A Domadora - O Fragmento da Profecia
3 Capítulo 2 - Espadachim Prateado
Notas iniciais
Rapidamente materializei minha espada de gelo, já me preparando para defender-me. Com certa agilidade, virei-me enquanto usava minha espada para empurrar a lâmina que estava em frente ao meu pescoço e, rapidamente chutei quem quer que esteja atrás de mim. Empurrando-o e derrubando-o para dentro da casa.
Afastei-me alguns passos, ainda com a respiração acelerada. O que fora aquilo, afinal?! Alguém havia me atacado, do nada, e eu havia empurrado essa pessoa para dentro da casa abandonada. Apertei meus olhos, a casa estava escura e não havia visto nenhum sinal de que poderia ter algum movimento dentro dela, nem mesmo consegui ver se alguém estava ali. E sim, de fato aquilo me assustara, mas por pouco tempo.
Embora, não demorou muito e vi a silhueta, visivelmente masculina sair de dentro da casa, praticamente saltando sobre mim e tentando a certar a maldita espada de lâmina negra em meu pescoço, sem hesitar ele parecia querer terminar o mais rápido possível. Defendi-me, empurrando-o com minha espada, fazendo com que as laminas se chocassem e, ele novamente se afastasse.
E só então pude ver quem de fato, me atacara.
Era um homem da mesma idade que eu, sem dúvidas. Mas, ao mesmo tempo, sua aparência me deixou ligeiramente descrente. Ele tinha os olhos prateados como os meus, do mesmo exato formato e uma expressão fria, de pedra que, de certa forma, deixou-me desconfortável, mas não me deixei mostrar. Seus cabelos eram longos e de cor grisalha, embora, prendia-os em uma cola alta, com uma franja no comprimento de seu queixo dividida ao meio, caindo sobre o rosto que... Tinha um formato muito parecido com o meu, embora, os traços fossem masculinos. Também usava brincos de argolas pequenas e prateadas. Vestia uma túnica sem mangas em um tom de branco manchado, calças de cor cinza e faixas de um tecido verde musgo amarradas na cintura. Ele estava descalço, e pude ver que acabara se cortando ao entrar na casa maldita, provavelmente pisou em um caco de vidro. Ele também usava faixas de um tecido vermelho, amarrada nos braços servia como aquecedores e, luvas de um tom de azul marinho.
Mas havia um “porem”, junto disto tudo...
Ele era parecido de mais comigo.
Não podia negar. Embora, seus cabelos tivessem um comprimento diferente e sua altura, apenas alguns centímetros mais alto. Seus cabelos eram prateados como os olhos, sua pele bastante pálida e ligeiramente rosada. Eram características de um Maarten. Sem dúvidas.
Será que...
Era o filho de Aghata?! Não, talvez eu estivesse errada... Mas não podia negar, tínhamos uma grande semelhança, embora, ele era algo como uma versão masculina minha, mas com brincos e um cabelo mais comprido, sem contar, os pés descalços...
–Quem é você...? – Falei, ainda sem entender exatamente a situação na qual nos encontrávamos.
Mas ele não respondeu. Na verdade, respondeu sim, porém, ao invés de falar algo, ele veio na minha direção empunhando a espada de lâmina negra e com velocidade, novamente voltou a me atacar. Defendi-me com a mesma velocidade, afinal, por algum motivo, sentia que poderia prever seus movimentos, como se eu tivesse uma ligeira ideia de como ele reagiria.
E não era por mais e nem menos, ele continuava a tacar-me com maestria em seus golpes, enquanto as espadas chocavam-se, tinha apenas de me defender. Mas ainda assim, tinha a ligeira impressão de que, ele não estava tão confortável em ter de começar uma briga, como eu me sentia em certas vezes, não gostava de brigar por algo sem muita estima. Sendo assim, esperei que as espadas novamente se chocassem, podendo encara-lo por uns instantes.
Vocês são muito parecidos...
Esse fato me assusta Arcano.
Em um movimento rápido girei o punho de minha espada de gelo e o empurrei novamente, chutando-o e o derrubando no chão. Deixando-o quase indefeso, aproximei-me, sem dar tempo o suficiente para que ele levantasse e, rapidamente segurei a gola de sua blusa. Obrigando-o a erguer seu tronco enquanto apontava minha espada na direção de seu pescoço.
