A Décima Terceira Esposa
4 Ao anoitecer do verão
Notas iniciais
Quando finalmente completei dezoito anos, depois de longos anos de estudo e dedicação, sofrendo tudo o que uma mulher poderia sofrer, eu me tornei uma geisha. Eu finalmente tinha todas as chances de realizar os meus sonhos e me esconder. Para todas as pessoas que apreciavam os meus talentos, que a Senhora Tsunade dedicara pessoalmente suas horas vagas ensinando-me como usá-los, eu me chamava Taiyou, “sol” na minha língua nativa.
Eu era famoso e recebia muito bem, custeava os meus próprios gastos, recebia convites de todos os tipos para vários lugares diferentes — os quais eu só correspondia se estivesse na companhia da Senhora Tsunade — e eu me especializara em dançar. Ninguém suspeitava que eu era, na verdade, um homem usando maquiagem. Eu me tornei uma geisha muito requisitada e todas as noites eu me apresentava na ochaya. Meus pais vinham me assistir de vez em quando e eu me sentia o mais amado dos filhos ao ver minha mãe se emocionar com alguma coisa que eu fazia. Eu via, no brilho de seus olhos, que me diziam “finalmente seguro”.
Minha vida não poderia ser mais perfeita. Eu tinha tudo o que uma pessoa que viera do campo, sem expectativa de sucesso na vida, poderia sonhar. Mas eu não me sentia completo, ainda faltava algo para mim.
Depois de seis longos anos vivendo na Cidade Imperial, eu ainda não tinha me reencontrado com aquele menino, o meu salvador. Em meus sonhos ele se tornara um belo rapaz, que ficava sempre no público, observando-me com atenção, aplaudia-me com fervor, mas eu nunca via o seu rosto, apenas um vislumbre de seu sorriso. Apesar disso, eu não perdi as esperanças, todas as noites eu orava aos meus ancestrais que protegessem meus pais e pedia aos deuses que me permitissem ver mais uma vez aquela pessoa que nunca saíra do meu coração. Minha fé me dava forças para continuar acreditando que um dia eu o veria.
Tal como eu conquistara meus clientes, meus fãs e meus méritos, eu também conseguira inimigos dentro do okiya e um deles foi Hanabi. Ela queria ser tão boa quanto a irmã mais velha, que fora uma geisha até o dia em que se casou e deixou a Cidade Imperial para morar com o marido. Hanabi tentava por todos meios se tornar uma geisha cantora mais famosa que a irmã, no entanto ninguém, pelo menos nos meus anos vivendo com a Senhora Tsunade, superara as habilidades artísticas de Hyuuga Hinata.
A filha mais jovem dos imperadores, a Srta. Hyuuga Hanabi, viera estudar com a Senhora Tsunade na mesma época que eu e tão logo tivemos nossas discrepâncias, primeiramente, por eu ser um homem, depois por eu optar pela arte da dança e não do canto, e, por fim, por eu ser um camponês. Hanabi me despreza e me maldiz por ser quem eu sou.
Eu descobri, em meus estudos e com a convivência com outras garotas que se tornaram geishas, que a família real residente nessa cidade são os Hyuugas e o símbolo que eu vira no peitoral dos soldados quando cheguei a esse lugar é justamente o brasão dessa família. Também fora o símbolo que eu vira nas luvas do meu salvador, apesar de ele não me parecer pertencer aos Hyuugas.
Os descendentes dessa família são conhecidos pelos seus olhos leitosos e alvos, além de suas longas cabeleiras sempre impecavelmente lisas. Diziam que o próprio espírito da lua dera a luz ao primeiro Hyuuga, por isso seus olhos eram praticamente brancos e que por isso eram herdeiros por direito da coroa.
Hanabi era filha do rei, portanto, princesa e se orgulhava de ter todos aos seus pés por causa disso, mas sua ambição de superar a irmã nunca fora alcançada.
Suas frustrações, no fim das contas, eram descontadas em mim: um homem, que fora escravo e se tornara uma geisha famosa. Ela ousava me prejudicar, apenas para me ver sofrer, mas eu tinha um objetivo e jamais iria desistir dele, então eu não me abalava. Continuava seguindo em frente.
Afinal, eu sou Filho do Sol e não posso me sentir mal.
—Não consigo entender, Naruto-san, como consegue suportar as diabruras de Hanabi. — uma das poucas amigas que eu tenho nesse mundo é a Senhora Temari, amiga da Senhora Tsunade e responsável pelo treinamento de todas as moças que querem se tornar geisha.
