A Escolhida do Destino
13 Algumas ultimas decisões
Notas iniciais
Alyson inspirou profundamente.
Então expirou.
Ela passou seus olhos pela noite parisiense, mais cedo talvez tivesse lamentado não poder turistar nem um pouco por aquelas ruas. Agora, sua mente estava afunilando-se em direção a algumas verdades, coisas que não pensara a fundo anteriormente, e que agora lhes davam calafrios. Quando decidira retornar a vida e seguir os passos do seu pai e do que aquele tal de destino estava reservando para ela, havia considerado o perigo é claro. Mas ela não fazia ideia do tamanho do perigo em questão. Sua ficha ainda não havia caído para o quão grande era o problema que havia se enfiado… pior, ela não insistira o suficiente com suas amigas, suas melhores amigas, para que ficassem em segurança, e as duas quase acabaram mortas.
E, não obstante, ela matara alguém mais cedo. Muitos “alguéns”. Não importava que fossem demônios, monstros, que nome lhe dessem, se eram escabrosos ou assustadores, eram seres vivos, e ela os matara. Fizera-o sem pensar, para sobreviver, e ainda assim estava sentindo um aperto no peito e um nó no estômago. Sentiu-se subitamente enjoada, e o vento fresco da noite que batia na varanda lhe causou mais frio do que deveria. Passando os braços ao redor de si mesma, ela esfregou suas mãos contra a própria pele, tentando afastá-lo, sem sucesso.
Respire.
Respire.
Respire.
Ela precisava de respostas e de resoluções, não de uma crise de pânico. Ainda assim, quando ouviu uma movimentação atrás de si, seu corpo instintivamente encolheu-se para um lado, enquanto voltava a cabeça naquela direção. Por um momento um alerta em seu cérebro indicou que pulasse da varanda, mesmo que não estivesse transformada naquele exato momento. Era verdade que tal mudança poderia vir em meio do caminho dali até o asfalto, mas não era uma boa ideia testar. Seus olhos estavam um pouco nublados, por conta de pequenas lágrimas causadas pelo susto. Ou pelas coisas que andara remoendo, talvez.
— Ly… você está chorando?
— Ah… — a voz de Ken fez com que alívio descesse pelos seus nervos. Ela movimentou-se da posição encolhida que estava e balançou a cabeça negativamente, passando as costas das mãos pelos olhos. — Não, eu não estava. Só me assustei um pouquinho.
Pela expressão dele, Kensuke não havia engolido aquela desculpa. Alyson percebeu um vago movimento de sua mão, talvez para tocá-la, que nunca foi concluído.
— Você é uma péssima mentirosa.
— Eu sou mesmo. — ela abriu um sorriso constrangido. — Sinto muito por isso.
— Não é uma coisa que você precisa se desculpar. — ele fez mais um movimento, em sua direção, mas pareceu pensar melhor e apoiou os braços na balaustrada ao lado dela. — Mas eu acho que lhe devo algumas desculpas. E explicações.
— Ah, você não me deve nada.
— É claro que sim.
— Não, sério…
— Alyson! — ele elevou um pouco o tom de voz, mas não chegou a ser um grito, apenas uma maneira de chamar sua atenção. Ao observá-lo, havia certa dor em seus olhos. A jovem sabia perfeitamente bem o que havia naquelas entrelinhas, as coisas que Ken não queria dizer, não queria lembrar. Ela abaixou um pouco os ombros e mordeu o lábio inferior.
— Tudo bem. Mas… eu também tenho que pedir desculpas por coisas importantes. Eu não deveria ter brigado com você mais cedo, eu só… não sabia bem como lidar com a situação. — ela desceu as mãos, cruzou os dedos delas, torcendo-os uns nos outros num gesto claro de nervosismo. — Fui egoísta. Eu não tenho o direito de pensar só em mim.
— Não se incomode com isso. E é bom você pensar em si mesma, pra variar um pouquinho. — Ken suspirou. Ele puxou os cabelos loiros para trás com sua mão direita, então encarou o céu por alguns minutos. — Eu não estou zangado. Na verdade, pensando bem, eu comecei essa viagem toda com o pé esquerdo. Eu poderia ter tido mais confiança em você em vez de agir como um guarda-costas mal humorado por todo esse tempo.