–Eu perguntei... – Falei calma, embora, com um ligeiro tom ríspido. – Quem é você? – Repeti a pergunta que fizera antes.
–Não interessa. – Ele respondeu simplesmente e, aquilo me fez ponderar.
Seja lá o que for que ele estivesse fazendo, se fosse eu, também não me identificaria. Afinal, na situação que estávamos eu sentia que era como se eu fosse a “vilã” da historia, a pessoa na qual alguém não quisesse dizer quem realmente era, como se aquilo fosse ser um problema. Era como um deja vu, nostálgico e ao mesmo tempo, era como se fosse um papel que eu já interpretara, porém, estava invertido.
Não tive muito tempo, para dizer mais alguma coisa e, ele rapidamente empurrou-me, ainda empunhando a espada, com velocidade atacou-me. Defendi-me novamente, poderia arriscar dizer que nossos golpes eram quase gêmeos, se não fosse o fato de que, ele não me dava nenhuma brecha para atacar. Novamente fiz com que a espadas de chocassem, de maneira tão forte que, quase fizera com que faíscas saíssem das lâminas. Então, ele girou o punho de sua espada com facilidade, tentou acertar meus pés e derrubar-me, rapidamente pulei tentando acertar-lhe o pescoço e ele abaixou-se, como se tivesse previsto que eu faria aquilo.
E eu teria de fazer algo que não queria...
Rapidamente, golpeei de maneira que fiz com que largasse sua espada, desarmando-o novamente chutei-o e o derrubei. De fato, era certa covardia fazer aquilo, se olhasse por outro lado, mas acho que ele merecia, afinal. Vi-o bufar antes de me aproximar, ele tentou sentar-se no chão de terra seca, mas rapidamente apontei minha espada na direção de seu pescoço, não poderia se defender, afinal, estava desarmado.
–Irei repetir novamente... – Falei, em um tom de voz mais serio talvez um pouco frio. – Quem é você?
–Não sou ninguém — ele respondeu, encarando-me com seus olhos prateados e frios, parecia que ele poderia cortar minha alma apenas com aquele olhar, mas ao mesmo tempo, parecia estar espantado devido a nossa semelhança. Ele tinha um olhar tão intimidador quanto o de Aghata, embora, o ar superior que ela exalava ainda ganhasse. Mas tentei ignorar e encarei-o da mesma maneira, enquanto aproximava mais a ponta de minha espada em seu pescoço, de maneira que poderia fazer um pequeno corte a qualquer momento.
–Se você não é ninguém, então por que veio aqui? Conheço você por acaso?
–Isso não importa.
Revirei os olhos e bufei.
–Poderia ao menos responder algo completo? – Disse já em um tom ligeiramente embravecido.
–Não. – Ele ainda ousou esboçar um pequeno sorriso debochado, sem mostrar os dentes.
Ainda irei cortar sua língua um dia desses...
Naquele exato momento, queria poder ter tido mais tempo. Porem, ele rapidamente empurrou-me. Enquanto por uma negligência minha, ele rapidamente pegou a espada com lâmina negra que estava caída ao chão. Velozmente voltando a atacar-me, segurei com força o punho de minha espada, não estava a fim de perder. Com agilidade, apenas tive de me defender. Ficamos fazendo esses gestos repetidos por pouco tempo, pois ele logo conseguiu desarmar-me, fazendo com que eu largasse minha espada e, imediatamente a desfiz em uma aura azul, e sem me dar tempo para mais nada, ele empurrou-me. Senti minhas costas chocarem-se contra ela e, ele pôs a lâmina negra da espada contra meu pescoço, encarando-me novamente no fundo de meus olhos, com os seus prateados iguais aos meus.
No entanto, antes que ele resolvesse finalmente decapitar-me, senti algo cortante passar em frente ao meu rosto, mas sem encostar em mim e muito menos nele, que permanecia com espada em frente ao meu pescoço. E, instintivamente olhei para o lado onde a “coisa” deveria ter ido parar, a única coisa que vi foi uma adaga encravada no chão. Então, viramos nossos rostos na direção de onde viera à adaga.
E por algum motivo, senti um certo alivio ao ver quem era.