Temari veio de um país longuíquo, envolto pelas areias do deserto, muito além dos bosques da minha terra natal. Um de meus desejos era conhecer esse lugar, que diziam ser próspero e muito hospitaleiro, apesar de estar localizado numa região árida e de poucos recursos. Sempre muito rígida e exigente, a Senhora Temari logo se afeiçoou a mim ao perceber o meu esforço em tentar fazer aquilo que seria simples para qualquer mulher, de modo que auxiliou a Senhora Tsunade com os meus estudos.
—Eu simplesmente ignoro, Temari-sama. Não posso fazer nada contra ela, é uma princesa no fim das contas, e por mais que eu seja uma geisha tal e qual ela é, Hanabi sempre vai vencer por ser de sangue nobre. — comentei e depois tomei um pouco do sorvete com cuidado, para não sujar a yukata laranja com folhagem vermelha que eu usava.
Nós passeávamos pelos Jardins Verdes, aproveitando a temporada de verão e todas as coisas boas que essa estação poderia trazer. Era bom deixar um pouco o mundo artístico de lado e apenas curtir a vida. Por ser verão, e eu estar de “folga”, eu não precisava usar maquiagem pesada, apenas o suficiente para desfaçar a minha masculinidade.
—Queria ter essa habilidade, Naruto-san. Tem muita gente na minha família que eu tento ignorar, mas não consigo. — ela revirou os olhos e riu, balançando levemente o seu leque — Eu bem queria ignorar essas pessoas.
Eu ri, desviando um pouco meu olhar para as árvores que formavam o túnel agradável que compunha o nosso trajeto. Vi uma família passar por nós de bicicleta. As crianças nos olharam com clara admiração e surpresa, eu sorri em agradecimento, curvando de forma suave, e continuamos caminhando.
A Senhora Temari fora uma geisha muito famosa por sua habilidade, mas que abandonara a profissão por ter se casado com um homem por quem se apaixonara. Seu nome? Nara Shikamaru, do famoso clã Nara de mercadores do Norte. Dotados de uma inteligência muito superior, é um clã de descendência árabe que reside no país de onde a Senhora Temari veio. Segundo ela, demorou para que o casamento acontecesse porque seu marido era preguiçoso demais para pedi-la a mão, apesar de ser claro o seu desejo de o fazer.
No fim das contas, ambos se casaram e se mudaram temporariamente para a Cidade Imperial, enquanto o Senhor Nara terminava as negociações com o Rei. Ambos tiveram um filho, o jovem Shikadai, que herdou a inteligência e a preguiça do pai, mas o humor e a presença da mãe. Quem os vê juntos não consegue acreditar que são uma linda família.
—No que tanto pensa, Naruto-san? — indagou-me, parando a marcha perto de um banco. Nos sentamos ali e eu a fitei, meio envergonhado. — De novo, está pensando naquele menino?
Eu só pude assentir, ainda mais envergonhado.
Ela suspirou e meneou a cabeça negativamente. Tomou a minha mão, apertando-a com carinho e me sorriu de modo gentil. A Senhora Temari é, talvez, a única pessoa que sabe sobre os meus sentimentos por esse provável fantasma das minhas memórias.
—Oh, meu rapaz… — ela sussurrou e me sentei mais perto dela. — Você tem que parar com isso, meu bem, pois só te machuca… Para seu azar, você não sabe nada sobre aquele menino… — assenti, ainda cabisbaixo, pois era verdade. — Nem mesmo o fato de ele ter aparecido usando o brasão real dos Hyuugas significa alguma coisa. E outra, ele era só um menino… Talvez nem se lembre mais de você…
Engoli em seco, tentando me desfazer do nó que crescia em meu peito. Peguei um lencinho em minha bolsa e enxuguei o canto do olho, antes que as lágrimas caíssem e manchassem o meu rosto, por causa da maquiagem. Doía ouvir isso, Kami sabe como dóia.
—Não consigo evitar… É mais forte do que eu, Temari-sama. — funguei e abri meu leque, escondendo parcialmente meu rosto de tristeza.
A Senhora Temari tocou gentilmente meu rosto e me puxou para perto dela, me dando um beijo na testa. Nos fitamos e ela ainda me sorria daquele jeito maternal. Suspirei e me forcei a sorrir de volta. Agora entendem por que esta mulher se tornou tão boa amiga minha?
—É difícil lidar com o amor à primeira vista… E tão puro como o seu, que começou ainda no regaço da infância, realmente é difícil esquecer. — ela segurou as minhas mãos e se levantou, puxando-me consigo. Nós voltamos a caminhar. — Seu amor e sua gratidão por esse menino são sentimentos tão puros e gentis que eu acho que os deuses vão te ouvir e vão te permitir reencontrá-lo, de um jeito ou de outro.