— Bem, para sermos justos, você não está mal humorado o tempo todo. Só na maior parte.
— Engraçadinha.
O sorriso dela alargou-se um pouco, e os dois riram por um momento. O vento parecia menos frio para Alyson agora. Soltando as próprias mãos, ela apoiou o indicador da destra sobre a madeira e começou a traçar rabiscos invisíveis, meio sem pensar.
— Eu pensei que sabia o que estava fazendo. Mas eu claramente não sei.
— Qual é o problema em não saber?
— Eu estou… colocando vocês em perigo. E eu não tenho nem a capacidade para protegê-los disso.
— Todos nós fizemos nossas escolhas, Alyson. Eu não sei quanto a Chloe ou Sasha, com tudo o que aconteceu hoje, mas a minha não mudou.
O olhar dela prendeu-se no dele. Havia determinação pura ali, não precisava que as palavras fossem expostas para que soubesse que seria inútil tentar demovê-lo. Provavelmente, ele percebera a mesma coisa que ela quando decidira começar a jornada para Diamond. Talvez até mesmo antes disso, quando…
Incapaz de sustentar aquele olhar, Alyson foi a primeira a desviá-lo.
— E quanto a sua irmã? Você não se preocupa em deixá-la?
— Kira é… — ele silenciou-se. Demorou um pouco para que recomeçasse a falar. — Eu não gosto de falar sobre a minha família porque… eu acho que nunca superei realmente tudo sobre eles. Minha irmã gêmea continua viva, mas eu a abandonei para procurar por vingança. Eu acabei me desviando desse caminho, é verdade, para um mais honroso, pelo menos. Ainda assim, são coisas que eu não consigo lidar de frente. Eu… continuo não sabendo lidar. Mesmo agora, não sei se tenho força de vontade restando para me despedir. E isso parte meu coração, porque eu amo minha irmã, apesar de ser um irmão de merda para ela. A única coisa que me alivia é saber que ela está num lugar seguro, que nada de ruim pode chegar até lá.
Ela ouviu. Olhando novamente para ele, podia notar os ombros vergados, o peso apoiado no balaústre, como se não houvesse nenhuma razão para resistir. Sua mão direita parou de fazer movimentos imprecisos e estendeu-se em sua direção. Então, parou. Pensou nas duas vezes que ele tentara fazer o mesmo, e recuara. Por que não queria tocá-la? Por que achava que não deveria? Alyson inspirou, e expirou. Sua mão completou o caminho até o braço dele, tocando o local gentilmente.
— Eu não acho que você esteja certo em continuar fugindo desse jeito, vocês deveriam conversar. Mas isso não te faz uma pessoa ruim.
— Você não acha ninguém ruim.
— É claro que eu…! — ela fechou a boca. Franziu o cenho. Então revirou os olhos. — Okay, talvez eu tenha uma visão muito positiva sobre as pessoas. Ainda assim, você não pode chamar maus entendidos de crimes.
— Mesmo se o mau entendido em questão for um homicídio culposo?
Alyson franziu o cenho, contrariada, soltando o braço dele para beliscar sua bochecha. — Pare de brincar comigo, estou tentando te animar!
— Ai, ai, okay, okay, sinto muito.
Ele estava rindo agora.
Idiota.
— É isso que eu amo em você.
— O quê?
— A sua generosidade, esse jeito de ver o que é melhor nos outros… — ele passou a casualmente enumerar um amontoado de elogios e qualidades, e a jovem não conseguiu fazer mais do que arfar e piscar, ficando mais vermelha a cada um deles.
— Não, espera! Digo… eu estou feliz, mas… espera um minutinho, isso… eu não estou entendendo errado, estou? Isso não é como naquelas comédias românticas que a pessoa diz uma coisa mas quer dizer outra e…
— Eu amo você, Alyson. Estou dizendo o que eu quero dizer. Não há nenhum engano nisso.
Kensuke estava sorrindo, mas havia seriedade em seus olhos. Ela buscou por qualquer coisa que parecesse um engano, sabendo que não encontraria. Piscando os olhos algumas vezes, se aproximou. A mão esticou-se em direção rosto dele novamente, enquanto sentia nitidamente os braços de Ken passando ao seu redor para fazê-la encurtar a distância ainda mais.
