A Donzela Do Inferno Existe
3 Capítulo 2 - O Ódio
Capítulo 2 – O Ódio
No dia seguinte, enquanto Kaito estava comendo seu café da manhã, sua mãe ligou a TV para escutar ao jornal enquanto arrumava a casa.
— Uma jovem foi encontrada morta nessa madrugada — aquelas palavras chamaram a atenção de Kaito rapidamente — Infelizmente, ainda não foi divulgado o nome dela, pois ela não estava portando seus documentos. A polícia também não liberou fotos, mas informou que médicos já fizeram uma autópsia nela. A causa da morte foi falta de ar, devido ao fato de ela ter se jogado de uma ponte. Mais noticias, mais tarde no Jornal da Tarde.
Aquela noticia deixou Kaito muito intrigado.
Ele pegou o celular e tentou ligar e mandar mensagem para o celular da Naomi, sem obter respostas mais uma vez. Então ele saiu de casa, esperando encontrar sua namorada na escola, ou pelo menos no caminho para lá.
Quando ele chegou na escola, sentou-se no seu lugar de sempre e ficou esperando ela chegar. A cada pessoa que entrava na sala, ele olhava pela porta, mas sempre se decepcionava ao ver que a pessoa que entrou não era a pessoa que ele esperava.
Então ele começou a mandar mensagem a cada 10 minutos, porém nunca conseguia resposta. Depois de um tempo, ele recebeu uma mensagem da mãe da Naomi.
A NAOMI ESTÁ COM VOCÊ???????
Ele respondeu: Não. Ela não chegou em casa ontem a noite?
Após uns minutos, ele recebeu outra mensagem. Não. Estou preocupada. Vou ligar para a polícia e informar desaparecimento.
Ele não respondeu. Apenas guardou o celular no bolso e decidiu deixar sua sogra cuidar disso. Mas ainda assim, sempre olhava para o lugar vazio ao seu lado.
Naomi, cadê você?
***
— Alô, é da polícia? Minha filha não voltou para casa ontem e eu estou muito preocupada.
— Já tentou se comunicar com ela? — perguntou o policial, já acostumado com mães desesperadas que ligam preocupadas com suas filhas que não vêem há algumas horas e sempre aparecem depois de uns minutos.
— Mais é claro que já! Mas ela não atende o celular nem responde às mensagens.
— Qual foi a última vez que você a viu?
— Ontem, antes de ela sair para a escola. Já se passaram 24 horas desde a última vez que eu a vi. Levantem-se dessas cadeiras e façam algo!
***
Alguns minutos depois, a polícia chegou na casa dela, para interrogá-la sobre o possível desaparecimento da filha. Após ela descrever a filha, o policial disse:
— Ontem à noite, encontramos um corpo de uma menina que não identificamos devido a falta de documentos, mas pela sua descrição da sua filha, eu acho que pode ser ela. Pode vir comigo ao necrotério fazer a identificação do corpo?
— Isso é ridículo, minha filha não está morta.
— Vamos logo — ele disse, impaciente.
***
O celular de Kaito tocou. Estava sozinho da sala de aula, durante o intervalo. Era sua sogra.
— Oi. A Naomi voltou?
— Não — ela disse, e Kaito pôde perceber que ela estava chorando. — Ela foi encontrada morta nessa madrugada, naquele rio. Eu não sei o nome.
Automaticamente, ele lembrou da notícia que viu na televisão antes de sair de casa.
— Onde você está?
— No hospital. Você pode vir aqui? A polícia quer interrogar você.
— Já estou indo — ele pegou sua bolsa e saiu, mesmo que o dia escolar ainda não tivesse chegado ao fim.
***
— Então você é o namorado da garota? — o policial perguntou ao Kaito.
— Sim.
— E você viu a garota ontem?
— Vi, na escola. E depois fomos à sorveteria. Então ela foi para a casa dela e eu fui para a minha. E não nos falamos mais ontem. Apenas recebi essa mensagem ontem — ele mostrou no celular a mensagem de adeus.
— Interessante. Depois de saírem da sorveteria, você não foi para a casa dela? Ou ela, na sua?
— Não, por quê?
— Eu tenho uma pergunta que pode deixá-lo constrangido, mas leve com seriedade. Vocês fizeram sexo ontem?