Denzel estava parado de pé, a alguns metros de distancia, ele segurava duas adagas nas mãos, brincava com elas enquanto as girava entre os dedos alternando entre a mão direita e esquerda. E isso me lembrava de algo: quando estávamos no deserto onde encontramos Fallen, ele jogara as pedras no brutamonte que estava com ela, e não errara. E de fato, nesse ultimo ano eu aprendera que, ele nunca errava. Não importava a distancia, sempre acertava. E aquilo, acabara ajudando-me em varias vezes, em nossas missões para a fortaleza, mesmo não tenham sido tantas.
–Por que não brinca com alguém do seu tamanho? – Ok, aquilo quase me fez ter um ataque de risos, mas me mantive séria — porém forçando-me para não rir — enquanto encarava meu “assassino de olhos prateados”, que, por sua vez, tinha um olhar confuso sobre aquilo e olhava para Denzel freneticamente.
“Por que não brinca com alguém do seu tamanho?” Denzel poderia ter dito algo mais inteligente... Sem contar, que ele ainda é mais alto do que esse ser que estava tentando me matar... Isso chega a ser irônico... – Caçoei mentalmente á Arcano.
Não reclame, Sora, ele está tentando ajudar você.
Se você diz...
E quase que em um movimento por reflexo, senti o baque forte de ele empurrar-me, derrubando-me no chão, minhas costas chocaram-se contra a madeira velha da casa e, aquilo doeu. Realmente pensei em levantar, enquanto o espadachim direcionava-se à Denzel, mas resolvi permanecer no mesmo lugar, apenas para ver o que se estenderia após aquilo. Ajeitei-me e sentei no chão, com as costas escoradas na parede. Seria uma cena interessante e, caso algo acontecesse, eu me meteria.
O ser de cabelos prateados rapidamente aproximou-se de Denzel, que, por sua vez, parecia bem concentrado, mas ao mesmo tempo, pude notar que ele alternara o olhar entre eu e o espadachim, talvez estivesse atônico devido a nossa semelhança. E o ser de cabelos prateados atacou Denzel, que, rapidamente defendeu-se, apenas desviando os golpes com as laminas das adagas, chocando-se contra a lâmina negra da espada. E de fato, Denzel tinha uma ligeira maestria naquilo, afinal, havíamos treinado. Mas havia um “porém”, defender-se daquela maneira, era mais perigoso do que espada contra espada, tinha que ter controle e não errar. Caso contrario, as consequências não eram nada boas...
E novamente, Denzel defendeu-se de mais um golpe, feito com ligeira raiva do outro, parecia que o ser que usava brincos estava começando a irritar-se com o fato de que, Denzel se defendia apenas com simples adagas. Entretanto, apenas por uma breve falta de atenção minha, o espadachim derrubou Denzel no chão e, rapidamente colocou a espada em frente ao seu pescoço, pronto para corta-lo a qualquer momento.
– Tsc... Já estava começando a ficar entediada de não fazer nada.
Rapidamente, levantei e materializei minha espada de gelo, corri até o meio da rua onde eles estavam e empurrei o ser de cabelos prateados, rapidamente desarmei-o e o derrubei no chão, pisei sobre seu tórax impedindo-o de se levantar e apontei minha espada na direção de seu pescoço.
Vi-o bufar.
–Irei perguntar novamente. – Fiz um pausa e encarei-o mais uma vez. – O que você quer? Quem é você? E o que está fazendo aqui?
–Isso não interessa. – Novamente, sem respostas ele dissera frio.
Bufei e aproximei ainda mais minha espada na direção de seu pescoço, já vendo que Denzel havia se levantado.
–Você já disse isso. – Curvei meu corpo e aproximei minha mão esquerda de seu rosto, fiz com que uma aura azulada começasse a exalar dela, era uma habilidade nova que eu aprendera. – Se eu encostar esta mão em você, imediatamente irei congelar parte de seu rosto. – Falei seria ,desviando o olhar para minha mãe e novamente encarei ele. – E isso não seria nada bom, seria? – Sim, aquilo fora uma ameaça, ridícula, mas fora.
–Não tenho tempo para falar nada agora. – Ele disse, desviando o olhar para o céu.
Olhei-o confusa. Não estava esperando aquela resposta...
–Hã...? – Se pudesse, com toda a certeza bateria em minha própria testa, devido minha resposta.