— Eu amo você. — ele repetiu, tocando sua testa na dela.
— Eu acho que também amo você.
— Você acha?
— Bem, eu posso estar enganada, veja bem…
— Então talvez eu precise te convencer.
— Ah! E você vai fazer isso como?
— Com beijos?
A pergunta quase soou como verdadeira.
— Será que é o suficiente?
— Acha que vou precisar de muitos para te convencer?
— Acho que você pode ter me convencido no primeiro, sinceramente.
— O primeiro… — Kensuke calou-se, como se pretendesse se lembrar em detalhes da situação específica. Então corou um pouco, parecendo subitamente sem graça. — Aquilo não foi planejado.
— Você realmente acha que eu ligo pra isso? — Alyson ergueu uma sobrancelha. Eles estavam ridiculamente perto agora, a ponto de ser impossível se aproximar mais. Não sabia exatamente porque estavam debatendo sobre aquilo, era algum tipo de joguinho de palavras, óbvio, mas… depois do que fora dito, estava certo continuar com aquela enrolação? Era um pouco divertido e tudo, mas estava começando a deixá-la com ansiedade.
— Bem, talvez você estivesse esperando algo mais romântico.
— Eu posso ter imaginado algumas coisas, mas…
— Ah. Então você imaginou!
Foi a vez dela ficar com vergonha. Afastou um pouco seu rosto, desviando o olhar para um ponto aleatório, desde que não fosse para os olhos dele, estava ótimo.
— É lógico que eu imaginei, porque eu gosto de você a muito tempo.
Não saberia dizer desde quando. Não sabia apontar um início, qualquer coisa que parecesse um ponto de partida. Ela apenas sabia que deveria ser amor, porque não tinha outra palavra para usar, e porque se não fosse amor, o que mais seria?
— Eu fico feliz. — a mão direita dele delicadamente segurou seu rosto para fazê-la olhá-lo de frente outra vez. — Eu sou tão grato por você fazer parte da minha vida, Alyson. Você me permitiria continuar ao seu lado por mais tempo?
Ela não respondeu de imediato. Seus olhos, refletindo os dele, fecharam-se por um momento, enquanto tomava a iniciativa e tocava seus lábios contra os de Ken. Diferente da primeira vez, não havia urgência ou desespero, apenas uma cálida sensação de maciez e doçura. O tempo parecia ter se estendido enquanto provava e registrava o gosto, antes de quebrar o contato e tocar sua testa contra a dele.
— Por favor, fique comigo para sempre.
Sentindo aquele abraço ficar ainda mais aconchegante e apertado, Alyson considerou que ele responderia que “para sempre” era muito tempo. “Para sempre” era algo que não existia, porque nada era eterno. E ainda assim, ela pode acreditar fielmente nas palavras ditas em seu ouvido logo após, com um tom suave.
— É claro que fico, Ly.
O grupo de viajantes reuniu-se novamente na sala de Gilgamesh algumas horas depois, sem seus anfitriões, porém. Cinco pares de olhos, um deles sendo felino, encaram-se por um tempo, antes que alguém finalmente quebrasse o silêncio.
— Acho que deveríamos conversar. Todos nós. — iniciou Chloe, lentamente.
— Eu acho que eu deveria deixá-los, nesse caso… — Crós fez menção de levantar o pequeno corpo do sofá em que estava sentado, antes de receber um olhar enviesado da moça.
— Você fica.
— Hum… okay.
— Ele nem sequer tentou. — ponderou Sasha.
— Ele tem bom senso. — disse Alyson por sua vez, juntando as mãos sobre o colo. — Eu posso começar?
Os olhos voltaram-se para ela. Era algo que a deixava profundamente desconfortável, e sentia que estava acontecendo com certa frequência. Mordendo a parte interna da bochecha, ela ponderou um pouco, antes de responder.
— Sei que provavelmente não vão me ouvir, mas eu gostaria que vocês duas ficassem aqui a Terra.
Mais um minuto de silêncio, que foi quebrado por Kensuke.
