A Domadora - O Fragmento da Profecia
25 Capítulo 24 - Imprevisto
Notas iniciais
Minha cabeça latejava.
Mas abrir meus olhos era uma tarefa que parecia tão difícil... E estava quente, era aconchegante. Completamente contraditório ao que eu passara antes...
O Espadachim!
E com esses pensamentos, obriguei-me a abrir meus olhos, só então, encarar o teto de madeira acima de mim. Quase que em um salto sentei na cama, notei que vestia as mesmas roupas sujas que usara na luta contra o espadachim. Mas sobre mim, havia cobertas grossas, pesadas e quentes. Embora, fosse fácil notar a temperatura baixa que havia no ar.
E eu estava em um quarto.
Arcano, que lugar é esse?
Sou a última alma que você deveria perguntar isso.
E o que ele dissera, chegara a ser irônico de tão óbvio.
Olhei ao redor, ao lado da cama de solteiro estavam minhas botas, minha capa e minhas coisas estavam em uma cadeira ao lado de um armário no quarto, pouca luz entrava, mas esta vinha de uma janela com boa parte coberta por uma cortina escura. Era um quarto bem tenebroso, aliás, e tinha cheiro... De mofo.
O cômodo todo cheirava a mofo.
E eu não fazia a menor ideia de onde estava.
Mas fiquei em silêncio, até o momento em que ouvi o som de passos se aproximando, acabei por deitar novamente e fingir que estava dormindo, só então, ouvi o som da porta ranger, alguém estava entrando.
E eu não fazia a menor ideia de quem era.
Então permaneci parada, sem me mexer.
Os passos seguiram-se, a sola de borracha tocando no chão de madeira, sem se preocupar com o barulho. Aproximou-se até a cama onde eu estava, mas não me permiti abrir os olhos para ver quem era. Porém, se afastou, e pude notar após isso seguiu até a janela, o próximo som foi o das cortinas sendo abertas bruscamente, fazendo com que a claridade entrasse no quarto.
E mais uma vez se aproximou, porém, agora segurou as cobertas que estavam sobre meu rosto e puxou-as rapidamente. Então, abri meus olhos, e em um movimento rápido segurei sua mão, tomei impulso e o chutei, derrubei-o no chão e pulei sobre ele. Impedindo-o de tentar sair, segurei seus pulsos contra o piso e só então vi quem era.
Não... Aquilo só poderia ser brincadeira.
Eu deveria estar tendo alucinações, só pode.
Reconhecia aqueles traços.
E aquele sorriso irônico, o tapa-olho de couro...
Eu estava incrédula. Completamente.
― Dante?!
― Como vai, Sora?
***
Tomei um gole do café amargo e mais uma vez parei pensando, enquanto encarava-o de costas. Tentando assimilar o que acontecera. Eu estava de frente para Dante Feeryan. Vestia-se com roupas de cores pretas, como de costume, os cabelos castanhos na nuca, porém, deixava parte deles cair sobre o tapa-olho de couro marrom, do lado direito de seu rosto. A barba por fazer, formando um cavanhaque, seu olho que não estava coberto era de cor clara, nem azul, nem verde, um misto.
Dante deve estar com o que? Uns trinta e cinco anos?
Quantos anos ele tinha quando era seu treinador?
Não lembro...
― Vamos lá, conte-me, o que andou fazendo em todos esses sete anos? ―Ele sentou-se a minha frente na mesa. Suspirei, a casa toda de Dante tinha cheiro de mofo.
Dante aparecera do nada em Temesia quando eu tinha dez anos, lembro-me que era um caos em relação aos poderes de Arcano, então, ele me treinou por mais ou menos cinco anos, até eu completar quinze. Depois disso, sumiu da mesma maneira que apareceu, sem ninguém ainda saber quem ele era exatamente. Nem mesmo eu que fora sua discípula por cinco anos, sabia de muita coisa. Era um domador, de fato, mas que detestava Temesia. Esse era um dos poucos fatos que sabia sobre ele.
― O mais importante que fiz até agora foi o trabalho para a profecia.
― Então foi você? Não me admiro de Temesia ter tido um caos tão grande no dia em que os elementos se reuniram... ― Ele nem deveria ter gostado daquele fato...
―A história se espalhou tanto assim? ―Entortei a cara e ele riu, assentindo. ― Odeio a língua grande das pessoas... Mas não sou um caos, não mais, e não foi culpa minha.
―Mas creio que tinha seu nome no meio.
―O pior é que tenho que concordar.
―É de se esperar, essa é minha discípula.
―O que quer dizer? ― Arqueei uma sobrancelha.