— Hã? Não, nós não... Não — realmente, ele ficou constrangido com essa pergunta.
— Desculpe pelo constrangimento. É que os médicos descobriram pela autópsia que ela fez sexo horas antes da morte. Primeiramente consideramos estupro, mas como não tinha marcas de luta ou coisa do tipo, desconsideramos. E ao saber que ela tinha namorado, concluímos que foi com você. Mas você diz que não, então só há uma explicação plausível. Ela traía você.
— Hã? Como... Você... Err... Você é muito... — Kaito estava ficando cada vez mais constrangido. — Como é que você fala uma coisa dessas desse jeito? Meu Deus. Isso não é possível. Há jeitos mais suaves de se falar tal coisa.
Nesse momento, um dos médicos entrou na sala.
— Você é o namorado? — ele perguntou.
— Sou — ele respondeu.
— Você pode vir aqui comigo?
Kaito olhou para o policial.
— Pode ir, eu já terminei com você — o policial disse.
Kaito se levantou da cadeira, pegou sua bolsa e saiu da sala junto com o médico.
— Você... gostaria de ver a garota?
— Eu acho que não estou pronto pra isso. Talvez mais tarde.
— Tudo bem, essa decisão é apenas sua. Vem aqui comigo — o médico disse ao entrar em outra sala.
Kaito apenas o seguiu.
— Entao... o policial lá já deve ter te falado...
— Falou — Kaito rapidamente o interrompeu.
— Os policiais estão investigando a morte da garota, e precisamos de algumas explicações extras. Por exemplo, nós encontramos vestígios de que ela fez sexo algumas horas antes...
— O policial me perguntou isso. E, não, nós não fizemos — ele disse, brincando com seu cabelo e desviando ao máximo o olhar, para evitar mais constrangimento.
— Bom, nós não podemos dizer com quem ela praticou tal ato, já que este não foi com você. Mas apenas para garantir, queremos fazer um exame de DNA.
— Eu vou ter que tirar sangue? Eu não curto agulhas e essas coisas.
— Então boa notícia pra você! Sem exames de sangues, yeah! — o médico pegou um potinho daqueles de exames de fezes e urina e entregou a Kaito.
— O que é isso? — Kaito perguntou.
— Um potinho.
— E... o que você espera que eu faça com isso?
— Ah... sabe como é... Você tem que nos doar um pouco do seu espermatozoide para o exame de DNA.
— E você quer que eu faça o que eu estou pensando que tenho que fazer?
— Se você estiver pensando o que eu estou pensando que você está pensando, então, sim, é isso mesmo.
Kaito ficou estático.
— Não precisa ser agora, nem aqui — o médico disse, contrangido. — Você pode... fazer isso em casa. Com... suas revistas ou... arquivos do seu computador.
— Eu não possuo esse tipo de coisa.
— Então... dê uma de Bob Esponja e use a sua imaginação — ele disse, imitando o gesto do Bob Esponja no desenho animado.
Mais uma vez, Kaito não respondeu. O silêncio se prolongou por parte do médico também.
— Tudo bem — disse o médico —, acabamos por aqui. Você gostaria de ver a garota? Naomi, certo?
— Onde ela está?
— Lá embaixo, no necrotério.
***
Os dois desceram as escadas, até chegarem no necrotério. Antes que pudessem abrir a porta, outra pessoa abriu pelo lado de dentro. Era outro médico que estava lá. Os dois médicos se cumprimentaram e se despediram.
Aquela sala grande era muito fria, o que fez com que Kaito abrisse sua bolsa e pegasse o casaco que estava lá.
Enquanto isso, o médico procurou por Naomi pelas gavetas enormes, e quando achou, abriu. O corpo dela estava coberto com um lençol branco. O médico que acompanhava Kaito se aproximou o puxou o lençol. Kaito se aproximou e se deparou com Naomi deitada lá, como se apenas estivesse dormindo. Ela parecia um anjo. Lágrimas quase caíram, mas ele as segurou.
— Posso ficar à sós com ela?
— Claro.
No instante em que o médico saiu, Kaito começou a chorar.
Ele quis dizer algo para ela, mas não sabia o que dizer. Então apenas a abraçou e chorou.