— Eu jurava que você ia dizer pra eu ficar também…
— Seria bobagem minha pedir tal coisa, depois do que já conversamos. — ela desviou os olhos dele, corando um pouquinho, mas logo continuando. — Além disso… você tem seu treinamento e tudo o mais. Não é como se tivesse entrado nessa história sem saber o que esperar.
— Você diz isso, Ly, mas Crós expôs muitas coisas para mim quando apareceu na minha casa. Eu não chamaria isso de um bom argumento.
— E você está usando minhas palavras contra mim, Chloe, isso é bastante injusto vindo de você.
— Não é injustiça dizer a verdade. — ela respondeu, assumindo um tom mais brando dessa vez. — Eu sei o que está passando por sua cabeça agora. Você quer que fiquemos seguras, e isso é lindo de sua parte. É a pessoa que você é, e não vou falar contra isso. Mas você está desconsiderando o que nós mesmas queremos, não acha?
— Eu não estou desconsiderando. Só preferia que pensassem bastante a respeito. No fim das contas nem eu mesma sabia o quão perigoso podia ser.
— Mas você morreu.
— Mas eu voltei. — ela desceu os olhos para o próprio colo, torcendo as mãos. — Eu deveria… ter pensado nisso desde o primeiro instante, mas haviam tantas coisas novas… novos mundos, novas pessoas, meu pai. Eu estava com vocês e estava tão feliz. Eu simplesmente deixei para lá a parte do perigo e disse para mim mesma “vamos fazer isso, vai dar certo”. Mas… depois da situação na arena…
Ela fez uma pausa, em que seus olhos marejaram.
— Por um momento eu pensei… que perderia vocês. E eu fiquei muito assustada. Se continuar nesse caminho vai machucá-las, eu não quero seguir desse jeito.
As orelhas de Crós levantaram-se um pouco, sinal de que estava prestando atenção a conversa, mas ele não fez nenhum ruído sobre. Um fungar baixinho soou e a atenção voltou-se para o lado de Sasha dessa vez.
— Eu sei… eu também fiquei. Eu me senti inútil, foi tão horrível!
— Você não é inútil, Sasha. — os outros falaram praticamente ao mesmo tempo, embora se fosse pensar bem, ela realmente não era uma lutadora nem poderia ter feito alguma coisa naquela situação. Chloe continuou, por sua vez. — Eu entendo que tenha sido um choque para todos nós em algum nível. Mas isso fez com que colocássemos as coisas em perspectiva. E, de minha parte, continuo desejando acompanhar vocês, Ly.
Alyson abriu a boca para protestar, mas fechou-a novamente com um movimento sutil para que esperasse.
— Se isso vai te fazer se sentir melhor de alguma forma… eu tenho meus próprios interesses em continuar a viagem. Ainda que eu tenha a intenção de apoiá-la no que for possível.
— Você quer saber mais sobre sua transformação? — perguntou Ken, que preferira não se intrometer muito naquela discussão, ainda que fosse da mesma opinião de Alyson sobre a ida das garotas.
— Isso também. — ela suspirou, inclinando a cabeça para um dos lados, perdida em pensamentos. — Pesquisar magia e alquimia nesse mundo era um sonho distante para mim. É por isso que, tendo uma confirmação de que realmente existe, a cientista em mim não pode simplesmente cruzar os braços e virar as costas, sabe? É como ir contra minha própria natureza. Mas eu estou muito ciente dos prós e dos contras agora, mais do que antes. Você não está indo apenas pela profecia, não é, Ly? Você deseja saber mais sobre si mesma. É a mesma coisa para mim.
Ela suspirou, parecendo convencida, levando uma das mãos a testa.
— Como esperado de você. Eu não posso vencê-la. Então faça o que quiser.
— Bem, dito isso… eu estou neutra sobre Sasha. Vou me abster de votar.
— Hã? Por que isso se tornaria uma votação?
— Do que estão falando, eu vou junto!
— Mas, Sasha…
— “Mas Sasha” coisissima nenhuma! Eu sei que sou inútil. Mas eu quero aprender também! Eu vou me esforçar para não ser um estorvo, eu aprendo magia, artes marciais, alquimia, usar armas, qualquer coisa! — ela bateu com força as mãos sobre a mesa de centro, as lágrimas começando a correr de seus olhos. — Então, por favor… não me deixem para trás.