Mas não tive tempo, pois ele rapidamente empurrou a lâmina de minha espada – deveria ter se cortado — , quase derrubando-me no chão ele levantou-se e saiu correndo. Pegou a espada lâmina negra e se afastou em passo acelerado, mesmo que ainda mancando. Tentei correr atrás dele, porem, senti a mão de Denzel segurar meu pulso, impedindo-me de continuar.
–Isso não vale a pena, Sora.
–Eu tenho que ir atrás dele. – Falei e rapidamente soltei-me de Denzel, sem dar muita atenção ao que ele dissera.
Corri na mesma direção que aquele ser fora, portando, eu deveria ter o encontrado, certo? Não, ele sumira, continuei correndo e dobrei a esquina para a direita, mas nenhum sinal dele. Corri meus olhos ao redor e, novamente não o vi. Havia desaparecido... Parei de correr, mas não havia nenhum sinal de vida além de mim. Respirei fundo e encarei o céu, o sol estava se ponto, e como já estávamos no inverno, logo anoiteceria. Seria esse o motivo para ele ter ido? Talvez... Mas, algo me parecia que, ia além disso.
Desiste de procurar, dei meia volta e segui caminhando para onde eu e Denzel estávamos antes. Cheguei até ele em apouco tempo, enquanto colocava o capuz de minha capa – já estava quase esquecendo dela.
–Tem algo que você precisa ver. – Denzel disse enquanto aproximava-me.
–Encontrou? – Perguntei referindo-me ao baú que Aghata falara.
–Talvez... – Ele disse, já dirigindo-se para a casa onde estava antes. – Vamos?
Assenti e o segui, embora, não pude deixar de olhar para trás por um instante, talvez o “espadachim prateado” ainda estivesse ali... Mas não havia ninguém e era tolice minha pensar que poderia haver. O maldito fugira sem deixar nenhum vestígio... Nem mesmo pegadas, afinal, seu pé estava machucado, o que significa, que provavelmente, teria deixado marcas de sangue quando passara. Mas nem mesmo isso encontrei.
Quão ridículo fora o que acabou de acontecer.
Denzel parou de caminhar em frente a casa também feita de madeira, porem, esta parecia-me ser maior um pouco maior do que a que eu estava antes. Ele aproximou-se da porta e a empurrou bruscamente, olhei-o confusa devido a isso.
–Essa coisa está emperrada. – Resmungou, quase que adivinhando meus pensamentos e, rapidamente conseguiu abrir a porta de madeira. – Deve ter inchado com o tempo... Só pode. – Falou batendo as mãos ,como de estivesse retirando alguma sujeira delas.
Denzel abriu a porta e esperou que eu passasse, dentro da casa, assim como a outra, estava tudo ligeiramente escuro. As mobílias, apesar da casa ser maior, estavam colocadas de maneira não muito diferente, apenas com a diferença que, haviam suas janelas e duas camas. Aghata dissera que tinha um filho certo? Que ele era um humano artificial, algo como uma espécie de clone meu – apesar de que pensar naquilo dessa maneira, era algo ligeiramente ridículo -, embora, versão masculina, então, aquilo explicava o porque da casa ser maior – embora, muito pouco. Contudo, ainda haviam certos fatos que me deixavam com duvidas... Ver aquele espadachim – acho que era a melhor maneira de rotula-lo — , bem, as nossas semelhanças eram assustadoramente grandes.
–Será que... Aquele homem que nos atacou poderia ser o filho que Aghata tinha? – Falei, quebrando o silencio enquanto Denzel revirava alguma coisa atrás da mesa do que identifiquei como sendo a cozinha, embora, não pude ver o que ele fazia, pois estava tudo relativamente escuro.
–Talvez... – Ele comentou e ouvi o barulho de algo ranger. – Mas, pelo que você me disse, esse tal filho dela era muito parecido com você, certo? – Assenti. – A semelhança de vocês era muito grande... Cheguei até a duvidar se ele era realmente um homem...
Aquilo me fez rir.
–Por causa dos cabelos?
–E dos brincos.
–Mas ele nem tinha tantos traços femininos... Tem homens que parecem mais.
Denzel abriu, ao que me pareceu ser, uma espécie de alçapão, que dava entrada para o que deveria ser um porão. Porem, não pude ter certeza, pois era apenar um buraco quadrado no assoalho de madeira e, dentro dele, estava um completo breu. Aproximei-me cautelosa e dei mais uma olhada para dentro, enquanto Denzel fazia o mesmo ajoelhado no chão.
