A Escolhida do Destino
14 Querida.
Notas iniciais
Eles ficaram um bom tempo se encarando.
Estavam sentados no escritório de Gil, modelado da mesma forma de quando Alyson entrara ali pela primeira vez. Beatrice havia ocupado um espaço no espaldar alto de sua cadeira, observando-a de cima, mas tirando a ave, não havia mais ninguém na sala. Gilgamesh havia insistido para que a conversa fosse particular, o que causou uma pequena discussão sem sentido, e no fim das contas, ambos estavam ali, em silêncio, a jovem esperando o feiticeiro quebrá-lo.
— Hum… Gilgamesh… você não deveria estar, sei lá, me aconselhando? Bem, talvez não aconselhando, mas evidenciando minha incompetência, pelo menos?
Ele franziu o cenho, claramente desgostoso.
— Você acha que sou rígido por que eu quero?
— Er… desculpe, mas não sei se podemos chamar de rigidez.
Beatrice grasnou, e Gil levou uma das mãos à testa, exausto demais para ficar irritado a esse ponto.
— Escute, Senhorita Black. Eu estou com uma dor de cabeça particularmente ruim agora, e se eu pudesse escolher não estaríamos tendo essa conversa, de forma alguma. Mas acordo é acordo, e eu não volto atrás nas minhas promessas.
Ela inclinou um pouco a cabeça para um dos lados. — Não seria melhor esperar quando você estiver se sentindo bem, então?
Ele suspirou longamente.
— Não temos tempo. Eles terem invadido esse lugar é um péssimo indicativo. Mesmo que apenas parcialmente, alguém claramente está vazando informações que não deveria. Ou rastreando algum de vocês. A esse ponto eu não sei. E sinceramente, isso não é um problema meu. — juntando ambas as mãos sobre a mesa, Gil observou a expressão entristecida da garota a sua frente, com esse comentário. — Não me leve a mal. Eu não tenho nada contra nenhum de vocês. Nem mesmo contra você. Mas eu escolhi viver aqui, e esse é o meu mundo agora. Não tenho nenhum interesse em retornar para Diamond. Ainda assim, é a minha terra natal, e eu fiz o que eu podia para protegê-la quando estava lá.
— De certa forma… você continua fazendo, não é?
— Sim. — ele fechou os olhos, sem negar. — Eu nasci e cresci em Diamond, afinal. Mesmo que eu não deseje voltar, eu não posso odiar aquele mundo.
Beatrice desceu de onde estava, pousando dessa vez no ombro dele e bicando de leve sua cabeça. Alyson pensou que de alguma forma aquilo parecia um gesto gentil. Gilgamesh soltou as mãos para levantar uma em direção ao corvo e acariciar suas penas.
— É o mesmo para Beatrice, embora ela tenha sido mais lesada do que eu fui.
Ela desejou fazer uma pergunta, porém pensou melhor e não disse nada. Da última vez que entraram no assunto sobre Beatrice ser uma metamorfa, Gil ficou bastante irritado. Preferia não incorrer na ira dele tão cedo de novo.
— Eu consigo ver em seus olhos que quer fazer um monte de perguntas, sua enxerida.
— Eu não sou enxerida! É só que vocês são meio misteriosos e isso me deixa empolgada!
— É mesmo uma fedelha… — erguendo seu braço a frente, Beatrice começou a caminhar sobre ele até chegar a mão, ficando próxima de Alyson. — Boa tentativa, mas não vou te contar nada.
Ela fez um biquinho em resposta, não estava tentando tirar aquela informação dele, de qualquer forma. Estendeu uma das mãos próxima a dele apenas por estender, já que imaginava que Beatrice não iria ali, mas para sua surpresa, a ave pulou para seu punho quase que imediatamente.
— Ah!
— Ela gostou de você, sinta-se grata por isso. — levantando-se da cadeira, Gil foi até uma de suas prateleiras cheias de livros, onde havia uma pequena caixa de joias, e retirou-a cuidadosamente do local, antes de retornar para a mesa e depositá-la em frente a garota. — Isso é o que vocês vieram buscar. Abra.
