A Escolha Perfeita
1 A Dama que Observava

Londres parecia respirar mais alto naquela noite.
Carruagens se alinhavam diante da mansão Bridgerton como se disputassem quem chegaria primeiro ao centro da atenção. O som dos cascos ecoava pela rua de pedras, misturado ao burburinho ansioso da alta sociedade que aguardava o início de mais uma temporada.
Dentro da carruagem de cortinas claras, Lady Beatrice Talbot observava tudo em silêncio.
Ela mantinha as mãos unidas sobre o colo, cobertas por luvas de seda, enquanto seus olhos percorriam o movimento à frente. Não havia nervosismo em sua postura, apenas uma curiosidade contida. Londres era exatamente como lhe haviam descrito: bela, exagerada… e perigosamente interessada em vidas alheias.
— Lembre-se de sorrir — disse sua mãe, ajustando-lhe discretamente o colar. — E não se afaste demais das outras jovens.
Beatrice assentiu, embora soubesse que jamais conseguiria se misturar por completo. Talvez nunca conseguisse.
Quando a carruagem parou, o lacaio abriu a porta e o ar frio da noite tocou-lhe o rosto. Ela respirou fundo antes de descer, sentindo os olhares se voltarem para si quase de imediato.
Não era o vestido azul-claro bordado em dourado que chamava atenção, embora fosse impecável. Era a forma como ela caminhava: tranquila, sem pressa, como se não tivesse nada a provar.
— Quem é ela? — cochichou alguém próximo.
— Talbot… creio que da província — respondeu outra voz, curiosa.
Beatrice fingiu não ouvir. Estava acostumada a ser observada, mas não julgada. Londres, percebeu rapidamente, fazia as duas coisas ao mesmo tempo.
O salão principal brilhava sob dezenas de lustres de cristal. A música ecoava suave, preenchendo os espaços entre conversas calculadas e risadas ensaiadas. Jovens damas alinhavam-se como flores em exposição, cada uma esperando ser escolhida.
Beatrice, no entanto, escolheu um lugar próximo às janelas.
Dali, via tudo: os sorrisos exagerados, os cumprimentos falsamente afetuosos, os olhares que avaliavam fortuna antes de caráter. Não sentia desprezo, apenas uma estranha distância. Como se estivesse dentro de uma peça… mas não fosse parte do elenco.
— Lady Talbot.
A voz masculina a fez virar-se.
Diante dela estava um cavalheiro de postura impecável, sorriso educado e olhos atentos. O tipo de homem que as mães aprovavam antes mesmo de conhecer o nome.
— Lorde William Hawthorne — apresentou-se, fazendo uma breve reverência. — É um prazer conhecê-la. Sua chegada tem sido… comentada.
Ela sorriu, suave.
— Espero que de maneira gentil.
— Naturalmente. — Ele inclinou levemente a cabeça. — Posso acompanhá-la até a pista?
Beatrice hesitou por um instante. Não por timidez, mas por consciência. Aquela escolha, tão simples, seria notada.
Aceitou.
Enquanto dançavam, Lorde Hawthorne conversava com desenvoltura, falando sobre propriedades, viagens e expectativas futuras. Ele era agradável. Correto. Perfeito.
E completamente previsível.
Os olhos de Beatrice, porém, desviaram-se involuntariamente para a lateral do salão.
Ali, encostado a uma coluna, estava um homem que não dançava.
Ele observava.
Seu traje era elegante, mas sem exageros. O olhar intenso e atento parecia menos interessado nos pares e mais nas reações. Quando seus olhos encontraram os de Beatrice, algo mudou. Não um choque, mas um reconhecimento silencioso.
Como se ambos soubessem que não pertenciam totalmente àquele lugar.
Ela sentiu o coração acelerar, embora não entendesse o motivo.
— Lady Talbot? — chamou Lorde Hawthorne, trazendo-a de volta à dança.
— Sim… perdoe-me.
A música terminou, e os aplausos ecoaram pelo salão. Beatrice agradeceu educadamente e se afastou, sentindo a estranha necessidade de respirar longe dos olhares atentos.
Mais tarde naquela noite, enquanto a lua subia no céu de Londres e as velas se apagavam uma a uma, Beatrice voltou para casa com a sensação incômoda de que sua vida havia mudado.
Não por ter sido escolhida. Mas porque, pela primeira vez, alguém havia realmente a visto. E isso, ela sabia, era o começo de algo perigoso.
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