A Escolhida do Destino

15 Encontro com o outro lado.


A primeira coisa que eles encontraram no caminho de onde o avião os deixou até o Stonehenge, foi uma mulher jovem. Ela estava sentada em uma pedra próxima da estrada, trajando o que parecia ser um yukata moderno em tons de vinho e negro, com um chapéu de bambu pontudo sobre a cabeça, que escondia quase que completamente seu rosto. Sentava-se de uma maneira bastante desleixada, com as mãos apoiadas na superfície atrás dela e as pernas cruzadas o tão alto quanto podia considerando o yukata que usava. Fazia um tempo que não estava se movendo, mas assim que ouviu os passos deles se aproximando, foi audível um estalar de língua da parte dela.

O que ela disse não foi compreensível por Alyson. Mas Sasha pareceu bem surpresa. Ela olhou para Ken, que havia interrompido instantaneamente seus passos e encarou perplexo a mulher desconhecida. Esta disse mais algumas coisas, pondo-se de pé. Era possível ver um cinto com duas espadas preso ao lado esquerdo do seu corpo, e quando ela ergueu a cabeça o suficiente para seu rosto se tornar parcialmente visível, havia uma expressão bem desenhada de fúria em sua boca. Ainda falando uma língua que Alyson apenas poderia supor ser japonês, retirou o chapéu e atirou-o sem nenhuma cerimônia sobre Kensuke.

— Baka no niisan! — isso Alyson entendeu, pelo menos.

O rosto da desconhecida ficou totalmente à mostra. Olhos muito verdes, adicionados a sobrancelhas finas e traços delicados mas perturbadoramente similares aos de Kensuke, ainda que femininos. Seus lábios carnudos continuavam demonstrando um profundo desgosto. Os cabelos estavam mais evidentes agora, sendo de um loiro muito claro e chegando até a altura da cintura, presos numa trança longa que balançava como um chicote devido a movimentação brusca.

— Kira, o que di… — Ken capturou o chapéu para tirá-lo de cima de si, talvez se lembrando que não deveria estar falando em português, e logo após começando uma clara reclamação em japonês. Ele caminhou até ela ainda resmungando, enquanto ela própria começava a falar e ambos iniciaram uma discussão acirrada que terminou com Kira cutucando violentamente seu peito algumas vezes.

— Ahn… nós deveríamos interferir? — Alyson perguntou, dando um passo para trás.

— Bem, você não vai querer entrar no meio desses dois agora, acredite em mim. — Sasha disse, franzindo o cenho. — Caramba, não ouvia esses palavrões tem um tempinho, viu?

Crós observava como quem estava prestando bastante atenção, com uma das mãos sob o queixo e fazendo alguns acenos curtos com a cabeça. — Amor fraternal é lindo de se ver.

— Cara, se você diz…

Alyson se aproximou um pouco mais de Chloe, que aparentemente não tinha as mesmas capacidades linguísticas dos outros dois, ainda que observasse os irmãos com curiosidade.

— Estou um pouco assustada, não imaginei que ela fosse tão impetuosa…

— Talvez ela só esteja irritada com a possibilidade de ser deixada para trás. E talvez porque o irmão dela a abandonou por alguns anos.

— É… — Alyson fez uma careta de derrota, sem argumentos.

A discussão amenizou-se após alguns poucos minutos, em que Kira apoiou a testa contra o peito do irmão e ele respondeu com um meio abraço culposo. Depois disso, eles trocaram mais algumas palavras em baixo som, antes dele soltá-la e ambos se aproximarem dos demais.

— Desculpem. Essa é minha irmã, Kira Himura.

A mulher fez uma curta reverência, inclinando-se levemente para a frente, fechando seus olhos, para então reabri-los e dardejar Alyson com eles. Kira disse mais algumas coisas que foram incompreensíveis para a garota.

— Ahn…. ohayo?

As sobrancelhas de Kira franziram, enquanto ela olhava para cima. A noite tinha começado a cair. Kensuke disse alguma coisa para a irmã novamente, o que a fez menear a cabeça e suspirar. Com certa dificuldade, as apresentações necessárias foram feitas.

— Vejo que as comunicações serão impossíveis para uma parte do nosso grupo, por enquanto. — Crós disse, nem um pouco preocupado.

— Ah… Se quiserem, eu posso ajudar o Ken com a tradução. — Sasha sugeriu, animadamente, erguendo um dedo.

— Em breve isso não será necessário. — ele bateu as palmas das mãos. — Bem… imagino que a senhorita Himura estará conosco a partir de agora. Vamos continuar.

É claro, ninguém foi contra a ideia. O Stonehenge assomava a distância, pedras regulares formando um alto círculo antigo que para a Terra não era nada além de engenharia ritualística. Enquanto os calçados pisavam na relva próxima ao monumento, Crós fez um gesto suave com a mão direita, circulando seu dedo indicador no ar algumas vezes. O mundo, ou pelo menos o local em que eles estavam, pareceu ficar mais silencioso, abafando o som dos insetos e de seus próprios passos.