Alyson não esperou ele dizer de novo. Elevando a mão para perto do ombro para que Bea subisse ali, ela voltou-se para a caixa, os dedos percorrendo as gravuras externas. Não parecia nada de especial num primeiro instante, era uma caixinha de madeira, provavelmente, com altos-relevos que formavam arabescos coloridos. Apesar de o contêiner ser absolutamente comum, porém, ela sentia alguma coisa muito estranha lá dentro. Não sabia definir o que era, provavelmente era ignorante demais nesse sentido, mas sua intuição dizia que era perigoso.
Com a ponta dos dedos e afastando um pouco o corpo da caixa, ela levantou timidamente a tampa. Dentro havia um material almofadado escuro, e sobre ele estavam depositadas duas pedras cristalinas que em aparência pareciam tão comuns quanto a própria caixa em que estavam. Uma era transparente, enquanto a outra brilhava com um tom entre amarelo e o marrom.
— Quartzo do ar e topázio da terra. São as que reunimos antes de eu vir para esse mundo. Talvez os que ficaram tenham conseguido recuperar as duas que faltam, mas acho bastante difícil.
— Salem havia dito que elas podem possuir formas diferentes e ter vida própria, é verdade?
— Sim… essa aqui deu bastante trabalho para recuperar inclusive… — ele apontou de maneira apática para o topázio. — Nós ficamos presos no subterrâneo por um bom tempo por causa dela, todo mundo achou que ia morrer com falta de ar. Mas Aaron conseguiu montar uma geringonça para cavarmos de volta até a superfície.
Ela não ousou questionar quem era Aaron. Nem comentar sobre o tom nostálgico que Gil usara para contar aquilo.
— Entendo. É uma aparência bem comum para algo que pode prender um imortal. Pensei que seriam mais… tipo…
— Sua imaginação realmente trabalha a todo vapor, não é? Pedras são pedras. Se há algo que eu posso dizer sobre, é que deveria torcer para não terem despertado consciência. Tenha certeza que elas não veem com bons olhos quem quer derrotar a dona delas.
— Er… okay. Vou me lembrar disso.
— É bom mesmo, garota. — ele estava olhando-a com uma expressão estranha novamente. Alyson realmente não sabia o que aquela pessoa pensava sobre ela, noventa por cento do que Gilgamesh dizia era rude, mas em alguns poucos momentos podia jurar que demonstrava certa preocupação. — Katherine Black.
— S-sim?
— Esse caminho que você está seguindo… eu conheço o final. E eu lhe garanto, não termina bem. Você não é adequada para a guerra.
— Eu sei.
— E como a idiota que é, você vai guerrear mesmo assim.
— Sim. É claro que vou.
— Por quê?
— Porque eu sou Katherine Black. Mesmo que eu ainda não saiba exatamente o que isso signifique.
Ele ficou em silêncio novamente, e então puxou os cabelos para trás com uma das mãos.
— Uma tola é tola até o fim, mesmo. — como sempre, uma reclamação. No fim das contas era o que Alyson podia esperar dele. Se realmente desejasse por algo mais, estaria sendo ainda mais tola do que ele dizia que ela era. Então Gilgamesh desceu sua mão, pousando-a suavemente sobre a cabeça dela, dessa vez. — Eu rezo… para que essa sua tolice não mude. Que os Deuses a protejam, criança.
Alyson não reagiu num primeiro momento ao gesto. Ela arregalou os olhos, contudo, à medida que o significado dele ficou claro para si mesma. Sua língua picou para que fizesse uma pequena provocação sobre Gil “gostar um pouquinho dela, afinal”, mas sentiu que isso apenas lhe retornaria uma resposta rude. Então ela limitou-se a sorrir e assentir com a cabeça.
O grupo partiu na tarde daquele mesmo dia. Gilgamesh não pareceu particularmente lamentar por isso, como era de se esperar dele. Emily por sua vez ofereceu-lhe bênçãos para uma boa viagem e convidou-os a retornar quando quisessem. Se o anfitrião ficou ofendido com tal coisa, não deixou transparecer também. Beatrice era Beatrice, então Alyson nem tentou definir o que a ave estava sentindo, mas poderia jurar que ela estava bastante incomodada com a partida deles.
— Bem… com isso estamos na etapa final. Podemos ir para o Stonehenge agora? Ou temos que fazer mais alguma baldeação?
— Uh, se eu não te conhecesse, Chloe, diria que está de mal humor. — Sasha provocou de seu lado, recebendo apenas um suspiro de frustração em resposta.