— Nós não estamos te… — Chloe começou a dizer. Então pensou melhor e calou-se, meneando a cabeça e olhando para Alyson, que havia se aproximado de Sasha para passar os braços ao redor dela. — Você entende que nossa prioridade é a sua segurança, não é? Nós não queremos te excluir.
— Nunca excluiríamos você. Mas, veja bem, isso não é um passeio… você viu por si mesma as coisas dando errado. E de alguma forma nós conseguimos virar o jogo, mas… — Ken colocou uma das mãos sobre o cabelo da amiga, mas Alyson pareceu notar o que ele ia falar a seguir e fez um sinal insistente de “não” com a cabeça. Bem, talvez mencionar que eles poderiam muito bem morrer numa próxima vez, realmente não era a melhor das coisas a dizer naquele momento.
Na verdade, ela própria não sabia bem o que dizer. Seu desejo era que Sasha ficasse, era um desejo pelo bem dela, porém outra parte de si, uma bastante egoísta e bem pequena, gostaria que elas desbravassem esse novo mundo, juntas. Mas ela nunca poderia colocá-la em perigo por uma vontade tão idiota. Por mais que fosse doloroso, ela precisava ser realista. Ainda assim, como dizer aquilo de uma maneira que não a deixasse mais desolada do que já estava?
Um miado alto interrompeu seu fluxo de pensamentos.
Crós miou de uma maneira tão estridente que a fez estremecer e temer pelos seus tímpanos. Chloe fez uma careta de desagrado, e Kensuke o observou com uma expressão de duvida bem óbvia, afinal por que diabos ele estava miando ao invés de falar como a pessoa não-tão-normal que era?
— O gato aqui pode opinar?
— Se isso evitar que você produza esse som medonho de novo, sim, claro, fique à vontade. — sugeriu Chloe, de uma maneira não muito amigável.
— Que audição sensível… mas pondo isso de lado, toda a questão é sobre a garota não ter capacidades de se defender sozinha, não é? Nesse caso, porque não damos isso a ela?
— Salem… — chamou Alyson, ao passo que Sasha erguia novamente a cabeça para olhar o gato, que havia se desembolado da posição em que estivera deitado até então e saltara no chão, caminhando até ela e sentando-se a sua frente. — O que você vai…
— Apenas estou me intrometendo onde não fui chamado, é claro. Digo… eu não queria estar aqui para começo de conversa, mas não posso evitar dar uma solução quando todo mundo parece incerto sobre um assunto, não é? — ele fechou um dos olhos, o que era ao mesmo tempo estranhamente fofo e adoravelmente perturbador. Um gato de verdade que estivesse saudável jamais deveria ser capaz de piscar apenas um dos olhos daquele jeito. — Se você está em um dilema e não tem meios para resolvê-lo, basta mudar a maneira de pensar. Ou, no nosso caso, inserir uma variável externa.
— O que? — Sasha questionou, parecendo não entender muito bem onde ele queria chegar.
— Acredito que podemos começar com um amuleto de proteção até chegarmos em Diamond, Mas eu estava pensando em algo como benção divina. É claro, isso não vai te dar nenhuma competência além de ficar em segurança contra demônios, mas se é de seu desejo nos acompanhar, é possível aprender todo o tipo de habilidade, desde que realmente queira.
— Qualquer coisa?
— Bem… a grande parte são coisas bem difíceis. Ser um feiticeiro não é algo que se consiga do dia pra noite, por exemplo. Ou se tornar proficiente em armas ou artes marciais. — ele voltou a abrir o olho e moveu a cabeça um pouco para o lado, fitando Alyson diretamente dessa vez. — Normalmente. Algumas pessoas podem nascer com uma sorte dos diabos.
— Por que isso está me parecendo uma ofensa?
— É só impressão sua, criança. De qualquer forma… se seu desejo é aprender, nós temos pessoas capazes de ensinar. E, enquanto isso, desde que esteja abençoada, nada maligno poderá tocá-la.
Foi Kensuke que interrompeu dessa vez. — Isso é muito conveniente, não acha? Por que não mencionou essas coisas antes? Qual é a pegadinha que não estamos vendo?