***
Quando chegou em casa, ele deitou no sofá e esperou.
Assim que a mãe chegou, ele correu e a abraçou.
— O que houve, filho? Seus olhos estão vermelhos.
— A Naomi... ela... mor... morreu — ele conseguiu dizer entre os soluços do choro.
Sua mãe não respondeu nada, apenas retribuiu o abraço e deixou que ele chorasse tudo o que tinha para chorar.
***
Quando acordou, no outro dia, ele decidiu que não iria à escola. Ficou deitado em sua cama, pensando em vários momentos bons que teve com a sua namorada antes que ela colocasse um fim na sua própria vida. Ele ainda estava tentando entender o motivo de ela ter feito isso, mas não conseguia pensar em nada.
Sem se levantar da cama, ele se esticou para pegar a sua bolsa que estava jogada no chão. Com muito esforço, ele conseguiu. Puxou a bolsa para cima da cama. Abriu e começou a procurar seu celular. Seus dedos acharam outra coisa, que ele tirou da bolsa pra ver o que era.
Era o potinho que o médico tinha dado a ele.
Olhou para o relógio e presumiu que sua mãe ainda estava dormindo. Depois de pensar por alguns minutos, decidiu fazer logo, para se livrar disso. Ele estava apenas usando cueca, então a tirou e jogou no chão. Sentou na cama, com os pés descalços tocando o chão frio. Seu corpo estava quente, fazendo contraste com o chão.
Ele estava pronto.
***
Ele sentia falta dela. Demais.
Era tão difícil pra ele passar o dia sem ela. Tudo o que ele fazia era chorar. Ele terminava o dia da mesma forma que tinha começado — se acabando de chorar.
Ele até tentava se animar, mas todas em vezes, em meio a sua felicidade momentânea sua mente arrumava um meio de pensar "tenho que contar isso a Naomi" e a tristeza batia ainda mais forte.
***
Três dias depois, após o resultado negativo e a liberação do corpo, os pais de Naomi organizaram o enterro para o dia seguinte.
O cemitério estava cheio. Várias pessoas da escola estavam lá. Algumas Kaito nem conhecia direito, mas tinha certeza que a maioria era família. De longe, ele pôde ver sua sogra abraçada com o sogro, chorando bastante.
De repente, um amigo dele se aproximou.
— E aí, cara. Sinto muito pelo o que houve.
— Oi, Yuu. É... obrigado. Eu tô indo ali, falar com a mãe da Naomi. Dá licença.
Assim que ele se aproximou, ela largou o marido e o abraçou. Ele retribuiu o abraço, permitindo que chorasse pela primeira vez no dia. E se surpreendeu por ainda existir tantas lágrimas dentro dele.
Quando o abraço terminou, ela tirou um papel do bolso e entregou a ele.
— Encontrei isso na quarto da Naomi.
No envelope, tinha escrito o nome "Kaito" bem pequeno no cantinho. Apenas ver a escrita da Naomi partia o seu coração um pouco mais.
***
Após o funeral, Kaito esperou todos irem embora, para que ele ficasse "a sós" com a Naomi.
Ele encarou a lápide, e isso foi tudo o que ele conseguiu fazer. Não conseguia organizar seus pensamentos, não sabia o que devia falar. Eram tantas coisas que passavam pela cabeça dele.
Ele tocou na lápide e disse, segurando-se para não chorar ainda mais:
— Eu sinto sua falta.
E foi embora.
***
Ele andava devagar, chorando, sentindo a falta de sua namorada ao seu lado.
Três meninos, que ele reconheceu como sendo da sua escola, estavam vindo pela direção contrária. Kaito os tinha visto no funeral, mas não os conhecia.
O do meio, o que tinha cabelos escuro... Kaito já tinha o visto falando com a Naomi antes.
Devem ser amigos, ele pensou, inocentemente.
Ele estava conversando com os dois amigos, mas Kaito não conseguia ouvir.
Quando ele se aproximou, Kaito pode ouvir claramente o que ele falava:
— Eu comi ela antes de ela se matar.
— Tu se garante mesmo, Otonashi — um dos amigos dele falou.
Kaito ficou paralisado.
Agora sim, tudo o que o médico e o policial disseram, fez sentido pra ele.
