A Donzela Do Inferno Existe
2 Capítulo 1 - A Morte
Notas iniciais
Ele já estava na escola, sentado em seu lugar de sempre, próximo à janela. Sua namorada chegou e sentou ao lado dele.
— Bom dia, Kaito — ela disse, dando-lhe um rápido beijo.
— Oi, bom dia, Naomi — ele disse.
O professor entrou na sala e começou a dar sua aula.
Vamos na nova sorveteria que abriu, depois da aula?, ele escreveu no caderno e entregou a Naomi.
Eu ia te chamar mais tarde! Vamos sim, mas eu não posso demorar muito, porque eu tenho que fazer umas coisas em casa, tudo bem?, ela respondeu.
Tudo bem, sem problema.
***
Assim que a aula acabou, os dois foram direto à sorveteria. Enquanto passavam pelo corredor, de mãos dadas, Naomi olhou para um garoto de outra turma e sussurrou para que Kaito não ouvisse, “às 19”. Ele concordou com a cabeça e observou enquanto o casal saía da escola.
A sorveteria nova era muito bonita. Tinha cadeiras confortáveis e mesas com enfeites. Os atendentes eram simpáticos e divertidos, e não havia muito barulho lá, o que tornava o lugar bastante calmo.
Ele pediu um sorvete de tamanho grande, com várias bolas de sabores variados, e ela pediu um milkshake de baunilha, também de tamanho grande. Ele tomou um pouco do milkshake dela, ela pegou um pouco do sorvete dele, misturando os sabores diferentes.
“Esse é uma delícia”, “esse é horrível, eca”, ela dizia às vezes e ele ria dela.
— Vamos apostar quem toma um milkshake mais rápido? — ela disse.
— Quem perder, paga a conta — ele propôs.
Dessa vez, o sabor do milkshake foi chocolate.
A atendente colocou a taça em cima da mesa, com dois canudos.
— No três. Um... — ele começou.
— Dois... — ela continou.
— Três! — disse a atendente, entrando no espírito da brincadeira.
Os dois olharam para ela, se perguntando porque ela ainda estava ali. E voltaram sua atenção para a taça. “Agora”, falaram os dois juntos, começando a tomar o milkshake com toda rapidez que era possível. Ele sabia que ia perder, pois sempre que tomava coisas geladas rápido demais, sentia uma dor de cabeça terrível, e dessa vez não foi diferente. Como já tinha previsto, a dor de cabeça por causa do gelo aconteceu, e enquanto ele estava com a mão na cabeça, esperando a dor passar, ela aproveitou para tomar o que ainda tinha do milkshake.
— Ganhei! — ela comemorou.
— Eu sabia que eu ia perder, só apostei pra ser um pouco cavalheiro.
— Aham, tá bom. Vai pagar, vai.
Ele pagou e os dois saíram da sorveteria.
— Aquela atendente é meio perturbada, né? — ela comentou.
— Só pode — ele riu.
— Eu fiquei olhando para ela e pensando “o que é que essa mulher tá fazendo aqui? Quem chamou ela pra brincar?” e fiquei esperando que ela viesse com um terceiro canudo pra participar também.
— Aí seria bom, porque ela iria pagar a conta. Você venceria.
— Pois é. Ninguém pode contra mim em uma guerra de milkshake.
Eles chegaram na parte da rua onde o caminho dos dois se separavam. Ela seguiria pela rua, enquanto ele deveria dobrar à direita, no cruzamento da rua com o trem.
— Eu vou com você até a sua casa, depois eu volto — ele sugeriu.
— Ah, não. Não precisa, Kaito.
— Tem certeza?
— Tenho. Isso não vai comprometer a sua “tentativa de ser cavalheiro”, porque você tem sido muito bom pra mim desde o início do nosso namoro. Ou talvez desde antes, porque né?
Eles se beijaram e se despediram.
Naomi começou a andar, a saia balançando a cada passo seu, e ele esperou o sinal do trem abrir para que ele pudesse passar.