Como mais ninguém disse nada sobre um novo destino, ela saiu da cabine para discutir novamente com o piloto, voltando alguns momentos mais tarde. — Ele está começando a desconfiar que algo está estranho. Ainda que eu duvide que vá abrir a boca, a menos que alguém o pressione.
— Sinceramente, me surpreende mais que ele esteja desconfiando só agora. — Kensuke argumentou. — Quero dizer, não é como se nós fossemos as pessoas mais naturais do mundo, sabe? E nossas ações têm sido…
— Gente rica pode se esconder fácil atrás de uma fachada de peculiaridade. — Sasha disse, fazendo um gesto longo de separar as mãos, quase formando um arco-íris traçado em pleno ar. — Mesmo assim eu falo por experiência quando digo que não dá pra esconder as coisas pra sempre. Aliás, alguém considerou a desculpa que vamos dar pelo nosso sumiço? Duvido que isso de ir para o outro mundo lutar contra o mal vai ser um jogo rápido.
— Nem ideia. — Alyson respondeu, parecendo nitidamente distraída. — Podemos dar a desculpa de uma viagem? Ou então que estamos tirando um tempo para ver o mundo? Alguns adolescentes ricos fazem isso, não é?
— Estou vendo esse bullying que vocês duas estão tentando fazer comigo, e não vai funcionar.
— Fale por ela, eu sou bem rica, estou falando com propriedade. — Sasha sorriu descaradamente. — Mas falando sério, Chloe, não vão te procurar?
— De começo, não. Elliot veio para ver meu pai. Eles vão estar mais preocupados lidando um com o outro, por um tempo. — ela estreitou um pouco os olhos. — Mas não tempo o suficiente.
— Nós podemos inventar uma viagem de última hora?
— É uma opção suspeita, mas é melhor do que simplesmente desaparecermos. Alguém pode acabar tendo um ataque cardíaco de preocupação.
Os olhares se voltaram para Kensuke.
— O que foi dessa vez? Eu não tenho ninguém para ficar preocupado comigo.
— E a tal da sua irmã?
— Ela está bem onde está. E já avisei meu chefe que precisarei me ausentar por um longo tempo por questões familiares. A pior coisa que pode acontecer é eu não ter um emprego quando voltar. — uma pausa. — Além disso, as outras pessoas que me importam estão aqui.
— Ah, eu também te amo, Kenzinho. — Sasha disse, de maneira amigável, ao passo que ele limitou-se a assentir com a cabeça, parecendo envergonhado. — E quanto a sua mãe, Alyson?
— Boa pergunta. Ela certamente sabe mais que eu, nessa história toda. Mentir não vai adiantar. — ela deixou escapar um suspiro. — Eu não quero pensar nisso agora.
— Está tudo bem não querer, mas você eventualmente vai ter que lidar com isso, Ly, não dá pra fugir pra sempre. — Chloe tocou suavemente o ombro dela.
— Eu sei, eu sei.
— Bom… nesse caso eu vou pensar em algum recado para deixarmos. Devemos chegar a Wiltshire entre uma hora e meia a duas. Nesse tempo, vamos resolver o que pudermos. — ela deu um aperto suave no ombro da amiga como gesto de conforto, então se afastou. — Sasha, venha comigo, vocês vivem reclamando que minha escrita é muito formal.
— Mas ela é mesmo!
Elas se afastaram um pouco para fazer suas coisas, e Ken se aproximou de Alyson. Crós, aparentemente, estava dormindo em uma das poltronas em seu corpo ainda felino, o que gerou questionamentos se ele retornaria à sua forma normal em breve.
— Você está ansiosa?
— Um pouco. E você?
— Mais ou menos.
— Está preocupado ainda com sua irmã, não é?
— Eu teria preferido vê-la antes de ir, mas é melhor desse jeito.
Ela observou-o por algum tempo, como se esperasse tirar algo mais daquelas palavras, e empurrou de leve a testa dele com seu dedo indicador.
— Você deveria vê-la.
— E você deveria ligar para a sua mãe.
— Touché. — Alyson não estava incomodada com a réplica, porém. — Você tem medo de desistir caso vá até ela? Dessa coisa toda?
Ele mordeu o lábio inferior, subitamente incomodado. A resposta parecia óbvia, por conta de sua reação. Apenas parecia.
— Não. Eu não desistiria.
— Mesmo se não fosse eu?
— Mesmo se não fosse você. Porque essa é uma responsabilidade que assumi.