–Tem fósforo? – Perguntou-me.
Apenas mexi minha cabeça em um sinal de negação, enquanto continuava com as costas levemente arcadas olhando para dentro daquela abertura.
Denzel revirou os bolsos a procura do bendito fósforo, que, por sorte, estava no bolço de sua calça. Ele rapidamente riscou-o e acendeu-o, já fazendo que a casa ficasse um pouco mais iluminada por dentro, embora, aquilo pouco duraria, pois logo iria anoitecer.
Ele virou-se para mim e entregou-me o fósforo aceso.
–Acho que isso deve ser algum tipo de passagem secreta. – Falou, enquanto observava o breu que, agora, pude ter a ligeira impressão que o piso era de terra e não estava tão longe. – Aghata praticava alquimia, provavelmente deveria fazer isso em algum lugar onde ninguém fosse a encontrar.
–Então, você quer dizer que era aqui onde ela fazia suas “experiências”? – Falei, fazendo o sinal de aspas com a mão que não estava ocupada.
–Acho que sim.
Céus, imagina o que deveria ter lá dentro...
Não faço a menor ideia, Sora.
–Eu irei entrar, então, você poderia iluminar para mim?
Assenti e ele não esperou-me dizer mais nada, pois ligeiramente Denzel saltou para dentro do porão, escutei apenas o baque surdo de seu calçado se chocando no chão, aquilo significava que não era não fundo e ele caíra de pé. Esperei alguns segundos e direcionei a luz do fósforo para dentro do porão, logo Denzel acendeu outro e entendi que deveria apagar o meu. Então, o fiz, apaguei o fósforo que estava comigo e, rapidamente, também pulei.
Senti apenas minhas botas se chocarem no chão de terra, confirmando o que eu constara. E, uma ligeira tontura devido a escuridão daquele local. Rolei meus olhos, ainda meio zonza e acabei por dar de cara com Denzel, quase esbarrando nele.
–Desculpe. – Falamos ao mesmo tempo.
Denzel usou o fósforo para iluminar apenas uma área pequena ao nosso redor, contudo, aquilo já servira para que acabássemos trombando com uma mesa. Na verdade, eu dera um passo e esbarrei no pé da bendita mesa de madeira, já podendo ouvir o barulho de algo cair no chão e, outro objeto caindo nos meus pés. Instintivamente, agachei-me e o peguei, já podendo ver o que era: um lampião. Não pensei muito e o juntei.
E aquilo iria facilitar a nossa vida.
–Acho que com isto é mais fácil iluminar esse lugar. – Falei, erguendo o lampião para mostrar a Denzel.
–Se tivermos sorte, isso ainda da para usar.
Ele pegou o lampião e o acendeu, sem nenhum dificuldade, porem, aquilo já servira – realmente — para deixar o local um pouco mais iluminado. Na verdade, havia uma área de luz um pouco mais extensa do que antes e, isso já servia para ter uma ligeira ideia do que realmente havia lá dentro. Havia muita, mas muita poeira , teias de aranhas – com as aranhas junto — e, algumas estantes com mais parafernálias. A nossa frente, a mesa na qual havia esbarrado, logo, em cima dela havia uma pilha de papeis e livros, provavelmente, anotações juntas de uma boa quantidade de poeira. O teto, na parte que nos encontrávamos, era ao assoalho da casa, porem, tive a impressão de que aquele local se estendia um pouco mais, com parede e piso de terra.
–Então, era aqui que Aghata praticava alquimia? – Denzel disse, enquanto folheava um livro velho com páginas manchadas, no entanto era possível ver os vários desenhos que haviam nela, anotações e muitas, muitas palavras grafadas com a letra de Aghata.
–Aparentemente... – Falei, enquanto pegava uma espécie de tubo de vidro que estava largado sobre a mesa.
Então esses são os famosos círculos alquímicos? – Arcano falou em minha mente, já estava começando a sentir falta de seus comentários.
Acho que sim... – Falei, largando o objeto de vidro dobre a mesa e voltando minha atenção para o livro que continha o que Arcano referia-se antes.
–Aghata disse que deveríamos encontrar um baú, certo? – Denzel disse, enquanto colocava o lampião sobre a mesa.