Eu acabei rindo, sentindo meu corpo se acalmar. Senhora Temari sempre sabe o que eu preciso ouvir, sabe como me ajudar. Terminamos o nosso passeio e voltamos para o okiya. O que eu não sabia era que meu destino estava prestes a ser virado e, naquela noite, muitas coisas ao meu respeito seriam reveladas ao mundo.
Depois de me preparar para a apresentação que eu faria naquela fatídica noite, pensando em que tipo de expressões a família real poderia fazer ao ver não a queridíssima Hanabi, mas eu me apresentando para eles, eu fiquei quieto nos bastidores do palco, esperando a minha vez.
Eu não conseguia imaginar o que estava acontecendo na cidade enquanto eu esperava, eu não podia ouvir e nem sentir. Eu só olhava para as minhas mãos, cobertas pelo pó branco, que um dia foram tocadas por aquele menino. Meu pensamento estava mais uma vez nele. Era assim que eu me preparava mentalmente, lembrando-me daquele dia que um pouco de coragem me fez esperar por ajuda.
Levantei-me e segui pelo corredor escuro por trás do palco. Coloquei-me bem ao centro do tablado de madeira, com meus leques em minhas mãos, de cabeça baixa, apenas esperando o momento que as cortinas fossem abertas. Assim que ergui o meu rosto e abri meus leques, ficando na posição correta para começar a dança, as cortinas se abriram e eu me deparei com a grande virada da maré.
A família real não estava lá. Eu os reconheci de imediato, porque eu nunca esquecera os meus captores. Aquelas roupas escuras por baixo de placas de metal, com bandanas na cabeça, eram eles de novo. Não perdi tempo especulando o que eles faziam por ali. Simplesmente ergui a barra do meu kimono e corri para dentro do ochaya, sem olhar para trás ou pensar duas vezes. Corri, avisando a quem eu visse o que estava acontecendo dentro do ochaya. Quando finalmente eu saí da casa, eu vi que todo o lugar estava cercado.
Um dos homens, com um capacete com uma longa crina de cavalo, adiantou-se e aproximou do piso de madeira onde eu estava. Ele fez uma estranha reverência para mim, com completo e total deboche de mim, e sorriu. Seu rosto evidenciava os seus anos, sua barba um pouco longa estava presa por anéis pequenos e seu cabelo, ainda mais longo e feito em trança, pendia sobre seu ombro direito.
—Finalmente eu lhe vejo de perto, a grande e famosa geisha Taiyou. — ele riu, ainda com muito deboche e tocou na barra do meu kimono. — Estamos atrás de você há muito tempo, Taiyou, lhe procuramos em muitos lugares. Ou devo lhe chamar de Naruto?
Arregalei meus olhos, tendo um sobressalto, e engoli em seco. Aquele homem sorriu mais para mim e sentou-se nos degraus da escada que dava acesso aos fundos do ochaya. Seus homens deram um passo, de maneira sincronizada, e apontaram suas armas para as pessoas do okiya, fazendo-os reféns.
—O que vocês querem?! — eu bradei.
—Vou ser bem direto com você, Naruto-chan. — ainda o maldito deboche. — Se não vier conosco de bom grado, ao invés de simplesmente levarmos todas as moças e vendê-las, nós abusaremos dos corpos delas e as mataremos.
Engoli em seco e apertei meus lábios. Não, isso não. Devagar fui me ajoelhando, curvando-me ante aquele homem, levando meu rosto ao chão e chorei baixinho.
—Faço tudo o que quiser, mas não machuque os meus amigos. — eu estava praticamente encolhido, com os olhos apertados, as lágrimas borrando o meu rosto. — Por favor, senhor, eu lhe imploro. Leve-me, mas deixe-os vivos e bem.
Ouvi sua risada e seus passos se afastando.
—Feito, Naruto.
Senhora Tsunade, Senhora Temari, as geishas, todas as moças foram rendidas e levadas para longe, pois a Cidade Imperial estava sob ataque de um reino inimigo.
Fomos empurrados de forma brusca e desordenada para dentro de carroças puxadas por bois que não paravam de gemer. Eu fiquei em uma separada, totalmente coberta, como numa caixa. Ele arrancaram de mim minhas roupas e me deixaram apenas com um pano branco amarrado na cintura. Jogaram água em meu corpo para tirar a maquiagem, mas apenas me deixaram mais grotesco e manchado do que jamais fui.
Eu via o mundo apenas através de uma janela pequena. A lua sorria para as estrelas e nuvens viajavam bem distantes, acima das montanhas. Abracei minhas pernas e pensei em meus pais: o plano deu certo por algum tempo, mas não conseguiram livrar-me dos males para todo o sempre.
E para piorar tudo, eu não só me condenara, condenara meus amigos também. O destino não poderia ter sido mais cruel comigo e com meus amigos. O que será feito de nós?
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