―Vejamos... ―Ele pareceu fazer contas mentalmente, e, por mais idiota que aquilo fosse, temi pelo que iria dizer. ―Você não controlava seus poderes com maestria, além de ser uma criança assustadora, uma adolescente mal encarada, gostava de confusões. Do tipo que, você apanhava, porém, batia mais. Hoje como posso ver, é uma domadora com honra. Mas creio que algumas pessoas ainda devem temer você.
Ele não precisava lembrar disso...
Aceite a realidade, Sora.
―Não era bem assim. Primeiramente, eu não procurava por conflitos, eles me encontravam. As coisas apenas fluíam depois disso.
― Fluíam como espinhos passando por uma garganta.
―Aliás, falando nisso, tenho uma discípula também, ela é uma domadora aprendiz ainda. ―Resolvi mudar de assunto, tomando um gole do café amargo.
Dante ergueu o semblante para me encarar.
―Interessante... Qual o nome dela? Tem quantos anos?
―Lumina Boulevar. Têm dez, onze, ou doze anos, não lembro com certeza.
―Treine-a bem, mesmo que dure pouco tempo, assegure-se de que ela será forte.
Apenas maneei minha cabeça, assentindo.
―Aliás, tenho que perguntar isso, mas que animal é aquele que veio atrás de você até aqui?
―Hã?
— Parece um cavalo... Usa uma espécie de Armadura, e carregava bolsas, que julguei ser suas. Ele está preso do lado de fora, por sorte moro em uma parte mais afastada de Eternal.
O ordhere...
Sim, ele seguiu você, Sora.
— É uma montaria que pertencia a algum bélico, provavelmente o dono morreu, e ele nos seguiu até Eternal, estava a cavalo, mas houve um acidente, então, vim com ele até aqui.
— Calma... Poderia explicar isso melhor? — Ele fez uma careta, observando-me com o olho descoberto. Lembro-me que nunca ousei perguntar o motivo de Dante usar um tapa-olho.
— Realmente quer saber? O importante é que sim, ele está comigo. — Fiz uma pausa, mudando de assunto. — Aliás, você não falou o motivo para eu ter vindo parar aqui.
Não consegui decifrar sua expressão, e pensei realmente que Dante diria alguma coisa, se não fosse interrompido.
— Dante! Seu desgraçado! Abra essa droga de porta! — Ok, eu realmente não esperava por aquilo. Ouvir o som da porta ser arranhada pelo lado de fora, junto do miado de um gato e latidos de cachorro. Além de que, alguém estava o chamando, e ao julgar pelo tom de voz, deveria ser um homem. — Tem um pássaro cor de chamados do inferno atrás de mim e cinco cães demoníacos! Dante!
Dante suspirou, levantou-se e caminhou até a porta, como se aquilo fosse à coisa mais normal. Pergunto-me como deveria ser o dia a dia dele...
Vi-o abrir a porta da cozinha, não tive tempo de ver o que havia na rua, porém, um gato saltou sobre ele e, um pássaro entrou voando dentro da casa. Dante fechou a porta, a ave voou a até mim, pousando a minha frente, em cima da mesa. Encarando-me com os olhos pequenos e castanhos.
As penas alaranjadas...
Era uma fênix.
Eu realmente não esperava por aquilo.
— Dante Feeryan! Seja mais rápido da próxima vez! Pelos deuses, eu iria morrer! — Olhei ao redor a procura de mais alguém, porém... Quase congelei ao ver quem discorrera.
O gato. Ele estava falando.
Por Alvorada– se é que ela existe realmente — eu estou enlouquecendo?!
— Eram apenas cães vira-lata, gato de Penumbra. — Ele foi rude, ao desgrudar o gato de sua roupa e encara-lo. Tinha o pelo amarelo, e usava preso no pescoço uma espécie de fita vermelha, com um sininho em formato de esfera pendurado.
O gato miou, mexendo a cabeça e fazendo com que o sino tilintasse.
— Meu nome é Heron. E seres de Penumbra eram aqueles cães.
— Desculpe Sora, eu deveria ter dito antes... Nesses últimos dias, andei recebendo hóspedes. — E ele largou o gato, que caiu de pé no chão, este saiu caminhando na minha direção, subiu em uma das cadeiras da mesa, sentou e começou a lamber as patas. — Mas essa fênix não deveria estar aqui...
Novamente voltei a analisa-la. Preso em sua pata, havia um bilhete. Enrolado em um arame, ponderei se deveria pega-lo. Mas a fênix parecia me conhecer, e deu passo a frente, como se estivesse pedindo para que pegasse. Então o fiz. Desenrolei o papel, e comecei a lê-lo. Estava sujo, a tinta manchada, e as letras grafadas com visível pressa.