Isso significava que, se não fosse ela, Alyson teria ficado para trás. Ele teria dito seus sentimentos antes de partir, se fosse o caso? Teria se despedido, ou estaria reticente assim como estava agora com a irmã? O dedo que havia cutucado-o antes pousou mais uma vez na sua testa. Não havia razão para pensar naquilo, afinal. As coisas aconteciam como deveriam acontecer.
— Okay, okay. Eu queria ter a sua resolução.
— Você tem o suficiente, acho.
Ela negou com a cabeça.
— Não. Eu ainda sou muito inexperiente. — ela também não sabia lidar muito bem com o que estava pronta para enfrentar e o que estava deixando para trás. A prova era que ainda não havia discado os números. Eles tinham menos de duas horas até deixar a Terra que conheciam e Alyson havia resolvido muito pouco consigo mesma. — Ken… eu tenho a sensação que provavelmente entrei em algo que está muito além das minhas capacidades. E não estou falando sobre o quão despreparada eu estou para isso.
Kensuke franziu o cenho com essas palavras, com um gesto cauteloso afastando o dedo que ela mantinha apoiado em sua testa e mantendo sua mão segura entre as dele. — Certo. Me conte.
— O que?
— Você está estranha e algo me diz que não é exatamente por causa da sua mãe.
Ela não respondeu de imediato, mas seu olhar pousou no gato dormindo na poltrona próxima e Alyson engoliu em seco. Kensuke seguiu seu olhar e fez um sinal com as mãos, indicando que ele estava provavelmente dormindo. Ela respondeu meneando com a cabeça e diminuiu seu tom de voz para um sussurro.
— Está acordado.
— Você não quer falar na frente dele? — Ken questionou, também sussurrando.
— Eu… só não é um bom momento para entrar nesse assunto, eu preciso pensar um pouco. — mordendo o lábio inferior, ela voltou a observá-lo. — Não é nada com você, eu juro! Não fique zangado.
— Eu não estou zangado, estou preocupado. Mas se você não quer continuar a conversa, tudo bem por mim.
O olhar que Alyson lhe deu após isso foi um de pura gratidão. Ela passou seus braços ao redor de Kensuke e deitou a cabeça em seu peito, fechando os olhos. — Podemos ficar assim por um tempinho?
— O tempo que você quiser.
— Obrigada.
Talvez fosse uma boa ideia dormir um pouco. Seus olhos começaram a pesar enquanto pensava nisso. Mesmo que houvesse de fato descansado enquanto estava no retiro de Gilgamesh, ela não havia dormido nem um minuto sequer. Seus olhos piscaram, enquanto eles se ajustavam para ficar numa posição mais confortável nas poltronas. Alyson deitou sua cabeça no ombro de Ken, sentindo seus dedos conectados aos dele firmemente e, lenta mas constantemente, sua mente afundou num oceano de inconsciência.
Ela estava em um local estranho. Parecia ser algum tipo de grande massa de água límpida, que refletia as estrelas no céu noturno. Aquele céu parecia completamente diferente do que deveria existir na Terra, por alguma razão. Talvez pelo fato de não ter luminosidade de uma cidade por perto, atrapalhando o brilho das estrelas, ou porque não estivesse de fato na Terra… apenas havia algo de estranho que não conseguia discernir muito bem. Ela estava num barco pequeno, suficiente para caber apenas ela e uma segunda pessoa. A segunda pessoa em questão estava envolta em sombras pesadas que não era capaz de atravessar com sua vista. Ainda assim, ela não sentiu medo, por alguma razão.
— Você deve retornar. Para a sua verdadeira casa.
— Eu sei.
— Você fez uma escolha. E foi uma escolha corajosa. Mesmo assim… a desgraça recairá sobre você. Eu lamento não poder fazer nada para impedir isso. Mas é parte do processo…
— Do processo para o quê?
— Para salvar tudo. — o silêncio fluiu como ondas entre eles. A voz que lhe falava era claramente masculina e jovem, mas possuía uma tristeza antiga e sem precedentes. Alguém que vira coisas que não queria ver, e vivera coisas que não precisava viver, por tempo o suficiente para, talvez, enlouquecer. — Vai ser doloroso para você, minha criança. Eu desejo, do fundo do meu coração, que você possa encontrar paz nas pequenas coisas. Que você continue amando o mundo, mesmo assim.