–Sim.
–Então, poderíamos procurar naquela estante ali – ele apontou para uma estante de mármore que havia a nossa frente, aparentemente, deveria ter sido feito de uma madeira resistente, pois não estava tão deteriorada quando a maioria das coisas ali. De um lado da estante, era repleta livros, enquanto na outra parte, apenas algumas coisas aleatórias e desorganizadas estavam colocadas, junto de uma grande quantidade de teias de aranha.
Denzel não esperou que eu dissesse mais algo, e com certa cautela aproximou-se da estante, peguei o lampião e o segui, caminhando com cuidado para não esbarrar nos objetos caídos ao chão.
Aquele local era sufocante e, apenas o fato de que havíamos nos aproximado da parede que indicava o seu fim – apesar de não ser muito grande ,apenas dava a impressão de que era – aquilo estava deixando-me sufocada. Aquele local era sufocante.
Fiquei parada em silencio ainda segurando o lampião para iluminar o que estava ao nosso redor, encontrar-me perto de Denzel enquanto ele revirava as coisas que estavam na estante de madeira. Aproximei-me da parte que haviam os livros, eram todos basicamente encapados com veludo preto, vermelho, verde musgo e azul-marinho, todos de cores escuros e empoeirados devido tempo que haviam passado sem serem tocados. E, por um breve momento, ponderei sobre a ideia de folhear um deles, porém, quando estava prestes a pegar um, Denzel interrompeu-me.
–Encontrei! – Exclamou, enquanto pegava um baú que estava na primeira prateleira da estante (a mais baixa de todas). Com certa facilidade ele pegou um baú não muito grande, na verdade, era pequeno até, mais ou menos do tamanho da cabeça de uma pessoa ,porem, o baú era quadrado. Feito de madeira e de cor marrom, com detalhes que não eram possíveis ver com clareza devido a falta de luz que tínhamos no momento, porém, ainda assim, aparentava ser algo antigo, mas que fora conservado, embora ainda estivesse coberto por poeira.
–E se não for o baú que que Aghata falou? – Perguntei.
–Se não for, voltamos aqui novamente. – Ele disse simplesmente dando de ombros.
–Está bem. Mas não vejo a hora de poder voltar para Temesia... – Falei, e sim, definitivamente eu queria realmente aquilo.
–Você quer ver o desempenho de Fallen e o Ben, não é?
–Nos últimos dias eles passavam a maior parte do tempo discutindo enquanto treinavam, a única pessoa que fazia eles se silenciarem era eu, ou Yanni. Quero ver como eles se viraram no pouco tempo que fiquei fora.
–Não fique se gabando, Sora. Vocês dois botam medo deles, essa é a verdade – disse. – Mas acho que Yanni da conta do recado, afinal, nem mesmo Yume e Yoru ousam dizer algo nos dias que ele está de mau humor, se bem que é raro ele estar bem humorado.
–Se você diz... – Falei, enquanto Denzel caminhava em direção de onde havíamos vindo. E de fato, eu iria segui-lo, porém, quando de meu primeiro passo, senti que a maioria dos livros que estavam na estante haviam caído.
E sim, eu havia esbarrado na estante sem querer.
Grande porcaria...
–Droga! – Exclamei, virando-me na direção da estante e ajeitando minha capa amarrotada (nessas horas me arrependo de usa-la), apenas para analisar o estrago que eu fizera.
Para não dizer que todos os livros haviam caído sobre meus pés, apenas um deles havia ficado intacto. Acho que sua capa deveria ser de cor verde.
–Essa estante tem um fundo falso. – Quase saltei ao ver Denzel parado ao meu lado, analisando a mobília a minha frente com seus olhos dourados.
–Como assim?! -Indaguei, Denzel era louco, não tinha dúvidas.
–Não sente? Há uma passagem de ar vindo das frestas da madeira. – Falou como se aquilo fosse algo normal.
–Você é louco.
Deu de ombros e sabe-se lá como ele retirou parte a madeira que havia no fundo de uma das prateleiras da estante, aparentemente, aquilo estava mais podre do que pensei ser.
Mas Denzel estava realmente certo.
Não havia parede atrás da estante, ao menos ,não era possível ver.
–Eu falei. – Disse.
–Vou pegar as nossas coisas.
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