“Lembra-se de mais ou menos um ano atrás?
Quando você estava em apuros por causa de uma fera?
Eu lhe ajudei...
Pois é, eu sempre cobro. Você sabe disso.
E agora quem está em apuros sou eu.
Preciso de seu subsídio. Estou no Distrito de Dissidio, caso queira saber onde me encontro.
Percy“
Semicerrei meus olhos, encarando a fênix.
— Rudolf? — Ela deixou o rosto cair, encarando-me, e em seguida voou, dando a volta na cozinha e pousando sobre meu ombro direito, como se estivesse confirmando minha pergunta. Então Percy havia mandado Rudolf até mim, para eu ir ajuda-la? Como aquela fênix havia me encontrado?
É uma fênix Sora, apesar de tudo, são animais sábios.
— E então, domadora? O que estava escrito? — Quase que saltei da cadeira quando encarei o gato a minha frente. Ainda não estava entendendo, o que ele era? Por que era um gato falante?
Mas resolvi não responder, e agradeci quando vi Dante se aproximar.
— Heron é um amaldiçoado. Uma Saevitian rogou uma praga nele, e agora é fadado a viver eternamente no corpo de um gato.
— Muito prazer em conhecê-la, meu nome é Heron Aldacem. Antes que me pergunte, sim, não sou da Terra, vim do Império Alboral, que fica nas Trevas. E sim, eu era filho de seu imperador, porém, fui amaldiçoado cerca de cem anos atrás. — Ele fez uma pausa. — E qual o seu nome?
— Sora.
— Você é muito bonita, Sora. Beijaria sua mão como um verdadeiro cavalheiro, se não estivesse nesse maldito corpo de gato. Saiba que já tive meu tempo de glória. ― Ele lambeu as patas. ― Já fui um homem de beleza viva, hoje cuspo bolas de pelo, tenho medo de cães e caço ratos.
— Acabei de ver o quão glorioso você é, Heron. Fugindo de cães e de...Uma fênix. Sora, você de onde veio esse animal?
— Ele veio por isso, Dante, leia. — Entreguei-lhe o bilhete que recebera.
Então quer dizer que, Percy provavelmente foi presa, está no Distrito de Dissidio e quer sua ajuda?
Sim, Arcano.
E você vai ajudar?
Ela me auxiliou da última vez...
Mas e o seu trabalho com a profecia?
Não posso continuar junto de Denzel os garotos, ainda mais com aqueles demônios me seguindo. Talvez devêssemos mudar nossos caminhos...
— Quem é esse garoto Percy? — Ele abaixou o bilhete, encarando-me com o olho de cor clara.
— Não é um “garoto”, é uma antiga conhecida. Ela está pedindo minha ajuda. — Admito que sem conhecer Percy pessoalmente, pelo seu nome, também pensaria que iria se tratar de um homem.
— É, percebi. E o que você vai fazer?
— Ela está pretendendo ajudar sim. — Heron respondeu, encarei-o, o que aquele gato tinha? — O que foi? Desculpe domadora, mas minha condição como amaldiçoado me deu a habilidade de me comunicar com qualquer tipo de alma, isso inclui youkais. Desculpe, mas ouvi sua conversa.
— Entendo. Mas, antes disso, acho que há algo que você deve fazer, Sora.
Ergui meus olhos para encarar Dante.
— Não consegui falar antes, mas, existe uma pessoa que você deve agradecer antes de qualquer coisa. Você provavelmente não o conhece, seu nome é Genesis Noir. Ele também é um amaldiçoado e domador, estava aqui em Eternal, para visitar o túmulo de seu irmão. E andando pelos túneis subterrâneos de Eternal, ele se deparou com você lutando com um espadachim...
— Então quer dizer que foi ele que interrompeu nossa luta? — Agora começava a fazer um pouco de sentindo a luz branca que eu vira, então ela poderia ser a aura do tal de Genesis? Solace citara esse nome, disse que Genesis era um dos integrantes da Aliança de Pale, mas que mudara sua rota para Eternal.
— E você acabou de me interromper. — Ele realmente não precisava falar aquilo. — Mas enfim, sim, ele parou com a luta e salvou você de ser morta, além de dar uma surra no espadachim depois e joga-lo em um péssimo estado na porta da Catedral Pillar. Então ele trouxe você até mim, sou o único domador que reside em Eternal. E fiquei espantado ao ver você desacordada.
— E como ele fez tudo isso?