— Hey, Naomi — ele chamou. Ela olhou para trás —, eu te amo.
O sinal abriu.
— Eu também amo você, Kaito.
***
A campainha da casa de Naomi tocou, pontualmente, às 19 horas. Ela abriu a porta e encontrou o Daisuke, o menino da escola com quem ela havia combinado isso.
— Oi, gata — ele disse, beijando-a.
— Oi — ela respondeu, após o beijo.
— E então... você já terminou com o otário?
— Ainda não. E não fala assim dele.
— Tá bom então — ele disse ao se sentar no sofá.
Ela sentou ao lado dele, e então começaram a se beijar.
***
— Caramba, olha a hora — Naomi exclamou ao olhar no celular. — Daqui a pouco meus pais chegam.
Ele, que estava apenas vestindo sua cueca, levantou-se e começou a procurar suas roupas. Vestiu-as e saiu, dando um rápido beijo na bochecha de Naomi.
Enquanto os pais não chegavam, ela se vestiu e subiu para o seu quarto.
Passou uns minutos escrevendo uma carta, e ao fim, estava chorando tanto que seus olhos estavam super vermelhos. Dobrou a carta, guardou em um envelope onde estava escrito o nome do Kaito. Vestiu um casaco por cima da camisa que já estava usando e saiu.
Andou até a ponte principal da cidade, que a essa hora já estava deserta.
Ela observou todo o local a sua volta. Dali ela podia ver uma grande parte da cidade. Ali perto estava a praça, na qual ela foi pedida em namoro pelo Kaito. Ela estava se lembrando de várias coisas importantes que aconteceram em sua vida, desde sua infância — a partir do ponto que ela conseguia se lembrar — até a alguns minutos atrás. E nada disso tinha importância para ela, não mais.
Naomi tentou sorrir ao se lembrar de quando o seu namorado disse que a amava antes de ir para casa, mas não conseguiu.
Ela pegou o celular que estava em seu bolso e mandou um sms para Kaito, contendo apenas uma palavra: Adeus. Ela olhou a água que estava à sua espera. E então... ela se jogou. E, naquele momento, ela foi capaz de sorrir, pois finalmente se sentia livre e feliz.
Ao cair na água, ela se lembrou dos profundos olhos oceânicos do Kaito, que combinavam perfeitamente com o tom claro dos seus cabelos, aqueles olhos que lhe davam vontade de se perder neles... e a voz dele, que a fazia se sentir tão bem. Eram tantas coisas boas que ela teve com o Kaito. Nesse momento ela percebeu que realmente o amava mais que tudo, mais do que qualquer um, e se arrependeu de ter se jogado, mas agora já era tarde.
Ela deu seu último suspiro.
***
“Adeus”. Aquele sms o intrigava. Por qual motivo Naomi estava se despedindo?
Naomi? O que está acontecendo? Ele digitou de volta para ela, mas não obteve resposta durante os 45 minutos que se passaram. Mandou outro sms, e novamente não recebeu nenhuma resposta.
Ele ligou para o telefone fixo. Após 3 toques, a mãe de Naomi atendeu.
— Alô?
— A Naomi está?
— Eu cheguei em casa e ela não estava aqui. É o Kaito?
— Sim, senhora, sou eu.
— Eu imaginei que ela estaria aí com você.
— Ela só ficou comigo durante a tarde, depois da escola. Depois ela disse que tinha coisas para fazer em casa e foi embora.
— Quando ela chegar eu aviso que você ligou. Ou talvez você deva ligar para o celular dela.
— Hm, tá bom. Tchau, obrigado.
Kaito deitou em sua cama e ficou pensando aonde sua namorada poderia ter ido, e o que ela quis dizer com aquele sms.
De repente, uma ideia surgiu na mente dele. Um pânico terrível tomou conta dele. O pior pensamento que ele poderia ter tido. Ele tentou afastar esse pensamento de sua cabeça, mas era forte e insistente. E então a única outra coisa que ele conseguia pensar era, porque?
Fale com o autor