— Isso vai garantir que olhares curiosos não vejam o que estamos fazendo. Não que haja turistas por perto, de qualquer forma. — ele parou seus movimentos, já em frente ao círculo exterior de pedras, e cruzou os braços. — Bem… estamos todos prontos?

— Acho que sim. — Chloe disse, passando um olhar ao seu redor, sua boca se crispando levemente conforme parava ao lado do feiticeiro. — É estranho… eu já vim aqui várias vezes, mas tem algo de diferente agora.

— Hum. — ele respondeu com um semblante pensativo, estendendo a mão para tocar a pedra angular mais próxima, apoiando sua palma contra ela. — Elas reconhecem a magia. É como jogar uma pedra sobre um lago de águas paradas, ela vai criar ondas que se espalham por toda a superfície. Minha barreira foi o suficiente para despertá-las de um sono muito longo.

— Despertá-las?

— Tudo que é criado e cuidado com devoção por tempo o suficiente tem uma alma. Não importa que seja um objeto, uma música ou um lugar. Essas belezinhas aqui viram muitas coisas, enquanto as eras sobrepunham-se umas às outras. — ele acariciou delicadamente a rocha, como se lhe dissesse “bom trabalho”. — Eu vou dar início ao ritual para atravessarmos. Vamos adentrar o círculo interno. Por garantia, deem as mãos e mantenham-se em silêncio. Não importa o que sintam ou vejam, não devem quebrar a cadência do cântico, estão entendidos?

— Sim, senhor. — Sasha e Alyson disseram ao mesmo tempo. Kira e Kensuke trocaram olhares, ele repetindo num murmúrio o que havia sido dito em japonês, e então ambos assentiram com a cabeça, enquanto Chloe fazia o mesmo movimento.

Eles caminharam em silêncio até o centro, com cuidado para não pisar em nenhuma das pedras mais baixas, Sasha em particular se desequilibrou no processo, mas foi eficientemente puxada por Chloe antes que caísse. Eles formaram um círculo no centro do monumento, dando as mãos. Em sentido horário, estavam Crós, Chloe, Sasha, Alyson, Kensuke e Kira. A mulher lançou um olhar estreito para o feiticeiro por alguns segundos, antes de pôr fim segurar a mão livre dele, fechando a corrente. Ele abriu um sorriso sábio em resposta, e então puxou lentamente o ar para os pulmões.

— Aqui estamos, na planície estrelada. Aqui estamos, no firmamento relvado. A noite se descortina sobre nós e o vento percorre a existência. Este mundo é apenas um, este mundo não é o único. — ele fez uma pausa. Era visível que, enquanto recitava as palavras de uma forma melódica, seu olhar ficava menos fixo, tornando-se quase perdido dentro de si mesmo, como se estivesse entrando em algum tipo de transe. — Eu canto para os antigos… eu rezo para que o pacto ancestral se mantenha. Este mundo é apenas um, este mundo não é o único.

O vento passou por eles, bagunçando seus cabelos e roupas. Aquilo não parecia ser um vento normal. Alyson sentiu os pelos de seu corpo se arrepiarem, como se a brisa trouxesse consigo eletricidade.

— Abram-se as portas. Atem-se os caminhos. Que nossa travessia seja tranquila. Que nossa viagem seja abençoada.

Ela estava se sentindo um pouco enjoada. Fechou os olhos por menos de um minuto, mas quando os abriu, sentiu seu corpo despencar no ar, tudo ao seu redor se tornando um borrão colorido que poderia muito bem ser uma nebulosa. De alguma forma ela conseguiu refrear o grito que veio à sua boca. Não estava vendo mais ninguém ali, mas ainda conseguia sentir as mãos agarradas a alguma coisa. Às mãos de Sasha e Kensuke? Alyson segurou com mais força, sentindo o vento ficar cada vez mais forte e a queda mais rápida, fechando novamente os olhos.

Da primeira vez que Crós havia teleportado-a a sensação fora um pouco parecida, ainda que ela conseguisse divisar por onde estava caindo. Agora sentia-se caindo de lugar nenhum, passando por coisas abstratas que não sabia identificar. Alice descendo pela toca de coelho. Aproximando-se do País das Maravilhas.

Ou, talvez, de uma morte certa.

Mas ela precisava confiar. Ela inspirou e expirou, desesperadamente pedindo por autocontrole, para manter as mãos atadas com pessoas que não conseguia ver e em silêncio quando tudo que queria fazer era gritar. Então, tão subitamente como começou, aquilo terminou. Alyson não sentiu o baque contra o chão, mas o vento retrocedeu a uma suave brisa e ela enfim sentiu o chão materializar-se sob seus pés.

E então… ela abriu os olhos.


Notas finais
Hei, Olá, Bom dia, boa tarde, boa noite, seja qual for o horário que você está vendo isso. Como sempre demoro uma vida pra retornar, mas eu sempre volto (mesmo que seja pra sumir mais um pouquinho logo depois). Temos hoje um capítulo mais curtinho de transição, e uma personagem nova também. Ela ainda não demonstrou muita coisa além de uma personalidade forte e agressiva, mas aguardem pelo momento da Kira-chan. Mais uma vez agradeço por quem chegou até aqui. Beijos no seu coração, e até a próxima. <3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.