Mas não.
Ele não acreditava no que tinha ouvido. Ele confiava na Naomi, sabia que ela não teria feito isso. O menino estava se referindo a outra suicida.
Não a sua Naomi.
Claro que não.
***
Chegou em casa e deitou na cama.
Tirou a carta que sua sogra o entregou e a abriu.
A folha estava preenchida com a linda letra da Naomi, como já era de se esperar. E era apenas uma folha, apenas o lado da frente. Ela não escreveu muito.
A carta começava do jeito que ela sempre começava uma carta para ele: Meu querido e amado Kaito. Ele adorava isso. E sabia que essa seria a última vez que receberia uma carta que se iniciasse assim.
Então ele já começou a chorar de novo, sem nem ter lido uma palavra a mais. Chorou simplesmente por saber que seria a última.
Meu querido e amado Kaito,
primeiramente eu preciso dizer que sinto muito. Muito mesmo. Se você já está lendo essa carta, é porque eu já fiz o que tinha que fazer.
Sinceramente, me desculpe por não me despedir apropriadamente de você. Não apenas de você, mas também dos meus pais e dos seus, que sempre foram bons comigo; e com os nossos amigos da escola. Isso não foi justo.
Além de você, só quem recebeu uma carta foram meus pais.
Enfim, Kaito... eu só quero te dizer que um dos motivos para eu ter feito o que fiz, foi por causa do Daisuke. Provavelmente, você não o reconhecerá pelo nome, mas é um garoto da escola. Há uns dois meses, eu venho traindo você com ele. E isso estava me deixando muito confusa e triste. Eu amo você, Kaito... mas eu meio que o amava também. Eu não conseguia terminar com você e nem com ele.
Eu amo muito mais você (já que estou escrevendo uma carta pra você e não pra ele), não sei o que estive fazendo. Mas agora eu já me decidi, está feito. Desculpa.
Lembra-se daquela música super linda que você me mostrou uma vez? Feels Like Home, da Chantal nunca-lembro-o-sobrenome-dela... Então, quero dedicar um pedaço dela pra você: "se você soubesse o quão solitária minha vida tem sido, e há quanto tempo eu estive tão só... se você soubesse o quanto eu queria alguém pra chegar aqui e mudar a minha vida do jeito que você fez... se você soubesse o quanto esse momento significa pra mim, e há quanto tempo eu estive esperando pelo seu toque... se você soubesse o quão feliz você está me deixando, eu nunca achei que amaria alguém tanto assim."
Adeus, Kaito. Nunca esqueça que eu o amo.
De sua querida e amada Naomi.
Ele mal conseguia ler o fim da carta de tão embaçada que estava sua visão, devido às lágrimas intermináveis.
Então era verdade o que aquele menino disse na rua.
Apenas agora ele conseguia acreditar, apenas depois de ler as palavras da Naomi. Mas ainda assim, era difícil para ele.
Pensou no que poderia fazer para se vingar do Daisuke. Não sabia como, mas se vingaria dele. Faria ele pagar da pior forma possível. Qualquer jeito.
Pensou em brigar, mas não tinha coragem de começar uma briga. Não se sentia forte o bastante pra isso.
Teve várias ideias, mas nenhuma parecia boa o bastante para que ele executasse.
Desistiu de pensar em algo e se ajeitou para dormir.
Quando estava quase pegando no sono, teve a melhor ideia que poderia ter. Chamar a Donzela do Inferno!
Como eu sou infantil, uma coisa dessas não é real, ele pensou voltando a dormir.
***
23h59
Kaito estava na frente do computador, com a página de erro do Jigoku Tsuushin aberta. Estava com os olhos fixados no relógio, esperando dar meia-noite.
00:00, a hora exata.
Ele atualizou a página, e viu a chama aparecer na tela e se esvair, dando lugar a frase "Nós aliviaremos a sua dor" e um espaço para digitar o nome da pessoa. Ele hesitou por um segundo, tentando lembrar-se do sobrenome do Daisuke, que tinha escutado os dos seus amigos falando. Digitou e clicou em "enviar".
Isso é besteira, Kaito. Deixe de ser idiota. Isso é coisa de anime, ele pensou mais uma vez.
— Chamou? — disse uma voz atrás dele.
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