sobre uma coisa: o tempo está correndo. Mas eu juro, Bella... desta vez, se tivermos um filho, será para sermos uma família, não um ativo da Cullen Group. Você acredita em mim?
Bella olhou para o homem que a levara ao céu e ao inferno. Ela queria acreditar. Ela precisava acreditar, especialmente agora que o segredo de Rosalie mudaria tudo na dinâmica da família.
— Eu quero acreditar, Edward. Mas a calmaria acabou. — Ela encostou a cabeça no ombro dele, sentindo o cheiro de seu perfume misturado ao aroma das flores que ele trouxera. — A tempestade está voltando, e desta vez, não temos barrigas de silicone para nos proteger. Só temos um ao outro e eu não sei se isso é o suficiente para o que vem por aí.
Os dois ficaram abraçados na penumbra da sala, enquanto lá fora, o vento de Forks uivava entre as árvores, carregando o eco das ameaças de Renée e o peso da vida real que agora batia à porta. A "esposa perfeita" estava cansada de atuar, e o "CEO ambicioso" estava descobrindo que algumas rachaduras no vidro não podem ser consertadas com diamantes.
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