— Não tem nada de pegadinha. — enfadado, o gato passou uma das patas sobre o rosto, forçando Alyson a desviar o olhar para evitar o desejo subito de agarrá-lo. — Eu tenho certas especialidades que são parte da minha área, amuletos e bençãos não estão entre elas. Quanto aos amuletos, talvez Gilgamesh possa ajudar… agora quanto a uma benção divina, não é como se eu fosse um deus pra começo de conversa.
— Okay, mas ambos vão realmente funcionar? Porque se forem, não seria mais conveniente que todos usássemos um amuleto ou uma benção, nesse caso?
— Eu sou a favor de levar um amuleto para qualquer lugar que vá, desde que você tenha um. De toda forma, não é algo tão trivial como faz parecer. Um amuleto mágico tem a força proporcional ao nível da pessoa que o cria. No nosso mundo ele funciona como um disfarce… ou melhor, como uma ocultação contra alguma coisa específica. É super útil, porém não será o suficiente para esconder alguém com emanações fortes de magia. Como a dessas duas aqui. — ele respondeu, referindo-se a Alyson e Chloe. — Você talvez se beneficiasse, porém, Kensuke. Mas ocultação de presença é inútil se você desejar cortar alguém com uma espada. As duas coisas se anulam, sabe?
— Não se faça de engraçadinho. E quanto a tal da benção divina?
— Uma benção de um dos quatro grandes deuses de Diamond. Bem… de um dos três, pelo menos, Folkes não é do tipo que faria uma coisa dessas. — ele resmungou, espreguiçando-se languidamente. — É uma benção sagrada cujo portador não pode ser tocado por aqueles que tenham más intenções sobre ele. Entretanto, ela é desativada quando o abençoado tem intenções ofensivas para com outro alguém.
Ken ficou em silêncio, então encolheu os ombros e pareceu estar satisfeito com a resposta. Talvez um pouquinho decepcionado, também. Era natural que sua intenção fosse manter os outros seguros e não apenas Sasha, mas colocando tudo o que fora dito numa balança, era óbvio que no momento ela seria a única beneficiada. Uma pena, um amuleto de ocultação de presença parecia-lhe muito útil, mesmo que no seu caso servisse apenas para um golpe de oportunidade. Já a benção divina, sem chance de considerá-la, com a sede de sangue que tinha ao lutar contra os demônios, ela provavelmente o queimaria de dentro pra fora.
— Isso quer dizer… que com essas coisas eu posso ir junto com vocês? — Sasha questionou, havia uma ansiedade cristalina em seu olhar, quando o lançou sobre Crós. Ela esperou por uma resposta sem dizer mais nada, recebendo uma afirmativa suave do gato com a cabeça.
— Sim. Você pode. A menos é claro, que alguém tenha uma objeção?
— Nenhuma. — foi a resposta dos outros, dita em uníssono, embora com um tom bem evidente de conformação. Ainda assim, Sasha limpou o rosto com as costas das mãos, um sorriso de felicidade muito simples surgindo em seu rosto.
— Eu vou dar o meu melhor.
— Nós vamos também. Nada é impossível quando temos um bom grupo de companheiros, não é? — Alyson manteve os braços em torno da amiga, esfregando de brincadeira o rosto contra o dela. Aquilo certamente era uma idiotice sem tamanho, mas se Sasha insistia tanto em continuar com elas, bem… quem era ela pra dizer não? Dali, era ela própria que corria mais risco que todo mundo.
Ela realmente tinha um coração muito mole.
— Interessante o fato de estarem considerando meus serviços sem me perguntar primeiro. Como esperado de um certo idiota. — uma voz familiar veio da entrada da sala, chamando a atenção dos presentes naquela direção.
Gil estava apoiado contra o arco de passagem para a pequena cozinha, usando um roupão de tom arroxeado e com uma caneca em mãos, que levou a boca, fazendo uma careta logo em seguida. Alyson não sabia se suas olheiras eram de cansaço, mas elas continuavam ali como se ele não tivesse dormido nem uma hora sequer.
— Pondo isso de lado por enquanto… precisamos conversar, pirralha.
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