— Genesis é tão velho ao ponto de ter lutado na Grande Guerra, ele sabe de muita coisa, então, não me pergunte.
Ok. Um velho, amaldiçoado e centenário, me salvou? Dante andava bebendo?
— Hm... Então Sora irá conhecer Genesis? — O gato cantarolou, caminhando sobre a mesa.
Não acho que seja uma boa ideia, Sora...
Por quê?
Arcano não respondeu, talvez por Heron estar ali... Mas de qualquer forma, detestava quando ele falava as coisas pela metade.
— E então, você vai ir agradecer a ele, não é? Sabe que educação é algo muito importante. — Como se Dante fosse um exemplo. Mas se me pedia, o que custava? Afinal, o tal de Genesis Noir salvara minha vida, até onde sabia...
— Está bem... — revirei os olhos, suspirando. — E onde ele está?
— Em Eternal existe um cemitério, dedicado a grandes nomes de Paladinos. O irmão mais velho de Genesis era um paladino, todos os anos no dia de seu aniversário ele visita o túmulo, sempre, ao por do sol, e ele fica lá o resto da noite.
— Genesis é um pouco estranho também, meio psicopata, mas é do bem. Então, não se assuste. Embora, pode acreditar que demorei para me acostumar com ele... — Heron falou enquanto lambia as patas. — Se quiser, posso levar você até lá.
***
Deveria ser fim de tarde.
Eu aceitara de fato o pedido insano do Feeryan, embora ainda não entendesse o motivo de insistir tanto... Rudolf não me deixara só o resto do tempo também, e no momento estava sobre meu ombro direito, como fazia com Percy. Ajeitei o capuz de minha capa, notando que a temperatura do fim de tarde era mais baixa. Heron, o gato tagarela caminhava mais a minha frente. Estava a pé na cidade e, no momento, tinha a visão da grande Catedral Pillar.
Ela era de fato, abissal.
E a árvore colossal e milenar, que nascia do centro de sua torre, com galhos secos devido à estação, cobria boa parte da cidade.
Arcano também não falara mais comigo, já estava acostumada com ele ficar calado de vez em quando, então, em momento algum ousei questionar algo. E ainda precisava encontrar os garotos e... Denzel. Não poderia dizer qual seria sua reação ao me ver, sequer decifrara sua expressão no momento em que se afastara horas atrás....
Suspirei e mexi minha cabeça, precisava chegar ao cemitério.
Grande passeio, ir para Eternal e perambular por um campo-santo em meio a túmulos de paladinos.
E ignorando tais pensamentos, continuei a seguir Heron. Ele estava calado, e virou uma esquina, fiz o mesmo vendo a rua se estender por uns cem metros. Ao final dela, havia a entrada para o cemitério. Não demorou para que chegássemos até ele, vi o gato amarelo parar de caminhar em frente ao portão de entrada, ele sentou-se e ficou encarando as grades.
— Não passo daqui. — Ele lambia as patas.
— Por que não? — Arrisquei perguntar.
— Odeio esses lugares, me dão medo.
Além de ser um gato falante, ainda era covarde.
Pelos Deuses...
Era tudo que eu merecia naquele momento...
— Está bem, não preciso que me acompanhe. Mas como vou saber quem é o tal de Genesis?
— Ele provavelmente deve ser a única alma com cadáver vivo por aqui... Além de você, claro. E o sol está se pondo, ele definitivamente já deve estar aqui.
Rudolf voou do meu ombro e pousou sobre o portão, me observando, ele provavelmente não iria querer entrar lia também.
Suspirei, maneei minha cabeça e adentrei o portão, empurrando as grades enferrujadas, e fazendo um barulho irritante. Segui por um corredor de túmulos, eram grandes. Altos, feitos de concretos, com estatuas sobre eles, poderiam ser aterrorizantes, se eu tivesse medo. Embora a brisa fria que percorria o local, não era muito convidativo. Olhei ao redor, estava anoitecendo e o lugar ficando mais escuro. Já havia andando alguns bons longos metros desde o portão de entrada.
Mas não vira uma silhueta sequer, que pudesse indicar alguém.
Dante talvez estivesse louco, realmente, não deveria ter confiado nele...
Novamente olhei ao redor, como Heron mesmo falara, eu era a única alma viva com um cadáver ali. Então, resolvi parar, em meio a um corredor, novamente corri meus olhos notando cada detalhe do que me cercava, e, mais uma vez, constatei que era a única pessoa ali.
Girei meus calcanhares, ajeitei o capuz de minha capa e dei meia volta, o tal de Genesis nem deveria estar naquele local.
Entretanto...
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