Uma nova pausa. A pessoa ergueu as mãos envoltas em sombras e segurou suavemente o rosto dela, com carinho.
— Você é querida, Katherine Black. Você nasceu para ser a luz nas trevas daqueles que encontra. E você será amada não apenas como um símbolo, mas pelo que você realmente é. Esse é meu desejo para você. Uma benção que não vai servir para nada, mas que não posso evitar de dar.
Uma lágrima começou a rolar pelo rosto dela. Mais algumas se juntaram à primeira. Aquela pessoa… deveria ser alguém muito próximo de si, não é? Quem era ele, afinal? Por que não se revelava para ela e continuava envolto nas sombras?
— Quem é você?
— Eu sou…
Alyson reabriu os olhos. Parecia que alguém estava chamando-a insistentemente por algum tempo. Ela descobriu-se sentada de uma maneira completamente torta na poltrona, com uma manta lhe cobrindo e a cabeça deitada de qualquer jeito num dos braços. Seu corpo doeu em protesto enquanto tentava sentar-se novamente.
— O que foi… ?
— Nós vamos aterrissar. Você dormiu bastante, mas como ninguém conseguiu te acordar, deixamos que descansasse. — Sasha respondeu, aparecendo na sua frente com uma garrafa d'água, que Alyson prontamente destampou e bebeu.
— Eu… tenho certeza de acabar de fechar os olhos… — ela passou a mão livre por eles, sentindo-os úmidos.
— Você estava chorando.
— Eu estava?
— Com o que foi que você sonhou?
Alyson tomou mais alguns goles de água, antes de tampar a garrafa e devolvê-la a Sasha. — Eu não me lembro. Mas parecia ser com algo familiar…
Sasha não disse mais nada, mas sentou-se ao seu lado. Lentamente, Alyson foi se dando conta das conversas paralelas no avião, uma delas parecendo entre Chloe e Kensuke.
— Ela não ligou, no fim das contas.
— Bem… não há muito que a gente possa fazer sobre isso, sabe? Além disso, nós estamos chegando. — A jovem parou o que estava falando, virando a cabeça para trás para fitar as duas amigas. — Bem, estamos todos prontos?
— O quão prontos podemos estar, eu acho. — Alyson voltou a esfregar os olhos, um pouco mais desperta. — Desculpe, eu acabei adormecendo.
— Tudo bem. Mas, se eu puder lhe oferecer um conselho, diria para pelo menos mandar uma mensagem a sua mãe, se falar diretamente for muito difícil. Não sei se vamos ter outra oportunidade depois daqui.
— Okay… — se dando por vencida, Alyson pegou o celular e observou-o. Haviam algumas chamadas perdidas anteriores, mas nada havia chegado desde o dia anterior. Algum problema na operadora ou no sinal, provavelmente. — Vocês conseguiram entrar em contato com alguém?
— Não tentei. E você, Sasha?
— Estou tendo problemas no sinal do meu celular já faz um tempinho.
— Isso não parece muito normal.
— Provavelmente vocês tiveram uma interferência mágica embaralhando algumas funcionalidades dos seus aparelhos quando o gigante de magma foi invocado ontem. Não é tão difícil de acontecer, afinal a nossa magia não se dá muito bem com a tecnologia de vocês. — Salem alegou de um ponto mais atrás. Ele havia, finalmente, retomado sua forma original, tipicamente humanóide, e estava de braços cruzados esperando a aterrissagem.
— É um problema atrás do outro, mesmo. — Chloe disse, apática.
— Vocês estavam escrevendo um bilhete, certo?
— Sim.
— Pode me arranjar papel e caneta?
— Claro.
Alyson pegou os materiais que Sasha havia lhe estendido e silenciou-se por um tempo. Tudo que era possível ouvir do seu lado era um rabiscar, que começou ocasional e logo se tornava algo extenso. Ainda em silêncio, ela dobrou o papel que acabara de escrever e estendeu-o para Clhoe, para ser colocado junto ao outro bilhete que as amigas haviam escrito com uma desculpa plausível (mas nem de longe passável) para não estarem em casa.
— Isso é tudo?
— É sim.
— Que bom. — ela ofereceu-lhe um sorriso calmo. Não havia muito a ser dito a esse ponto. Eles logo pousariam e entrariam na fase final da jornada para um novo mundo.
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