A Escolha Perfeita

2 Olhares, Rumores e Acasos


Caro e gentil leitor,

É com grande satisfação que informo que a temporada finalmente ganhou um novo assunto digno de atenção. Lady Beatrice Talbot, recém-chegada à nossa estimada Londres, parece possuir uma qualidade rara entre as jovens debutantes: a capacidade de observar sem se exibir e, ainda assim, ser notada.

Enquanto algumas damas se esforçam para serem vistas, Lady Talbot permanece à margem… e é justamente ali que reside o perigo. Pois, como todos sabem, as mais silenciosas costumam ser as mais interessantes.

Resta saber se esta nova joia da temporada pretende jogar o jogo ou reescrever as regras.

Com a mais sincera curiosidade,

Lady Whistledown.


O papel ainda tremia levemente entre os dedos de Beatrice quando ela terminou a leitura.

O som da cidade entrava pelas janelas abertas da sala de estar, misturando rodas de carruagem, vozes apressadas e o chamado distante de vendedores. Londres não dormia e, ao que tudo indicava, também não perdoava.

— Ao menos ela foi… elegante — comentou sua mãe, tentando disfarçar a tensão. — Poderia ter sido pior.

Beatrice dobrou o folheto com cuidado, o rosto sereno, mas o pensamento inquieto. Não lhe incomodava ser observada. O que a perturbava era a sensação de estar sendo interpretada por alguém que nunca a havia conhecido.

Decidiu sair.

Vestiu um traje simples, porém refinado, e seguiu a pé pelas ruas próximas, acompanhada apenas por sua dama de companhia que mantinha distância respeitosa.

As ruas eram vivas. Crianças corriam entre bancas, damas negociavam tecidos, cavalheiros conversavam animadamente à porta dos cafés. Beatrice sentiu, pela primeira vez desde que chegara, que podia respirar.

Foi então que parou diante de uma livraria. O lugar era pequeno, com a vitrine discretamente decorada e um sino delicado preso à porta. Sem pensar muito, entrou.

O cheiro de papel antigo e madeira encerada a envolveu imediatamente.

— Posso ajudá-la?

A voz veio de trás de uma estante alta.

Quando ele surgiu, Beatrice conheceu o olhar antes mesmo do rosto.

Era o homem do baile. O da coluna. O que não dançava.

Ele parecia tão surpreso quanto ela, mas recuperou-se rápido, esboçando um sorriso contido.

— Creio que agora não posso mais fingir que foi coincidência — disse ele, com leveza. — Sou Henry Calloway.

Ela inclinou a cabeça, educada.

— Lady Beatrice Talbot.

— Eu sei — respondeu ele, sem hesitar. — Londres inteira sabe.

Ela arqueou uma sobrancelha, divertida.

— Imagino que deva ser difícil viver em uma cidade que gosta tanto de falar.

— Oh, é exaustivo — concordou. — Por isso prefiro os livros. Eles contam histórias sem distorcê-las… na maioria das vezes.

Caminharam entre as estantes, conversando sobre romances, viagens e sobre como a cidade parecia exigir versões específicas das pessoas. A conversa fluía com uma naturalidade perigosa, daquelas que fazem o tempo passar rápido demais.

— A senhora parece diferente das outras jovens da temporada — comentou Henry, por fim.

— Diferente como?

— Como alguém que não quer apenas ser escolhida.

O comentário a atingiu com precisão.

— E o senhor? — perguntou ela. — Observa muito… mas participa pouco.

Ele sorriu de lado.

— Digamos que já aprendi o preço de ser visto demais.

Antes que Beatrice pudesse responder, ouviu-se o sino da porta novamente. A criada a chamou discretamente, estava na hora de voltar.

Henry inclinou-se levemente.

— Espero que Londres a surpreenda de formas gentis, Lady Talbot.

Ela hesitou por um segundo, depois sorriu.

— Espero o mesmo, senhor Calloway.

Ao sair da livraria, Beatrice sentiu algo novo se instalar em seu peito. Não era ansiedade. Nem medo.

Era expectativa.